terça-feira, 15 de março de 2011

Sociologia: evolução do pensamento social e as Ciências Sociais


(texto adaptado de Pérsio Santos -  1º ano de Sociologia do Ensino Médio)
CONTEXTUALIZAÇÕES DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
A reflexão sistemática sobre a vida em sociedade e sobre os grupos que a compõem começou na Grécia Antiga, há milhares de anos. Vejamos a seguir alguns momentos nesse processo de conhecimento.
Deuses e heróis
As primeiras tentativas de compreender como as forças sociais funcionam baseavam-se na imaginação, na fantasia, na especulação. Assim, certos fenômenos sociais eram explicados a partir da ação de seres mitológicos, como deuses e heróis.
Na mitologia greco-romana, por exemplo, havia um deus para a guerra (Ares para os gregos, Marte para os romanos), outro para o comércio (Hermes ou Mercúrio, entre os romanos), uma deusa para as relações amorosas (Afrodite ou Vênus, para os romanos), e assim por diante. O deus supremo era Zeus. Sua mulher, Hera, protegia o casamento e tutelava a vida familiar.
Entre a filosofia e a religião
Até o início da idade moderna, no século XV, as tentativas de explicar a sociedade foram muito influenciadas pela filosofia e pela religião, que propunham normas para a sociedade, procurando modificá-la de acordo com seus princípios.
Na Grécia Antiga, como vimos, surgiram explicações mitológicas para alguns fenômenos sociais. Insatisfeitos com essas explicações, os filósofos gregos foram os primeiros a empreender o estudo sistemático da sociedade humana. Entre eles, destacam-se Platão (427-347 a.C), autor de A República, e Aristóteles (384-322 a.C), que escreveu Política. É de Aristóteles a afirmação segundo a qual “o homem nasce para viver em sociedade”.
Na Idade Média, a reflexão teórica sobre a sociedade se deu entre pensadores ligados à Igreja Católica. Santo Agostinho (354-430), por exemplo, em seu livro A Cidade de Deus, propunha normas para evitar o pecado na sociedade. Obras como essa descreviam a sociedade humana em uma perspectiva religiosa muito acentuada.
Os pensadores renascentistas
Com o Renascimento, surgiram pensadores que abordavam os fenômenos sociais de maneira mais realista. Escreveram sobre a sociedade de sua época: Maquiavel, autor de O Príncipe, Tomás Morus (Utopia), Tomaso Campanella (Cidade do Sol), Francis Bacon (Nova Atlântida), Erasmo de Roterdã (Elogio da Loucura).
No século XVII, outros pensadores deram sua contribuição ao desenvolvimento das Ciências Sociais. Um dos mais notáveis foi o inglês Thomas Hobbes, autor de Leviatã.
Vico e A nova ciência
Particularmente importante nesse processo de reflexão não-religiosa sobre a sociedade foi, no século XVIII, a obra de Giambattista Vico, A nova Ciência. Segundo Vico, a sociedade se subordina a leis definidas, que podem ser descobertas pelo estudo e pela observação objetiva. Sua formulação – “O mundo social é, com toda certeza, obra do homem” – foi um conceito revolucionário para a época.
Alguns anos depois, Jean –Jacques Rousseau reconheceu a influência decisiva da sociedade sobre o indivíduo. Em seu livro O Contrato social, Rousseau afirma que “O homem nasce puro, a sociedade é que corrompe”. Hoje, sabe-se que o indivíduo também influencia e modifica o meio em que vive ao agir sobre ele.
Entretanto, foi só no século XIX – com Augusto Comte, Herbert Spencer, Gabriel Tarde e, principalmente, Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx – que a investigação dos fenômenos sociais ganhou um caráter verdadeiramente científico.

Os primeiros sociólogos
Augusto Comte (1798-1857) é tradicionalmente considerado o pai da Sociologia. Foi ele quem pela primeira vez usou essa palavra, em 1839, em seu Curso de Filosofia positiva. Mas foi com Émile Durkheim (1858-1917) que a Sociologia passou a ser considerada uma ciência.
Durkheim formulou os primeiros conceitos da sociologia e demonstrou que os fatos sociais têm características próprias, devendo por isso ser estudados por meio de métodos diferentes dos empregados pelas outras ciências.
Os fatos sociais
Para Durkheim, a Sociologia é estudo dos fatos sociais. Um exemplo simples nos ajuda a entender esse conceito formulado por Durkheim. Se um aluno chegasse à escola vestido com roupa de praia, certamente ficaria numa situação desconfortável: os colegas ririam dele, o professor lhe daria uma bronca e provavelmente o diretor o mandaria de volta para casa para pôr uma roupa adequada.
Existe um modo de se vestir que é comum, que todos seguem (nesse caso, todos os alunos da escola). Isso não é estabelecido pelo indivíduo. Quando ele entrou no grupo, já existia tal norma e, quando ele sair, a norma provavelmente permanecerá. Quer a pessoa goste ou não, ver-se-á obrigada a seguir o costume geral. Se não o seguir, sofrerá uma punição (que pode ir, conforme o caso, da ridicularização e do isolamento até uma sanção penal). O modo de se vestir é um fato social. São fatos sociais também a língua, o sistema monetário, a religião, as leis e uma infinidade de outros fenômenos do mesmo tipo.
De acordo com Durkheim, os fatos sociais são o modo de pensar, sentir e agir de um grupo social. Embora eles sejam exteriores às pessoas, são introjetados pelo indivíduo e exercem sobre ele um poder coercitivo (procure o termo introjeção no Dicionário básico de Sociologia no final do livro).
Resumindo, podemos dizer que os fatos sociais têm as seguintes características:
·                     Generalidade – o fato social é comum a todos os membros de um grupo ou à sua grande maioria;
·                     Exterioridade – o fato social é externo ao indivíduo, existe independente de sua vontade;
·                     Coercitividade – os indivíduos se sentem pressionados a seguir o comportamento estabelecido.
Em virtude dessas características, para Durkheim os fatos sociais podem ser estudados objetivamente como “coisas” da mesma maneira que a Biologia e a Física estudam os fatos da natureza, a Sociologia faz o mesmo com os fatos sociais.

A Sociologia na sociedade contemporânea
As obras de Durkheim foram importantíssimas para definir os métodos de trabalho do sociólogo e estabelecer os principais conceitos da nova ciência. Entre essas obras, destacamos A divisão do trabalho social, As regras para o método sociológico e O suicídio.
A partir da segunda metade do século XX, com o desenvolvimento da sociedade industrial, que se tornou cada vez mais complexa, a sociologia ganhou novo impulso, passando a estudar e a explicar problemas com os quais até então não havia se defrontado.
Assim, problemas como exclusão social, desagregação familiar, drogas, cidadania, minorias, violência urbana representam desafios para os quais a Sociologia tem procurado respostas. Essas exigem uma análise científica de todos os aspectos da vida em sociedade, que permita entender o presente e projetar o futuro.
Dessa forma, a Sociologia moderna procura debruçar-se sobre os agentes sociais capazes de provocar mudanças importantes na sociedade. Hoje, um dos principais objetivos do conhecimento sociológico é criar instrumentos teóricos que levem à reflexão sobre os problemas da sociedade contemporânea. Tais instrumentos devem contribuir também para que os indivíduos estabeleçam relações entre sua prática social e a sociedade mais ampla, capacitando-os a atuar como agentes ativos da sociedade em que vivem.
Atualmente, os conhecimentos da Sociologia já não estão restritos aos sociólogos. De certo modo, muitas pessoas passaram a utilizá-los, embora nem sempre de forma consciente e rigorosa. Isso acontece porque alguns procedimentos e técnicas de pesquisa social passaram a ser de domínio público.
Pesquisas de opinião (ou de mercado) são utilizadas, por exemplo, no lançamento de um produto novo ou de um prédio de apartamento, na definição da plataforma política de um candidato a cargo público e assim por diante. É por meio da pesquisa que o empresário, ao lançar um produto, pode ficar sabendo quais e quantos serão seus compradores; o político, por sua vez, irá defender pontos de vista que antecipadamente sabe que interessam aos eleitores.
Entretanto, o sociólogo não pode perder de vista a noção de relatividade dos fenômenos sociais e as formas pelas quais esses fenômenos ocorrem. A relatividade do fenômeno social pode ser percebida em diversas situações. Consideremos, por exemplo, o desemprego. Ele pode aumentar, caso sejam introduzidas novidades tecnológicas que afetem o mercado de trabalho, como novas máquinas. Mas pode diminuir, mesmo com a nova tecnologia, se a economia do país estiver em expansão.
(SANTOS, Pérsios. Fundamentos Sociológicos.São Paulo, Ática, pp.93-96)

AS CIÊNCIAS SOCIAIS: SOCIOLOGIA, ANTROPOLOGIA, CIÊNCIA POLÍTICA E ECONOMIA..

O conhecimento humano, ao longo do tempo, foi assumindo várias formas e acentuações, o que nos permitiu o acumulo de uma gama de informações cada vez mais complexa acerca do homem, da natureza e do cosmo. Porém, à medida que o nosso entendimento da realidade crescia, surgia também uma necessidade de sistematizar e até setorizar os saberes, delimitando o campo de abrangência de cada ramo do conhecimento elaborado, a partir do objeto e da metodologia de abordagem. Neste texto, apresentaremos uma introdução rápida às Ciências Sociais, salientando seu objeto de estudo e sua metodologia de investigação.

2.1. Caracterização das Ciências Sociais e das disciplinas que as compõem
Pérsio Santo, numa obra de introdução à sociologia, caracteriza as Ciências Sociais como um ramo do saber que se ocupa da pesquisa e do estudo do comportamento social humano e suas multiformes manifestações. As Ciências Sociais objetivam, grosso modo, “ampliar o conhecimento sobre os ser humano em suas interações sociais e estudar ação social em suas diversas dimensões, contribuindo para um melhor entendimento da sociedade em que vivemos, fornecendo instrumentos que podem ajudar a transformá-la.”
Ainda segundo o autor, “o avanço do conhecimento da sociedade ocasionou a divisão das ciências sociais em diversas áreas, abrangendo atualmente as seguintes disciplinas:
2.1.1. Sociologia: estuda as relações sociais e as formas de associação, considerando as interações que ocorrem na vida em sociedade. A Sociologia envolve, portanto, o estudo dos grupos e dos fatos sociais, da divisão da sociedade em classes e camadas, da mobilidade social, dos processos de cooperação, competição e conflito na sociedade etc.
2.1.2. Economia: tem por objeto as atividades humanas ligadas à produção, circulação, distribuição e consumo de bens e serviços. Portanto, são fenômenos estudados pela economia a distribuição da renda num país, a política salarial, a produtividade de uma empresa etc.
2.1.3. Antropologia Cultural: estuda e pesquisa as semelhanças e diferenças culturais entre os vários agrupamentos humanos, assim como a origem e a evolução das culturas. Além de estudar a cultura dos povos pré-letrados, a Antropologia ocupa-se também da diversidade cultural existente nas sociedades industriais. São objetos de estudo da Antropologia cultural os tipos de organização familiar, as religiões, a magia, os ritos de iniciação dos jovens, o casamento etc.
2.1.4. Ciência Política: Ocupa-se da distribuição de poder na sociedade, assim como da formação e do desenvolvimento das diversas formas de governo. É a Ciência Política que estuda, por exemplo, os partidos políticos, os mecanismos eleitorais etc.
“Não existe uma divisão nítida entre essas disciplinas. Embora cada uma das Ciências Sociais esteja voltada principalmente para um aspecto da realidade social, elas são complementares entre si e atuam freqüentemente juntas para explicar os complexos fenômenos da vida em sociedade”.
(Cf. SANTOS, Pérsios. Fundamentos Sociológicos.São Paulo, Ática, pp.93)

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