segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Ensaio SOBRE A OPINIÃO



“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ideia na mesma ocasião, e nada além disso!”
SCHOPENHAUER, Artur.
A Arte de escrever. Porto Alegre: L&PM: 2012p.134


É muito comum em alguma discussão entre amigos ou numa intervenção de um aluno em sala de aula ou ainda num comentário em uma rede social a gente se deparar com expressões como: “essa é minha opinião”, ou “na opinião...” ou “para mim...”, ou “cada um tem a sua opinião e esta é a opinião dele...”.
O que há de comum nestas expressões, na maioria das vezes, é uma contradição velada, na medida em que se postula a liberdade de expressar a opinião ou crença de um individuo, como um direito inalienável, mas, paradoxalmente, essa opinião é apresentada como um absoluto pelo seu expositor. Quando diz: “essa é minha opinião”, pretende-se com essa fala fechar a discussão e firmar o pé ali, irredutível. Assim, a suposta liberdade de opinar, de expor sua opinião vem acompanhada de uma postura dogmática que a postula como verdade incontestável, sem levar o sujeito que a expõe à responsabilidade intelectual de aprofundar as razões e os fundamentos do seu próprio pensar.
Aí residem dois graves problemas: o primeiro é o de saber distinguir entre uma opinião e outras tipologias ou graus de conhecimentos; o segundo, atrelado a esse, é que a opinião, ainda que tenha seu valor, não é justificativa suficiente, quando o que está em jogo tem implicações para toda a sociedade ou uma parcela considerável dela. Noutras palavras, não pode ser colocado no mesmo nível de implicações coletivas para um jovem o fato de ele ser perguntado pela sua namorada se o vestido que ela está usando é bonito, e se as pessoas devem ser colocadas em lugares mais isolados do contato com os clientes numa empresa porque são consideradas feias para o padrão estético daquele grupo. As duas situações versam sobre a temática da estética, mas a resposta da primeira exige bem menos reflexão e conhecimento do que a segunda.
Pode-se se dizer que vivemos uma grande ágora, na qual cada pessoa pode manifestar seus pontos de vista sobre qualquer assunto. As pessoas têm, mediante as redes sociais, a possibilidade de “comentar” sobre qualquer tema que esteja em alta na sociedade. Mas há uma situação ambígua e até certo ponto problemática com relação a isso. Uma vez que cada um pode escrever e publicar o que pensa ou o que acha, tornou-se cada vez mais séria e urgente a necessidade de considerar o que se pensa e como se constrói entendimentos a respeito da realidade do mundo e da vida nas suas mais complexas e multifacetas configurações.

“Achamos muito, mas sabemos pouco. Isso ocorre, em grande parte, porque não nos damos ao trabalho de ‘checar melhor’, pôr em crise, problematizar o que pensamos. Temos de pôr em ‘dúvida’ (Descartes) ou tentar ‘falsificar’ (Popper) nossas certezas. Passando por esse crisol, por esse instrumento de depuração, nossos pensamentos podem apresentar-se mais seguros” (LORIERI, 2002, p 38).

Nas redes sociais, comentar é manifestar seu ponto de vista sobre um assunto, normalmente, com poucas palavras e muito frequentemente polarizando com outro comentador.
E é aqui que a questão da opinião ganha mais feição de preocupação. Porque o critério mais considerado é a quantidade de endosso ou reprovação que o texto recebe, a partir da temática ou ótica da qual foi apresentado.
Muito apressadamente se assume um posicionamento e, mesmo quando há posição melhor fundamentada, não há uma disposição em rever seus posicionamentos para não passar pelo constrangimento diante de outros expectadores virtuais.
O perigo dessa questão pode está na pressa de posicionar-se, sem considerar a complexidade de certas temáticas. Outra é que a base para um comentário é quase sempre de caráter emocional, emotivo ou fundamentalista. Uma pessoa não consegue perceber que seu discurso incorre em várias contradições, porque sua base não é argumentativa, mas apaixonada ou fiducial ou emotiva, não raro preconceituosa.
Talvez, diante dessa fala alguém possa argumentar que, num espaço democrático, negar aos indivíduos o uso público da palavra sob o pretexto de não serem especialistas no assunto é uma postura antidemocrática. Isso seria uma ditadura do especialista, como o senhor da verdade. Mas, reforçar que aqui não se trata disso. O que chamo atenção é para a necessidade de uma postura mais responsável na hora de se emitir uma opinião a respeito de questões, cuja complexidade e a abrangência tenham consequências diretas na forma de organização da coletividade.
Penso, por exemplo, em posicionamento que beiram ao fascismo, à apologia de extermínio de pessoas, na maioria das vezes tendo como pano de fundo questões de gênero, raça, condição sócio-econômica e congêneres. Há um crescimento vertiginoso de uma prática nociva de se tecer comentários nos quais, frequentemente, uma pessoa é julgada e condenada, antes mesmo de ser submetida a um julgamento pelos órgãos competentes.
Não é por puro pedantismo que a Filosofia mantém viva a discussão acerca da necessidade de fundamentação do discurso. Se hoje um comentário tem um alcance praticamente global, ele tem também uma implicação ética na mesma extensão. O que se diz pode, dependendo da temática sobre a qual se manifesta, ter implicações diretas na formação de uma compreensão equivocada de um assunto. Assim, torna-se pertinente a indagação: em que se fundamenta esse discurso sobre valores éticos e estéticos, política, ser humano, ciência etc? Relacionado a isso, ainda que não se tenha dado a devida importância, faz-se necessário retomar a antiga discussão acerca da relação entre opinião e conhecimento fundamentado, levantada pela Filosofia ainda no seu processo de consolidação de si.
Em que sentido a Filosofia pode contribuir para melhorar esse cenário? Então qual é o ganho do estudo da filosofia, nesse nível mais básico para uma relação melhor com a opinião e com o conhecimento. A filosofia tem uma obsessão pela verdade. Isso não quer dizer que o filósofo o seja detentor da verdade. Exatamente por não se sentir o dono da verdade, ele se torna um vigilante da verdade, na obscuridade dos discursos e das falas. Não é uma negação das opiniões em si, mas a superação de um tipo de discurso cuja base é o “achismo ingênuo” e “dogmático”.
A finalidade primeira da Filosofia não é negar, mas buscar “provas” e “justificações racionais” para nossas “crenças e opiniões, nossas ideias e valores, sentimentos e comportamentos” (Chaui). Digo mais. Não somente provas e justificações racionais, mas também análise crítica dessas crenças, opiniões, sentimentos e valores e sentimentos e comportamentos. Isso porque é possível justificar racionalmente uma coisa, mas não analisar criticamente seus fundamentos, o que chamamos de ideologia.
Desenvolver o hábito de comparar discursos antagônicos, para ver as semelhanças e diferenças, as incongruências, os interesses. Estabelecer relações de grandeza. Saber situar um discurso dentro do seu conjunto. Suas interseções e seu fundamento. Lorieri lembra que “temos de estimular crianças e jovens a estabelecer os mais variados tipos de relações entre coisas e coisas, fatos e fatos, situações e situações, e, sobretudo a estabelecer relações entre ideias, relatando-as de outro modo.” Ainda segundo o autor, os tipos de relações são inúmeros e das mais variadas formas. Ele cita alguns possíveis:

Relações de grau (maior e menor, por exemplo); relações de igualdade, de semelhança, de diferença; relações parte/todo; relações de causa/efeito; relações espaciais; relações temporais; relações de gênero; relações de número; relações sociais; relações semânticas; relações sintáticas; relações de transitividade; relações de reciprocidade; etc. (LARIERI, 2002, p. 116)

A opinião, como defende a tradição filosófica, é um saber que se situa entre a ignorância, ou desconhecimento completo e a ciência e a filosofia, enquanto saberes fundamentados a partir de uma base metódica rigorosa. O valor da opinião está no trato das questões mais cotidianas e imediatas, afinal, nenhum ser humano tem a obrigação de conhecer tudo em profundidade.
Todavia, cumpre fazer a devida distinção entre opinião e um saber mais fundamentado. Nesse sentido, as bases sobre as quais ambos os saberes são construídos faz muita diferença. Em outras palavras, embora eu tenha livre uso da palavra para expressar meus pontos de vista, por questões de honestidade intelectual e por respeito às questões que estão em jogo, quando dizem respeito à organização e interesses da coletividade, o bom senso advoga a favor da necessidade de buscar aprofundar meu entendimento a cerca da temática, procurando bases mais objetivas e melhor fundamentadas, levando em conta a complexidade do assunto e as diferentes abordagens a seu respeito.
Isso não significa que toda a opinião esteja em descordo com a verdade dos fatos, a questão não é propriamente esta, mas a superficialidade gnosiológica sobre a qual ela se sustenta e a pretensão de impô-la como verdade incontestável.

“Essas pessoas, diremos nós, opinam sobre tudo, mas não sabem nada a respeito das coisas sobre as quais opinam” (Platão. A Republica, 1997, p. 189)

A questão a respeito da relação entre a Filosofia e opinião não diz respeito ao problema da verdade ou falsidade de uma opinião, visto que uma opinião, pode ser verdadeira, ainda que seu defensor nãos esteja em condições de justifica-la adequadamente. Pensar isso seria o mesmo que defender que toda a opinião, pelo fato de ser uma opinião, não é verdadeira. Essa relação não é nem lógica, nem ontologicamente necessária.
O perigo da opinião reside no fato de ser carente de uma fundamentação mais aprofundada. Vale salientar que não é somente pela filosofia que pode se fundamentar uma opinião. Os fatos históricos, os embasamentos sociológicos, científicos, jurídicos e psicológicos podem ser elementos que ampliem a compreensão sobre uma dada temática e que, portanto, possibilita uma profundidade melhor e mais consistente ao seu expositor. A filosofia aqui aparece como uma forma de saber que por primeiro julgou a mera opinião como uma saber insuficiente para decidir sobre questões cuja complexidade e as consequências dizem respeito a um número considerável de pessoas ou grupos.
Não significa, portanto, que devemos abolir ou nos negarmos a emitir nossa opinião sobre qualquer coisa, pelo contrário a opinião é uma condição da nossa subjetividade, um juízo de valor provisório e imediato que formamos e expressamos sobre um aspecto da realidade. E não há um individuo que não faça uso dessa prática. O que se chamou atenção aqui foi para o fato de que, hoje vivemos numa teia de comunicação que nos coloca frente a possibilidade de manifestar o nosso parecer sobre qualquer assunto de forma pública, assim, há que se ter um entendimento de que as temáticas possuem valor e consequências diferentes. E que nos casos em que as implicações sociais e coletivas são mais complexas, cumpre sempre o cuidado de aprofundar os conhecimentos a respeito do assunto para se ter um mínimo de razoabilidade possível na hora de emitir um juízo de valor e sempre ciente de que sua compreensão será sempre parcial, outros elucidarão elementos que podem tornar evidentes a fragilidade da sua própria compreensão a cerca daquela temática.

Referência bibliográfica
CHAUI, Marilena. Boas Vindas à Filosofia. São Paulo: wmfMartins Fontes, 2011.
__________, Introdução à História da Filosofia: dos Pré-Socráticos a Aristóteles, Vol. 1. ed. rev. e ampl.  São Paulo: Companhia das letras: 2002.
GOBRY, Ivan. Vocabulário grego da filosofia. São Paulo: wmfMartins Fontes, 2007.
LORIERI, Marcos Antonio. Filosofia: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2002.
PLATÃO. A República. São Paulo: Abril Cultural, 1996. (Col. Pensadores)


sábado, 28 de maio de 2016

MACHISMO NÃO SE COMBATE COM NOTA DE REPÚDIO


Epitácio Rodrigues da Silva


O machismo é uma ideologia que ganha visibilidade através de comportamentos, opiniões, atitudes, valores e ações e que tem como tese fundamental a afirmação da superioridade masculina em relação à feminina.

Essa ideologia está impregnada nas raízes culturais da sociedade e influencia no sistema econômico, religioso, na mídia, na política e na organização familiar. Em todas essas instituições, à mulher é relegado um papel de submissão e inferioridade, às vezes, com aspectos eufemistas como “sexo frágil”, “emotividade”, “ternura”. Ficando aos homens as representações simbólicas de força, racionalidade, firmeza.

Essa divisão hierárquica da sociedade não leva em conta as diferenças reais, mas hierarquicamente ideologizadas. E muitas das ações absurdas praticadas por homens, são imputadas à mulher a culpa. No caso do estupro, que é uma violência em todos os aspectos condenáveis, é possível achar quem defenda ideologicamente que ele decorre de um “ato feminino de provocação e sedução”, como já denunciou inúmeras vezes Marilena Chaui nos seus escritos.

Agora, quando a gente olha o fato ocorrido no Rio de Janeiro, na semana passada, e que ganha repercussão ainda hoje, vê-se que as falas de muitos protagonistas no atual cenário político não se coadunam às suas atitudes.
Na verdade, há uma contradição nessa postura, quando em situações que ganham repercussão manifesta-se nota de repúdio, mas, paradoxalmente, mediantes ações políticas deliberadas, minam as políticas públicas voltadas ao combate da violência contra a mulher nas suas mais multifacetas manifestações.

Tenho muita dificuldade em entender como setores dessa sociedade dizem abominar o estupro e o machismo, e, ao mesmo tempo, ovacionam um parlamentar que se sentiu à vontade para dizer, inclusive na Tribuna do Congresso, a uma parlamentar a seguinte fala, que foi reproduzida em vários jornais de grande circulação no país: "Há poucos dias, tu me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir" (09/12/2014). Numa sociedade que se diz indignada com a prática do estupro, como é possível um parlamentar fazer um discurso desse na Tribuna do Congresso e nada acontecer. Não quero minorar as reações de vários movimentos sociais, mas alguns setores que tinham poder pra fazer mais adotaram com reação mais comum apresentar uma nota de repúdio, aqui e ali.

Vamos lembrar também das repercussões negativas, sob forma de críticas e sarcasmos, contra o tema da redação do Enem de 2015, que trazia como proposta “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". Na mesma ocasião, podia se lê a seguinte manchete no Estadão: “Deputados acusam Enem de ‘Doutrinação’ por abordar feminismo” (26, 10.2015). Essa reação noticiada em vários jornais foi seguida por uma verdadeira “onda” (se quiserem podem fazer uma ligação como filme) de comentadores de plantão demonizando a discussão, acusando o MEC de doutrinação feminista.

E agora, frente ao fato amplamente noticiado, o compromisso do interino pode ser medido pela maneira como ele se manifesta: uma nota no seu twitter. O “ministro interino” da Justiça publica uma nota de repúdio no facebook. O mais estranho é que esse mesmo governo interino, e amplamente considerado golpista, ao montar seu ministério não se lembrou das mulheres. Não havia ministério onde elas pudessem continuar “belas, recatadas e do lar”. E não faltaram apologias nem no meio político, nem nas colunas de jornais, nem nos telejornais da meia-noite para respaldar a sua atitude. Seus defensores argumentavam, imponentes, que não se tratava de questão de gênero, mas de competência. Aqui também surgiram algumas notas de repúdio.

E por que não falar no projeto Escola Sem Partido, que diferentemente do que dizem seus arautos, na verdade objetiva apenas silenciar, entre as classes populares, a discussão a respeito das questões da manipulação política, defendendo não a neutralidade, mas ignorância acerca do papel da juventude nesse processo; além de ser uma tentativa desesperada de evitar que se fale do protagonismo a ser exercido pelas mulheres na política, no trabalho e na sociedade e também de combate às questões ligadas a orientação sexual.

Sobre os casos de estupro, a solução proposta pelo interino é criar um departamento na Policia Federal. Ainda não entendeu que o estupro não pode ser combatido apenas com ações pontuais e repressoras após os fatos. Basta vê que no Rio acontecem em média 12 casos por dia, como estão noticiando os jornais. O estupro, enquanto uma das configurações violentas dessa ideologia machista incrustada na nossa cultura, cobra um compromisso maior de um intenso trabalho de reeducação do modo de entender o mundo, de revisões de valores distorcidos e das relações de poder autoritárias e misóginas.

Do contrário, vamos continuar vendo essas práticas de violência contra a mulher ser combatida com nota de repúdio.

domingo, 15 de maio de 2016

MAQUIAVEL EM ALTA NA POLÍTICA BRASILEIRA

Epitácio Rodrigues da Silva


No Jornal Folha de São Paulo de hoje, 15/05/2016, numa matéria assinada por Julio Wiziack e David Friedlander, os autores, falando do Mercado, citam uma afirmação feita pelo empresário Carlo Bottarelli, presidente da empresa de infraestrutura Triunfo, que se tornou emblemática para o momento atual. O empresário teria dito: “Também saímos do bolivarianismo. Vai melhorar, mas agora é preciso fazer o mal na hora e o bem aos poucos” (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/05/1771350-empresarios-sugerem-que-temer-faca-mal-rapido-e-bem-aos-poucos.shtml)
Mas como o verdadeiro autor dessa frase morreu em 1527 (e na pobreza), não poderá reclamar direitos autorais. Por isso, vou apenas dar ciência aos leitores de que essa frase é, na verdade, de autoria do filósofo florentino Nicolau Maquiavel (1469-2527) que, no livro O Príncipe, afirma: “As injurias devem ser feitas todas de uma vez, a fim de que, tomando-se-lhes menos gosto, ofendam menos. E os benefícios devem ser realizados pouco a pouco, para que sejam mais bem saboreados" (MAQUIAVEL, 1996, p. 67 [Os Pensadores]). Dizendo de um jeito bem direto, deve-se fazer o mal de uma vez só, porque assim fica mais fácil de esquecer, já o bem, em suaves prestações, para manter viva na memória do beneficiado as ações. Porém, é preciso que se diga aqui que Maquiavel faz essa afirmação no Cap. VIII, que trata exatamente “dos que alcançaram o principado pelo crime”. Assim, a receita do filósofo é destinada ao chefe político que não tem o aval do povo no governo daquela sociedade, visto que chegou ao poder pela “maldade, por vias celeradas” (p. 63).
Mas, o perigo de parar nesse capítulo do livro é não ficar sabendo que o seguinte (Cap. IX), sobre o Principado Civil, o filósofo faz uma análise sobre a chegada ao poder pelo favor do povo ou com o favor dos nobres. Nesse capítulo, Maquiavel lembrar que tentar agradar aos nobres(a elite), será uma empresa fadada ao fracasso, pois sempre agradará a uns, mas desagradará a outros, porque o objetivo de toda eleite é “comandar e oprimir o povo”, já o objetivo do povo é bem mais honesto, uma vez que a única coisa que almeja é “não ser comandado nem oprimido” pelas elites. E depois de discorrer sobre a diferença entre os comportamentos dessas duas classes antagônicas, deixa claro ao Príncipe: “Quem se tornar príncipe com os favores dos grandes e contra o povo deve, antes de tudo, tentar conquistá-lo, o que é fácil, se o proteger.” Naturalmente, o sentido do termo proteção não é sinônimo de paternalismo, mas refere-se a uma tomada de posição a favor do povo, pois nesse antagonismo explicitado pelo autor logo no início do capítulo IX, optar pelos poderosos tem um preço: “O príncipe deve, então, manter-se em guarda e temê-los como se fossem inimigos descobertos, porque sempre, na adversidade, ajudarão a arruinar-te” (MAQUIAVEL, 1996, p. 68).
Não resta dúvidas que o governo em exercício, Michel Temer, já fez a sua escolha. Um governo voltado às elites, para o qual a frase do empresário não tem um alcance global, mas direciona-se a um dos lados, os pobres. Assim, seguindo a onda maquiaveliana em alta na política do atual governo, resta um último lembrete do filósofo florentino, pai da política moderna: “fracassará nas adversidades... sua estabilidade é precária e incerta” (MAQUIAVEL, 1996, p. 69).



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

POR UMA ESTÉTICA MAIS PLURIVERSAL





 Por Epitácio Rodrigues
Professor de Filosofia e escritor

Um dos pilares de sustentação do racismo é a estética. A crença na superioridade de um suposto grupo étnico sobre outro não está ancorada somente no discurso de maior capacidade racional ou melhor qualidade genética, mas também sobre os padrões de beleza assumidos pelo grupo. Como o racismo não tem uma base consistente que lhe dê sustentação, a estética acaba ganhando muito peso, na medida em que é algo que mais facilmente pode ser disseminado no senso comum. Noutras palavras, para justificar uma suposta superioridade racional e/ou genética faz-se necessário um discurso “maquiado de científico” complexamente elaborado e nem sempre acessível a todos. Já os parâmetros de beleza adotados são prontamente assimilados pelo senso comum e facilmente reforçados pelos meios de comunicação de massa.

Essa consideração é fundamental, sobretudo quando se leva em conta o fato de o negro brasileiro está numa configuração estética na qual ele não se sente contemplado. Não por nada os cabelos, o nariz, os lábios e a cor da pele são partes do corpo muito visadas por quem, velada ou abertamente, procura ofender ou humilhar uma pessoa simplesmente pelo fato de ser negra. Essa é uma das razões pelas quais, no Brasil, muitos negros não querem ser negros. É verdade que nos últimos anos muita gente tem se declarado oficialmente negro ou pardo. Mas ao que parece, a motivação está ligada aos possíveis benefícios advindos de políticas públicas de ações afirmativas voltadas a eles. Não sou contra as políticas de ações afirmativas destinadas à população negra, pelo contrário, acho que elas estão chegando muito atrasadas. O que quero chamar a atenção é para a confusão gerada entre declarar-se oficialmente “preto” ou “pardo” e pensar a si mesma como pessoa negra. São duas posturas nem sempre equivalentes. Quando perguntamos a alguém que se tenha declarado “preto”, o que significa ser negro hoje, ele nem sempre saberá como responder.

As razões para esse fenômeno decorrem de um complexo processo de diluição da identidade negra num leque cromático que gerou para o nosso léxico vários termos e conceitos, que mais confundem do que auxiliam na construção de uma identidade étnica. Termos como “cabra”, “homem de cor”, “mulato escuro”, “mulato claro”, “moreno escuro”, “moreno claro”, “pardo” e “afrodescendente”; todos são formas veladas e sutis de fuga de uma identidade negra, profundamente associada à questões fenotípicas e cromáticas. Essa fuga da negritude como identidade pessoal encontra sua razão de ser numa consciência, às vezes clara, às vezes obscura, de que ser negro não parece ser uma coisa boa. Assim, uso de produtos químicos para alisar os cabelos, cirurgias plásticas para afinar ou “corrigir” a espessura dos lábios ou o formato de nariz, para quem tem um certo poder aquisitivo, são procedimentos aos quais se costuma recorrer para conformar-se ao padrão estético estabelecido.

Frente a esse quadro, pode-se perguntar o que significa falar consciência negra nas escolas? A quem se destina? Qual o papel da educação no necessário processo de conscientização da sociedade para a aceitação e o convívio com outros padrões estéticos. Aqui acredito que a Filosofia (mas não só ela) pode oferecer um valioso contributo no processo de construção ou resgate de uma beleza numa perspectiva do negro africano, que, em última instância, não se destina somente nós, os negros brasileiros, mas a todos os indivíduos desta sociedade. A contribuição seria sobretudo no processo de ressignificação do nosso modo de pensar estético. Isso porque somos herdeiros de um padrão e de um conjunto de valores estéticos que se apresentam como hegemônicos e unívocos, frente aos quais o negro não só não se reconhece neles, como também não é reconhecido pelos não-negros. Quando falo em Estética refiro-me aos padrões e valores estéticos, mas também ao sentimento que eles suscitam nos indivíduos. Assim, se “o belo é o que agrada”, como afirmara Kant, o feio, em contrapartida, será o que causa repulsa e aversão. E numa sociedade onde as características físicas e fenotípicas de uma pessoa não se coadunam ao que se convencionou ser o belo, é praticamente impossível que ela não sinta em si mesma a “síndrome do patinho feio”.

A situação problema é a seguinte: como num país tão plural, ainda predomine uma imagem de beleza tão unívoca? É fato que a estética brasileira deve se esforçar para ser mais pluriversal, rompendo com esse monismo estético e partir em busca de uma compreensão da estética na qual outros padrões também sejam conhecidos, entendidos e considerados. Penso que as palavras do filósofo e pedagogo, Paulo Freire, ganham força de um imperativo, quando afirma que “a necessária promoção da ingenuidade à criticidade não pode ou não deve ser feita a distância de uma rigorosa formação ética sempre ao lado da estética” (Pedagogia da Autonomia, 1996, p. 32). Assim, temos que sair da ingênua compreensão de que a questão da beleza é algo meramente subjetivo e individual, depende de sujeito para sujeito; como também romper com a equivocada ideia de que a beleza é uma coisa natural. Na verdade, padrões de beleza são construções culturais e coletivas. Apresentam variações de grupo para grupo e linhas de semelhança no interior de cada um deles a ponto de se poder falar em padrões de beleza.

Portanto, penso que alguns passos ainda precisam ser percorridos. O primeiro deles é o conhecimento do que é a Estética Africana, algo que vamos aprender com aqueles dos quais herdamos características fenotípicas, mas que tiveram muitos elementos da sua cultura suplantada pela tradição cultural europeia. É preciso ir ao lugar epistemológico no qual encontramos as nossas origens. Outro passo, em parte consequência do primeiro, mas também de uma postura de reivindicação sócio-politica, é ampliar os nossos padrões e valores estéticos, saindo desse monismo rumo a uma compreensão e uma vivência mais pluriversal da estética.

terça-feira, 21 de abril de 2015

FILOSOFIA DA ARTE OU ESTÉTICA: O QUE É ISTO?


Epitácio Rodrigues

Você já parou para se perguntar, por exemplo: “o que torna um objeto uma obra de arte?” ou “qual a relação entre forma e conteúdo num a obra de arte?”; ou se “uma obra de arte nos põe em contato com a mente do artista?”; “por que atribuímos tanto valor à obra de arte?”; “O que explica o caráter especial da experiência estética?”; ou se “dizer que um objeto é belo relata um fato a respeito do objeto?”; “ou expressa um sentimento do sujeito?”; “O que é o belo?”[1]
Essas são algumas das inúmeras questões levantadas por um ramo específico da Filosofia chamado de Estética ou Filosofia da Arte, que se dedica ao estudo da Arte, da experiência estética e da relação da arte com a sociedade, com a política e com a ética etc. Trata-se de um ramo novo, desenvolvido a partir de meados do século XVIII. Isso não se significa que temáticas ligadas à arte não tenham sido abordadas por nenhum filósofo antes desse período, pois as questões referentes à arte são tão antigas quanto a própria origem da filosofia. Apenas se considera que a partir do referido século os problemas filosóficos relativos a esse tema passaram a ser analisados mais sistematicamente, dando início a uma disciplina nova no interior da tradição filosófica.
Nesta aula, a nossa intenção é apresentar o conceito de Estética e sumariar os primórdios dessa parte da filosofia. Seguiremos os seguintes passos: inicialmente apresentaremos a origem da palavra e o contexto no qual ela foi inserida na investigação filosófica; depois, colocaremos para o aluno dois conceitos de Estética extraídos de livros didáticos propostos para o Ensino Médio e explicitaremos os elementos que compõem essa definição.
Comecemos então pela palavra Estética. Sobre ela é necessário fazer duas observações. A primeira é que seu uso não é exclusivo da filosófica. Na arte e no dia-a-dia, usa-se esse termo para se referir à beleza. A segunda observação, que esclarece a primeira, é a seguinte: estética é uma forma aportuguesada do termo grego aísthesis, que significa “conhecimento sensorial ou efetivado pelos sentidos”, “experiência”, “sensibilidade”. Como explica Rufinoni, aísthesis, em grego, é uma palavra que remete aos sentidos, ao que conhecemos por meio dos sentidos, os cinco sentidos, ou seja, sensibilidade em uma acepção bastante restrita, referente àquilo que nos chega a partir do corpo, das sensações”.[2] Noutras palavras, inicialmente esse termo não teria nenhuma ligação com a Filosofia, já que esta lida com o conhecimento racional, enquanto a estética valoriza o conhecimento sensitivo.
Será graças ao filósofo alemão, Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762), que a palavra Estética passará a fazer parte do vocabulário filosófico, sobretudo a partir de 1750. De fato, na história da Filosofia costuma-se atribuir a ele a criação da Estética moderna[3], enriquecendo assim a filosofia como essa nova área do conhecimento, uma vez que foi o primeiro a ministrar um curso de estética numa abordagem filosófica, em 1742; mas, sobretudo por se dedicar ao estudo filosófico da formação do gosto e os fenômenos ligados à compreensão da experiência artística, na obra intitulada exatamente Aesthetica e publicada em 1750.[4] Hegel apresenta em poucas palavras, o processo de consolidação desse termo na literatura filosófica europeia:

Foi Baumgarten quem denominou de estética a ciência das sensações, está teoria do belo. Só aos alemães esta palavra é familiar. Os franceses dizem théorie des arts ou dês belles lettres. Os ingleses incluem-na na critic. Os principais críticos de Home gozaram de grande voga no tempo em que este autor publicou a sua obra. Na verdade, o termo estética não é o que mais propriamente convém. Já se propuseram outras denominações – “teoria das belas ciências”, “das belas-artes” – que não foram aceites e com razão. Empregou-se também o termo “calística”, mas do que se trata é, não do belo em geral, mas do belo como criação da arte. Conservemos, pois, o termo Estética, não porque o nome nos importe pouco, mas porque este termo adquiriu direito de cidadania na linguagem corrente, o que é já um argumento em favor da sua conservação (HEGEL, Estética, 1999, p 34).

Agora que já sabemos que existe uma parte da filosofia que se dedica ao estudo da arte, como você responderia se lhe perguntassem o que, filosoficamente falando, se deve entender minimamente por Estética? Para auxiliar nessa tarefa, vamos apresentar dois conceitos de estética e, em seguida, analisar os seus elementos constitutivos. O primeiro extraído do livro Filosofando, no qual as autoras afirmam: “sob o nome estética enquadramos um ramo da filosofia que estuda racionalmente os valores propostos pelas obras de arte e o sentimento que elas suscitam nos seres humanos”[5]. A outra, extraída do livro Um outro olhar, no qual Sonia Maria Ribeiro de Souza assim se posiciona:

A estética é a disciplina filosófica que se ocupa com a investigação racional do belo e com a análise dos sentimentos por ele provocados. À medida que a arte passou a ser entendida como canal de expressão da beleza e do belo, também passou a ser alvo das reflexões estéticas. Dessa maneira, o belo, a arte, as emoções estéticas, os sentimentos estéticos e os juízos estéticos são temas presentes nas discussões e especulações da área da filosofia denominada estética (SOUZA, 1995, p. 210).

Analisando as duas definições, podemos perceber que ambas estão de acordo sob alguns pontos: 1) a estética é uma disciplina ou ramo da filosofia; 2) que seu estudo ou análise é de caráter racional; 3) que o objeto de estudo é a arte, seus valores e os sentimentos que ela provoca nos sujeitos. Com relação ao conceito de Souza, ao afirmar explicitamente que a estética “se ocupa com a investigação racional do belo”, ainda que acrescente mais abaixo: “o belo, a arte, as emoções estéticas, os sentimentos estéticos e os juízos estéticos”, pode dar e entender que é o belo e não a arte o objeto de estudo dessa disciplina. Nesse caso, faz-se oportuno lembrar a advertência de Maria José Justino, segundo a qual, “o belo pode ser um dos atributos da arte, mas não é o único, tampouco o mais importante. O feio também pode ser arte”.[6] Mas isso é assunto será desenvolvido na próxima aula.
Por agora, podemos dizer, com base no caminho percorrido até aqui que, frente à questão Filosofia da arte ou estética: o que é isto?, o aluno estará em condições de dizer minimamente que se trata de um ramo da filosofia que estuda racionalmente o complexo universo da arte e os sentimentos e valores que ela provoca e evoca nos seres humanos que a produz e naqueles que a apreciam.

Referencia bibliográfica:
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. & MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando. 5ªed. São Paulo: Moderna, 2013.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Estética: a idéia e o ideial. In: Hegel. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova cultural, 1999.
GARDNER, Sebastian. Estética. In: Compêndio de Filosofia. (org. BUNNIN, Nicholas e JAMES, E.P. Tsui.).  São Paulo: Loyola, 2002.
JAPIASSÚ, Hilton & MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 4ª ed. São Paulo: Jorge Zahar editor, 2006.
JUSTINO, Maria José. A admirável complexidade da arte. In: Para Filosofar (Vários autores). São Paulo: Scipione, 2007, pp. 265-325.
RUFINONI, Priscila Rossinetti. Filosofia da arte e estética: um caminho e muitos desvios. In: FILOSOFIA: ENSINO MÉDIO. Coord. Gabrielle Cornelli, Marcelo Carvalho e Márcio Danelon. Brasília: MEC, Sec. Educ. Básica, 2010 (Col. Explorando o Ensino; vol. 14).
SOUZA, Sonia Maria Ribeiro. Um outro olhar. São Paulo: Editora FTD, 1995.




[1] Essas são algumas perguntas apresentadas por GARDNER, Sebastian. Cf. Estética: in: Compêndio de Filosofia, 2002, p.230
[2] RUFINONI, P.R. 2010, p. 118.
[3] JAPIASSÚ & MARCONDES, 2006, p. 27.
[4] Cf. SOUZA, 1995, p. 210.
[5] ARANHA & PIRES MARTINS, 2013, p. 336.
[6] JUSTINO, M. J. 2007, p. 271.