terça-feira, 21 de abril de 2015

FILOSOFIA DA ARTE OU ESTÉTICA: O QUE É ISTO?


Epitácio Rodrigues

Você já parou para se perguntar, por exemplo: “o que torna um objeto uma obra de arte?” ou “qual a relação entre forma e conteúdo num a obra de arte?”; ou se “uma obra de arte nos põe em contato com a mente do artista?”; “por que atribuímos tanto valor à obra de arte?”; “O que explica o caráter especial da experiência estética?”; ou se “dizer que um objeto é belo relata um fato a respeito do objeto?”; “ou expressa um sentimento do sujeito?”; “O que é o belo?”[1]
Essas são algumas das inúmeras questões levantadas por um ramo específico da Filosofia chamado de Estética ou Filosofia da Arte, que se dedica ao estudo da Arte, da experiência estética e da relação da arte com a sociedade, com a política e com a ética etc. Trata-se de um ramo novo, desenvolvido a partir de meados do século XVIII. Isso não se significa que temáticas ligadas à arte não tenham sido abordadas por nenhum filósofo antes desse período, pois as questões referentes à arte são tão antigas quanto a própria origem da filosofia. Apenas se considera que a partir do referido século os problemas filosóficos relativos a esse tema passaram a ser analisados mais sistematicamente, dando início a uma disciplina nova no interior da tradição filosófica.
Nesta aula, a nossa intenção é apresentar o conceito de Estética e sumariar os primórdios dessa parte da filosofia. Seguiremos os seguintes passos: inicialmente apresentaremos a origem da palavra e o contexto no qual ela foi inserida na investigação filosófica; depois, colocaremos para o aluno dois conceitos de Estética extraídos de livros didáticos propostos para o Ensino Médio e explicitaremos os elementos que compõem essa definição.
Comecemos então pela palavra Estética. Sobre ela é necessário fazer duas observações. A primeira é que seu uso não é exclusivo da filosófica. Na arte e no dia-a-dia, usa-se esse termo para se referir à beleza. A segunda observação, que esclarece a primeira, é a seguinte: estética é uma forma aportuguesada do termo grego aísthesis, que significa “conhecimento sensorial ou efetivado pelos sentidos”, “experiência”, “sensibilidade”. Como explica Rufinoni, aísthesis, em grego, é uma palavra que remete aos sentidos, ao que conhecemos por meio dos sentidos, os cinco sentidos, ou seja, sensibilidade em uma acepção bastante restrita, referente àquilo que nos chega a partir do corpo, das sensações”.[2] Noutras palavras, inicialmente esse termo não teria nenhuma ligação com a Filosofia, já que esta lida com o conhecimento racional, enquanto a estética valoriza o conhecimento sensitivo.
Será graças ao filósofo alemão, Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762), que a palavra Estética passará a fazer parte do vocabulário filosófico, sobretudo a partir de 1750. De fato, na história da Filosofia costuma-se atribuir a ele a criação da Estética moderna[3], enriquecendo assim a filosofia como essa nova área do conhecimento, uma vez que foi o primeiro a ministrar um curso de estética numa abordagem filosófica, em 1742; mas, sobretudo por se dedicar ao estudo filosófico da formação do gosto e os fenômenos ligados à compreensão da experiência artística, na obra intitulada exatamente Aesthetica e publicada em 1750.[4] Hegel apresenta em poucas palavras, o processo de consolidação desse termo na literatura filosófica europeia:

Foi Baumgarten quem denominou de estética a ciência das sensações, está teoria do belo. Só aos alemães esta palavra é familiar. Os franceses dizem théorie des arts ou dês belles lettres. Os ingleses incluem-na na critic. Os principais críticos de Home gozaram de grande voga no tempo em que este autor publicou a sua obra. Na verdade, o termo estética não é o que mais propriamente convém. Já se propuseram outras denominações – “teoria das belas ciências”, “das belas-artes” – que não foram aceites e com razão. Empregou-se também o termo “calística”, mas do que se trata é, não do belo em geral, mas do belo como criação da arte. Conservemos, pois, o termo Estética, não porque o nome nos importe pouco, mas porque este termo adquiriu direito de cidadania na linguagem corrente, o que é já um argumento em favor da sua conservação (HEGEL, Estética, 1999, p 34).

Agora que já sabemos que existe uma parte da filosofia que se dedica ao estudo da arte, como você responderia se lhe perguntassem o que, filosoficamente falando, se deve entender minimamente por Estética? Para auxiliar nessa tarefa, vamos apresentar dois conceitos de estética e, em seguida, analisar os seus elementos constitutivos. O primeiro extraído do livro Filosofando, no qual as autoras afirmam: “sob o nome estética enquadramos um ramo da filosofia que estuda racionalmente os valores propostos pelas obras de arte e o sentimento que elas suscitam nos seres humanos”[5]. A outra, extraída do livro Um outro olhar, no qual Sonia Maria Ribeiro de Souza assim se posiciona:

A estética é a disciplina filosófica que se ocupa com a investigação racional do belo e com a análise dos sentimentos por ele provocados. À medida que a arte passou a ser entendida como canal de expressão da beleza e do belo, também passou a ser alvo das reflexões estéticas. Dessa maneira, o belo, a arte, as emoções estéticas, os sentimentos estéticos e os juízos estéticos são temas presentes nas discussões e especulações da área da filosofia denominada estética (SOUZA, 1995, p. 210).

Analisando as duas definições, podemos perceber que ambas estão de acordo sob alguns pontos: 1) a estética é uma disciplina ou ramo da filosofia; 2) que seu estudo ou análise é de caráter racional; 3) que o objeto de estudo é a arte, seus valores e os sentimentos que ela provoca nos sujeitos. Com relação ao conceito de Souza, ao afirmar explicitamente que a estética “se ocupa com a investigação racional do belo”, ainda que acrescente mais abaixo: “o belo, a arte, as emoções estéticas, os sentimentos estéticos e os juízos estéticos”, pode dar e entender que é o belo e não a arte o objeto de estudo dessa disciplina. Nesse caso, faz-se oportuno lembrar a advertência de Maria José Justino, segundo a qual, “o belo pode ser um dos atributos da arte, mas não é o único, tampouco o mais importante. O feio também pode ser arte”.[6] Mas isso é assunto será desenvolvido na próxima aula.
Por agora, podemos dizer, com base no caminho percorrido até aqui que, frente à questão Filosofia da arte ou estética: o que é isto?, o aluno estará em condições de dizer minimamente que se trata de um ramo da filosofia que estuda racionalmente o complexo universo da arte e os sentimentos e valores que ela provoca e evoca nos seres humanos que a produz e naqueles que a apreciam.

Referencia bibliográfica:
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. & MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando. 5ªed. São Paulo: Moderna, 2013.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Estética: a idéia e o ideial. In: Hegel. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova cultural, 1999.
GARDNER, Sebastian. Estética. In: Compêndio de Filosofia. (org. BUNNIN, Nicholas e JAMES, E.P. Tsui.).  São Paulo: Loyola, 2002.
JAPIASSÚ, Hilton & MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 4ª ed. São Paulo: Jorge Zahar editor, 2006.
JUSTINO, Maria José. A admirável complexidade da arte. In: Para Filosofar (Vários autores). São Paulo: Scipione, 2007, pp. 265-325.
RUFINONI, Priscila Rossinetti. Filosofia da arte e estética: um caminho e muitos desvios. In: FILOSOFIA: ENSINO MÉDIO. Coord. Gabrielle Cornelli, Marcelo Carvalho e Márcio Danelon. Brasília: MEC, Sec. Educ. Básica, 2010 (Col. Explorando o Ensino; vol. 14).
SOUZA, Sonia Maria Ribeiro. Um outro olhar. São Paulo: Editora FTD, 1995.




[1] Essas são algumas perguntas apresentadas por GARDNER, Sebastian. Cf. Estética: in: Compêndio de Filosofia, 2002, p.230
[2] RUFINONI, P.R. 2010, p. 118.
[3] JAPIASSÚ & MARCONDES, 2006, p. 27.
[4] Cf. SOUZA, 1995, p. 210.
[5] ARANHA & PIRES MARTINS, 2013, p. 336.
[6] JUSTINO, M. J. 2007, p. 271.

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