terça-feira, 21 de abril de 2015

FILOSOFIA DA ARTE OU ESTÉTICA: O QUE É ISTO?


Epitácio Rodrigues

Você já parou para se perguntar, por exemplo: “o que torna um objeto uma obra de arte?” ou “qual a relação entre forma e conteúdo num a obra de arte?”; ou se “uma obra de arte nos põe em contato com a mente do artista?”; “por que atribuímos tanto valor à obra de arte?”; “O que explica o caráter especial da experiência estética?”; ou se “dizer que um objeto é belo relata um fato a respeito do objeto?”; “ou expressa um sentimento do sujeito?”; “O que é o belo?”[1]
Essas são algumas das inúmeras questões levantadas por um ramo específico da Filosofia chamado de Estética ou Filosofia da Arte, que se dedica ao estudo da Arte, da experiência estética e da relação da arte com a sociedade, com a política e com a ética etc. Trata-se de um ramo novo, desenvolvido a partir de meados do século XVIII. Isso não se significa que temáticas ligadas à arte não tenham sido abordadas por nenhum filósofo antes desse período, pois as questões referentes à arte são tão antigas quanto a própria origem da filosofia. Apenas se considera que a partir do referido século os problemas filosóficos relativos a esse tema passaram a ser analisados mais sistematicamente, dando início a uma disciplina nova no interior da tradição filosófica.
Nesta aula, a nossa intenção é apresentar o conceito de Estética e sumariar os primórdios dessa parte da filosofia. Seguiremos os seguintes passos: inicialmente apresentaremos a origem da palavra e o contexto no qual ela foi inserida na investigação filosófica; depois, colocaremos para o aluno dois conceitos de Estética extraídos de livros didáticos propostos para o Ensino Médio e explicitaremos os elementos que compõem essa definição.
Comecemos então pela palavra Estética. Sobre ela é necessário fazer duas observações. A primeira é que seu uso não é exclusivo da filosófica. Na arte e no dia-a-dia, usa-se esse termo para se referir à beleza. A segunda observação, que esclarece a primeira, é a seguinte: estética é uma forma aportuguesada do termo grego aísthesis, que significa “conhecimento sensorial ou efetivado pelos sentidos”, “experiência”, “sensibilidade”. Como explica Rufinoni, “aísthesis, em grego, é uma palavra que remete aos sentidos, ao que conhecemos por meio dos sentidos, os cinco sentidos, ou seja, sensibilidade em uma acepção bastante restrita, referente àquilo que nos chega a partir do corpo, das sensações”.[2] Noutras palavras, inicialmente esse termo não teria nenhuma ligação com a Filosofia, já que esta lida com o conhecimento racional, enquanto a estética valoriza o conhecimento sensitivo.
Será graças ao filósofo alemão, Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762), que a palavra Estética passará a fazer parte do vocabulário filosófico, sobretudo a partir de 1750. De fato, na história da Filosofia costuma-se atribuir a ele a criação da Estética moderna[3], enriquecendo assim a filosofia como essa nova área do conhecimento, uma vez que foi o primeiro a ministrar um curso de estética numa abordagem filosófica, em 1742; mas, sobretudo por se dedicar ao estudo filosófico da formação do gosto e os fenômenos ligados à compreensão da experiência artística, na obra intitulada exatamente Aesthetica e publicada em 1750.[4] Hegel apresenta em poucas palavras, o processo de consolidação desse termo na literatura filosófica europeia:

Foi Baumgarten quem denominou de estética a ciência das sensações, está teoria do belo. Só aos alemães esta palavra é familiar. Os franceses dizem théorie des arts ou dês belles lettres. Os ingleses incluem-na na critic. Os principais críticos de Home gozaram de grande voga no tempo em que este autor publicou a sua obra. Na verdade, o termo estética não é o que mais propriamente convém. Já se propuseram outras denominações – “teoria das belas ciências”, “das belas-artes” – que não foram aceites e com razão. Empregou-se também o termo “calística”, mas do que se trata é, não do belo em geral, mas do belo como criação da arte. Conservemos, pois, o termo Estética, não porque o nome nos importe pouco, mas porque este termo adquiriu direito de cidadania na linguagem corrente, o que é já um argumento em favor da sua conservação (HEGEL, Estética, 1999, p 34).

Agora que já sabemos que existe uma parte da filosofia que se dedica ao estudo da arte, como você responderia se lhe perguntassem o que, filosoficamente falando, se deve entender minimamente por Estética? Para auxiliar nessa tarefa, vamos apresentar dois conceitos de estética e, em seguida, analisar os seus elementos constitutivos. O primeiro extraído do livro Filosofando, no qual as autoras afirmam: “sob o nome estética enquadramos um ramo da filosofia que estuda racionalmente os valores propostos pelas obras de arte e o sentimento que elas suscitam nos seres humanos”[5]. A outra, extraída do livro Um outro olhar, no qual Sonia Maria Ribeiro de Souza assim se posiciona:

A estética é a disciplina filosófica que se ocupa com a investigação racional do belo e com a análise dos sentimentos por ele provocados. À medida que a arte passou a ser entendida como canal de expressão da beleza e do belo, também passou a ser alvo das reflexões estéticas. Dessa maneira, o belo, a arte, as emoções estéticas, os sentimentos estéticos e os juízos estéticos são temas presentes nas discussões e especulações da área da filosofia denominada estética (SOUZA, 1995, p. 210).

Analisando as duas definições, podemos perceber que ambas estão de acordo sob alguns pontos: 1) a estética é uma disciplina ou ramo da filosofia; 2) que seu estudo ou análise é de caráter racional; 3) que o objeto de estudo é a arte, seus valores e os sentimentos que ela provoca nos sujeitos. Com relação ao conceito de Souza, ao afirmar explicitamente que a estética “se ocupa com a investigação racional do belo”, ainda que acrescente mais abaixo: “o belo, a arte, as emoções estéticas, os sentimentos estéticos e os juízos estéticos”, pode dar e entender que é o belo e não a arte o objeto de estudo dessa disciplina. Nesse caso, faz-se oportuno lembrar a advertência de Maria José Justino, segundo a qual, “o belo pode ser um dos atributos da arte, mas não é o único, tampouco o mais importante. O feio também pode ser arte”.[6] Mas isso é assunto será desenvolvido na próxima aula.
Por agora, podemos dizer, com base no caminho percorrido até aqui que, frente à questão Filosofia da arte ou estética: o que é isto?, o aluno estará em condições de dizer minimamente que se trata de um ramo da filosofia que estuda racionalmente o complexo universo da arte e os sentimentos e valores que ela provoca e evoca nos seres humanos que a produz e naqueles que a apreciam.

Referencia bibliográfica:
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. & MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando. 5ªed. São Paulo: Moderna, 2013.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Estética: a idéia e o ideial. In: Hegel. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova cultural, 1999.
GARDNER, Sebastian. Estética. In: Compêndio de Filosofia. (org. BUNNIN, Nicholas e JAMES, E.P. Tsui.).  São Paulo: Loyola, 2002.
JAPIASSÚ, Hilton & MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 4ª ed. São Paulo: Jorge Zahar editor, 2006.
JUSTINO, Maria José. A admirável complexidade da arte. In: Para Filosofar (Vários autores). São Paulo: Scipione, 2007, pp. 265-325.
RUFINONI, Priscila Rossinetti. Filosofia da arte e estética: um caminho e muitos desvios. In: FILOSOFIA: ENSINO MÉDIO. Coord. Gabrielle Cornelli, Marcelo Carvalho e Márcio Danelon. Brasília: MEC, Sec. Educ. Básica, 2010 (Col. Explorando o Ensino; vol. 14).
SOUZA, Sonia Maria Ribeiro. Um outro olhar. São Paulo: Editora FTD, 1995.




[1] Essas são algumas perguntas apresentadas por GARDNER, Sebastian. Cf. Estética: in: Compêndio de Filosofia, 2002, p.230
[2] RUFINONI, P.R. 2010, p. 118.
[3] JAPIASSÚ & MARCONDES, 2006, p. 27.
[4] Cf. SOUZA, 1995, p. 210.
[5] ARANHA & PIRES MARTINS, 2013, p. 336.
[6] JUSTINO, M. J. 2007, p. 271.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

POLÍTICA, POLITICAGEM, CIÊNCIA POLÍTICA E FILOSOFIA POLÍTICA



Epitácio Rodrigues

O que é política? Qual a diferença entre política, politicagem, Ciência Política e Filosofia Política? Nesta aula vamos abordar essas diferenças para deixar mais claro em que consiste a política e seus principais elementos, mas, sobretudo, para elucidar melhor a especificidade da reflexão filosófica sobre a política.
Quando pesquisamos nos dicionários de língua portuguesa, percebemos que a palavra política aparece como sinônimo de “arte ou ciência de governar” ou “aplicação desta arte nos negócios internos da nação (política interna) ou nos negócios externos (política externa)” e ainda como “prática ou profissão de conduzir negócios políticos.” A lexicografia sugere que se trata de um conjunto de atividades voltadas à administração dos negócios públicos, circunscrito num determinado espaço e as relações internas e externas dessas atividades e também seus atores mais imediatos. O filósofo francês, André Comte-Sponville inúmeras vezes define a política como uma gestão não guerreira de conflitos, alianças e relações de poder no âmbito coletivo, de toda uma sociedade.[1] São, portanto, elementos da definição de política: a noção de governo e gestão; o poder como elemento de exercício de gestão; e o caráter coletivo dessa atuação.
Numa sociedade democrática, como é o caso da nossa, chamamos de políticos, em sentido estrito, aqueles que se ocupam mais diretamente das atividades relacionadas à administração dos negócios públicos. Porém, em sentido mais amplo, todos nós somos considerados atores políticos, na medida em que compete também a nós eleger, acompanhar e exigir que os recursos públicos, os projetos de leis sejam voltados ao atendimento das necessidades de toda a coletividade.
Por isso, quando o poder de administrar os negócios públicos é utilizado para beneficiar apenas aquele que o detém ou seus pares, não se trata mais de política, mas de politicagem. A politicagem é a corrupção da finalidade política, na medida em que a administração dos negócios ou bens públicos não está mais voltada ao benefício da coletividade e sim à satisfação de interesses particulares e pessoais dos gestores.
Como ficou explicitado acima, a política é uma atividade ou conjuntos de ações. Isso significa que é da sua natureza ter um caráter acentuadamente concreto e prático. Porém, existem saberes especializados que se ocupam com o estudo da atividade política, dentre eles a Ciência Política e a Filosofia Política. A Ciência Política é uma das Ciências Sociais que tem como objeto de estudo o conjunto de ações que compõem o universo da política e seus atores. São alguns dos temas investigados por ela: a distribuição de poder na sociedade; a descrição e análise dos sistemas políticos; a observação do comportamento político e dos mecanismos eleitorais; as formas de governo.
Por sua vez, a Filosofia da política (ou Filosofia política) é um campo da Filosofia que analisa racionalmente o fenômeno político e suas características, as instituições sociais, as práticas políticas, os regimes políticos e as formas de governo, as teorias de estado e a origem e formação da sociedade.[2] Para Cotrim (2008), a Filosofia Política tem “como objetivo a analisar as diversas formas de poder, de relações entre o poder e os cidadãos, dos sistemas de governo.[3]segundo ele, “integram a temática básica da filosofia política as reflexões em torno do poder, do Estado, dos regimes políticos e formas de governo, da participação dos cidadãos na vida pública, entre outros temas.”[4] São algumas das questões abordadas pelas Filosofia Política, a saber: o que é política? O que é poder? Qual tipo de poder é próprio da política? Quem é o detentor do poder político? Como se relacionam os fenômenos do poder, da força, da violência e a atividade política. O que é o Estado? Qual sua origem e sua função? Qual a relação entre estado, governo e povo? Qual a melhor forma de organização política? Qual a relação entre política e ética?
Fica, portanto, claro que existe uma diferença entre política, politicagem, ciência política e Filosofia política.





[1] Cf. COMTE-SPONVILLE. 2002, p. 27-28.
[2] Cf. COTRIM, Gilberto, 2008, p. 86.
[3] DUROZOI & ROUSSEL, 1993, p.374.
[4] COTRIM, 2008, p 86.

Referencia bibliográfica:
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2001.
COMTE-SPONVILLE. Apresentação da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
COTRIM, Gilberto. Filosofia Temática. São Paulo: Saraiva, 2008;
DUROZOI, Gérard & ROUSSEL, André. Dicionário de Filosofia. 5ª ed. Campinas, SP: Papirus, 1993.


domingo, 1 de fevereiro de 2015

2015, ANO DECISIVO PARA A NOSSA CIVILIZAÇÃO


Wlirian Nobre
Geógrafo e professor


De acordo com a Agência Espacial Americana (NASA) o ano de 2014 foi o ano mais quente desde 1880, ano em que começam os registros da temperatura no planeta. O pior de tudo isso é que nesses 134 anos de medição os dez anos mais quentes, com exceção de 1998, foram de 2000 pra cá. Isso é estatística, é fato, portanto, não há dúvida sobre o aquecimento global assim como não há razão para otimismo.
Chegamos a um momento crítico de nossa existência. Somos uma só humanidade e um único planeta e, portanto o nosso destino é comum. Ou formamos uma aliança global com uma consciência planetária ou não conseguiremos salvar a nossa civilização.
De acordo com Boff (2013), a Terra conheceu 15 grandes dizimações. A última ocorreu a 65 milhões de anos atrás. Agora, as provas são irrefutáveis, é a espécie humana que ameaça todas as formas de vida do planeta. Estamos travando uma guerra irracional com a natureza apenas para acumular riqueza. Apenas 7% dos mais ricos contribuem com 50% das emissões de gases do efeito estufa, é um desejo infinito num planeta que é finito. Considere que em 2070 seremos cerca de 10 bilhões de habitantes e precisaremos aumentar a produção de alimentos em cerca de 70%. Se todos os habitantes desejarem levar uma vida semelhante ao modo de produção e consumo dos países capitalistas avançados “apenas às reservas de petróleo conhecidas seriam esgotadas em 19 dias” (LÖWY, 2014, p.46).
Se depender dos governos e da elite dominante, obcecada por riqueza material, entraremos numa fase de desastres ecológicos de proporções incalculáveis. O exemplo da última conferência do clima representa bem essa realidade. A COP-19 realizada em Lima, no Peru, em dezembro do ano passado, foi um grande teatro do absurdo. Em 10 dias de reuniões os representantes dos 196 países não chegaram a um consenso e mais uma vez jogaram as decisões importantes para o próximo encontro que ocorrerá em Paris no final desse ano.
Lamentavelmente os governos não conseguem perceber a urgência da crise ambiental e vão adiando acordos importantes para não afetar sua economia. As propostas dessas conferências são apenas paliativas que suavizam os problemas. Mas as mudanças não são simples, é preciso uma profunda mudança de paradigma (visões, valores, tradições, saberes, etc.). É preciso uma mudança radical, as meias medidas, as semirreformas, as conferências, os créditos de carbono são incapazes de dar uma solução ao problema.
No sistema capitalista vigente a busca da sustentabilidade é pura fantasia, tudo é visto pela ótica do mercado, o desejo é maximalizar os lucros à custa da natureza gerando desigualdades sociais e desequilíbrios ecológicos. A raiz do problema é o “consumo fundado na ostentação, no desperdício, na alienação mercantil e na obsessão infinita por riqueza” (LÖWY, 2014, p. 48). Como reverter isso sem romper com a lei do mercado, do lucro e da acumulação desenfreada. Somente um projeto de mudança radical pode fornecer uma alternativa ao progresso destrutivo capitalista.
A verdadeira sustentabilidade que visa o coletivo, a cooperação e a harmonia entre todas as formas de vida está na contramão do sistema capitalista. Cresce no mundo inteiro um movimento de inconformismo, pessoas que reagem, contestam, subvertem e desobedecem as determinações desse sistema padronizante. Entretanto, essas mudanças de comportamento e atitude ainda são insuficientes, é preciso romper com os fundamentos da civilização capitalista. Esperamos que a COP-20 seja um evento global onde as populações possam encurralar os governos para que esses rompam com a ditadura da economia lançando os alicerces de uma nova sociedade, antes que o planeta mergulhe no caos.

REFERÊNCIAS
BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é – o que não é. 2º ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.
CARLSSON, Chris. Nowtopia: iniciativas que estão construindo o futuro de hoje. Porto Alegre: Tomo editorial, 2014.
LÖWY, Michael. O que é o ecossocialismo? 2º ed. – São Paulo: Cortez, 2014.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

TERRORISMO E PÂNICO SOCIAL NO OCIDENTE





Epitácio Rodrigues

Nos últimos anos uma sensação de pânico social está crescendo cada vez mais, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, graças aos acontecimentos envolvendo grupos radicais do Oriente Médio que se apresentam como seguidores do islamismo. Atentados à bomba, sequestros, execuções transmitidas pelos meios de comunicação e internet tornaram o termo terrorismo parte do nosso vocabulário cotidiano. Mas o que se deve entender por terrorismo? André Comte-Sponville, filósofo francês, no Dicionário Filosófico, o define como a utilização da violência para fins de natureza política contra um poder estabelecido que não se pode vencer nem por vias democráticas nem pela força militar. Os terroristas, segundo ele, são combatentes da sombra, na medida em que não estão presos às leis ou convenções da guerra, não hesitando, inclusive, em atacar civis ou inocentes, caso julguem necessário para atingir os seus objetivos.
Para Leonardo Boff, teólogo brasileiro, o terrorismo é uma violência espetacular praticada com o propósito de ocupar as mentes das pessoas de medo e pavor. Não se trata apenas da violência em si, mas do seu caráter espetacular, capaz de dominar as mentes de todos, ativando o imaginário social e internalizando o medo nas pessoas. Por isso, os atos terroristas, normalmente, possuem esse caráter espetacular, que evidencia a sagacidade de seus feitores e gera a estupefação social; são realizados por pessoas anônimas, promovendo assim uma desconfiança generalizada, um medo constante e uma distorção coletiva na percepção da realidade, que torna qualquer situação imprevista um ato de terror em potencial. Essas considerações nos ajudam a entender o clima de pânico reinante na Europa, n’alguns países do Oriente e na America do Norte.
De fato, o combate ao terrorismo tem desafiado as grandes potências europeias e americanas que, mesmo dispondo de sofisticado serviço de inteligência, não deixam de experimentar uma sensação de pânico e as razões, além das apresentadas por Boff, podem ser sintetizadas em três ou quatro desafios. O primeiro deles é que os integrantes desses movimentos não são mercenários, não fazem guerra ao inimigo por dinheiro, mas por ódio ao Ocidente e à ocidentalização do mundo. Seus membros são pessoas instruídas a desde muito cedo ver a civilização ocidental como inimiga de seus costumes e de sua divindade. Por isso, esse inimigo deve ser combatido. Os radicais, como a imprensa nos acostumou a chamá-los, não têm medo de morrer por essa causa. Fica a pergunta: como vencer um inimigo que não vacila frente à morte em nome de sua causa? O que fazer quando morrer em nome dessa causa é motivo de glória e estímulo aos demais?
Outra questão é que eles não possuem características que os diferenciem dos demais seguidores do islamismo. Podem passa-se por uma pessoa piedosamente seguidora dos preceitos de fé religiosa sem levantar maiores suspeitas. A resistência no tocante à política de imigração também tem muito de proteção contra esse inimigo sem fisionomia definida. Para deixar a situação ainda mais complexa, inúmeros jovens europeus e norte americanos estão aderindo a esses grupos radicais.
Porém, de todas as dificuldades, a mais desafiadora é que os grupos radicais funcionam, se comportam de maneira similar ao velho preceito da Hidra de Lerna: “corte uma cabeça e duas novas nascerão”.
Em suma, estamos presenciando uma “guerra” das grandes potências europeias e americanas contra o terror dos radicais islâmicos, marcada por medo, ódio e fanatismo. Nesse meio fica a sociedade civil em pânico por causa de um inimigo que é potencialmente imprevisível, na medida em que pode ser qualquer um e em qualquer esquina.

Referência bibliográfica:

BOFF, Leonardo. Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009;
COMTE-SPONVILLE, Andre. Dicionário Filosófico. 2ª ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

SERÁ QUE NÃO FALTOU BOM SENSO?


Epitácio Rodrigues

Foi na França que um grande filósofo escreveu: “O BOM SENSO é coisa do mundo melhor partilhada, pois cada qual pensar estar tão bem provido dele, mesmo os que são mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa não costuma desejar tê-lo mais do que o têm [...] não é suficiente ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem" (DESCARTES,1996, p. 65).
Os últimos acontecimentos envolvendo grupos radicais do Islamismo e o jornal francês Charlie Hebdo colocaram em evidência temas como fundamentalismo, terrorismo, tolerância religiosa e liberdade de imprensa. Mas o destaque dado a esses temas vem acompanhado de uma manipulação tendenciosa. Por que digo tendenciosa? Porque o principal meio de divulgação do que está acontecendo é a imprensa, que tem num dos lados do conflito uma das suas formas de existência, o jornal. Por isso, a situação pede que se faça algumas ponderações a respeito do assunto.
A primeira observação diz respeito ao fundamentalismo. O problema pode ser sintetizado no seguinte questionamento: será que existe, de fato, uma religião fundamentalista? Podemos dizer, como sugerem os meios de comunicação, que os seguidores do islã são fundamentalistas? Será que no interior do Cristianismo, religião dominante no Ocidente, não tem um histórico de práticas e posturas fundamentalistas? Noutras palavras, é preciso delinear uma compreensão de fundamentalismo religioso, visando dirimir a consolidação de atitudes preconceituosas em relação a certos grupos étnicos e culturais.
Como já acenamos acima, os meios de comunicação de massa frequentemente apresentam fatos que são caracterizados nos noticiários como fundamentalistas. Quando houve a destruição das torres gêmeas, os muçulmanos foram responsabilizados. Criou-se uma verdadeira aversão a praticamente uma comunidade inteira. Falar em fundamentalismo é frequentemente associado aos radicais muçulmanos. Será que existe uma religião que seja fundamentalista?
Para o sociólogo Anthony Gidenns, o fundamentalismo religioso é a “abordagem assumida por grupos religiosos que exigem a interpretação literal das escrituras ou dos textos fundamentais e acreditam que as doutrinas surgidas a partir dessas leituras devem ser aplicadas a todos os aspectos da vida social, econômica e política” (2005, p.447). Uma característica do fundamentalismo é a defesa da existência de apenas uma visão de mundo correta. Não há, portanto, lembra Gidenns, espaço para ambiguidades ou múltiplas interpretações.
No mesmo sentido o afirma Leonardo Boff, para o qual o fundamentalismo não é uma doutrina, mas uma forma de interpretar e viver a doutrina. A pessoa fundamentalista é aquela que assume de forma literal o texto de certas doutrinas e normas sem considerar o seu sentido e sua dimensão histórica e cultural, exigindo, portanto, uma constante interpretação e atualização, como condição de garantia de conservação da sua verdade original. Em suma, dirá o pensador, que o fundamentalista é aquele que confere um caráter absoluto ao seu ponto de vista.
Na compreensão dos dois pensadores, o fundamentalismo surge mais como uma questão de hermenêutica. Trata-se de uma forma de interpretar os textos tidos como sagrados. Essa interpretação é literal, no sentido de entender o que está escrito, tal qual a letra apresenta. Ademais é também dogmática, na medida em coloca o texto como verdade absoluta e inquestionável.
Para os autores, portanto, o fundamentalismo seria, no campo da interpretação um erro hermenêutico, uma interpretação literal de um dado texto considerado sagrado. Já no campo gnosiológica, um erro dogmático, por considerar como verdade absoluta e inquestionável um texto que tem sempre a tinta humana. Mais também um erro de conduta, visto que assim entendido gera comportamento e posturas que promovem ações radicais, intransigentes e inflexíveis.
O fundamentalismo religioso é sempre, parece-me, reacionário. No sentido que a modernidade e laicização da sociedade é vista como uma ameaça contra a Divindade.
Assim, fica evidente que o fundamentalismo não tem uma estrutura de religião, mas de postura frente aos ensinamentos de uma dada religião. Que sua motivação inicial está de algum modo relacionada, de forma reacionária, aos movimentos da chamada racionalidade moderna, fortemente marcada por uma postura secularizada. Ou seja, frente um movimento ou sociedade que postula a necessidade de explicações racionais e científicas para os fenômenos sociais e naturais, que afirma a historicidade do conhecimento da verdade, os fundamentalistas negam, de certa forma, a historicidade humana, na medida em que negam aos textos tidos como sacros a sua historicidade e sua dependência de contextos históricos e culturais.
O terrorismo, quando vinculado à questão religiosa, é um ódio destinado ao não participante daquela compreensão religiosa do mundo, da vida e da morte ou pós-morte. O terrorismo é uma ação violenta que tem na base uma compreensão violentada da religião.
A tolerância religiosa, uma valor defendido na Modernidade, se configura mais como um respeito ao credo diferente e do seu espaço, uma experiência de alteridade, na qual se reconhece no outro o direito de crer numa realidade transcendente ou imanente, e até mesmo de não professar crença em nenhuma realidade sobre-humana de caráter sagrado ou divino.
O grande problema é que frequentemente os grupos ou comunidades religiosas querem expandir seu jeito de entender a existência como o único autenticamente válido – uma espécie de ontologia fidei: uma compreensão segundo a qual só a sua religião verdadeira, as demaissão reduzidas ao não-ser.
Do outro lado, os meios de comunicação de massa usam, de modo ideológico, o discurso da liberdade de imprensa como um absoluto. A equação é mais ou menos a seguinte: ou a Imprensa goza de liberdade absoluta e irrestrita, ou o Estado é ditador. Ora, a Imprensa, a priori, é um veículo de comunicação cujo papel principal divulgar os fatos e acontecimentos, tendo como norma a verdade e como fim a informação. O problema é que nos esquecemos que aquilo que chamamos genericamente de imprensa é, na verdade, um conjunto de empresas que como todas as demais, objetivam gerar lucros. Assim, nos últimos anos têm-se percebido que esses meios de comunicação frequentemente recorrem ao sensacionalismo e à produção de polêmicas para estimular o consumo de seu produto. Não quero aqui corroborar a ação dos terroristas no que se refere ao ataque à sede do jornal. Pois o que eles fizeram não tem justificativa plausível: os radicais assassinaram algumas pessoas por satirizarem com o profeta Maomé. Por outro lado, os protagonistas dessa ação sabiam que para os seguidores do Islamismo retratar o profeta Maomé é algo proibido e considerado extremamente ofensivo. Por isso, aqueles que fizeram as caricaturas satirizando o profeta sabiam que uma reação violenta nesse nível era não só possível, mas muito provável. Foi um risco que, ainda que se diga ter sido realizado em nome da liberdade de imprensa, na verdade, tinha como motivação vender o jornal usando uma matéria polêmica.
Essa é a questão silenciada: vivemos numa verdadeira crise da Imprensa que é primeiramente gnosiológica, na medida em que ela não divulga fatos, mas interpretações, julgamentos, condenações ou aprovações de fatos. As palavras de Chaui a respeito do jornalismo ganham uma eloquência singular nesse sentido: “rápido, barato, inexato, partidarista, mescla de informações aleatoriamente obtidas e pouco confiáveis, não-investigativo, opinativo ou assertivo, detentor da credibilidade e da plausibilidade, o jornalismo se tornou protagonista da destruição da opinião pública”(2006, p.14). Mais adiante afirma: “no noticiário, o sujeito é o locutor (ou “âncora”) e o repórter, isto é, o sujeito é a TV, enquanto a notícia e seus protagonistas são objetos. Os protagonistas da notícia falam à câmera, dando assim veracidade à televisão como sujeito único do noticiário. Em contrapartida, o locutor (o “âncora”) e o repórter se dirigem a nós, explicando e interpretando o que o protagonista diz, uma vez que este é um objeto – portanto, nada sabe – e a TV, o sujeito – portanto, sabe tudo” (CHAUI, 2006, p. 53).
Uma consequência é que a Imprensa cria “uma verdade” que quando é mentirosa possui efeitos danosos e quase sempre irreparáveis. Uma matéria errada que torna material impresso ou televisivo torna-se material de pesquisa para gerações futuras e perpetua ou faz ficar verdadeira uma interpretação mentirosa, mesmo que de um fato. Penso que, no caso específico do ataque a sede do jornal, fica a indagação: desrespeitar o profeta Maomé, considerado o fundador do Islamismo, não seria um ato de intolerância e de falta de bom senso? E a outra questão que fica é a seguinte: é preciso discutir, ao lado da propalada liberdade de imprensa, a responsabilidade da imprensa.

Referência bibliográfica:
BOFF, Leonardo. Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz: desafios para o século XXI. Petrópolis: Editora Vozes, 2009.
CHAUI, Marilena. Simulacro e poder: uma análise da mídia. São Paulo: Perseu Abramo, 2006
DESCARTES, R. Discurso do método. São Paulo: Nova Cultural, 1996. ( Col Os Pensadores).
GIDDENS, Anthony. Sociologia. 4ª. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.


Ensaio SOBRE A OPINIÃO

“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ide...