domingo, 1 de fevereiro de 2015

2015, ANO DECISIVO PARA A NOSSA CIVILIZAÇÃO


Wlirian Nobre
Geógrafo e professor


De acordo com a Agência Espacial Americana (NASA) o ano de 2014 foi o ano mais quente desde 1880, ano em que começam os registros da temperatura no planeta. O pior de tudo isso é que nesses 134 anos de medição os dez anos mais quentes, com exceção de 1998, foram de 2000 pra cá. Isso é estatística, é fato, portanto, não há dúvida sobre o aquecimento global assim como não há razão para otimismo.
Chegamos a um momento crítico de nossa existência. Somos uma só humanidade e um único planeta e, portanto o nosso destino é comum. Ou formamos uma aliança global com uma consciência planetária ou não conseguiremos salvar a nossa civilização.
De acordo com Boff (2013), a Terra conheceu 15 grandes dizimações. A última ocorreu a 65 milhões de anos atrás. Agora, as provas são irrefutáveis, é a espécie humana que ameaça todas as formas de vida do planeta. Estamos travando uma guerra irracional com a natureza apenas para acumular riqueza. Apenas 7% dos mais ricos contribuem com 50% das emissões de gases do efeito estufa, é um desejo infinito num planeta que é finito. Considere que em 2070 seremos cerca de 10 bilhões de habitantes e precisaremos aumentar a produção de alimentos em cerca de 70%. Se todos os habitantes desejarem levar uma vida semelhante ao modo de produção e consumo dos países capitalistas avançados “apenas às reservas de petróleo conhecidas seriam esgotadas em 19 dias” (LÖWY, 2014, p.46).
Se depender dos governos e da elite dominante, obcecada por riqueza material, entraremos numa fase de desastres ecológicos de proporções incalculáveis. O exemplo da última conferência do clima representa bem essa realidade. A COP-19 realizada em Lima, no Peru, em dezembro do ano passado, foi um grande teatro do absurdo. Em 10 dias de reuniões os representantes dos 196 países não chegaram a um consenso e mais uma vez jogaram as decisões importantes para o próximo encontro que ocorrerá em Paris no final desse ano.
Lamentavelmente os governos não conseguem perceber a urgência da crise ambiental e vão adiando acordos importantes para não afetar sua economia. As propostas dessas conferências são apenas paliativas que suavizam os problemas. Mas as mudanças não são simples, é preciso uma profunda mudança de paradigma (visões, valores, tradições, saberes, etc.). É preciso uma mudança radical, as meias medidas, as semirreformas, as conferências, os créditos de carbono são incapazes de dar uma solução ao problema.
No sistema capitalista vigente a busca da sustentabilidade é pura fantasia, tudo é visto pela ótica do mercado, o desejo é maximalizar os lucros à custa da natureza gerando desigualdades sociais e desequilíbrios ecológicos. A raiz do problema é o “consumo fundado na ostentação, no desperdício, na alienação mercantil e na obsessão infinita por riqueza” (LÖWY, 2014, p. 48). Como reverter isso sem romper com a lei do mercado, do lucro e da acumulação desenfreada. Somente um projeto de mudança radical pode fornecer uma alternativa ao progresso destrutivo capitalista.
A verdadeira sustentabilidade que visa o coletivo, a cooperação e a harmonia entre todas as formas de vida está na contramão do sistema capitalista. Cresce no mundo inteiro um movimento de inconformismo, pessoas que reagem, contestam, subvertem e desobedecem as determinações desse sistema padronizante. Entretanto, essas mudanças de comportamento e atitude ainda são insuficientes, é preciso romper com os fundamentos da civilização capitalista. Esperamos que a COP-20 seja um evento global onde as populações possam encurralar os governos para que esses rompam com a ditadura da economia lançando os alicerces de uma nova sociedade, antes que o planeta mergulhe no caos.

REFERÊNCIAS
BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é – o que não é. 2º ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.
CARLSSON, Chris. Nowtopia: iniciativas que estão construindo o futuro de hoje. Porto Alegre: Tomo editorial, 2014.
LÖWY, Michael. O que é o ecossocialismo? 2º ed. – São Paulo: Cortez, 2014.

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