segunda-feira, 7 de março de 2011

Ética Empresarial na Relação com o Cliente


 

Epitácio Rodrigues 

Professor de Filosofia

O tema da ética empresarial (também chamada ou ética nas organizações ou ética nos negócios) é aplicação da reflexão ética à conduta das organizações ou empresas, levando em conta basicamente a sua relação com diversos setores e campos com os quais ela se relaciona: funcionários, acionistas, fornecedores, concorrência, com a comunidade, com a política e com o meio ambiente. Nesse contexto multifacetado de relações, a conduta de todos que compõem a empresa ou organização, os valores e as convicções que norteiam suas práticas contribuem enormemente para a construção da identidade ética da empresa. Não se discute mais se uma empresa deve ter uma conduta ética, pois ela lida com a atividade humana, que sempre imprime valores e avalia volarativamente tudo o que realiza. E sendo a ética a reflexão sobre a conduta moral dos homens em sociedade, os atos de cada indivíduo que integra uma empresa não estão isentos de tal reflexão. Aqui vamos refletir sumariamente sobre a relação da empresa com seus clientes
Com o mercado cada vez mais competitivo e os consumidores cada vez exigentes na hora de comprar, as organizações investem na construção de um diferencial em relação às demais, que comercializam o mesmo produto ou serviço, tendo sempre em vista a satisfação e fidelização do cliente. Nessa disputa, é oportuno considerar que as motivações que fazem um cliente optar por uma dentre tantas empresas que vendem o mesmo produto ou serviço está para além de uma relação meramente comercial. Trata-se, na verdade, de uma interação entre empresa e consumidor na qual interagem valores como respeito, honestidade, justiça, eficiência, responsabilidade e confiança, dentre outros.
Numa empresa, a interação do funcionário com o cliente vai além de uma troca da mercadoria por dinheiro: pressupõe como fundamento uma relação ética, sem a qual o consumidor não se sentirá propenso a tornar-se um cliente. Por isso, uma empresa deve, em relação ao consumidor em geral, ser capaz de inspirar a realização de certas exigências éticas, que se manifestam de modo mais evidentes nos seguintes aspectos: competência no atendimento às necessidades, postura verdadeira, justa e responsável.
Competência no atendimento às necessidades: o cliente busca um bem ou serviço – o produto - e uma empresa se propõe satisfazer suas necessidades oferecendo-lhe o produto que deseja. A qualidade do produto ofertado não é medida pela marca ou conceito, mas pela capacidade de atender, satisfatoriamente, às necessidades do consumidor. Os clientes estão cada vez mais céticos em relação a propaganda e cada vez mais esclarecidos a cerca dos seus direitos como consumidores. Por isso, a venda de um bem ou serviço cuja qualidade deixa a desejar, ainda que sob o pretexto de ser mais barato, pode resultar em prejuízo para o cliente e conseqüentemente para a empresa. O melhor produto para um consumidor é sempre aquele que satisfaz as suas necessidades. Para isso, uma segunda exigência ética se impõe naturalmente. A boa-fé ou veracidade na hora de apresentar um produto ao cliente.
Verdade na apresentação do produto: algumas empresas estimulam os funcionários a vender seus produtos, premiando-os com brindes, comissões e outras formas de incentivos e, não raro, o vendedor é orientado a omitir certas deficiências do produto e usar de má-fé com o cliente. A empresa que procede assim pode sofrer dois problemas éticos sérios: primeiro, estimula no funcionário uma conduta que, se usada contra a própria empresa, pode trazer sérios prejuízos; segundo, deixa claro que a gerencia da organização não é referência ética, portanto, não é pessoa muito confiável; e, por fim, o cliente que se sente enganado é um ótimo veiculo de propaganda contra a empresa.
Por isso, o vendedor, ao ser indagado por um cliente sobre o produto, deve proceder de forma honesta e transparente, pois o uso da má-fé, motivado pela preocupação de vender a qualquer custo, pode ter sérios danos à empresa e o vendedor. Uma empresa não vende só um produto, mas a sua própria imagem. E quanto mais honesta for sua relação com o cliente mais sairá ganhando. A experiência tem mostrado que o vendedor ganha a confiança do cliente quando é honesto na hora de elucidar as razões pelas quais dois produtos que têm a mesma finalidade possuem preços diferentes; quando menciona as vantagens e desvantagens do produto. O cliente não se sente enganado por uma propaganda enganosa e estabelece uma relação de confiança com a empresa.
 Justiça no estabelecimento do preço: A conduta ética na hora de estabelecer o preço de um produto é fundamental. As pessoas pechincham, comparam, fazem listagem de preço e só então decidem comprar. É mais inteligente e ético colocar um preço justo por um produto para ganhar sempre, do que, querendo ganhar logo, perder sempre. São inúmeros os exemplos de prestadoras de serviço que cobram um preço abusivo e que não têm critérios claros de fixação de preços para os serviços oferecidos. Uma empresa que vende produto ou serviço, mas que seus preços são considerados abusivos, normalmente é vista como uma empresa desonesta, porque explora os consumidores.
Responsabilidade nos compromissos assumidos: faz parte de uma conduta ética da empresa cumprir prazos e compromissos assumidos com o cliente. Disso resulta a expressão da sua responsabilidade, enquanto empresa, e de seu respeito pelo cliente. A empresa, de modo geral, desconhece quais as motivações do consumidor ao comparar aquele bem ou serviço: um presente para uma data especial, uma necessidade urgente, etc... Independente disso, o cumprimento do prazo estabelecido para entrega do produto é fundamental para uma imagem de empresa ética. Quando, por qualquer imprevisto, não for possível cumprir os compromissos ou prazos assumidos com o cliente, é muito importante que se tenha o cuidado de avisá-lo dessa impossibilidade e, se for viável, apresentar as razões do atraso, denotando um grande respeito pelo cliente. Pois é tolerável que não se respeite um prazo, mas nunca que se desrespeite um cliente.

Rogério Miranda de Almeida: um filósofo cratense


Prof.: Epitácio Rodrigues


Poucas pessoas do Crato conhecem o fato, mas essa cidade tem um nome que a representa com muita competência e profundidade intelectual na seleta comunidade filosófica internacional. De fato, o professor Rogério Miranda de Almeida, com atuação e reconhecimento fora do Brasil como filósofo e teólogo é, na verdade, um autêntico cidadão cratense, desde o seu nascimento, no dia 9 de abril de 1953.
Foi na Cidade do Crato que fez os seus primeiros estudos, inicialmente no Colégio Estadual Wilson Gonçalves, depois no Colégio Diocesano do Crato. Posteriormente, cursou Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), em São Paulo.
Doutorou-se em teologia pela Universidade de Estrasburgo, na França e em Filosofia pela Universidade de Mertz, também na França. Ministrou aulas de filosofia e teologia no Saint Vicent College, em Latrobe, na Pensivalvania, Estados Unidos, por oito anos, no período de 1995 a 2003.
Em Roma, na Itália, foi professor de Filosofia na Universidade Santo Anselmo, de 1997 a 2007, e de Teologia na Universidade Gregoriana, de 1999 a 2007.
Com a fundação do curso de pós-graduação (mestrado) em Filosofia, na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, em Curitiba, Rogério Miranda foi convidado a retornar ao Brasil, e integrar o corpo docente dessa Universidade, onde, atualmente, ministra aulas nos cursos de mestrado em Filosofia e Teologia.
Como Filósofo, o foco das suas filosóficas engloba, na filosofia antiga, desde os filósofos pré-socráticos, passando por Platão e Santo Agostinho. Já no que se refere à filosofia contemporânea, seus trabalhos estão mais centrados no pensamento de Nietzsche, Artur Schopenhauer, Sigmund Freud (fundador da Psicanálise), Lacan. Seus temas mais abordados no estudo destes pensadores são questão do desejo e da linguagem.
A sua produção engloba, além de uma extensa lista de artigos publicados em revistas brasileiras e internacionais, sobre Teologia e Filosofia, alguns deles disponíveis na internet. No que diz respeito ao campo estritamente filosófico, Rogério Miranda escreveu e publicou os seguintes livros:
Nietzsche et le paradoxe, (escrito em francês), posteriormente traduzido para o inglês e para o português (Nietzsche e o paradoxo, Loyola, 2005;
Nietzsche e Freud: Eterno Retorno e compulsão à repetição, Loyola, 2005,
Eros e Tânatos: A Vida, a morte, o desejo (Loyola, 2007).
Graças a sua perspicácia e profundidade intelectual, os textos de Rogério Miranda têm despertado interesse também nos especialistas brasileiros: suas obras são lidas, resenhadas, citadas, comentadas e tematizadas nas pesquisas de cursos de pós-graduação.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Agostinho e a visão teo-teleo-filosófica da história



Prof.: Epitácio Rodrigues

O encontro do cristianismo com a filosofia grega representou uma ocasião para uma grande síntese cultural entre dois mundos ricos em expressões humanas. Foi também um período de choques, diferenças e diálogos, nem sempre fáceis, do qual a Patristica conserva para a humanidade um testemunho inconteste. Uma das muitas diferenças diz respeito ao modo de conceber o próprio tempo e a história. Enquanto os gregos viam o tempo e, conseqüentemente a história humana, de forma cíclica, os cristãos afirmavam, a partir de sua convicção de fé, que o tempo é linear e história humana repleta de eventos decisivos e irrepetíveis, pois a história possui uma origem no tempo e um sentido teleológico, ou seja, caminha para um fim. A compreensão da história na visão bíblico-cristã pode, grosso modo, ser resumida em três fases bem definidas, porém interligadas: da criação à queda; seguida da aliança ao tempo de espera do Messias; a vinda do Cristo ou Messias salvador até o juízo final.
Nesse encontro entre fé cristã e filosofia, coube a Agostinho, considerado um dos grandes gênios da humanidade e um dos mais brilhantes pensadores cristãos de todos os tempos, ser o porta-voz dessa visão bíblica da história no cenário filosófico.
Autor de vasta produção intelectual, uma das suas obras mais citadas no campo filosófico é A Cidade de Deus (De Civitate Dei), iniciada em 412, dois anos após o bárbaro Alarico invadir Roma, com a finalidade inicial de defender os cristãos contra a acusação dos romanos, segundo a qual a fé cristã era responsável pelo destino trágico de Roma. Ao cabo de catorze anos de intensa atividade pastoral e intelectual, Agostinho apresenta o trabalho dividido em 122 livros, a respeito do qual dirá o historiador Daniel Rops:

É impossível esgotar, nas poucas linhas de uma definição, um livro que é um dos monumentos do espírito humano. É uma filosofia da história, uma teoria do Estado e da vida social, um compêndio das relações entre o espiritual e o terreno; e é, ao mesmo tempo, uma espécie de arte de viver nas horas de amargura, um tesouro de consolação (1991: 47)

O conturbado período de invasão bárbara e decadência do império romano, suscitou as reações mais adversas. Enquanto muitos contemporâneos lamentavam o fim da civilização romana e do próprio mundo, Agostinho, na Cidade de Deus, unia fé e filosofia para apresentar, sob um prisma novo no cenário filosófico, uma nova compreensão para o sentido da história. Esse trabalho o consagrará, segundo o filósofo Jacques Maritain, como o primeiro filósofo a produzir um verdadeiro tratado de filosofia da história, opinião partilhada por Daniel Rops:

Como aconteceu muitas vezes com este lutador, a reação de santo Agostinho originou-se de uma polêmica. Para que pudesse deixar clara a sua doutrina da Graça, fora-lhe necessário Pelágio; para que empreendesse a sua grande obra e fundasse a filosofia da história, precisou da queda do império. (ROPS, 1991: 47).

Agostinho, na Cidade de Deus, partindo de categorias cristãs, desenvolve uma compreensão da história, dividida em três grandes períodos: o princípio, que se dá com a criação; um passado marcado por três fases intermediárias - o pecado original e as conseqüências dele decorrentes, a espera do Messias salvador, a encarnação e paixão do Cristo, e a constituição da Igreja; e um fim, que se dará no Dia do Senhor, com o juízo e ressurreição final. A história é interpretada a partir de categorias como amor a Deus, pecado, bem e mal, de tal forma que a história se identifica com a história da perdição ou salvação do homem por Deus. Nas palavras de Bernadette Abrão, “Agostinho propõe uma filosofia da história: a finalidade da história, que coincide com seu fim, é a vitória definitiva da cidade de Deus, com o retorno do Messias e o juízo final.” (ABRÃO, 2004:101).
Ainda que profundamente marcada pela mensagem e pela teologia cristãs, a interpretação agostiniana da história humana representa uma verdadeira revolução, na medida em que introduz um sentido teleológico para a história. A partir de então ela deixará de ser concebida como períodos circulares, repetindo-se cíclica e infinitamente, passando a ser vista como uma caminhada linear da humanidade, iniciada na criação e tendo o seu termo no fim último escatológico, num movimento ascendente da terra ao céu.
A teoria agostiniana da história teve grande influência na idade média e perdurou com grande aceitação até o período do Renascimento.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Filosofia e Cotidiano: do Ninguém à Pessoa.



(Uma crítica filosófico-personalista em forma de Crônica.)

Prof. Epitácio Rodrigues

A você sem rosto, nome e individualidade, dediquei parte do meu sono, da minha noite e do meu tempo para dizer-lhe da cotidiana experiência do ninguém construída pela indiferença do outro, pela massificação das estatísticas e pelo desprezo de quem somos simplesmente por aquilo que fazemos.
Para falar a verdade, eu nem estava como vontade de escrever. Peguei casualmente uma pequena coletânea de crônicas de Rubem Braga e li uma cujo enredo girava em torno de um padeiro que se apresentava como um ninguém porque “muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: ‘não é ninguém, não, senhora, é o padeiro” (Rubem Braga. História de um Homem Rouco. O Dia, p. 36).
Assim que terminei a leitura, decidi dar um pouco mais de atenção a esta grande aporia filosófica chamada “o nada”. Comecei analisando uma afirmação de Jean Paul Sartre, o filósofo autor de “O Ser e o Nada”. Segundo ele, “o uso que fazemos da noção de nada em sua forma familiar pressupõe sempre uma especificação prévia do ser. A esse respeito, é de notar-se que o idioma nos ofereça um nada de coisa (“nada”) e um nada de seres humanos(“ninguém”)” ( Ser e o Nada. Vozes, p. 57).
        O filósofo teve o mérito de colocar as coisas em termos humanos, pois não é preciso grandes elucubrações para se descobrir que o ser negado quotidianamente não é outro senão o próprio ser humano.
Desde o início do pensar filosófico, homens respeitados na arte de filosofar carregaram suas tintas sobre o problema do nada. Mas, o nada foi sempre abordado numa perspectiva metafísica, abstrata, neutra e impessoal, quando o que realmente nos inquieta não é uma coisa neutra e indeterminada, e sim o vazio humano, o seu próprio nadificar diário. O cotidiano é marcado por expressões nadificantes. Dia após dia vamos, paulatinamente, construindo um vocabulário que funciona como um complexo de idéias-força a partir do qual gerenciamos a nossa vida. Esta consciência é importante, porque, não raro, as idéias-força sobre nós mesmos são profundamente marcadas por experiências negativas e acabam comprometendo de modo negativo a compreensão que temos de nossa existencial pessoal. Palavras como eu não posso, eu não consigo e eu não mereço, revelam a prisão sem muros na qual estamos encarcerados e só muito raramente nos damos contas disso. Será por isso que os gramáticos dizem que o ninguém é um pronome indefinido? Para a filosofia da existência, mas de que uma palavra que antecede ou substitui o nome, ninguém é um projeto de vida.
A experiência do ninguém como realidade existencial é anterior a toda possibilidade de nome. Dizer ninguém é expressar o fenômeno do não humano, da não-pessoa. É uma experiência existencial.
A minha curiosidade levou-me aos dicionários etimológicos. Descobri que na língua latina, onde o termo encontra suas raízes mais imediatas, ninguém é nemo(nemo–inis). Não é um pronome, mas um substantivo. Dizer nemo, na sua eloqüência mais originariamente latina, é dizer ne-mo. Aqui o ne assume a sua condição primivera de advérbio de negação (ne=não) e hemo, substantivo masculino arcaico sinônimo de homo (homem), termo usado para designar o gênero humano, uma pessoa, um homem, um indivíduo. Enquanto termo, nemo surge de um processo filológico de aglutinação (ne + hemo = neemo ou nehmo = nemo) e traz, portanto, na sua carga significativa o sentido de negação do homem, negação da pessoa (ou da sua dignidade pessoal).
Como é que se nega uma pessoa? Como se alguém se torna ninguém? O dia-a-dia é um lugar repleto de construção do ninguém. Pois, ninguém não é só um termo, é uma prática de negação da alteridade. Quando o homem que faz pão desaparece, aos olhos da empregada, que também é só a empregada, e ela fala para sua senhora, que já não é só uma pessoa, mais um título de poder: “não é ninguém, não, senhora, é o padeiro”.
Nessa convivência efêmera, na qual as relações são econômicas, as pessoas se relacionam com rótulos de poder de compra e mercadoria à venda, não sobrando espaço para convivência com as pessoas: ou elas são porque compra ou são o que vendem. O padeiro se nadifica e só tem valor enquanto vende o serviço de fabricação de pães, a empregada, enquanto vende o serviço de limpeza etc.
Talvez seja oportuno, lembrar que a palavra pessoa é profundamente relacional. Segundo os lexicógrafos, o termo pessoa deriva de termo grego prosopon que significava comumente rosto, é originariamente formado de duas outras palavras: pros, “em direção de” e ops, “olho”, e o seu sentido mais preciso é: “aquilo que atrai o nosso olhar”. O filósofo argentino, Henrique Dussel, afirma que uma pessoa se torna pessoa diante de outra pessoa ou pessoas. Que quando estamos com o rosto diante de outro rosto na relação prática, isto é relação interpessoal, ele é alguém para mim e eu sou alguém para ele. Pois, o face-a-face de duas ou mais pessoas é ser pessoa. A experiência da proximidade entre pessoas como pessoas, lembra o filósofo, é que constitui o outro como ‘próximo (próximo, visinho, alguém, como outro; e não como coisa, instrumento, mediação (Ética comunitária, p.19).
Num mundo onde todos são alguém, talvez disséssemos: Quando seu Joaquim, ainda muito cedo, tocou a campainha, segurando uma sacola de pães fresquinhos que ele fizera em sua padaria, a dona Maria Alice perguntou a dona Helena, a senhora que estava trabalhava em sua casa:
- Quem tocou a campainha, Dona Helena?
- Foi seu Joaquim, trazendo os pães para o café da manhã. – respondeu ela. E assim começou uma nova forma de se olhar as pessoas.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

História da Filosofia : os Sofistas



Epitácio Rodrigues

A filosofia, como sabemos, inicia-se com a preocupação acerca da physis, o princípio originário da natureza e, depois de um período de investigação, discordância e esfriamento, surge uma nova etapa na história do pensamento filosófico ocidental. Não se trata de um salto sem nenhuma relação com a produção filosófica anterior, pois os protagonistas dessa nova fase estão teoricamente ligados a seus antecessores. Porém, a falta de consenso e as disparidades entre as teorias dos pré-socráticos suscitam uma desconfiança sobre a existência de uma verdade absoluta e eterna (como queria Parmênides). Por isso, alguns filósofos se esforçam para compreender a realidade e o próprio conhecimento de uma forma mais dinâmica, marcada pelo conflito dialético e provisório.
Além disso, as novas exigências do contexto sócio-político e cultural obrigaram um redimensionamento da investigação e discussão filosófica, no qual o foco de interesse e atenção dos filósofos volta-se para o homem e sua relação com a sociedade. Pode-se mesmo dizer que a ética, a política e, de certo modo, a questão da verdade, da linguagem estão entre as grandes questões.
As mudanças no cenário político da Grécia, sobretudo em Atenas, com a saída do regime da tirania e da oligárquia e entrada numa fase de democracia direta, as decisões importantes passam a ser tomadas em assembléias, nas quais se sobressaia quem fosse melhor nos confrontos de opiniões e na capacidade de argumentação. Os cidadãos de Atenas sentem a necessidade de aprender a arte de argumentar e de persuadir seus ouvintes e assim garantir que seus interesses pessoais e de sua classe prevaleçam sobre os demais.
Diante dessa demanda, surge uma nova classe de professores sábios itinerantes, especialistas na arte da retórica e na gramática, conhecidos como sofistas. O nome é muito sugestivo e mostra como eram vistos por todos. Na língua grega a palavra para designar sábio é sophos, da qual deriva o termo sofista. Portanto, esses professores tidos como sábios e conhecedores de uma gama variada de assuntos, se propunham ensinar as técnicas do discurso para influenciar e persuadir seus adversários no debate político. Assim, jogos de palavras, técnicas de raciocínios e certo relativismo filosófico eram estimulados nos procedimentos didáticos dos sofistas.

Os sofistas ensinavam técnicas de persuasão para os jovens, que aprendiam a defender a posição ou opinião A, depois a posição ou opinião contrária, não-A, de modo que, numa assembléia, soubessem ter fortes argumentos a favor ou contra uma opinião e ganhassem a discussão. (CHAUI, 2001: 37)

No que se refere à posição filosófica da sofistica, pode-se dizer que, apesar das diferenças entre eles, o relativismo é um elemento comum em todos os filósofos desse movimento. Eles defendiam não a existência de uma verdade única e absoluta, “tudo é relativo ao individuo, ao momento, a um conjunto de fatores e circunstâncias” (COTRIM, 2002: p. 91).
Por causa desse relativismo filosófico e da cobrança por seus ensinamentos, os sofistas foram duramente criticados por seus contemporâneos, os filósofos atenienses, Sócrates e Platão. Pesava sobre eles a acusação de mercenários, professores que estavam preocupados apenas em ganhar dinheiro, sem um compromisso com a verdade. Em poucas palavras, seus ensinamentos nada mais eram que uma produção intencional da falsidade e o uso da retórica como instrumento de manipulação.
Essas críticas influenciaram a visão que a posteridade filosófica teria dos sofistas até a modernidade, quando filósofos e especialistas em cultura grega descortinaram o caráter tendencioso das colocações de Platão a cerca da sofística.
Os principais sofistas foram: Licrofon, Pródicos, que teria sido mestre de Sócrates, Trasímaco, Hípias, Protágoras e Górgias. Como as informações sobre esses pensadores são muito fragmentadas, vamos apresentar sumariamente apenas os três últimos, que são considerados os mais notáveis dentre eles:
Hípias de Elis (séc. V a.C.) As informações sobre Hípias são escassas. Sabemos apenas que ele era um filósofo da primeira geração de sofistas, sendo citado nos diálogos Platônico Hipias e Protágoras. Era detentor de um saber enciclopédico e profundo conhecedor de todas as artes. A seu respeito dirá o filósofo Jacques Maritain:

Hípias, que brilhava igualmente na Astronomia, Geometria, Aritmética, Fonética, Rítmica, Música, Pintura, Etnologia, Mnemotécnica, epopéia, Tragédia, epigrama, Ditirambo e nas exortações morais, que foi embaixador de Elis e aprendeu todos os ofícios (tendo comparecido uma vez aos jogos olímpicos com uma roupa feita por suas próprias mãos), lembra um herói da renascença italiana (1963, p. 45).

Platão atribui a Hípias a distinção entre o que é bom por natureza, sendo eternamente válido, e o que é conforme a lei, sendo contingente e, por conseguinte, coagindo a natureza humana. (cf. JAPIASSÚ, 2006: p.131.)
Protágoras de Abdera (c. 490-421 a.C.) O filósofo Protágoras nasceu em Abdera, na Trácia, mas ainda muito jovem transferiu-se para Atenas. Nesta cidade tornou–se professor de uma multidão de alunos. É célebre a afirmação de Protágoras: “o homem é a medida de todas as coisas, das que são como são e das que não são como são”. Sintetizando assim o seu humanismo e seu relativismo filosófico, na medida em que coloca o homem no centro do conhecimento e condiciona a verdade do conhecimento à opinião da maioria, podendo variar de acordo com os lugares, as épocas e os interesses.
Górgias de Leontinos (c. 485-+380 a.C.): retórico e filósofo, nascido em Leontinos, região da Sicília, na Itália, por volta de 485, teria chefiado uma delegação a Atenas, em 427, para conseguir a interferência ateniense contra Siracusa, que ameaçava a independência das cidades vizinhas; obteve grande sucesso graças aos seus conhecimentos de oratória. Volta a Atenas, onde se torna um professor de oratória muito conhecido e respeitado.
No campo da filosofia, Górgias leva o relativismo de Protágoras ao ceticismo radical, como se pode observar no trecho da sua obra intitulada Sobre a natureza, ou seja, sobre o que não é. Ali o filósofo defende claramente: “Nada existe; se existisse alguma coisa, não poderíamos conhecê-la, se pudéssemos conhecê-la, não poderíamos comunicar nosso conhecimento aos outros”. (apud: MONDIN, 1981, p.42).
Qual a importância dos sofistas? Pode-se dizer que o movimento sofista deu uma grande contribuição para os estudos de etimologia, gramática e retórica. Além disso, suas reflexões já trazem germinalmente algumas das grandes questões da Teoria do Conhecimento e da Filosofia da Linguagem, ramos da filosofia que ocuparam lugar de destaque no período moderno e contemporâneo.


BIBLIOGRAFIA:

JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 4ª ed. atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, ed. 2006.
DUZOZOI, Gerard. e ROUSSEL, André. Dicionário de Filosofia. Campinas, São Paulo: Papirus, 1993.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: história e grandes temas. 15 ed. reform. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2002.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 12ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2001.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 12ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.
MARITAIN, Jacques. Elementos de Filosofia I: Introdução Geral à Filosofia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1963.
MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. Vol. I: os filósofos do ocidente. 7ª ed. São Paulo: Paulus, 1981 (col. Filosofia) pp. 42-43.

Ensaio SOBRE A OPINIÃO

“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ide...