domingo, 20 de fevereiro de 2011

Agostinho e a visão teo-teleo-filosófica da história



Prof.: Epitácio Rodrigues

O encontro do cristianismo com a filosofia grega representou uma ocasião para uma grande síntese cultural entre dois mundos ricos em expressões humanas. Foi também um período de choques, diferenças e diálogos, nem sempre fáceis, do qual a Patristica conserva para a humanidade um testemunho inconteste. Uma das muitas diferenças diz respeito ao modo de conceber o próprio tempo e a história. Enquanto os gregos viam o tempo e, conseqüentemente a história humana, de forma cíclica, os cristãos afirmavam, a partir de sua convicção de fé, que o tempo é linear e história humana repleta de eventos decisivos e irrepetíveis, pois a história possui uma origem no tempo e um sentido teleológico, ou seja, caminha para um fim. A compreensão da história na visão bíblico-cristã pode, grosso modo, ser resumida em três fases bem definidas, porém interligadas: da criação à queda; seguida da aliança ao tempo de espera do Messias; a vinda do Cristo ou Messias salvador até o juízo final.
Nesse encontro entre fé cristã e filosofia, coube a Agostinho, considerado um dos grandes gênios da humanidade e um dos mais brilhantes pensadores cristãos de todos os tempos, ser o porta-voz dessa visão bíblica da história no cenário filosófico.
Autor de vasta produção intelectual, uma das suas obras mais citadas no campo filosófico é A Cidade de Deus (De Civitate Dei), iniciada em 412, dois anos após o bárbaro Alarico invadir Roma, com a finalidade inicial de defender os cristãos contra a acusação dos romanos, segundo a qual a fé cristã era responsável pelo destino trágico de Roma. Ao cabo de catorze anos de intensa atividade pastoral e intelectual, Agostinho apresenta o trabalho dividido em 122 livros, a respeito do qual dirá o historiador Daniel Rops:

É impossível esgotar, nas poucas linhas de uma definição, um livro que é um dos monumentos do espírito humano. É uma filosofia da história, uma teoria do Estado e da vida social, um compêndio das relações entre o espiritual e o terreno; e é, ao mesmo tempo, uma espécie de arte de viver nas horas de amargura, um tesouro de consolação (1991: 47)

O conturbado período de invasão bárbara e decadência do império romano, suscitou as reações mais adversas. Enquanto muitos contemporâneos lamentavam o fim da civilização romana e do próprio mundo, Agostinho, na Cidade de Deus, unia fé e filosofia para apresentar, sob um prisma novo no cenário filosófico, uma nova compreensão para o sentido da história. Esse trabalho o consagrará, segundo o filósofo Jacques Maritain, como o primeiro filósofo a produzir um verdadeiro tratado de filosofia da história, opinião partilhada por Daniel Rops:

Como aconteceu muitas vezes com este lutador, a reação de santo Agostinho originou-se de uma polêmica. Para que pudesse deixar clara a sua doutrina da Graça, fora-lhe necessário Pelágio; para que empreendesse a sua grande obra e fundasse a filosofia da história, precisou da queda do império. (ROPS, 1991: 47).

Agostinho, na Cidade de Deus, partindo de categorias cristãs, desenvolve uma compreensão da história, dividida em três grandes períodos: o princípio, que se dá com a criação; um passado marcado por três fases intermediárias - o pecado original e as conseqüências dele decorrentes, a espera do Messias salvador, a encarnação e paixão do Cristo, e a constituição da Igreja; e um fim, que se dará no Dia do Senhor, com o juízo e ressurreição final. A história é interpretada a partir de categorias como amor a Deus, pecado, bem e mal, de tal forma que a história se identifica com a história da perdição ou salvação do homem por Deus. Nas palavras de Bernadette Abrão, “Agostinho propõe uma filosofia da história: a finalidade da história, que coincide com seu fim, é a vitória definitiva da cidade de Deus, com o retorno do Messias e o juízo final.” (ABRÃO, 2004:101).
Ainda que profundamente marcada pela mensagem e pela teologia cristãs, a interpretação agostiniana da história humana representa uma verdadeira revolução, na medida em que introduz um sentido teleológico para a história. A partir de então ela deixará de ser concebida como períodos circulares, repetindo-se cíclica e infinitamente, passando a ser vista como uma caminhada linear da humanidade, iniciada na criação e tendo o seu termo no fim último escatológico, num movimento ascendente da terra ao céu.
A teoria agostiniana da história teve grande influência na idade média e perdurou com grande aceitação até o período do Renascimento.

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