sábado, 19 de fevereiro de 2011

Filosofia e Cotidiano: do Ninguém à Pessoa.



(Uma crítica filosófico-personalista em forma de Crônica.)

Prof. Epitácio Rodrigues

A você sem rosto, nome e individualidade, dediquei parte do meu sono, da minha noite e do meu tempo para dizer-lhe da cotidiana experiência do ninguém construída pela indiferença do outro, pela massificação das estatísticas e pelo desprezo de quem somos simplesmente por aquilo que fazemos.
Para falar a verdade, eu nem estava como vontade de escrever. Peguei casualmente uma pequena coletânea de crônicas de Rubem Braga e li uma cujo enredo girava em torno de um padeiro que se apresentava como um ninguém porque “muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: ‘não é ninguém, não, senhora, é o padeiro” (Rubem Braga. História de um Homem Rouco. O Dia, p. 36).
Assim que terminei a leitura, decidi dar um pouco mais de atenção a esta grande aporia filosófica chamada “o nada”. Comecei analisando uma afirmação de Jean Paul Sartre, o filósofo autor de “O Ser e o Nada”. Segundo ele, “o uso que fazemos da noção de nada em sua forma familiar pressupõe sempre uma especificação prévia do ser. A esse respeito, é de notar-se que o idioma nos ofereça um nada de coisa (“nada”) e um nada de seres humanos(“ninguém”)” ( Ser e o Nada. Vozes, p. 57).
        O filósofo teve o mérito de colocar as coisas em termos humanos, pois não é preciso grandes elucubrações para se descobrir que o ser negado quotidianamente não é outro senão o próprio ser humano.
Desde o início do pensar filosófico, homens respeitados na arte de filosofar carregaram suas tintas sobre o problema do nada. Mas, o nada foi sempre abordado numa perspectiva metafísica, abstrata, neutra e impessoal, quando o que realmente nos inquieta não é uma coisa neutra e indeterminada, e sim o vazio humano, o seu próprio nadificar diário. O cotidiano é marcado por expressões nadificantes. Dia após dia vamos, paulatinamente, construindo um vocabulário que funciona como um complexo de idéias-força a partir do qual gerenciamos a nossa vida. Esta consciência é importante, porque, não raro, as idéias-força sobre nós mesmos são profundamente marcadas por experiências negativas e acabam comprometendo de modo negativo a compreensão que temos de nossa existencial pessoal. Palavras como eu não posso, eu não consigo e eu não mereço, revelam a prisão sem muros na qual estamos encarcerados e só muito raramente nos damos contas disso. Será por isso que os gramáticos dizem que o ninguém é um pronome indefinido? Para a filosofia da existência, mas de que uma palavra que antecede ou substitui o nome, ninguém é um projeto de vida.
A experiência do ninguém como realidade existencial é anterior a toda possibilidade de nome. Dizer ninguém é expressar o fenômeno do não humano, da não-pessoa. É uma experiência existencial.
A minha curiosidade levou-me aos dicionários etimológicos. Descobri que na língua latina, onde o termo encontra suas raízes mais imediatas, ninguém é nemo(nemo–inis). Não é um pronome, mas um substantivo. Dizer nemo, na sua eloqüência mais originariamente latina, é dizer ne-mo. Aqui o ne assume a sua condição primivera de advérbio de negação (ne=não) e hemo, substantivo masculino arcaico sinônimo de homo (homem), termo usado para designar o gênero humano, uma pessoa, um homem, um indivíduo. Enquanto termo, nemo surge de um processo filológico de aglutinação (ne + hemo = neemo ou nehmo = nemo) e traz, portanto, na sua carga significativa o sentido de negação do homem, negação da pessoa (ou da sua dignidade pessoal).
Como é que se nega uma pessoa? Como se alguém se torna ninguém? O dia-a-dia é um lugar repleto de construção do ninguém. Pois, ninguém não é só um termo, é uma prática de negação da alteridade. Quando o homem que faz pão desaparece, aos olhos da empregada, que também é só a empregada, e ela fala para sua senhora, que já não é só uma pessoa, mais um título de poder: “não é ninguém, não, senhora, é o padeiro”.
Nessa convivência efêmera, na qual as relações são econômicas, as pessoas se relacionam com rótulos de poder de compra e mercadoria à venda, não sobrando espaço para convivência com as pessoas: ou elas são porque compra ou são o que vendem. O padeiro se nadifica e só tem valor enquanto vende o serviço de fabricação de pães, a empregada, enquanto vende o serviço de limpeza etc.
Talvez seja oportuno, lembrar que a palavra pessoa é profundamente relacional. Segundo os lexicógrafos, o termo pessoa deriva de termo grego prosopon que significava comumente rosto, é originariamente formado de duas outras palavras: pros, “em direção de” e ops, “olho”, e o seu sentido mais preciso é: “aquilo que atrai o nosso olhar”. O filósofo argentino, Henrique Dussel, afirma que uma pessoa se torna pessoa diante de outra pessoa ou pessoas. Que quando estamos com o rosto diante de outro rosto na relação prática, isto é relação interpessoal, ele é alguém para mim e eu sou alguém para ele. Pois, o face-a-face de duas ou mais pessoas é ser pessoa. A experiência da proximidade entre pessoas como pessoas, lembra o filósofo, é que constitui o outro como ‘próximo (próximo, visinho, alguém, como outro; e não como coisa, instrumento, mediação (Ética comunitária, p.19).
Num mundo onde todos são alguém, talvez disséssemos: Quando seu Joaquim, ainda muito cedo, tocou a campainha, segurando uma sacola de pães fresquinhos que ele fizera em sua padaria, a dona Maria Alice perguntou a dona Helena, a senhora que estava trabalhava em sua casa:
- Quem tocou a campainha, Dona Helena?
- Foi seu Joaquim, trazendo os pães para o café da manhã. – respondeu ela. E assim começou uma nova forma de se olhar as pessoas.

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