quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

História da Filosofia : os Sofistas



Epitácio Rodrigues

A filosofia, como sabemos, inicia-se com a preocupação acerca da physis, o princípio originário da natureza e, depois de um período de investigação, discordância e esfriamento, surge uma nova etapa na história do pensamento filosófico ocidental. Não se trata de um salto sem nenhuma relação com a produção filosófica anterior, pois os protagonistas dessa nova fase estão teoricamente ligados a seus antecessores. Porém, a falta de consenso e as disparidades entre as teorias dos pré-socráticos suscitam uma desconfiança sobre a existência de uma verdade absoluta e eterna (como queria Parmênides). Por isso, alguns filósofos se esforçam para compreender a realidade e o próprio conhecimento de uma forma mais dinâmica, marcada pelo conflito dialético e provisório.
Além disso, as novas exigências do contexto sócio-político e cultural obrigaram um redimensionamento da investigação e discussão filosófica, no qual o foco de interesse e atenção dos filósofos volta-se para o homem e sua relação com a sociedade. Pode-se mesmo dizer que a ética, a política e, de certo modo, a questão da verdade, da linguagem estão entre as grandes questões.
As mudanças no cenário político da Grécia, sobretudo em Atenas, com a saída do regime da tirania e da oligárquia e entrada numa fase de democracia direta, as decisões importantes passam a ser tomadas em assembléias, nas quais se sobressaia quem fosse melhor nos confrontos de opiniões e na capacidade de argumentação. Os cidadãos de Atenas sentem a necessidade de aprender a arte de argumentar e de persuadir seus ouvintes e assim garantir que seus interesses pessoais e de sua classe prevaleçam sobre os demais.
Diante dessa demanda, surge uma nova classe de professores sábios itinerantes, especialistas na arte da retórica e na gramática, conhecidos como sofistas. O nome é muito sugestivo e mostra como eram vistos por todos. Na língua grega a palavra para designar sábio é sophos, da qual deriva o termo sofista. Portanto, esses professores tidos como sábios e conhecedores de uma gama variada de assuntos, se propunham ensinar as técnicas do discurso para influenciar e persuadir seus adversários no debate político. Assim, jogos de palavras, técnicas de raciocínios e certo relativismo filosófico eram estimulados nos procedimentos didáticos dos sofistas.

Os sofistas ensinavam técnicas de persuasão para os jovens, que aprendiam a defender a posição ou opinião A, depois a posição ou opinião contrária, não-A, de modo que, numa assembléia, soubessem ter fortes argumentos a favor ou contra uma opinião e ganhassem a discussão. (CHAUI, 2001: 37)

No que se refere à posição filosófica da sofistica, pode-se dizer que, apesar das diferenças entre eles, o relativismo é um elemento comum em todos os filósofos desse movimento. Eles defendiam não a existência de uma verdade única e absoluta, “tudo é relativo ao individuo, ao momento, a um conjunto de fatores e circunstâncias” (COTRIM, 2002: p. 91).
Por causa desse relativismo filosófico e da cobrança por seus ensinamentos, os sofistas foram duramente criticados por seus contemporâneos, os filósofos atenienses, Sócrates e Platão. Pesava sobre eles a acusação de mercenários, professores que estavam preocupados apenas em ganhar dinheiro, sem um compromisso com a verdade. Em poucas palavras, seus ensinamentos nada mais eram que uma produção intencional da falsidade e o uso da retórica como instrumento de manipulação.
Essas críticas influenciaram a visão que a posteridade filosófica teria dos sofistas até a modernidade, quando filósofos e especialistas em cultura grega descortinaram o caráter tendencioso das colocações de Platão a cerca da sofística.
Os principais sofistas foram: Licrofon, Pródicos, que teria sido mestre de Sócrates, Trasímaco, Hípias, Protágoras e Górgias. Como as informações sobre esses pensadores são muito fragmentadas, vamos apresentar sumariamente apenas os três últimos, que são considerados os mais notáveis dentre eles:
Hípias de Elis (séc. V a.C.) As informações sobre Hípias são escassas. Sabemos apenas que ele era um filósofo da primeira geração de sofistas, sendo citado nos diálogos Platônico Hipias e Protágoras. Era detentor de um saber enciclopédico e profundo conhecedor de todas as artes. A seu respeito dirá o filósofo Jacques Maritain:

Hípias, que brilhava igualmente na Astronomia, Geometria, Aritmética, Fonética, Rítmica, Música, Pintura, Etnologia, Mnemotécnica, epopéia, Tragédia, epigrama, Ditirambo e nas exortações morais, que foi embaixador de Elis e aprendeu todos os ofícios (tendo comparecido uma vez aos jogos olímpicos com uma roupa feita por suas próprias mãos), lembra um herói da renascença italiana (1963, p. 45).

Platão atribui a Hípias a distinção entre o que é bom por natureza, sendo eternamente válido, e o que é conforme a lei, sendo contingente e, por conseguinte, coagindo a natureza humana. (cf. JAPIASSÚ, 2006: p.131.)
Protágoras de Abdera (c. 490-421 a.C.) O filósofo Protágoras nasceu em Abdera, na Trácia, mas ainda muito jovem transferiu-se para Atenas. Nesta cidade tornou–se professor de uma multidão de alunos. É célebre a afirmação de Protágoras: “o homem é a medida de todas as coisas, das que são como são e das que não são como são”. Sintetizando assim o seu humanismo e seu relativismo filosófico, na medida em que coloca o homem no centro do conhecimento e condiciona a verdade do conhecimento à opinião da maioria, podendo variar de acordo com os lugares, as épocas e os interesses.
Górgias de Leontinos (c. 485-+380 a.C.): retórico e filósofo, nascido em Leontinos, região da Sicília, na Itália, por volta de 485, teria chefiado uma delegação a Atenas, em 427, para conseguir a interferência ateniense contra Siracusa, que ameaçava a independência das cidades vizinhas; obteve grande sucesso graças aos seus conhecimentos de oratória. Volta a Atenas, onde se torna um professor de oratória muito conhecido e respeitado.
No campo da filosofia, Górgias leva o relativismo de Protágoras ao ceticismo radical, como se pode observar no trecho da sua obra intitulada Sobre a natureza, ou seja, sobre o que não é. Ali o filósofo defende claramente: “Nada existe; se existisse alguma coisa, não poderíamos conhecê-la, se pudéssemos conhecê-la, não poderíamos comunicar nosso conhecimento aos outros”. (apud: MONDIN, 1981, p.42).
Qual a importância dos sofistas? Pode-se dizer que o movimento sofista deu uma grande contribuição para os estudos de etimologia, gramática e retórica. Além disso, suas reflexões já trazem germinalmente algumas das grandes questões da Teoria do Conhecimento e da Filosofia da Linguagem, ramos da filosofia que ocuparam lugar de destaque no período moderno e contemporâneo.


BIBLIOGRAFIA:

JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 4ª ed. atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, ed. 2006.
DUZOZOI, Gerard. e ROUSSEL, André. Dicionário de Filosofia. Campinas, São Paulo: Papirus, 1993.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: história e grandes temas. 15 ed. reform. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2002.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 12ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2001.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 12ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.
MARITAIN, Jacques. Elementos de Filosofia I: Introdução Geral à Filosofia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1963.
MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. Vol. I: os filósofos do ocidente. 7ª ed. São Paulo: Paulus, 1981 (col. Filosofia) pp. 42-43.

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