domingo, 2 de janeiro de 2011

A FILOSOFIA BRASILEIRA: FALTA DIVULGAÇÃO DE NOSSOS PENSADORES.


Epitácio Rodrigues
(Prof.: e Pesquisador na área de Filosofia)

Por que só estudamos esses filósofos gregos, ingleses, alemães, franceses, italianos, não existe nenhum filósofo que seja brasileiro?
Essas indagações trazem um indicativo claro de que as questões sobre uma Filosofia entre nós, se no ou do Brasil, ou seja, se o que temos aqui são apenas filosofantes, isto é, comentadores cuja produção não passa de um “pálido reflexo das idéias então surgidas na Europa, nem sempre aqui discutidas a partir de seus mais importantes representantes” como defendiam Romero e Franca na primeira fase da Filosofia no Brasil, leitura que ainda paira sobre a produção filosófica brasileira; ou se existe um modo de produção filosófica que seja genuinamente brasileiro. Esse dilema é uma questão do passado e até pouco relevante. A indagação levantada pelos jovens estudantes do ensino médio a cerca da Filosofia evidencia claramente o anseio de saber o que estamos fazendo em termos de produção filosófica e quem são seus protagonistas.
O desafio da filosofia brasileira atualmente é popularizar sua história, os sistema ou correntes de pensamentos e seus representantes. O que defendo enfaticamente é que o problema da filosofia no Brasil não é a ausência de filósofos e de uma produção filosófica de alto nível, mas a falta de uma pedagogia de divulgação de seus pensadores.
Se algumas produções histográficas das idéias, no passado, negaram ao Brasil a existência de uma prática filosófica somente porque os pensadores estão vinculados a uma ou outra escola de origem européia. A repetição desse preconceito hoje é uma postura ingênua e superficial da própria história da Filosofia, primeiro porque dentre os já consagrados filósofos europeus, não são poucos os que se vinculam a escolas ou sistemas de países diferentes do seu, e esse fato não os descredencia como filósofos. Com certeza não faltará quem argumente que existe certa homogeneidade cultural na Europa capaz de justificar essa prática. Já as diferenças entre eles e nós são continentais. Não ignoro que somos diferentes, em muitos aspectos, da cultura européia, ainda que herdeiros dela pela colonização, todavia, a utilização de certas categorias de análise kantiana, por exemplo, não significa que apenas reproduzimos aqui uma teoria advinda de Europa. Basta olhar as obras de Tobias Barreto, nas quais aparece claramente a utilização de certas categorias da filosofia francesa e alemã, para questionar vários aspectos sociedade brasileira da sua época. Quando faz isso, já dá à sua reflexão uma fisionomia brasileira. Esta filosofando sobre o Brasil, a partir de categorias que ele considerou mais adequada a uma análise profunda do contexto e capaz de viabilizar uma crítica mais consiste e racionalmente fundamentada. Isso não faz da sua filosofia uma não reflexão inferior pelo fato de ter se reportado ao positivismo ou kantismo alemão. Noutras palavras, se não temos a patente de inventores da Filosofia Ocidental, mas refletimos a partir da longa tradição grego-romana e europeia, isso não invalida o nosso pensar.
Outra consideração ingênua e hipócrita que vez por outra escuto professores de Filosofia vociferar é o discursos que afirma: ‘adotar a maneira europeia de pensar é adotar o pensar do opressor. Não vejo muita libertação nessa leitura visto que tal discurso se apóia numa leitura de luta de classe, cujo genitor foi um europeu alemão.
Portanto, não é a desvinculação coma tradição filosófica européia ou ocidental que vai nos garantir uma originalidade no pensar filosófico, mas na capacidade de dialogar com a tradição, questionando-a, naquilo que considerarmos débil e resignificando ou que nos parecer válido na forma e caduco no conteúdo. Enfim, como “do nada, nada se cria”, partir do que se tem para chagar sempre mais além na atualidade e na qualidade. E isso os pensadores brasileiros já fazem como muita autoridade intelectual.
Feitos esses esclarecimentos, resta-nos abordar o verdadeiro problema da produção filosófica brasileira, a saber: a ênfase dada aos filósofos antigos e europeus em detrimento de um silêncio quase absoluto sobre os pensadores brasileiros.
Queremos deixar claro que não condenamos, em absoluto, a prática pedagógica vigente no ensino da filosofia no Brasil, por enfatizar os pensadores europeus. Pois entendo que a razão para se falar tanto em pré-socráticos, Sofistas, Sócrates, Platão, Aristóteles os filósofos helenistas gregos e romanos, Agostinho, Tomás de Aquino, Maquiavel, Bacon, Descartes, John Locke e Thomas Hobbes, Kant, Hegel, Marx, Sartre, Heidegger, Levinas, Adorno, Horkheimer, Foucault, Deleuze - só para citar alguns - está no fato de que a Filosofia tem uma história que não fomos nós que a iniciamos. Para se compreender bem esse diálogo, para se concordar, discordar, resignificar ou desprezar é importante dialogar com essa tradição. Por isso, volto a dizer, condenar a leitura das obras desses autores sob o argumento de que é um meio de legitimarmos o eurocentrismo e nos alienarmos na reprodução do discurso do opressor, não é caminho mais coerente, pois essa fala nada mais é do que um resquício da leitura das obras e idéias de Karl Marx, cujo contributo para uma nova compreensão da sociedade é indiscutível. Estudamos tais pensadores porque precisamos conhecer a história das idéias filosófica no ocidente, da qual somos herdeiros e que precisamos é reclamar o nosso direito à fala nesse dia-logo.
Dia-logo do qual, atualmente, já não estamos por fora como mero espectadores e reprodutores. O problema não está na falta de um cultivo da filosofia no nosso país, mas na pouca divulgação, nos meios populares, dessa produção. Antonio Paim, uma das grandes referências no estudo da Filosofia no Brasil, nos apresenta uma história das idéias que se inicia com a presença dos portugueses e que rompe com essa produção e cria uma forma de filosofia que seja a nossa de dialogar com a tradição, de discordar ou alterar certos pontos de reflexão, conforme a nossa situação e nossos problemas. A lista dos nossos pensadores, desde o século XIX não é pequena. Nela podemos vislumbrar nome de pensadores como Tobias Barreto, Sylvio Romero, Farias Brito, Pontes de Miranda, Miguel Reale, Leonel Franca, Antonio Paim, Lima Vaz, Marilena Chauí, Paulo Freire, Evaldo Coutinho, Silvio Gallo, Paulo Ghiraldelli, Jr... só para citar alguns. Temos já uma gama de sistemas ou correntes que foram e são lugares epistemológicos de reflexão filosófica, dentre as quais podemos elencar o ecletismo, o positivismo, o culturalismo, o espiritualismo, a fenomenologia, o neotomismo.
Mas então, qual é o verdadeiro problema? O Brasil possui um preconceito em relação à Filosofia, fruto de um discurso historicamente construído para descredenciá-la. Temos entre nós décadas de silêncio quase absoluto sobre a filosofia entre os jovens (mais precisamente de 1970 a 2008) e isso representa uma lacuna que demanda tempo para ser superada. O retorno da Filosofia ao Ensino Médio, nunca é demais lembrar, trará à cultura brasileira um contato maior com essa forma de construção de conhecimento, mas para consolidar a nossa identidade como pais com uma tradição filosófica não será suficiente tornar a sua presença obrigatória, é preciso que aqueles que produzam filosofia no entre nós sejam conhecidos por nós mesmos e pelos outros. Para isso, várias instituições terão que trabalhar juntas. A primeira delas é a própria universidade, que deve promover e incentivar pesquisas sobre os pensadores brasileiros, e a cadeira de Filosofia Brasileira, na Graduação, precisa ser mais incisiva e consistente na caracterização de uma filosofia produzida entre nós. Essas duas medidas ocasionarão, assim, um diálogo conceitual com esses pensadores, além de divulgar o seu trabalho. Ao lado disso, o que seria conseqüência quase que inevitável, dado o modo como atua o mercado editorial, que as obras desses pensadores estejam à disposição dos consumidores/pesquisadores, simpatizantes, professores e alunos da educação básica e do ensino superior. Pois, como já sabemos, não há Filosofia sem dia-logo com os pensadores e esse diálogo se dá através do contato com os textos.
Um segundo procedimento didático é viabilizar, já no Ensino Médio, o contato dos alunos com esses pensadores e suas idéias. Nesse sentido, basta lembrar, por exemplo, que Orientações Curriculares Para o Ensino Médio (MEC, 2006) proposta pelo MEC apresentam trinta temas como conteúdos a ser trabalhados na filosofia e nenhuma deles se refere à Filosofia Brasileira. O mesmo acontece, por exemplo, no estado do Ceará onde as Matrizes Curriculares Para o Ensino Médio (Coleção Escola Aprendente, SEDUC, 2009), no tocante à Filosofia guarda o mesmo silêncio sepulcral, apesar de a terra natal de Farias Brito, cuja importância dentro do contexto da Filosofia Brasileira é inegável. No referido estado, o filósofo é praticamente um ilustre desconhecido.
Uma última proposta pedagógica diz respeito aos nossos historiadores da filosofia, que devem inserir o pensamento brasileiro dentro da história geral da filosofia (visto que cada filósofo ou está vinculado a uma corrente filosófica, ou então será um pensador com uma corrente ou sistema próprio) e não reduzi-lo a um adendo. Quando pegamos o tão citado livro Curso de Filosofia (Zahar, 1986) de Antonio Rezende (org.), encontramos no final do livro, como capítulo à parte, algumas linhas dedicadas à Filosofia no Brasil, o mesmo acontece com a Introdução à Filosofia: aprendendo a pensar (Cortez, 2004) de Luckesi e Elizete Silva. Esses livros têm o mérito de trazer algo sobre o assunto, mas ainda colocado como anexo de uma história da qual não fazem parte.
Já os Fundamentos da filosofia: história e grandes temas (16ª Saraiva, 2008) de Gilberto Cotrim, o Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein (12ªed. Zahar, 2008) de Danilo Marcondes e o Convite à Filosofia (Ática, 12ª Ed. 2001) de Marilena Chauí, textos de grande circulação no país não mencionam a produção filosófica brasileira.
Com certeza, haverá que julgue esse conjunto de propostas ideológicas, mas o que realmente se reivindica aqui é que nós sejamos os primeiros a valorizar, difundir e, sobretudo, acreditar no que existe entre nós de produção filosófica e comecemos a demarcar o nosso assento no parlatório da filosófica ocidental.

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