segunda-feira, 6 de junho de 2011

A CIGARRA E A FORMIGA E A QUESTÃO DA FELICIDADE

Prof. Epitácio Rodrigues
A fábula da Cigarra e da Formiga

Durante todo o verão, a cigarra consumia e a formiga investia.
- Você está agindo de modo muito irracional – advertiu a formiga -; quando o inverno chegar, você vai se arrepender.
- Serei bastante infeliz – replicou a cigarra -, mas estou agindo de maneira racional. Ser racional coincide com ser feliz e, no momento, o meu prazer supera o sofrimento futuro. Junte-se a mim e cante ao sol!
- Para mim – respondeu a formiga -, ser feliz consiste em maximizar a utilidade ao longo de toda a existência. A infelicidade e a felicidade têm um peso constante. Assim, para ser racional, preciso trabalhar e investir para o inverno.
Chegou o inverno e a cigarra estava faminta. Pediu ajuda à formiga.
-Gostaria de poder ajudá-la – disse a formiga -, mas, como sou racional, não posso preferir o seu bem-estar ao meu: você nada tem para me dar em troca. Não se sente culpada por ter cantado durante todo o verão?
- Muito culpada – respondeu a cigarra -, exatamente como havia previsto. Contudo, o agora é o agora; antes, eu estava agindo de modo racional. É você que está sendo irracional, proibindo-se de me ajudar.
A formiga pensou. Mas só tinha alimento suficiente para até o final do inverno.
- O agora, para mim, é a vida inteira – explicou -, mas posso ajudá-la de outra forma. Você está vendo as folhas da árvore de Epicuro? São deliciosas e nutritivas. Mas, depois de um certo tempo, você irá adoecer. Eu não posso comê-las, porque avalio a felicidade ao longo de toda a existência. Entretanto, para você, o êxtase do momento presente supera a infelicidade futura.
A cigarra comeu as folhas e acabou adoecendo.
- Vale a pena? – perguntou a formiga à cigarra já agonizante.
- Não vale agora, mas valia antes – respondeu a cigarra.
A formiga: - Devo dizer-lhe uma coisa, mas não sei se para você será uma boa notícia. Existe um antídoto!
- Rápido, rápido! – exclamou a cigarra.
- Acho que você não pode usá-lo – retrucou a formiga -, porque primeiro irá passar muito mal, e só depois é que irá melhorar.
- Péssima notícia – respondeu a cigarra -, já que eu não posso investir na felicidade futura. Adeus.
A cigarra morreu e a formiga continuou com sua vida cinzenta, evitando momentos de felicidade que poderiam transformar-se em futuras infelicidades. Já bastante idosa, disse a si mesma: “É triste não poder quase nunca fazer o que se deseja, mas conduzir uma existência feliz torna a vida muito dura”.[1]

A fábula é uma metáfora da condição humana, mas explicitamente do projeto fundamental de cada pessoa. A questão que ela levanta é saber quem foi mais feliz: quem viveu intensamente o momento presente ou quem sempre trabalhou na construção de uma felicidade futura? O que seria então a felicidade? Um turbilhão de prazer intenso e imediato ou seria ela um esforço para evitar o sofrimento, e a infelicidade?
Desde a antiguidade, é famoso o adágio: “comamos e bebamos porque amanhã morreremos[2]
A apologia do prazer imediato e descomprometido com o futuro, isto com suas conseqüências, como um projeto de vida feliz, normalmente, carreta uma frustração pela própria natureza do prazer como algo fugaz e provisório, exigindo uma inventividade e superação constante. O que dava prazer ontem deve ser mais intenso hoje ou então será mera rotina. A cada vez precisa ser mais intenso, mais fantástico ou não será mais prazer. Assim, um jovem que inicia sua experiência de ingestão de bebida, na próxima vez será estimulado a ingerir uma quantidade maior, depois o álcool já não suprirá sua busca por prazer intenso e, insatisfeito, parte para novas experiências com mais estimulantes, entrando num círculo vicioso.
Por outro lado, o projeto de felicidade como esforço para não passar privações, no qual cada dia é entendido como momento de preparar e garantir a subsistência futura é uma vida “cinzenta”, onde a felicidade é vista sempre de uma ótica negativa, equivalendo a um evitar sofrimento.
Nesse projeto, nos casos mais radicais, qualquer manifestação de alegria é suprimida. Um exemplo disso pode ser ilustrado com a prática monástica, que sob o pretexto do ora et labora (ora e trabalha), condenavam o riso: O riso é abundante na boca dos estultos.
A sintomatologia do homem e mulher hodiernos, de modo especial os mais jovens, não sabem lida com duas realidades humanas, cuja administração é condição sem a qual não para uma vida equilibrada, a saber: o sofrimento e o prazer.
O homem ocidental, por uma série de razões, não foi adequadamente educado para lidar com o prazer e com o sofrimento. O filósofo Aristóteles já mostrava uma preocupação a esse respeito, quando lembrou que a excelência das nossas ações estava relacionada com o prazer e o sofrimento, e acrescentou:

É por causa do prazer que praticamos más ações, e por causa do sofrimento que deixamos de praticar ações nobres. Por isso, como diz Platão, deveríamos ser educados desde a infância de maneira a nos deleitarmos e sofremos com as coisas certas; assim, deve ser a educação correta (2002: p. 43).

A ausência de uma educação ou de uma formação que contemple isso se torna evidente na falta de parâmetros racionais e consistentes para avaliar e valorar seja as experiências de sofrimento, seja as de prazer. Somos, frequentemente, incapazes de extrair de ambas alguma aprendizado que nos torne um ser humano melhor e mais preparado para a própria vida. A consequência disso é que as nossas experiências de prazer e também as de sofrimento, não raro, nos conduzem ao mesmo ponto: a infelicidade.


[1]LEGRENZI, Paolo. A Felicidade, pp. 8-9. O autor cita essa versão da fábula da formiga e da cigarra, encontrada no Livro A Astúcia da Razão de M. Hollis e E. Martin.
[2] O livro de Isaías, escrito por volta de já mencionava esse provérbio Cf. Is. 22,13, na Septuaginta e também em ICor. 15,33 (Ev. Grego). Uma variação Latina desse adágio afirma: comamos, bebamos e gozemos, pois depois da morte não há prazer”.

2 comentários:

  1. Gostei muito da fábula e de suas reflexões. De fato, é inegável a dificuldade humana em lidar com o sofrimento e com o prazer. Infelizmente, contudo, é mais fácil diagnosticar o problema que solucioná-lo, embora o conhecimento seja o primeiro passo para a mudança. Aceitar que o sofrimento e a perda faz parte da existência humana, viver a dor sem valorizá-la exageradamente, e de outro lado usufruir o momento presente com simplicidade... Li há algum tempo um livro muito interessante sobre este aprendizado, "Perdas Necessárias", de Judith Viorts. Foi para mim um grande contributo nessa árdua tarefa de aprender a sofrer para ser feliz.
    Um grande abraço

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  2. Epitácio Rodrigues13 de junho de 2011 01:37

    Caro Alex, agradeço a sua contribuição, realista e sóbria, na nossa proposta de diálogo sobre esse tema que é uma das grandes questões humanas, historicamente flutuante, em busca de respostas gnoseológicas e sobretudo existenciais: como saber e viver a felicidade.

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