terça-feira, 7 de junho de 2011

O PENSAMENTO DE SÓCRATES II


O método de Sócrates: a ironia.

MÉNON: Você pode me dizer, Sócrates, se a virtude é algo que pode ser ensinado ou que só adquirimos pela prática? Ou não é nem o ensinamento nem a prática que tornam o homem virtuoso, mas algum tipo de aptidão natural ou algo assim?

SÓCRATES: [...] Você deve considerar-me especialmente privilegiado para saber se a virtude pode ser ensinada ou como pode ser adquirida. O fato é que estou longe de saber se ela pode ser ensinada, pois sequer tenho idéia do seja virtude [...] E como poderia saber se uma coisa tem uma determinada propriedade se sequer sei o que ela é.

SÓCRATES: Diga-me você próprio o que é a virtude.

MÉNON: Mas não há nenhuma dificuldade nisso. Em primeiro lugar, se é sobre a virtude masculina que você deseja saber, então é fácil ver que a virtude de um homem consiste em ser capaz de conduzir bem seus afazeres de cidadão, de tal forma que poderá ajudar seus amigos e causar dano a seus inimigos, ao mesmo tempo tomando cuidado para não prejudicar a si próprio. Ou se você quer saber sobre a virtude da mulher, esta também pode ser facilmente descrita. Ela deve ser uma boa dona-de-casa, cuidadosa com seus pertences e obediente a seu marido. Há ainda uma virtude para as crianças do sexo masculino ou feminino, uma outra para os velhos, homens livres ou escravos, como você quiser. E há muitos outros tipos de virtude, de tal forma que ninguém terá dificuldade de dizer o que é. Para cada ato e para cada momento, em relação a cada função separada, há uma virtude para cada um de nós, e de modo semelhante, eu diria, um vício.

SÓCRATES: Acho que tenho sorte. Queria uma virtude e você tem todo um enxame de virtudes para me oferecer! Mas falando sério, vamos levar adiante esta metáfora do enxame. Suponha que eu lhe perguntasse o que é uma abelha, qual é a sua natureza essencial, e você me respondesse que há muitos tipos de abelhas, o que você diria se eu lhe perguntasse então: mas é por ser abelhas que elas são muitas e de diferentes tipos, distintas umas das outras? Ou você concordaria que não é quanto a isso que diferem, mas quanto a outras coisas, outra qualidade como tamanho ou beleza?

MÉNON: Eu diria que enquanto abelhas elas não são diferentes umas das outras.

SÓCRATES: Suponha então que eu lhe peça: é exatamente isso que quero que você me diga. Qual a característica em relação à qual elas não diferem, mas são todas iguais? Você tem algo a me dizer, não?

MÉNON: Sim.

SÓCRATES: Então faça o mesmo com as virtudes. Mesmo que sejam muitas e de vários tipos, terão pelo menos algo em comum que faz de todas elas virtudes. É isso que deve ser levado em conta por quem quiser responder à questão: “o que é a virtude?”
(Texto extraído e adaptado de MONDIN, Battista. pp50-51 e MARCONDES, Danilo. pp. 46-47)

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