segunda-feira, 2 de maio de 2011

NARCISISMO: A IMPOSSIBILIDADE DO AMOR


EGOÍSMO E NARCISISMO
O egoísmo caracteriza-se como ausência de auto-estima. Aparentemente, o indivíduo egoísta ama sobretudo a si mesmo e autovaloriza-se ao extremo. Parece ter uma boa dose de amor-próprio, mas, na verdade, ocorre exatamente o contrário: trata-se de uma pessoa carente que procura retirar dos outros aquilo que lhe falta.
Por ser uma personalidade exploradora que “quer” tudo para si, o egoísta não desenvolve a amizade. É incapaz de perceber a presença de outros com expectativas e projetos próprios, diferentes dos seus. Na relação a dois – amor erótico – transforma o parceiro em objeto.
O egoísta não sabe conviver de maneira sadia, pois transforma os outros em apêndices de seus desejos. O egoísmo é um traço sombrio do instinto de sobrevivência. É particularmente forte na infância e deve atenuar-se aos poucos, como desenvolvimento da personalidade.
Uma sociedade que reforça o individualismo cria condições para a manutenção indefinida do egocentrismo infantil, gerando, como isso, um comportamento patológico e doentio: o narcisismo.[1]
O mito grego de Narciso
Em tempos idos, na Grécia, o Rio Cefiso engravidou a ninfa[2] Liríope. Meses depois, Liríope, apesar de não desejar a gravidez, deu à luz uma criança de beleza extraordinária. A ninfa consultou o adivinho Tirésias sobre o futuro de seu filho, e ele vaticinou que Narciso viveria, desde que nunca visse a própria imagem.
Sob essa condição, ele cresceu e tornou-se um moço tão belo quanto o fora em criança. Não havia quem não se apaixonasse por ele. Narciso, entretanto, permanecia indiferente a todos que o admiravam.
Um dia, porém, sedento, Narciso aproximou-se das águas plácidas de um lago e, ao curvar-se para beber, viu sua imagem refletida no espelho das águas. Maravilhado com a própria figura, apaixonou-se por si mesmo. Passou a precisar desesperadamente do objeto de seu amor do objeto de seu amor e viu que não conseguiria mais viver sem aquele ser deslumbrante. Sua vida reduziu-se à contemplação daquele jovem tão belo: desejava-o, queria possuí-lo. Desvairado, inclinando-se cada vez mais ao encontro do ser amado, mergulhou nos braços frios da morte.
Às margens do lago, nasceu uma flor deslumbrante: o narciso. Ela relembra para sempre o destino trágico daquele que, aparentemente apaixonado por si mesmo, era, na verdade, incapaz de amar.

A psicologia distingue duas formas de narcisismo: o primário e o secundário. No narcisismo primário, a criança, nos primeiros meses de vida, não se distingue do mundo exterior. Forma uma unidade tão completa com a mãe que não percebe que as necessidades, as carências, estão dentro de si, enquanto a fonte de satisfação está fora, na mãe. Unida com a mãe, sente-se um ser completo e feliz. Aos poucos, começa a perceber que ela é uma pessoa e a mãe, outra. Toma consciência de que depende do mundo exterior para a satisfação de suas necessidades. Rompido o vínculo narcisista primário, a criança dará o primeiro passo para o desenvolvimento satisfatório de sua personalidade.
Quando esse rompimento é doloroso e insatisfatório, tem-se o narcisismo secundário. A criança, e mais tarde o adulto, criará um ego idealizado que se confundirá com seu próprio eu. Imaginar-se-á poderosa, sem necessidade dos outros, e ficará envaidecida com sua pseudoperfeição. Não poderá, então, interessar-se de verdade pelos outros; simplesmente os usará quando servirem para o enaltecimento de seu “poder” e de suas “qualidades”.

O AMOR E A SOCIEDADE NARCISISTA
O narcisismo revela a incapacidade de relação amorosa autêntica. O narcisista só se interessa por quem alimenta a imagem engrandecida e envaidecida que ele faz de si mesmo – o eu idealizado, narcísico. Como esse eu não corresponde a nenhuma pessoa real, as relações narcisistas são superficiais e insatisfatórias. Narcisista é contraditório: precisa do outro para manter sua auto-imagem, mas não consegue relacionar-se amorosamente com ele.
A sociedade contemporânea, individualista, sem espírito comunitário e dependente do consumo, desenvolve condições para que o narcisismo aflore. As propagandas investem nos indivíduos, alisando-lhes o ego e tratando-os como onipotentes e merecedores de ver todos os seus desejos satisfeitos.
A pessoa se sente engrandecida à medida que adquire e possui coisas. Não admite mais as frustrações da vida, reagindo a elas de maneira infantil e destrutiva. A insatisfação permanece, gerada pela impossibilidade de ter os desejos satisfeitos segundo as promessas do sistema, torna as pessoas agressivas e violentas. A violência é a outra forma da onipotência.
Na sociedade narcisista, quase não há mais lugar para valores como justiça, honestidade e integridade. Vigora a lei do mais esperto, que procura levar vantagem em tudo. Os membros dessa sociedade comportam-se como se estivessem diante das câmeras, representando, buscando o melhor ângulo, exibindo o melhor sorriso, caprichando na performance, porque outra característica da personalidade narcísica é a necessidade constante da admiração alheia. Os elogios dos outros funcionam como um espelho em que o narcisista vê a própria imagem refletida. Tudo nessa sociedade se transforma em espetáculo, incluindo a política.
O desejo permanente de fama, sucesso e beleza leva os indivíduos a temer e a rejeitar a velhice; por isso, a eterna juventude é glorificada e a velhice, execrada. Envelhecer é crime. Na sociedade narcísica, as pessoas são vazias, incapazes de relações profundas e verdadeiras. Daí a quase impossibilidade de amor entre elas. Não deixa de ser sintomático o surgimento da expressão “ficar com alguém”. Ficar ao contrário de amar, é o verbo da moda.
Superar o narcisismo é desenvolver a capacidade de encontro e de sensibilidade para com o outro, é ser capaz de responder a seu apelo.
(VOLPE, N. V. & LAPORTE, A. M. Amar, o verbo da vida. In: Para Filosofar. ed. reform. São Paulo, Scipione, 2007, pp.114-116)



[1] Narcisismo: manifestação patológica do psiquismo, na qual a libido se fixa no próprio eu; egolatria. Libido (em latim, “vontade, desejo”) é a energia sexual que, transformada em energia psíquica, desdobra a sexualidade, criando um envolvimento prazeroso nos diversos campos de atuação do homem no mundo.
[2] Ninfa: divindade que, conforme a mitologia grega, habita rios e bosques.

Um comentário:

  1. Caro professor Epitácio, poucas pessoas conseguem enxergar o hodierno tão bem e descrevê-lo em apertada síntese como fizeste. Em uma sociedade cada vez mais individualista onde o culto ao corpo e à forma falam tão alto esse passa a ser um tema de suma importância, principalmente nas escolas, para que as nossas crianças não se deixem insular-se no seu próprio eu.

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