segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A Felicidade e seus sentidos




Epitácio Rodrigues

A linguagem é a expressão grandiloquente do nosso esforço para codificar o mistério que somos para nós mesmos. Por isso, compreender o ser humano é interpretar o que ele diz. Falando de outro modo, a arte de expressar não tem nas palavras um fim em si mesmo. Não queremos comunicar palavras, mas a nós mesmos através delas. Sem a percepção disto, as palavras ficam reduzidas a sinais herméticos e ab-surdos. Disso resulta que o conhecimento mais profundo das experiências humanas passa pela escuta da eloquência originária que a cada trouxe palavra à vida.
Por isso, na busca do entendimento do que seja a Felicidade, o caminho pelo qual decidimos trilhar é o da perscruta dessa palavra nas suas origens, no lugar sonoro que a trouxe à vida: a cultura grega.
Os gregos, no período clássico antigo, faziam uso de três palavras para designar a felicidade: eutyxía, makaría e eudaimonía. Porém, cada uma delas possui uma acentuação diferente. No caso da Eutyxía parece expressar uma compreensão de felicidade voltada basicamente para o bom êxito, como sugere a etimologia do termo: eu-adv. bom, boa, bem e tyxē s.f. – sorte, fortuna, êxito. Seu uso é menos frequente em relação aos outros termos.
No que se refere à palavra makaría, embora seja considerada sinônimo de felicidade - eudaimonia -, é utilizada, frequentemente, para designar um estado de satisfação humana completa e desvinculada das vicissitudes do mundo. Sendo, portanto, o ideal de satisfação humana independente da relação do homem com o mundo e, por isso, limitada à esfera contemplativa e religiosa[1] É nesse sentido de vinculação com a contemplação que se deve entender as afirmações de Aristóteles, na Ética à Nicômaco:

A atividade dos deuses, que ultrapassa todos os outros pela bem-aventurança, deve ser contemplativa; e entre as atividades humanas, a que mais afinidade tem com esta é a que mais deve participar da felicidade. [...] ao passo que nenhum dos outros animais é feliz, visto não participarem de modo algum da contemplação. (2002, p.232 e p. 36)

Assim, embora o filósofo use, às vezes, makaría como alternativa à eudaimonía, aquela está sempre associada à idéia de contemplação. Do mesmo modo, a ligação de makaría ao universo religioso é amplamente constatada na tradição cristã, que usa o termo mais de cinquenta vezes no Novo Testamento para se referir à felicidade. O discurso das Bem-Aventuranças é um exemplo eloquente a esse respeito: Makárioi oi ptôxoi to pneúmati oti auton estin ê basiléia to ouranon. (felizes ou bem aventurados os pobres em espírito porque deles é o reino dos céus).[2]
No texto se vê claramente uma compreensão de felicidade que aponta para o futuro, apesar do sofrimento presente. Isso explica porque os teólogos da tradição cristã latina sempre rejeitaram o termo, felicitas, para traduzir makaría, mas sempre traduzindo por beatitudo (beatitude, bem-aventurança).
Se o discurso teológico sempre se serviu de makaría, o discurso filosófico grego, tradicionalmente, fez uso do termo eudaimonía para se referir à felicidade. O termo formado pelo advérbio eu-bom e pelo substantivo daimon – gênio (literalmente bom gênio) designa de modo geral um estado de satisfação humana devido à sua situação no mundo e entre os outros seres humanos. Dessa compreensão, podemos observar a presença de quatro elementos fundamentais: a felicidade é vista como um “estado de satisfação”, ressaltando um caráter mais provisório do que uma característica inerente ao ser humano: “eu sou feliz agora” ou “eu estou feliz”. Esse caráter provisório é explicitado pela vinculação à situação. Outro elemento é o caráter mundano, ou seja, é aqui na terra, neste lugar histórico e espacial, o lugar da felicidade. E, por fim, é uma construção humana. Não é uma dádiva divina, mas um desafio humano. É na relação interpessoal e intrapessoal, na relação com a natureza que se constrói esse estado de satisfação, situacional, mundano e humano chamado eudaimonía ou felicidade. Por se tratar de uma construção humana é que os filósofos vão, muito cedo, entender que a eudaimonía é algo a ser ensinado e aprendido. Por isso, os mestres do pensamento humano apresentar-se-ão como pedagogos da felicidade (eudaimonía). Para eles, a felicidade é um sinal inconteste da sabedoria e como caminho a arte de pensar: “Você se torna aquilo que você pensa”, dirá Epicteto. Noutras palavras, a nossa busca é a felicidade; nosso caminho, o pensar nossas ações.


[1] Cf. ABBAGNANO, p 100 e 412.
[2] No texto grego: Makaria oi ptwcoi tw pveumati  oti autwv estiv h Basileia tw ouranwn. (Mt 5,3).

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