domingo, 14 de agosto de 2011

PERGUNTAS SOBRE O EFÊMERO


(crônica filosófica).
Epitácio Rodrigues

O ser humano é um ser que pergunta. Esta verdade fundamental encontra suas raízes na necessidade que temos de conhecer o chão da nossa própria existência. Quisesse alguém silenciar as suas indagações mais prementes estaria, em vão, tentando abdicar da necessidade de encontrar um sentido para a sua vida.
Digo mais, o ser humano é uma pergunta cuja resposta foi apenas balbuciada e está longe de ser satisfatoriamente respondida. Um teólogo católico escreveu certa vez: “o cotidiano humano povoa-se de perguntas. As crianças atormentam-nos com suas infinitas perguntas: que é isto? A resposta sacia a pequena pergunta. Mas logo vem outra, outra. E assim indefinidamente. Ele cresce. Continua perguntando. O homem adulto não termina seu périplo de perguntas. Morre perguntando pelo remédio, pela doença, pelo que o aguarda, pelo sentido dessa morte que o ameaça. Enfim, nunca se extingue em seus lábios essa primeira expressão que se aprende por primeiro numa língua: que é isto?[1]
Nós vivemos lançando questões sobre o mundo, sobre a vida e a história não só porque é desta forma que dialogamos com o que se nos apresenta como desconhecidos, mas também porque nos percebemos desconhecidos para nós mesmos. E “quanto mais o homem conhece a realidade e o mundo, tanto mais conhece a si mesmo na sua unicidade, ao mesmo tempo que nele se torna cada vez mais premente a questão do sentido das coisas e da sua própria existência. O que chega a ser objeto do nosso conhecimento torna-se por isso mesmo parte da nossa vida”.[2] Mas, por que perguntamos tanto? Qual a finalidade de tantas indagações? A razão de ser para essa mania de perguntar está em duas necessidades básicas de todos nós: a primeira é a vontade que temos de dominar o mundo que nos cerca, queremos saber para controlar; a segunda razão é mais afetiva: precisamos conhecer para nos sentirmos mais seguros.
Existe uma metáfora muito bonita no texto do no livro sagrado dos judeus e cristãos, para falar do ser humano. O profeta Ezequiel, compara o ser humano um vaso de barro na mão do oleiro. A escuta profunda desse texto nos estimula a contemplar as mãos do oleiro delicadamente dando uma forma ao barro, e enxergar a nossa própria vida como um ofício de olaria. Embora a imagem deixe sérias dúvidas sobre o lugar da liberdade de cada pessoa nessa ação, ela traz uma rica intuição de que não somos seres acabados, pois para se dar uma forma ao barro ele precisa estar molhado, ser moldável, do contrário ele se quebra porque está rijo.
O homem de fé consegue descobrir uma verdade que os grandes filósofos da existência só se deram conta na primeira metade do século XX: o ser humano não está pronto. Ele é um ser inacabado, incompleto, um projeto uma construção diária. Se hoje a filosofia, a biologia, a psicologia e outros campos da ciência defendem unanimemente que o homem é um ser inacabado. No passado, o homem de fé exclamava: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos. Este desejo, este suspiro revela também que o homem concreto, comum, embora incompleto, anseia por realizar-se, por completar-se, por uma plenitude. Escreveu acertadamente um grande pensador brasileiro: O homem de hoje é alguém que deve ser superado. O verdadeiro homem é ainda um projeto. Ele não nasceu. Está latente dentro dos dinamismos da evolução[3]. Esta busca de si mesmo, própria do ser humano, se dá de modo adequado quando ele volta seu olhar para a sua vida como um todo. Afinal, cada pessoa é hoje o resultado do que conseguiu fazer (ou do que deixaram fazer com ela) e o projeto do que deseja ser. Por isso, penso que cada pessoa concreta se compreende melhor quando volta o seu olhar para os rastros que deixou nas estradas da vida e visualiza o rumo para o qual eles apontam. Em outras palavras, cada um traz uma história nas nossas costas, marcada por experiências que o ajudam a entender o que está sendo; uma história que se assemelha a um filme com paisagens, lugares que marcaram a sua vida, pessoas especiais, pessoas que especialmente faz questão de esquecer sua existência, algumas experiências sofríveis e outras profundamente agradáveis. Sonhos deixados para traz, frustrações e vitórias. Enfim, viver é carregar um conjunto complexo e incompleto de sentimentos, recordações, valores, vivências, sonhos e desencantos que fazem de cada um o que é: nem anjo, nem demônio, mas gente. E ser gente é ter consciência de suas limitações e também de seus valores; de que tem muito que aprender, tem algo a ensinar e uma humanidade a construir.


[1]              LIBANIO, J.B. Teologia da Revelação a partir da Modernidade. Loyola, p, 184
[2]              Fides et Ratio, p. 5.
[3]              Boff, A Nossa Ressurreição na morte, p. 09.

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