sábado, 16 de junho de 2012

Hegel e a História como desenvolvimento do espírito



 Epitácio Rodrigues

Hegel alicerçou o seu complexo sistema filosófico sobre os conceitos de Ideia[1] (ideia-em–si), Natureza (Ideia fora de si) e Espírito (Ideia que retorna a si ou em si e para si). Para ele, a Ideia em si é uma realidade dinâmica que se desenvolve e tem como antítese a Ideia fora de si, o Espaço, que Hegel chamou de Natureza. Esta passa pelos reinos mineral e vegetal e se desenvolve no homem, momento no qual a Ideia entra no processo de autoconsciência. Esta consciência da Ideia é o Espírito, que por sua vez, é a antítese da Ideia fora de si (Natureza). Esse desenvolvimento da autoconsciência do Espírito é o que Hegel chama de História. Dirá Hegel que a História “é o desenvolvimento do Espírito no Tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da Ideia no Espaço” (HEGEL, 2001:123). Quando Hegel fala em Ideia, deve-se entender não uma realidade abstrata e neutra como os gregos, mas a própria natureza da vontade Divina. A Ideia em si é o próprio Deus antes da Criação e como Deus e a Criação se completam e se pertencem, Deus não apenas contém, mas é a História: diferentemente de Spinoza que considera a natureza como divina - Deus sive natura -, Hegel considera a História divina – Deus sive história[2]. Nesse sentido, a tarefa da filosofia, em especial da filosofia da História, consiste em conhecer Deus através do conhecimento da história do mundo. (HARTMAN, 2001: 21-22)
A história, o Espírito e a liberdade estão profundamente relacionados. Para Hegel, a história diz respeito à vida do Espírito, e este tem como característica essencial automovimentar-se, ou liberdade (DRAY, 1996: 100). Por isso, a tarefa da história é revelar como o espírito humano se desenvolveu de estágio a estágio, desde quando Espírito emergiu da Natureza. “A História diz respeito ao desenvolvimento do espírito, e se a análise filosófica mostra que os conceitos de espírito e de liberdade estão necessariamente relacionados, parece daí decorrer que o tema da História seja o do desenvolvimento da liberdade.” (DRAY, 1969:110)
Porém, liberdade no pensamento hegeliano não se identifica com o capricho individual, mas aparece como uma realidade que se conquista de fato por meio da disciplina sob o império da lei, no Estado.[3] Este é o verdadeiro individuo histórico, sendo, portanto, o objeto de estudo da Filosofia da História. É com base nesta compreensão de desenvolvimento do Espírito que é essencialmente Liberdade, que ele apresenta como se desenvolveu o Espírito no fluxo da história até atingir o estágio pleno de liberdade.
A história do mundo, para Hegel, divide-se em quatro fases, num movimento de deslocamento de interesse, que vai do oriente ao ocidente. Começa com os povos persas, passa pelos gregos, romanos e chega à culminância com a cultura cristã das nações germânicas. O que Hegel observa nessa história filosófica é processo racional ou progresso da Ideia como Espírito na sua autoconsciência da liberdade, pois acredita que, assim como a natureza de uma árvore, o sabor e forma de seu fruto já estão contidos no germe,

Os primeiros vestígios do Espírito virtualmente contém o conjunto da história. Os orientais ainda não sabem que o Espírito – o homem como tal – é livre e, como não o sabem, não são livres. Eles apenas sabem que um é livre (...). Este um é, portanto, apenas um déspota e não um homem livre. A consciência da liberdade surgiu primeiro entre os gregos e, portanto, eles eram livres. Mas eles, como também os romanos, apenas sabiam que alguns são livres - não o homem em si. Só os povos germânicos, através da cristandade, é que vieram a compreender que o homem é livre e que a liberdade de espírito é a própria essência da natureza humana (HEGEL, 2001:64-65)

Hegel não considera os povos orientais livres, porque não tinha conhecimento da liberdade, considera seus regimes autoritários, liberdade de um só, um “simples capricho” ou uma “cegueira da paixão”, ou uma “suavidade ou docilidade do desejo”, mas em todo caso “um acidente da natureza”. Os gregos e romanos foram os primeiros a ter conhecimento da liberdade, porém baseada na escravidão, era na verdade, uma “evolução acidental” e “uma grave sujeição da natureza humana”. Numa comparação com o desenvolvimento individual, pode-se dizer que o Oriente corresponde ao período infantil e inarticulado do espírito humano e a Grécia, à sua adolescência poética, Roma já revelará aspectos do início da sua virilidade, mas será com o Mundo Germânico que o espírito humano alcançará plena maturidade (Cf. DRAY, 1969: 105).
Para Hegel, a história é um processo racional que não está só direcionado a fim, mas cuja racionalidade se evidencia sob a forma de estágios sucessivos de um processo dialético ordenado em três fases: tese, antítese e síntese. A insuficiência de um primeiro conceito leva à sua antítese, e a tensão entre ambas se resolve por meio da síntese. Esta submetida a uma reflexão mais profunda torna-se a tese em uma nova tríade mais elaborada e elevada.
Portanto, podemos, grosso modo, dizer que a Filosofia da História, para Hegel, é o conhecimento do progresso racional do Espírito na sua auto-consciência de si como sendo essencialmente liberdade.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1960.
ABRÃO, Bernadette Siqueira (org. e texto final) História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 2004,(Coleção os Pensadores).
DRAY, H. William. Filosofia da História. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1969.
HARTMAN, Robert S. O Significado de Hegel para a História.O Significado da História para Hegel. (Introdução à A Razão na História). São Paulo: Centauro, 2001
HEGEL, Georg Wilhem Friedrich. A Razão na História: uma introdução geral à Filosofia da História. 2ª ed. São Paulo: Centauro, 2001;


[1] Também denominada Logos.
[2] Deus sive natura e Deus sive história expressões latinas, cuja tradução é, respectivamente: Deus, ou seja, a natureza e Deus, ou seja, a história. (Cf. Hartman, RH, p.22)
[3] Dray afirma que o conceito hegeliano de Estado não se identifica como o sentido usual, e a tradução mais apropriada seria cultura nacional. (Cf. DRAY: 102).

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