domingo, 11 de março de 2012

Antes da explicação filosófica, as narrações míticas

Epitácio Rodrigues


        O ser humano, desde que tomou consciência da sua existência no mundo, tenta encontrar respostas para um corpo de indagações fundamentais que emergem com a sua percepção do mundo humano. Dentre as formas de entendimento da realidade mais antiga temos as narrações míticas. Mas o que se entende por mito? O termo mito provém de mythos que significa palavra, discurso, narração ou relato fabuloso. De modo geral, chama-se mito as primeiras narrações que buscar explicar de modo alegórico e fantasioso a origem dos deuses, (teogonias), do universo ou do mundo (cosmogonias) e a origem do ser humano (antropogonias ou antropogêneses). Existem também aqueles relatos míticos que se voltam à explicação de certos fenômenos humanos como o mal, a morte.
         Chamamos de Mitologia ao conjunto de narrações míticas e as entidades e ou seres naturais criados pela imaginação dos seus criadores e transmitidos oralmente. Por isso, os mitos antigos são relatos ou narrações anônimas, mas não é qualquer pessoa que podia fazê-lo, mas apenas o poeta-rapsodo, alguém que segundo acreditavam, era um poeta escolhido pelas divindades para ter conhecimento do passado etiológico de todas as coisas e assim pudesse comunicá-lo ao grupo. Essa crença acarretava duas conseqüências: primeiro dava ao mito um caráter sagrado, uma espécie de revelação divina e a segunda é a postura dogmática em relação ao seu conteúdo. O mito não podia ser contestado ou questionado.
         No conjunto dos mitos conhecidos, a mitologia grega é considerada uma das mais ricas e expressivas da humanidade e datam do século VIII a.C os primeiros registros que se tem conhecimento. Nessa mitologia aparece uma verdadeira hierarquia dos seres sobrenaturais: 1. Os deuses e deusas (seres supremos); 2. heróis ou semideuses (seres mortais, filhos de deuses com estes seres humanos); 3. As ninfas: seres femininos que habitam campos e bosques; 4. Sátiros: seres com corpo de homem, chifres e patas de bode; 5. Centauros: seres com cabeça humana e corpo de cavalo; 6. Sereias: mulheres metade humanas, metade peixes; 7. Górgonas: seres femininos com cabelos de serpentes.
        Vale lembrar que não são os únicos povos a elaborar seus mitos. Os índios brasileiros, por exemplo, têm um conjunto de mitos de grande valor simbólico e cultural. Arruda Aranha e Martins apresentam um relato dos Maué, nativos dos rios Tapajós e Madeira; no início só havia noite. Cansados da Luz, foram ao encontro da Cobra-Grande, a dona da noite. Ela atendeu ao pedido com a condição de que os indivíduos lhes dessem o veneno com que os pequenos animais como aranhas, cobras e escorpiões se protegiam. Em troca, receberam um coco com a recomendação de só abri-lo ao chegarem à maloca. Ao ouvirem ruídos estranhos saindo dele, não resistiram à tentação e assim deixaram escapar antecipadamente a escuridão da noite. Atônitos e perdidos, pisaram nos pequenos bichos, cujas picadas venenosas mataram muitos deles. Desde então, os sobreviventes aprenderam os cuidados que deveriam tomar quando a noite viesse. (p. 26).
      A relação entre Mito e a Filosofia é contraste entre o mythos (discurso narrativo) e o logos (discurso argumentativo). Ou seja, para os gregos tanto mito como a filosofia eram formas de discurso. Porém, o primeiro trata-se de um discurso sobre a realidade apresentando uma explicação fantástica, emocional e, não raro primordial, sem uma estrutura lógico-racional e rígida. Já Filosofia é um discurso (logos) que tem uma pretensão de verdade, fundada na argumentação e no raciocínio elaborado, que aos poucos vai descredenciando o mito como uma explicação válida da realidade.

Um comentário: