sábado, 10 de dezembro de 2011

Religião: a multiplicidade do fenômeno e o ontologismo do discurso conceitual


 Epitácio Rodrigues

A compreensão do fenômeno religioso não se explica apenas a partir de um conhecimento etimológico ou conceitual. Noutras palavras, não será suficiente dizer que a palavra religião provém do termo latino religio, que, por sua vez, resulta da aglutinação do prefixo latino re (outra vez, de novo) e o verbo ligare (ligar, unir, vincular). Passando o sentido da palavra, uma compreensão de religião como o restabelecimento de um vínculo do ser humano com o mistério. Ainda que aponte para uma direção mais ou menos compreensível, inúmeras perguntas ficam no obscurantismo da generalidade conceitual. Também não é menos problemática a definição apresentada por Danilo Marcondes e Hilton Japiassú, no Dicionário Básico de Filosofia, segundo a qual a religião “é um a conjunto cultural e suscetível de articular todo um sistema de crenças em Deus ou num sobrenatural e um código de gestos, de práticas e de celebrações rituais” (2006, p. 239).
Para se entender melhor a diversidade do fenômeno religioso é importante considerar a história dessa experiência, observando, para além da unidade conceitual, as múltiplas formas do ser humano relacionar-se com o mistério, seja ele imanente ou transcendente, nas diversas culturas ao longo da história. Nesse sentido, Piazza, na obra Religiões da Humanidade,[1] apresenta uma ordenação das religiões em quatro grandes sistemas, observando o objetivo mais teleológico a que cada uma delas se propõe na relação com o mistério, desconsiderando a classificação tradicional em monoteísta, politeísta, panteísta etc... Assim, apesar de suas peculiaridades, elas são agrupadas em religiões de integração, de servidão, de libertação e de salvação.
Na categoria de integração estão englobadas aquelas manifestações religiosas mais primitivas nas quais as ações dos indivíduos aparecem voltadas à satisfação das necessidades básica e mais imediatas do ser humano: comer, beber... tais religiões se caracterizam pela divinização da natureza e pela busca de integração dos indivíduos à dinâmica dessa mesma natureza. Dentre elas podemos citar as práticas rituais dos siberianos, dos africanos e dos índios brasileiros.
As religiões de servidão, segundo o autor, seriam aquelas cujos deuses são apresentados como grandes senhores do céu, da terra e das regiões inferiores. O homem religioso sente-se impelido a prestar serviços rituais e homenagens às divindades em troca de benefícios imediatos. Não raro, as divindades são retratadas com características acentuadamente humanas, sejam boas ou ruins. Fazem parte desse grupo, por exemplo, as religiões da Grécia e Roma antigas.
Contudo, em suas relações com o sagrado, o ser humano não é visto apenas como um ser dependente e de certo modo passivo em referência ao mistério. Em algumas formas, a base do movimento centra-se na capacidade operativa do próprio ser humano. São as religiões de libertação, nas quais estão agrupadas as experiências religiosas em que o ser humano é visto em situação degradante, cuja libertação supõe a utilização de meios éticos e técnicos, de acordo com o tipo de concepção cosmológica, antropológica ou teológica. Piazza ilustra esse fato, elucidando que o monoteísmo judaico preconiza uma libertação no sentido ético, alicerçado na observância de certos mandamentos da Torah. No panteísmo, a libertação ganha uma dimensão mais cósmica do homem com a divindade, como é o caso do hinduísmo. Já para as religiões monistas, como por exemplo o budismo, a liberdade é de caráter mais psicológico e consiste no esforço humano de superação das contingências de sua natureza.
Por fim, existem as religiões de salvação, nas quais o ser humano é explicado e entendido a partir de uma narrativa sagrada de sua origem e natureza, seguida de uma queda ou pecado que gera a ruptura com o transcendente. As manifestações dessas formas religiosas, em grande medida, estão perpassadas por um esforço de súplica e busca de reparação dos pecados e suas consequências realizado apenas pela divindade, não raro, após a morte. Ou seja, é muito comum nas religiões de salvação a presença de uma escatologia. Pertencem ao grupo das religiões soteriológicas o islamismo e o cristianismo.
Quando ouvimos falar em religião, frequentemente incorremos no risco de realizar um ontologismo religioso no qual a experiência com o mistério aparece como única e absoluta. A sistematização do autor, ainda que seu intento seja agrupar, põe em evidencia a amplidão do assunto e sua complexidade ao longo da história do ser humano.


[1] PIAZZA, O. Waldomiro. Religiões da Humanidade. 3ª ed. São Paulo: Loyola, 1996.

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