quarta-feira, 3 de julho de 2013

CIDADÃO ATIVO: A NOVA IDENTIDADE DO PROFESSOR

Prof. Epitácio Rodrigues

Três anos atrás, uma revista de circulação no Brasil sobre o tema da educação escolar, apresentou o que seria o novo perfil de professor do século 21, organizado em seis tópicos bem distribuídos. Hoje, vejo esse discurso consolidado nas falas de técnicos, gestores e até de muitos professores, mas guarda–se um silêncio sobre outro tópico fundamental para o exercício da profissão de professor. Neste texto, pretendo apresentar sumariamente os seis tópicos, mas, sobretudo, explicitar uma exigência da identidade docente que tem sido o não-dito de todo o discurso sobre a atuação do professor.
Segundo o texto da referida revista, o primeiro tratava da necessidade de uma boa formação. O que significa ler constantemente sobre a sua área, ser consciente de que só a graduação já não é mais suficiente para as novas exigências da docência em sala de aula. Além disso, estar comprometido e preocupado com a atualização.
A outra exigência é saber usar as novas tecnologias da informação como recursos pedagógicos, analisar os conteúdos adequados a cada tecnologia, sem, contudo, perder de vista que elas têm a função de mediadora do conhecimento e não um fim nelas mesmas, quando aplicadas como recursos didáticos.
Aparece ainda como exigência para o exercício da docência eficaz, o conhecimento das novas didáticas e diretrizes curriculares de forma mais precisa.
Uma quarta condição é saber trabalhar e planejar em equipe, valorizando as trocas de experiências exitosas para o enriquecimento da própria profissão.
Uma outra é planejar e avaliar constantemente o seu trabalho. O que se traduz em saber claramente o que deve ensinar, avaliar o conteúdo, a aprendizagem e as estratégias utilizadas na relação ensino-aprendizagem.
E, por fim, ter uma postura e atitude profissional. Noutras palavras, adotar atitudes que explicitem seu investimento na aprendizagem do aluno, sua crença no potencial dele e, sobretudo, não perder a esperança com relação a ele enquanto ser em processo de formação. Aparece dentro dessa compreensão, a discussão de políticas públicas.
Quando olhamos mais detidamente, não há nada de novo nessa proposta. Na verdade, as seis características são exigências presentes desde quando a prática docente passou a ser pensada de forma mais sistemática. Todavia, a ideia nova e perigosa é a de que o êxito do trabalho do professor só depende basicamente dele. Não há, por exemplo, uma consideração a respeito da situação da maioria dos professores da rede pública municipal e estadual que não contam com as condições adequadas para a realização do seu trabalho, que têm o plano de cargos e carreira, quando previstos, desrespeitados pelos próprios representantes do poder político: no âmbito do executivo, do legislativo e do judiciário.
Pouco ou quase nada se fala da condição sui generis desse profissional em algumas escolas nas quais a sua integridade física e moral são desrespeitadas, seja pela indisciplina de alunos, sob a forma de agressões verbais, ameaças e constrangimento público em sala de aula; profissionais que têm a saúde psicoemocional comprometida pelas atitudes abusivas e assédio moral de gestores; e sem esquecer, é claro, das violações de seus direitos como cidadão-servidor, pelo próprio Estado, que sob o pretexto de uma educação de qualidade, oprime, humilha e explora, atribuindo-lhe funções de outros profissionais e lhe culpabilizando por deficiência que são apenas consequência da omissão do próprio Estado noutros setores da sociedade.
Assim, estou convicto de que a profissão de professor, nesse novo contexto, exige também uma postura mais politizada e esclarecida a respeito de seus direitos, das leis que garantam a sua integridade física, que o proteja contra atitudes abusivas, assédio moral, repressão, exploração e comprometimento de sua saúde física e psíquico-emocional.
Em suma, o professor da escola pública do século 21 precisa assumir o caráter político de sua profissão, fortalecer a sua classe e resgatar o respeito do Estado e da sociedade pela sua profissão. Para isso, deve começar conhecendo os seus direitos previstos na Constituição Federal, no Estatuto do Magistério, Estatuto do Servidor, conhecer o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Leis de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Mas, jamais esquecer que todo esse conjunto de leis tem uma origem histórica, que o verdadeiro fundamento da cidadania não tem na Lei e no Direito Positivo a sua origem, mas na justiça social e na dignidade humana. O professor, mais do que qualquer outro profissional, sabe que as grandes conquistas dos trabalhadores não principiaram com a lei, mas com as mobilizações e movimentos sociais que forçaram a criação de muitas leis. Por isso, o profissional da educação não pode continuar confundindo profissional pacífico com profissional passivo. A passividade não deve fazer parte da identidade de uma categoria, que sabe transformar as ruas em sala de aula e o saber em cidadania. Só para começar!!!


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