sábado, 23 de abril de 2011

Ser Professor: vocação ou profissão


Prof.: Epitácio Rodrigues

Existem professores quem realmente têm vocação, mas outros estão na profissão só por dinheiro!” Quem nunca ouviu esse discurso? Nós o conhecemos, aceitamos o seu conteúdo e o reproduzimos, dogmaticamente, sem qualquer preocupação de exame prévio. Por que presenciamos calados as apologias ao professor vocacionado ao magistério e a reprovação ao professor que reivindica melhores salários? Pois bem, essa compreensão precisa ser problematizada, analisada e discutida. Meu propósito, neste texto, é apresentar alguns riscos que essa visão reproduzida no imaginário social traz ao correto entendimento do ofício de professor.
O primeiro equívoco da associação do magistério à idéia de vocação é entender a docência como uma aptidão inata, um dom especial que uma pessoa (homem ou mulher) já nasce com ela. De fato, o conceito de vocação (do latim vocare – “chamar”), no imaginário social, está profundamente vinculado à religião cristã, sobretudo, ao catolicismo, que sugere a existência de pessoas nascidas com um pendor ou inclinação natural (ou sobrenatural), para realizar algum ofício público de caráter transcendental (Cf. Jr. 1,5-10; Mc. 3,13). Esse discurso é reforçado por uma concepção psicológica do desenvolvimento de base inatista, segundo a qual “o homem ‘já nasce pronto’, pode-se apenas aprimorar um pouco aquilo que é ou, inevitavelmente, virá a ser”.[1] A confluência desses discursos, teológico e psicológico, induzem a uma leitura errada do ofício de professor quando este entende o seu trabalho como um dom divino e uma missão especial de caráter soteriológico em relação aos seus alunos. Por isso, aqueles que assimilam tal discurso entendem que estão realizando não só um trabalho para o qual são remunerados, mas antes uma missão humanizadora dentro das categorias religiosas por ele adotada. Isso pode levá-lo a uma acomodação em relação à sua formação permanente, aos seus estudos: já que nasceu para isso, o estudo tinha apenas a função de lhe habilitar legalmente, pois ele já tinha jeito pra coisa.
A vinculação da vocação ao dinheiro foi uma contribuição da história da Filosofia e da Pedagogia. De fato, o reforço filosófico veio com a construção da imagem positiva de educador a partir da figura de Sócrates. Os seus discípulos, Platão e Xenofonte, criaram o protótipo socrático de mestre ideal em contraposição aos sofistas, professores itinerantes que cobravam em dinheiro pelas aulas ministradas aos jovens atenienses, acusando-os de mercenários: não eram professores ou mestres verdadeiros, mas “mercenários do saber”. A reprodução desse discurso, ao longo da história, parece ter reforçado a imagem de professor que luta por uma remuneração como um profissional ruim ou até mesmo “mercenário”.
A outra observação, que para mim, é a mais sutil e mais perigosa: a vocação como uma missão transcendental é uma experiência subjetiva e muito pessoal. Assim, de modo silencioso, ela desarticula toda a noção de categoria, de classe, de grupo. A vocação de professor é uma experiência muito particular, que se exerce sozinho (a) em sala de aula. Esse invólucro religioso e transcendental faz como que o profissional da educação não se sinta responsabilizado pela situação da categoria ou do grupo.
Mas, se não é uma vocação, o que é então o ofício de professor? Para esclarecer a pertinência da questão, refarei o caminho inverso na construção etimológico-semântica da palavra/idéia de professor. Ouvimos em bom português professor, mas até chegar aqui soou: professorem, antes professus, antes profiteor, uma aglutinação da preposição pro com o verbo latino fateor. Assim, quando voltamos à raiz da palavra nos deparamos com a preposição pro, cujo significado básico é: “diante de todos” e o verbo fateor, “falar”. Com base na sua etimologia, afirma João Paixão Neto, “Professor é, pois, aquele que fala (fateor) abertamente (pro= ‘diante de todos’) aquilo que pensa”.[2] O conceito de professor envolve, portanto, a “fala com propriedade sobre algo”. Por isso, a atividade docente é sempre genitiva, ou seja, todo professor é professor de Filosofia, de geografia, de Português... Outro elemento conceitual que se pode extrair daí é a dimensão pública dessa ação: a docência é sempre um ofício público, uma atividade direcionada a um grupo aprendente. É claro que essa palavra, na tradição latina, não dá conta de toda carga significativa dessa atividade. Pois, entre os clássicos da educação, sempre foi muito frequente o uso do termo magister (magis ter, tercius), para designar quem exerce a profissão de ensinar. O que é detentor do saber, cujo conhecimento é três vezes superior ao do aluno. Assim, seja professor ou mestre, o conceito é carregado de um peso conceitual que aponta para a noção de alguém que detêm certo conhecimento e que o transmite a um dado público aprendente.
Ainda sobre o assunto, vale ressaltar que professor e profissão possuem a mesma raiz etimológica: literalmente, falar ou fazer uma pro-fissão publicamente. Segundo João Paixão Netto, a idéia latina de professor equivale ao martyr grego, alguém que testemunha num processo diante do magistrado romano.
Na verdade, ser professor é exercer uma profissão. A pessoa que a exerce terá uma excelência na atividade, naquilo que depender dela, não graças a um dom, mas ao esforço pessoal, ao estudo e um investimento na sua capacitação técnica (conhecimento do assunto, e de recursos didáticos apropriados ao ensino), ética (compromisso com sua atividade profissional), e política (seu engajamento na luta pelos direitos da sua classe ou categoria profissional e na sua função de formador de opinião).
E quando os resultados da sua atividade profissão não atingir os resultados esperados, vale sempre lembrar que estes não dependem exclusivamente da sua competência técnica, ética e política, mas também de outros atores e fatores que interferem no universo da educação formal.


[1] DAVIS, C. e OLIVEIRA, Z. Psicologia na educação, Cortez, 1991, p.29.
[2] In: Crônica ao Educador, Paulus, 2001, p.19.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O CONCEITO DE CULTURA NUMA PERSPECTIVA FILOSÓFICA


Prof. Epitácio Rodrigues

        Por que estudar a cultura sob a ótica da Filosofia? As indagações filosóficas sobre a cultura abrem um leque de questões que contribuem para uma compreensão mais aprofundada dessa realidade, dentre as quais podemos citar: a delimitação do conceito de cultura; a relação cultura e trabalho, enquanto ação humana sobre a natureza; a capacidade simbólica do ser humano que reveste de significação a natureza e tudo aquilo que ele cria através de sua ação, ou seja, a sua capacidade de atribuir significação às coisas que o tira do mundo natural e o lança no mundo humano; e, por fim, as implicações advindas dessa capacidade de criar e recriar o seu próprio mundo, na medida em que ele mesmo se vê mergulhado num universo de significações que o modelam e dizem como ele dever ser, agir e viver. Noutras palavras, a questão de saber até onde o ser humano é livre frente ao próprio universo cultural por ele criado e no qual está inserido.
Nossa preocupação será de apresentar uma compreensão de cultura. O que não será uma coisa simples, pois o nosso vocabulário diário está impregnado de expressões que se referem à cultura com sentidos, às vezes, totalmente diferentes. Fala-se em cultura de grão, cultura nordestina, ou ainda, em pessoa culta e sem cultura. Ora, se falamos em cultura brasileira supõe-se que todos os brasileiros participam dessa cultura, portanto a possuem de alguma forma, mas quando digo que um brasileiro concreto é uma pessoa inculta, isto é, sem cultura, estou dizendo que ele tem e não tem cultura. Isso incorre numa contradição ou, no mínimo, numa grande dificuldade para se compreender o que é realmente a cultura.
Uma das formas de esclarecer essas confusões a respeito do termo é buscar a sua origem, a sua etimologia. A palavra cultura é de origem latina, vem do verbo colere, que significa “cultivar”, “criar”; “honrar”; “tomar conta” e “cuidar”.
Quando surgiu, no final do século XI,[1] a noção inicial de cultura estava relacionada ao cultivo da natureza, dando origem à palavra agricultura; à devida honra prestada aos deuses pelos homens (culto às divindades) e também ao cuidado dos adultos com as crianças (puericultura).
No período do Renascimento, por volta do século XVI, os humanistas começaram a empregar a palavra cultura com o sentido figurado de cultivo do espírito. Cultura passou a ser o desenvolvimento da capacidade intelectual e o aprimoramento das qualidades naturais dos homens.
No século XVIII, os iluministas relacionaram a expressão cultura do espírito, com as artes, ciências e letras e a partir daí passou-se a utilizar o termo cultura para designar tanto o desenvolvimento da capacidade intelectual, quanto o resultado do trabalho intelectual dos homens. Nesse período aconteceu a associação do termo cultura com o termo progresso, enquanto aprimoramento da ação humana, da autonomia individual, de domínio do homem sobre a natureza. Nas palavras de Marilena Chauí,
cultura passa a significar os resultados daquela formação ou educação dos seres humanos, resultados expressos em obras, feitos, ações e instituições: as artes, as ciências, a Filosofia, os ofícios, a religião e o Estado. Torna-se sinônimo de civilização, pois os pensadores julgavam que os resultados da formação-educação aparecem com maior clareza e nitidez na vida social e política ou na vida civil (Convite à Filosofia, 2001, p. 292).
Com o avanço das Ciências da Natureza, no século XIX, o surgimento das Ciências Humanas e a Revolução Industrial, cresce de forma assombrosa a produção material do homem. As cidades passam por mudanças rápidas e profundas, colocando em evidência as transformações e as diferenças humanas. Daí a Filosofia e as Ciências Sociais recolocarem o tema da cultura.
A Antropologia, uma das Ciências Sociais, vai apresentar um novo conceito de cultura que pode ser sintetizado no modo de vida de um povo e o que resulta da sua criação.
Nesse sentido, o antropólogo inglês Edward. B Tylor (1832-1917) afirma que cultura é: “um todo complexo que abarca conhecimentos, crenças, artes, moral, leis, costumes e outras capacidades adquiridas pelo homem como integrante da sociedade” (Apud. VILA NOVA, Introdução à Sociologia,1992, p. 43)
Reinholdo Aloysio Ullmann, na sua obra Antropologia: o homem e a cultura, ao abordar o assunto, também numa perspectiva antropológica, defende que Cultura, em sentido estrito,
significa o modus vivendi global de que participa determinado povo. Está incluída aí a maneira de agir, o que implica uma concepção ética; a maneira de pensar, o modo de sentir. O sentir, pensar e agir manifestam-se na linguagem, no código de leis seguido, na religião praticada, na criação estética. É o que se chama, tradicionalmente, de cultura não-material. Ao mesmo tempo, porém, o modus vivendi se expressa nos instrumentos utilizados, bem como na maneira de obtê-los, nas vestimentas, nas habitações em que o homem busca abrigo. Cultura material é a designação que abrange esses itens. Há que dizer, para não deixar dúvidas, que todo comportamento humano-cultural não é herança genética, mas transmissão social (O Homem e a cultura, 1991, p. 84).
Como podemos perceber, a dificuldade para se entender claramente o conceito de cultura, deve-se ao longo processo de re-elaboração a que foi sujeito o termo desde o século XI até os nossos dias.
Todavia, alguns elementos estiveram sempre presentes, a saber: a cultura é sempre uma ação criativa do homem sobre a natureza. Essa ação criativa tanto pode ser de natureza imaterial ou simbólica, como valores econômicos, éticos e estéticos, crenças, leis, normas e costumes. Isso só é possível graças à capacidade cognitiva, que o permite conhecer a realidade e alterar o significado dos objetos adaptando-os à satisfação de suas necessidades. É também a capacidade cognitiva que possibilita transmissão dos conhecimentos e técnicas de produção a outras gerações, perpetuando o saber. A ação criativa do homem pode ser de natureza material. O homem age sobre a natureza e produz objetos de artes, alimentos, indumentária e artefatos de modo geral, graças a uma combinação da capacidade cognitiva com a capacidade de premer da mão humana, permitindo a manipulação da realidade e criação de instrumentos necessários à alteração da própria natureza em seu benefício.
Ou seja, a noção de cultura evoca um aspecto imaterial: modo de ser e de viver de um povo, expresso num corpo complexo de significações linguísticas criado, aceito e transmitido pelo grupo, a cultura imaterial; e também um aspecto material: produção de objetos e utensílios para a sobrevivência, conforto e organização do grupo social, a cultura material.


[1] Cf. SOUZA, Sonia Maria Ribeiro de. Um Outro Olhar: Filosofia. São Paulo: FTD, 1995, p.114)

sábado, 9 de abril de 2011

René Descartes: a dúvida metódica e o Cogito, ergo sum


 (seleta de texto sobre o racionalismo cartesiano)

"Suponho, portanto, que todas as coisas que vejo são falsas; persuado–me de que jamais existiu de tudo quanto minha memória referta de mentiras me representa; penso não possuir nenhum sentido; creio que o corpo, a figura, a extensão, o movimento e o lugar são apenas ficções do meu espírito. O que poderá, pois, ser considerado verdadeiro? Talvez nenhuma outra coisa a não ser que nada há no mundo de certo.
Mas que sei eu, se não há nenhuma coisa diferente das que acabo de julgar incertas, da qual não se possa ter a menor dúvida? Não haverá algum Deus, ou alguma outra potência, que me ponha no espírito tais pensamentos? Isso não é necessário; pois talvez seja eu capaz de produzi-los por mim mesmo. Eu então, pelo menos, não serei alguma coisas? Mas já neguei que tivesse qualquer sentido ou qualquer corpo. Hesito no entanto, pois que se segue daí? Serei de tal modo dependente do corpo e dos sentidos que não possa existir sem eles? Mas eu me persuadi de que nada existia no mundo, que não havia nenhum céu, nenhuma terra, espíritos alguns, nem corpos alguns; não me persuadi também, portanto, de que eu não existia? Certamente não, eu existia sem dúvida, se é que eu me persuadi, ou, apenas, pensei alguma coisa. Mas há algum, não sei qual, enganador mui poderoso e mui ardiloso que emprega toda a sua indústria em enganar-me sempre. Não há, pois, dúvida alguma de que sou, se ele me engana; e, por mais que me engane, não poderá jamais fazer com que eu nada seja, enquanto eu pensar ser alguma coisa. De sorte que, após ter pensado bastante nisto e ter examinado cuidadosamente todas as coisas, cumpre enfim concluir e ter por constante que esta proposição, eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a anuncio ou que a concebo em meu espírito.
Mas não conheço ainda bastante claramente o que sou, eu que estou certo de que sou; de sorte que doravante é preciso que eu atente com todo cuidado, para não tomar imprudentemente alguma outra coisa por mim, e assim para não equivocar-me neste conhecimento que afirmo ser mais certo e mais evidente do que todos os que tive até agora.
...E verifico aqui que o pensamento é um atributo que me pertence; só ele não pode ser separado de mim. Eu sou, eu existo: isto é certo; mas pro quanto tempo? A saber, por todo o tempo em que eu penso; pois poderia, talvez, ocorrer que, se eu deixasse de pensar, deixaria ao mesmo tempo de ser ou de existir. Nada admito agora que não seja necessariamente verdadeiro: nada sou, pois, falando precisamente, senão uma coisa que pensa, isto é, um espírito, um entendimento ou uma razão, que são termos cuja significação me era anteriormente desconhecida. Ora, eu sou uma coisa verdadeira e verdadeiramente existente; mas que coisa? Já o disse: uma coisa que pensa."
(Descartes. Meditações. pp. 266-267. 269)

domingo, 27 de março de 2011

“Os jovens não gostam de Filosofia?!” – “Quem disse!?”




Prof.: Epitácio Rodrigues

Michael de Montaige, disse certa vez: é melhor uma cabeça feita do que uma cabeça cheia. Entre os professores da área é comum reclamações de que os jovens “não curtem” filosofia. Esse desinteresse é justificado com o discurso do sintoma desta geração que não gosta de pensar. Sobre esse assunto, gostaria de apresentar algumas considerações. A primeira observação é a seguinte: não gostar de filosofia não é o mesmo que não gostar de pensar. Identificar o ser filósofo com o ser pensador é querer determinar a Filosofia como a única forma autêntica de pensar. Isso é um ontologismo ingênuo e arbitrário, pois, se é verdade que a filosofia tem a racionalidade como sua marca característica, não é toda racionalidade ou exercício de pensamento que é filosófico. A Filosofia trabalha com uma forma muito específica de pensar: o pensar por conceito. Além desta, existem outras como o pensar geográfico, histórico, sociológico, matemático, artístico... Todas modos autênticos de pensar, refletir e analisar criticamente a realidade humana.
A segunda observação diz respeito ao histórico dessa disciplina na educação básica do nosso país, mas especificamente do ensino médio. Todos nós sabemos que os jovens brasileiros não têm uma história de convivência com a Filosofia. São filhos de uma geração que nem sequer estudou essa disciplina no ensino médio, já que ela foi retirada do currículo do ensino médio na década de 60 e só retornou como disciplina obrigatória em 2006. Portanto, enquanto nós, os professores, estamos administrando as lacunas didáticas dessa ausência intencional e perniciosa, os jovens ainda estão se acostumando com o nome filosofia, que nem fazia parte do seu vocabulário cotidiano.
Por fim, é preciso saber com qual modelo de filosofia eles estão tendo contato? Nas escolas, normalmente esses jovens são obrigados a estudar uma longa história das idéias filosóficas, sem grandes atrativos ou relevância imediata para os seus conflitos, anseios e aspirações mais imediatos. No máximo, esse modelo de filosofia lhes oferecerá um pouco de erudição. Já os autores que escrevem livros com rotulações de filosofia para jovens, não raro, consideram suficiente apresentar textos resumidos e superficiais sobre temas como liberdade, paixão, amizade e congêneres, vendendo a falsa ilusão de que eles, os jovens leitores, serão autênticos aprendizes de filósofo. Vejo aí dois problemas graves: primeiro, nesses textos os autores pensam pelos jovens, decidem por eles os pontos de vistas ou pensamentos que devem ser adotados, não possibilitando ao leitor um exercício racio-conceitual de compreensão do seu mundo e da sua vida; segundo, quem escreve é quem, mais uma vez, determina quais conteúdos filosóficos devem encher a cabeça dos jovens.
No nosso entender, os conteúdos tradicionalmente considerados filosóficos têm um inquestionável valor, mas quem se sentiria motivado a querer estudar filosofia depois de um texto Heidegger, logo de cara, ou os intermináveis diálogos da República de Platão, ou ainda as sutilezas de Aristóteles e Tomás de Aquino, numa linguagem altamente metafísica, ou ainda a Crítica da Razão Pura de Kant e ou a Fenomenologia do Espírito de Hegel.
A grande dívida de gratidão que a Filosofia tem com os jovens atenienses, que escreveram as discussões engendradas nas praças públicas, só foi possível porque, Sócrates, um senhor senil, ousou ouvir dos jovens o que realmente era pertinente para eles, sobre o que eles queriam filosofar. Uma ousadia que lhe custou a própria vida, sob a acusação de corruptor da juventude.
Não quero aqui pregar um menosprezo pelos conteúdos filosóficos tradicionais, mas o simplesmente chamar a atenção para algo que os existencialistas já aludiam na primeira metade do século passado: o conteúdo filosófico por excelência é tudo que diz respeito ao homem concreto e cotidiano - suas angústias, sua relações interpessoais truncadas, sua desarmonia com a história vida, com o universo e com os valores, suas amarras e desconfianças sobre o sentido último da vida. Nesse sentido, concordamos com Sautet, quando afirma:

a filosofia não depende de seus assuntos. Não é uma ‘matéria’ a ser ensinada nem um campo a cultivar; é um estado de espírito, um modo de se servir do próprio intelecto. O filósofo não tem um objeto próprio. Parte das idéias aceitas, das opiniões do senso comum, das ideologias dominantes, das revelações religiosas, das respostas dadas pela ciência, para submetê-las a um exame. Tudo, portanto, é objeto de sua reflexão. O neófito não tem nenhuma necessidade de construir para si uma montanha de assuntos apropriados a essa disciplina. Eles não existem. Não há especificidade do objeto da filosofia: filosofar é questionar, no sentido mais banal do termo, aquilo que já está dado como resposta e que, na verdade, não convém.” (Um café para Sócrates.1999, p. 35).

Penso que não devemos somente mostrar os conteúdos que a filosofia tem para eles; mas também ousar perguntar e ouvir os conteúdos que eles têm para a Filosofia. Quem sabe assim os jovens com os quais interagimos em sala comecem a curtir o lance de pensar por conceito.

Ensaio SOBRE A OPINIÃO

“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ide...