quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A SOCIOLOGIA BRASILEIRA



Desde a chegada, em 1500, dos primeiros europeus a estas terras, denominadas posteriormente Brasil, a cultura que aqui se estabeleceu e produziu era importada e/ou influenciada da Europa. Por outro lado, ordens religiosas praticamente detinham o monopólio cultural no Brasil colonial.
Esse panorama durou muito tempo; contudo, a partir do século XVIII, período da mineração no Brasil, esta colônia portuguesa começou a dar alguns sinais de mudanças sociais.
O ciclo de mineração impulsionou a economia e fez surgir novas ocupações. Nessa época, com o movimento Barroco, elaboram-se as primeiras manifestações artísticas nacionais, ainda que tímidas. Contudo, culturalmente, a colônia ainda estava alienada a Portugal e, consequentemente, à cultura europeia. A inconfidência Mineira representa uma tentativa de valorização nacional.
Somente no final do século XIX e inicio do século XX surge um nacionalismo mais propriamente dito, despertando o repúdio ao aspecto colonialista ainda restante em nossa cultura. Nessa época, o pensamento cultural, bem como social e histórico, revolucionou-se, dando origem a um novo modo de pensar.
Diversos acontecimentos das primeiras décadas do século XX representam a transformação cultural e a visão nacionalista na qual o país mergulhou: fundou-se o Partido Comunista no Brasil, surgiram movimentos revolucionários como o Tenetismo e a Coluna Prestes, os jovens artistas se reuniram e resolveram romper coma tradição européia.
Na década de 1920, o advento da semana de Arte Moderna marcaria para sempre a cultura brasileira, propiciando inovação na linguagem e na temática da arte nacional.

A Semana de Arte Moderna
A Semana de Arte Moderna foi um evento cultural ocorrido na cidade de São Paulo, no Teatro Municipal de São Paulo, entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922. Foi aberta com a conferência “A emoção estética da arte moderna”, do escritor Graça Aranha.
O evento reuniu representantes de diversos segmentos artísticos: música, artes plásticas, literatura e dança. O evento contou com a presença dos escritores Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Antonio de Alcântara Machado, Mário de Andrade e Manuel Bandeira; contou também com os pintores Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Osvaldo Goedi e os músicos Villa-Lobos, Ernani Braga, Antão Soares, Guiomar Novaes e outros.
A Semana de Arte Moderna representou uma tentativa de liberdade de criação artística, buscando-se uma arte genuinamente brasileira, além de uma renovação de linguagem e a ruptura com o passado e a influencia europeia. Foi a expressão do total descontentamento com as regras de arte vigentes e um apego às nossas raízes.
Diversos acontecimentos históricos precederam a Semana de Arte Moderna, dentre eles:
·  Fundação por Oswald de Andrade do jornal O Pirralho, no qual a pintura nacional é criticada;
·  Pintura expressionista de Lasar Segall;
·  Exposição de obras de Anita Malfatti, em 1917, duramente criticada pelo escritor e editor Monteiro Lobato;
·  Influência de diversos movimentos culturais ocorridos no Ocidente, desde 1905.
A semana de Arte Moderna inaugurou o Modernismo ou movimento modernista no Brasil e representou uma ruptura com o conservadorismo artístico e cultural até então predominante, permitindo às futuras gerações novos caminhos, além da valorização da arte brasileira.
O movimento, além de representar um grande avanço cultural, inovou o pensamento social brasileiro. Como o nacionalismo que passou a predominar e a crença na ciência, a sociologia, a partir da década de 1930, tomou um grande impulso no Brasil.

Geração de 1930

A década de 1930 é um marco transformador na história brasileira, no campo político e também nas artes e produção intelectual.
A geração intelectual de 1930 buscou descobrir o Brasil real, opondo-se ao Brasil colonizado. Surgem preocupações políticas e sociais. O nacionalismo passa a girar em torno de uma comoção em unir as desiguais camadas sociais.
Na literatura, surgem alguns dos nomes mais relevantes do romance brasileiro, refletindo o momento histórico e as mudanças vividas pelo Brasil. Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Érico Veríssimo são alguns dos autores que produzem romances repletos de denúncias sociais, representativos da realidade brasileira e das desigualdades que o povo vivenciava.
Nessa época, surgem também notáveis intelectuais como Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre, entre outros.
A seguir, uma breve descrição da vida e obra de alguns dos intelectuais brasileiros de grande relevância para o desenvolvimento da sociologia no Brasil.

Gilberto Freyre
O sociólogo, antropólogo, escritor e pintor Pernambuco Gilberto Freyre (1900-1987) é considerado um dos mais importantes historiadores brasileiros.
Foi orientado por Franz Boas o curso de pós-graduação na Universidade de Columbia, EUA.
Sua principal obra, Casa grande e senzala, publicada em 1933, apresenta uma exaustiva e detalhada pesquisa de documentos e uma qualidade literária inestimável.
Como essa obra, Freyre revolucionou a historiografia nacional, dando importância a pequenos fatos da história. Para isso, coletou nos diários dos senhores de engenho e também em informações da vida pessoal de seus próprios antepassados a história do brasileiro, segundo ele, fruto do cruzamento de índios, africanos e portugueses.

Sérgio Buarque de Holanda
Paulistano, nascido em 1902 e falecido em 1982, Sérgio Buarque é considerado um dos mais importantes historiadores brasileiros e dos mais eminentes intelectuais do século XX. Foi um dos participantes da Semana de Arte Modernista de 1922.
Sérgio Buarque de Holanda iniciou suas atividades intelectuais mais voltado à crítica literária, dedicando-se mais tarde à historiografia pelo viés da sociologia, sobretudo pela análise social e histórica de Weber.
Em seu livro de estreia, raízes do Brasil, Sérgio Buarque faz uma crítica à formação das elites brasileiras.

Caio Prado Júnior
O paulistano Caio Prado Júnior (1907-1990) foi historiador, geógrafo, escritor, político e editor. Desde jovem, teve importante participação na conjuntura política nacional.
Suas obras apresentam uma historiografia de caráter social, identificada com o marxismo. Muitas delas têm por finalidade a tentativa de compreender o Brasil, investigando-o desde a época em que era colônia até o período histórico em que foram elaboradas.
Embora oriundo de família abastada, Caio Prado Júnior jamais se deixou seduzir pela sua classe de origem, a burguesia. Foi um revolucionário lúcido que trouxe inestimável contribuição à vida intelectual brasileira e a diversas áreas da história, sociologia e antropologia, entre outras.

Florestan Fernandes
Florestan Fernandes nasceu em 22 de julho de 1920, em São Paulo e era proveniente de uma família extremamente humilde (sua mãe era lavadeira). Florestan começou a trabalhar aos 6 anos. Por não conseguir conciliar trabalho e estudo, parou de estudar aos 9 anos, retomando os estudos somente aos 17.
Iniciou sua vida acadêmica na Universidade de São Paulo (USP), formando-se no ano de 1943 em ciências sociais. Tornou-se mestre em 1947 e doutor em 1951. Foi professor universitário e, durante a ditadura militar, foi cassado e exilado no Canadá. Faleceu aos 75 anos, em 1995.
Florestan foi um brilhante intelectual, excepcional professor, escritor e político. Foi eleito deputado federal duas vezes pelo Partido dos Trabalhadores. Em seus mandatos, preocupou-se em elaborar leis para melhorar a educação brasileira. Condenava a pedagogia tradicional, pois acreditava que ela estava muito distante da realidade brasileira e, principalmente, do processo social. Era um entusiasmado defensor da escola pública.
Como marxista, acreditava que os trabalhadores deveriam estar bem informados, o que só ocorreria através da educação.
Sempre esteve engajado na luta por um melhor ensino. Durante sua luta em defesa da escola pública, Florestan mostrou como um sociólogo pode sair do mundo acadêmico, do mundo da teoria, e partir para a prática, vinculando-se às lutas sociais. Foi um sociólogo socialista, demonstrou na teoria e na prática toda a sua preocupação com as classes menos favorecidas e combateu a desigualdade social.
Fundou a sociologia crítica no Brasil. em tudo o que fez, quer como professor, escritor, político ou sociólogo, sempre refletiu sobre as desigualdades socais e sobre qual seria o papel da sociologia em relação a isso. Acreditava que o sociólogo deveria participar ativamente para encontrar as transformações necessárias e a solução dos problemas sociais.
Com suas idéias inovadoras, Florestan possibilitou aos sociólogos um maior reconhecimento dessa profissão dentro da sociedade.

Darcy Ribeiro
Darcy Ribeiro nasceu em 26 de outubro de 1922, em Minas Gerais. Cursou a Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo, formando-se em ciências sociais no ano de 1946, também especializando-se em antropologia.
Homem de grande cultura, Darcy Ribeiro foi etnólogo, antropólogo, professor, educador, ensaísta e romancista.
De 1947 a 1956 foi etnólogo do antigo Serviço de Proteção ao Índio. Estudou a vida dos índios de Mato Grosso, Amazonas, Paraná e Santa Catarina. Criou o parque Indígena do Xingú e fundou o Museu do Índio. Juntamente com a Organização Internacional do Trabalho, elaborou um manual sobre os aborígenes do mundo inteiro.
Criou a Universidade de Brasília, sendo também o primeiro reitor dessa universidade. Foi Ministro da Educação em 1961 e chefe da Casa civil durante o Governo de João Goulart.
Foi exilado político no Uruguai, aos o golpe militar de 1964. De volta ao Brasil, foi preso, julgado e absolvido, e novamente exilado, dessa vez na Venezuela. Retornou ao Brasil em 1979 e passou a lecionar na Universidade Federal do Rio do Janeiro, tornando–se posteriormente secretário da cultura no Rio de janeiro, durante o governo de Leonel Brizola, e vice-governador em 1982.
Em 1990, eleito senador, defendeu vários projetos benéficos ao povo. Foi secretário de estado da Cultura e coordenador do Programa Especial de educação do Rio de Janeiro. Em 1992, foi eleito para ocupar a cadeira de número 11 da Academia Brasileira de Letras. Faleceu em 17 de fevereiro de 1997.
Darcy nos deixou uma vasta produção de livros e uma enorme contribuição para a educação brasileira. Também contribuiu com a cultura em geral por meio de diversos ensaios.
Durante toda sua existência, Darcy Ribeiro foi um grande defensor dos direitos humanos, que como antropólogo, etnólogo, educador ou político.
Em sua obra O povo brasileiro, ele escreveu:

Nós brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço, na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros... [...]
Meu livro mostra por que caminhos e como nós viemos, criando aquilo que eu chamo de Nova Roma com boa justificação... Roma por quê? A grande presença no futuro da romanidade, dos neolatinos é a nossa presença. Isso é o Brasil, uma Roma melhor porque mestiça, lavada em sangue negro, em sangue índio, sofrida e tropical. Com as vantagens imensas de um mundo enorme que não tem inverno e onde tudo é verde e lindo, e a vida é muito mais bela... E é uma gente que acompanha esse ambiente com uma alegria de viver que não se vê em outra parte. Esse país tropical, mestiço, orgulhoso de sua mestiçagem... Isso é que me levou muito tempo. Entender como isso se fez... Havia muita bibliografia sobre aspectos particulares, mas não uma visão de conjunto. Deixa eu contar pra vocês como isso se fez?
[...]
No Brasil a mestiçagem sempre se fez com muita alegria, e se fez desde o primeiro dia... Eu prometi contar como. Imagina a seguinte situação: uns índios colocados na praia e chamando outros: “venham ver, venham ver, tem um trem nunca visto”. E achavam que viam barcas de Deus, aqueles navios enormes com as velas enfurnadas... “O que é aquilo que vem? Eles olhavam, encantados com aqueles barcos de Deus, do Deus Maira chagando pelo mar grosso. Quando chagaram mais perto, se horrorizaram. Deus mandou pra cá seus demônios, só pode ser. Que gente! Que coisa feia! Porque nunca tinham visto gente barbada – os portugueses todos barbados, todos feridentos de escorbuto, fétidos, meses sem banho no mar... Mas os portugueses e outros europeus feiosos assim traziam uma coisa encantadora: traziam faquinhas, facões, machados, espelhos, miçangas,mas sobretudo ferramentas. Para o índio passou a ser indispensável ter uma ferramenta. Se uma tribo tinha uma ferramenta, a tribo do lado fazia uma guerra pra tomá-la.
Ao longo da costa brasileira se defrontaram duas visões de mundo completamente opostas:a selvageria e a civilização. Concepções diferentes de mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente. Aos olhos dos europeus os indígenas pareciam belos seres inocentes, que não produziam nada que pudesse ter valor comercial. Serviam apenas para ser vendidos como escravos. Coma descoberta de que as matas estavam cheias de pau-brasil, o interesse mudou...
Era preciso mão de obra para retirar a madeira.

Nesse livro, Darcy compara nossa história com a de outros países da América. O trecho transcrito se inicia falando da mestiçagem brasileira e mostra, de forma bastante irônica e até divertida, como o indígena percebeu a chegada dos portugueses e como o português viu o indígena; foi o choque cultural de dois povos completamente diferentes.
Em outro trecho, Darcy escreve:
Mas foi essa gente nossa, feita da carne de índios, alma de índios, de negros, de mulatos, que fundou esse país. Esse “paizão” formidável. Invejável. A maior faixa de terra fértil do mundo., bombardeada pelo sol, pela energia do sol. É uma área imensa, preparada para lavouras imensas, produtoras de tudo, principalmente de energia. A Amazônia devia ser um país, porque é tão diferente. O nordeste, até a Bahia... outro país que é diferente.a Paulistânia e as Minas Gerais juntas são outra gente... O sul, outra gente... Esse povão que está por aí pronto pra assumir como um povo em si e como um povo diferente, como um gênero humano novo dentro da Terra. É claro que eu tinha de fazer um livro sobre o Brasil que refletisse de certa forma isso. E li tudo que se falou do Brasil. então estava preparado para fazer esse livro. E gosto dele. Tenho orgulho do fundo do peito de ter dado ao Brasil esse livro. É o melhor que eu podia dar. Gosto muito disso.

Nesse livro, Darcy demonstra toda a sua paixão pelo Brasil, mostra a construção do país e sua formação étnica, além de fazer uma brilhante análise da estrutura da sociedade. Também mostra a regionalização do Brasil e analisa as classes sociais, acreditando que o país irá mudar, porém, acreditava que essa mudança viria por meio da democracia sem guerra.
No campo da sociologia e da antropologia, Darcy Ribeiro teve uma contribuição fundamental.
Darcy lutou pelos povos indígenas e denunciou como a cultura e a etnia indígena vinham e vêm sendo exterminadas.
Ele buscou explicar em sua obra, historicamente, como a questão indígena se iniciou, mas não somente explicou como, principalmente, buscou formas de resolver a situação dos indígenas.

Fernando Henrique Cardoso
Também contribuiu para a sociologia brasileira Fernando Henrique Cardoso (1931), sociólogo, professor universitário e político, que mais tarde (1995-2003) viria a ser presidente do Brasil.
É da autoria de Fernando Henrique Cardoso a obra Dependência e desenvolvimento na America Latina, na qual destaca a natureza política e social do desenvolvimento do desse continente.
Fernando Henrique contribuiu com a Teoria da dependência e foi considerado o “príncipe dos sociólogos”.

Josué de Castro
O pernambucano Josué de Castro (1908-1973) também trouxe contribuição à sociologia brasileira, quando, na década de 1940, escreveu a obra Geografia da Fome, mapeando a fome no Brasil e no mundo.
Josué foi médico, professor, antropólogo, geógrafo, sociólogo e político. Toda a sua obra revela preocupação com o tema da fome e da exclusão social.

Cristovam Buarque
Nascido em Recife no ano de 1944, o professor universitário e político Cristovam Buarque é autor da obra A segunda abolição, publicada em 1999, na qual trata do problema da pobreza no Brasil, contribuindo na evolução da sociologia brasileira.

(Fonte: VASCONCELOS, Ana. Base do Saber: sociologia. São Paulo: Rideel, 2009, pp. 107-122).

FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO



Cipriani Gabriele
1. RESUMO E OBJETIVO
O objetivo desta nossa aula é aproximar-nos do fenômeno chamado fundamentalismo buscando compreendê-lo. O termo, na linguagem comum e na imprensa, refere-se a uma realidade religiosa ou política radical, considerada uma ameaça para a sociedade contemporânea. É um conceito atribuído com muita facilidade e de forma aproximativa a grupos e comportamentos radicais também fora do mundo cristão, inclusive além do âmbito religioso em que nasceu. Fala-se, freqüentemente, de fundamentalismo islâmico, de fundamentalismo judaico, de fundamentalismo hindu, mas fala-se também de fundamentalismo político, econômico, do mercado.
Como fenômeno religioso, o fundamentalismo é objeto de estudo das ciências da religião. Na história é apresentado como um movimento político-religioso conhecido também por outros nomes como integrismo ou radicalismo. Nos Estados Unidos, durante a Primeira Guerra Mundial, além de indicar uma doutrina religiosa de caráter ortodoxo e conservador, identificou também um movimento do cristianismo protestante que reafirmava a absoluta inerrância da Bíblia em sua interpretação literal.
Na mesma época, no seio da Igreja Católica, fortaleceu-se uma corrente que se opunha à tendência chamada modernista, acentuando a autoridade do magistério romano como aparece na doutrina tradicional de Pio IX e Pio X.
Em uma sociedade mono-religiosa e monocultural, o espaço para uma reflexão sobre o fundamentalismo é muito limitado. Com maior facilidade pode-se falar de integrismo e conservadorismo. Em sociedades pluriculturais, como as contemporâneas, que vivem situações de rápidas mudanças e de fragmentação cultural, as atitudes fundamentalistas aparecem com maior evidência e constituem quase uma necessidade para muitas pessoas e grupos que buscam salvaguardar sua identidade. Devido à pluralidade de expressões e correntes diferentes é mais apropriado falar em fundamentalismos, ao plural.

2. ORIGEM E DESENVOLVIMENTO DE UM MOVIMENTO
O termo "fundamentalismo" nasceu em contexto religioso e desde o início foi usado para designar um movimento cristão. Tanto o movimento quanto o nome surgiram e se firmaram nos Estados Unidos, nas primeiras décadas do século passado. A corrente fundamentalista, nascida no seio do cristianismo protestante, reafirma a absoluta inerrância da Bíblia e sua autoridade suprema para a fé e para a ética. Uma série de doze opúsculos, "The Fundamentals: A testimony to the Truth" (1910-1915), expôs as doutrinas fundamentais sobre as quais a fé tradicional não deve permitir dúvidas ou adaptações: a inspiração literal da Escritura como palavra de Deus; a criação do mundo; a divindade de Jesus Cristo; sua concepção virginal, seus milagres, sua morte expiadora, sua ressurreição no corpo e sua volta futura; a realidade do pecado e a salvação por fé. Uma espera ansiosa do retorno de Jesus liga o movimento fundamentalista aos movimentos milenaristas do século XIX. Ele há de tirar os fiéis do mundo decadente condenado ao domínio do anticristo, até sua definitiva derrota e a instauração do reino milenário dos santos de Deus. Além disso, um rígido código moral pessoal e familiar identifica esses segmentos.
A questão fundamentalista, porém, não se reduz à defesa das verdades fundamentais do cristianismo, mas caracteriza-se por uma maneira específica de considerá-las, ou seja, é defendida uma formulação particular dos conteúdos da fé que não aceita nenhuma crítica. Não se trata, por exemplo, somente de defender o ato criador de Deus, mas a criação do mundo em sete dias como está relatada no primeiro capítulo de Gênesis, em oposição à teoria darwinista da evolução. Ainda que a unidade desses opúsculos não seja orgânica, sendo de diferentes autores, eles constituem uma plataforma comum contra a teologia liberal e modernista e a interpretação histórico-crítica das Escrituras.
O movimento fundamentalista não foi unitário nem conseguiu unificar o mundo protestante. Tratou-se mais de tendências de certos setores. Por isso, correntes fundamentalistas podem ser encontradas nas mais diversas denominações protestantes, às vezes, com tal força e número que algumas denominações podem ser consideradas fundamentalistas no seu conjunto. O marco fundamentalista encontra-se em movimentos pentecostais e, a partir da década de 1980, é também uma característica das congregações independentes e de adeptos de pregadores de televisão. Na expansão missionária das comunidades fundamentalistas é relevante o apoio dado aos pastores enviados para a América Latina.

3. UM MOVIMENTO PARALELO: O INTEGRISMO CATÓLICO
No início do século XX, com raízes no século XIX, também na Igreja Católica surgiu um movimento de reação ao modernismo que encontrava a simpatia de estudiosos e de membros do clero. É uma corrente a que foi dado o nome de integrismo. Seu perfil está em conformidade com o ambiente católico-romano, mas assemelha-se ao fundamentalismo protestante pelo objetivo de luta contra o modernismo e pela maneira de avaliar os fenômenos de mudança cultural e religiosa e pelo tipo de relação a ser estabelecida entre Igreja e sociedade. Enquanto, nos Estados Unidos, disputas lacerantes dividiram as maiores denominações protestantes, na Igreja Católica o poder do papa Pio X e de alguns cardeais contornaram a difusão das idéias modernistas com excomunhões e outras medidas disciplinares.
A corrente integrista, liderada pelo próprio papa Pio X, foi sustentada pela autoconsciência teológica da tradição católica em defesa da Revelação divina, da custódia do patrimônio da fé e da interpretação autorizada das Escrituras. Mas essa corrente foi levada também a um integralismo tendente a impor o domínio eclesiástico na vida, a restauração de formas de pensamento e de vida social proveniente da primeira metade do século XIX, de um conservadorismo social e hierárquico que acreditava poder encontrar a verdade apenas no âmbito que a Igreja havia construído para si desde o tempo do iluminismo.
A intolerância e o radicalismo com que essa luta foi conduzida fez não somente vítimas ilustres, mas chegou a atitudes de violência moral reprovável. As drásticas intervenções do papa Pio X e a aprovação dada à associação secreta chamada de Sodalitium Pianum ou de Sapiniére (pelo amigos e inimigos) que assumiu a missão de colher informações reservadas sobre todos os que fossem suspeitos, até cardeais ou superiores gerais de ordens religiosas, e de transmiti-las diretamente ao papa, desaguaram numa repressão indiscriminada e no fechamento hermético às correntes intelectuais não estritamente confessionais e tradicionalistas. Uma pesada atmosfera de suspeita se abateu sobre os católicos na segunda parte do pontificado de Pio X que fez levantar a voz fortemente crítica de cardeais como Gasparri, Maffi, Schuster, Mercier. O complexo de medidas restritivas tomadas naqueles anos, chegando a impedir estudantes de teologia de ler qualquer periódico, ainda que fosse dos melhores, constituíram um impedimento ao desenvolvimento dos estudos bíblicos e históricos e levaram ao extremo o afastamento da Igreja Católica do mundo moderno.
A corrente integrista foi viva e muito ativa durante e depois do Concílio Vaticano II, encontrou sua expressão extremada no arcebispo Marcel Lefebvre, que fundou sua própria Igreja, na sua opinião, fiel detentora da Tradição cristã e da verdadeira fé católica. Continua ativa ainda hoje em movimentos e organizações religiosas católicas que encontram apoio incondicionado de segmentos da hierarquia.
4. A EXTENSÃO DO CONCEITO DE FUNDAMENTALISMO
A atribuição do conceito de fundamentalismo a realidades tão diferentes exige que se estude com atenção cada caso, especialmente porque a conotação do termo é cada vez mais negativa. Já consideramos a extensão do termo no mundo protestante e católico. Vamos considerar agora um exemplo fora do mundo ocidental cristão. Hoje é praticamente inevitável não falar de "fundamentalismo islâmico".
No Islã, o extremismo religioso se desenvolve de uma maneira toda particular. As diferentes tradições muçulmanas, xiitas ou sunitas, estão de acordo em reconhecer no Alcorão a "Palavra vinda do céu", cuja autoridade ou inspiração não se pode questionar. Os ditos do Profeta também são inquestionáveis. Mas há divergências sobre o tipo de tradição que se deve privilegiar, aquela mais conciliadora ou aquela mais rígida e radical? Em época recente, a penetração da cultura ocidental, imposta também através de políticas direcionadas por interesses econômicos, tem elevado o nível de tensão e provocado choques culturais e políticos violentos. A revolução iraniana de 1979 que tirou do trono o Xá Reza Pahlevi, uniu o povo na defesa da cultura e das tradições islâmicas e na luta contra um poder explorador, levando à fundação da República Islâmica. O Ayatollah Komeini, de volta ao Irã depois de 15 anos de exílio, foi acolhido triunfalmente. Ele liderou um movimento que visava a restauração das leis corânicas e a libertação do povo muçulmano do domínio político, econômico e cultural do Ocidente. Conseguiu devolver o máximo poder, também político, dos líderes religiosos. No breve período de uma década, a revolução islâmica mostrou toda sua capacidade de unir forças em outros países muçulmanos com governantes seculares: no Afeganistão com os talebans, na Argélia com a Frente islâmica de salvação e o Grupo Islâmico Armado, no Egito com a Irmandade muçulmana e a Jihjad Islâmica, no Líbano com o Hezbollah, na Palestina com o Hamas.
O fortalecimento econômico dos estados produtores de petróleo deu aos estados de religião muçulmana também um poder político e militar estratégico nas relações internacionais. Além disso, esses países contam com a força da tradição religiosa que no Ocidente encontra-se fragmentada e debilitada. Sobre essa base, a Revolução islâmica implanta seu ideal político: instaurar um regime teocrático que seja a tradução literal da charia, a luta contra a penetração do poder e da cultura ocidental, representada especialmente pelo Estado de Israel e pelos Estados Unidos. No que diz respeito aos costumes exige-se o rompimento radical com tudo o que lhes pareça ocidental e a volta ao uso do chador ou da burka e demais costumes.
Cada vez mais percebe-se e teme-se que esteja em curso um conflito de civilizações. A opinião pública ocidental está incline a marcar com o estigma de fundamentalista toda a gama do movimento político-religioso do mundo muçulmano alimentando uma visão deformada e odiosa do Ocidente. O radicalismo religioso e cultural e a política revolucionária islâmica de hoje almejam um mundo em que todos obedeçam aos mesmos preceitos religiosos chegando a alimentar a luta armada e o terrorismo para alcançar esse objetivo. O fundamentalismo islâmico de hoje é hostil a uma certa idéia ideológica de Ocidente, tão extremada que chega a desejar sua destruição.
A aplicação do termo fundamentalismo, como bem se compreende, é transferência de um conceito originariamente circunstanciado para outras realidades e outros conteúdos. O que pode justificar essa transferência é a maneira de conduzir a defesa dos princípios religiosos ou culturais de uma sociedade que apresenta traços semelhantes aos usados por outros grupos.

5. FUNDAMENTALISMO COMO FENÔMENO RELIGIOSO
Toda religião, enraizada na sociedade humana, separa o grupo humano que nela se reconhece daqueles que praticam outra fé. Estabelece um território em que se definem e reforçam as identidades individuais e coletivas. À medida que diferencia uma comunidade da outra, a religião pode gerar conflitos ou servir de justificativa para confrontos violentos entre uma comunidade e outra. Ainda que as religiões preguem a paz, em todas as religiões se encontram pessoas ou grupos de crentes que vivem sua fé cultivando atitudes fundamentalistas. O envolvimento das religiões em guerras justifica perguntar se estas são fatores de guerra ou fatores de paz e se o fundamentalismo é ou não intrínseco a toda profissão religiosa. A pergunta se abriga na mesma estrutura institucional das religiões.
A crença num Deus absoluto e a total dedicação a ele da pessoa religiosa acabam justificando o absolutismo da crença. A partir de uma determinada formulação dos conteúdos de uma religião, tida como imutável, assumem-se atitudes de defesa e de luta contra toda e qualquer tentativa de reformulação, contra e qualquer mudança de comportamentos não consagrados pela tradição. O próprio serviço da verdade pode levar os líderes religiosos a atitudes autoritárias e violentas com a finalidade de evitar o relativismo, o sincretismo, o indiferentismo.
A recusa de distinguir entre conteúdos e suas formulações, a identificação do sentimento de total adesão de fé ao absoluto de Deus e a acolhida da sua auto-revelacão levam muitos crentes a assumir posturas de rígida defesa de sua profissão religiosa e comportamentos intolerantes.. Chegam a ponto de não admitir a possibilidade de outras identidades, negam o direito a pensamentos e a atitudes diferentes.
No interior da comunidade de fé, eles tendem a impor sua visão da tradição como a única ortodoxa, usando todos os meios, mas particularmente o poder religioso. Pode-se verificar nesses segmentos uma busca constante dos espaços de poder, uma infiltração nos postos-chave de condução das comunidades religiosas. Através da emanação de normas categóricas e invioláveis, com penas anexas para os transgressores, da formação de grupos de controle e de denúncia, instauram um verdadeiro clima de regime.
Na sociedade sua presença é também caracterizada por formas de poder. São defensores de atitudes moralistas muito rígidas, de valores ligados à cultura tradicional, quer religiosa como social. Usam publicamente costumes que ostentam sua identidade religiosa. Divulgam suas idéias de forma particularmente polêmica contra outros crentes ainda que pertençam ao mesmo credo religioso. Na política buscam entendimentos e cumplicidade com as forças conservadoras em troca da defesa e do apoio político e legal para a conservação de seu poder religioso.
Fundamentalismo e ameaça à paz parecem, cada vez mais, dois termos inseparáveis no mundo contemporâneo. Fundamentalismo e uma maneira equivocada de viver a fé também parecem companheiros inseparáveis de viagem. A expressão do escritor José Saramago em comentário ao ato terrorista de 11 de setembro de 2001 "O problema é Deus" deve servir de alerta para todos os crentes. Uma coisa é a adesão total e incondicionada a Deus, outra coisa é usar a religião em benefício de pessoas ou de grupos de poder.
Movimentos pacifistas procuram alertar sobre os riscos de atitudes fundamentalistas e contribuir para a criação de culturas de paz. No mundo religioso afirma-se cada vez mais um pluralismo de fato e de direito. O ecumenismo e o diálogo inter-religioso são apontados como caminhos irreversíveis para a reconciliação e a paz religiosa.

6. O FUNDAMENTALISMO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
A pluralidade religiosa e cultural está inscrita na história da humanidade. Se no passado alguns impérios souberam criar condições de convivência entre diferentes grupos humanos, os encontros entre representantes de culturas diferentes eram raros e havia territórios mais definidos para cada cultura e cada religião, também no passado as conquistas religiosas foram acompanhadas por violências e guerras.
Em nossas sociedades a situação mudou totalmente. A pluralidade religiosa não permite mais a definição segura dos territórios onde praticar em liberdade o próprio credo religioso. Crentes diferentes convivem no mesmo espaço humano. Um clima de insegurança se instaura nos indivíduos e nos grupos.
A interdependência global dos povos e das sociedades e a importância do fenômeno religioso no mundo atual dão relevância a mecanismos de intolerância e fanatismo de matriz religiosa, que complementam os outros fatores de conflito.
Entre esses mecanismos encontra-se um elemento importante: dois terços da humanidade professam religiões de origem estrangeira geralmente difundidas em tempos de expansão colonial. A revolta anti-colonial marca hoje significativamente as reações de povos e etnias e envolve os aspectos religiosos da colonização.
A globalização comercial, a migração de grandes massas humanas, a rapidez dos transportes e da comunicação, os intercâmbios culturais têm levado a uma fragmentação cultural e religiosa dentro de comunidades tradicionalmente unidas pela hegemonia de uma cultura ou de uma religião.
A possibilidade de perder a segurança enraizada em uma cultura e em uma religião é muito grande e as reações fundamentalistas freqüentes. Se a vocação universalista no passado levou a visitas discretas ou agressivas de missionários a outros territórios, hoje todos os crentes em qualquer lugar devem vigiar as próprias atitudes de domínio espiritual. A conquista de espaços de presença pode alimentar a competição e acirrar polêmicas e chegar aos excessos da intolerância e do fanatismo.
A necessidade de não perder uma identidade pacientemente construída faz considerar uma ameaça a variedade de experiências possíveis em uma sociedade em mudança como a nossa. A busca de espaços de segurança e atitudes de defesa, por parte de grupos que se consideram agredidos pelo proselitismo de outros, desencadeia reações agressivas e processos de autoritarismo nas Instituições religiosas.
Volta também com força a tendência das religiões a ocupar os campos próprios da política. Desencadeiam-se processos que transferem a competição religiosa para o âmbito da política partidária e a envolvem em conflitos de interesse mais amplo, com a conseqüente ameaça para a paz social.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Situações diversas têm levado no passado e levam ainda hoje pessoas e grupos humanos a uma maneira semelhante de enfrentar situações de conflito religioso, político ou social. A diversidade dos conteúdos exige estudos diferenciados de cada caso, mas atitudes semelhantes levam a identificar métodos e comportamentos como fundamentalistas.
Na situação internacional atual às correntes fundamentalistas opõem-se os métodos políticos da negociação e ao fundamentalismo religioso é proposto o caminho do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, inclusive como novos paradigmas de ação missionária para religiões que entendem seu credo como universal.
A missão cristã é desafiada a rever os paradigmas construídos em época colonial e aprofundar não somente uma espiritualidade de diálogo, mas construir um paradigma novo de missão que seja ao mesmo tempo ecumênico, inter-religioso e inter-cultural.
8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
8.1. Documentos eclesiais
- CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Decreto Unitatis Redintegratio.
- CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Decreto Nostra Aetate.
- JOÃO PAULO II. Encíclica Redemptoris Missio, São Paulo: Paulinas,1990.
- PONTIFÍCIO CONSELHO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO E CONGREGAÇÃO PARA A
EVANGELIZAÇÃO DOS POVOS. Diálogo e anúncio, São Paulo: Paulinas, 1996.
8.2. Bibliografia geral
- TAMAYO, Juan José. Fundamentalismos y diálogo entre religiones. Madrid: Trotta,
2004.
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- TEIXEIRA Faustino (org.). Diálogo de pássaros: nos caminhos do diálogo inter-religioso,
São Paulo: Paulinas, 1993.
- TEIXEIRA, Faustino. O diálogo em tempos de fundamentalismo religioso. Convergência,
v. 37, n. 356, (2003) 495-506.
- V.V.A.A. Fundamentalismo, Vida Pastoral XXXV/176, (Maio-Junho 1994).

Ensaio SOBRE A OPINIÃO

“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ide...