domingo, 1 de fevereiro de 2015

2015, ANO DECISIVO PARA A NOSSA CIVILIZAÇÃO


Wlirian Nobre
Geógrafo e professor


De acordo com a Agência Espacial Americana (NASA) o ano de 2014 foi o ano mais quente desde 1880, ano em que começam os registros da temperatura no planeta. O pior de tudo isso é que nesses 134 anos de medição os dez anos mais quentes, com exceção de 1998, foram de 2000 pra cá. Isso é estatística, é fato, portanto, não há dúvida sobre o aquecimento global assim como não há razão para otimismo.
Chegamos a um momento crítico de nossa existência. Somos uma só humanidade e um único planeta e, portanto o nosso destino é comum. Ou formamos uma aliança global com uma consciência planetária ou não conseguiremos salvar a nossa civilização.
De acordo com Boff (2013), a Terra conheceu 15 grandes dizimações. A última ocorreu a 65 milhões de anos atrás. Agora, as provas são irrefutáveis, é a espécie humana que ameaça todas as formas de vida do planeta. Estamos travando uma guerra irracional com a natureza apenas para acumular riqueza. Apenas 7% dos mais ricos contribuem com 50% das emissões de gases do efeito estufa, é um desejo infinito num planeta que é finito. Considere que em 2070 seremos cerca de 10 bilhões de habitantes e precisaremos aumentar a produção de alimentos em cerca de 70%. Se todos os habitantes desejarem levar uma vida semelhante ao modo de produção e consumo dos países capitalistas avançados “apenas às reservas de petróleo conhecidas seriam esgotadas em 19 dias” (LÖWY, 2014, p.46).
Se depender dos governos e da elite dominante, obcecada por riqueza material, entraremos numa fase de desastres ecológicos de proporções incalculáveis. O exemplo da última conferência do clima representa bem essa realidade. A COP-19 realizada em Lima, no Peru, em dezembro do ano passado, foi um grande teatro do absurdo. Em 10 dias de reuniões os representantes dos 196 países não chegaram a um consenso e mais uma vez jogaram as decisões importantes para o próximo encontro que ocorrerá em Paris no final desse ano.
Lamentavelmente os governos não conseguem perceber a urgência da crise ambiental e vão adiando acordos importantes para não afetar sua economia. As propostas dessas conferências são apenas paliativas que suavizam os problemas. Mas as mudanças não são simples, é preciso uma profunda mudança de paradigma (visões, valores, tradições, saberes, etc.). É preciso uma mudança radical, as meias medidas, as semirreformas, as conferências, os créditos de carbono são incapazes de dar uma solução ao problema.
No sistema capitalista vigente a busca da sustentabilidade é pura fantasia, tudo é visto pela ótica do mercado, o desejo é maximalizar os lucros à custa da natureza gerando desigualdades sociais e desequilíbrios ecológicos. A raiz do problema é o “consumo fundado na ostentação, no desperdício, na alienação mercantil e na obsessão infinita por riqueza” (LÖWY, 2014, p. 48). Como reverter isso sem romper com a lei do mercado, do lucro e da acumulação desenfreada. Somente um projeto de mudança radical pode fornecer uma alternativa ao progresso destrutivo capitalista.
A verdadeira sustentabilidade que visa o coletivo, a cooperação e a harmonia entre todas as formas de vida está na contramão do sistema capitalista. Cresce no mundo inteiro um movimento de inconformismo, pessoas que reagem, contestam, subvertem e desobedecem as determinações desse sistema padronizante. Entretanto, essas mudanças de comportamento e atitude ainda são insuficientes, é preciso romper com os fundamentos da civilização capitalista. Esperamos que a COP-20 seja um evento global onde as populações possam encurralar os governos para que esses rompam com a ditadura da economia lançando os alicerces de uma nova sociedade, antes que o planeta mergulhe no caos.

REFERÊNCIAS
BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é – o que não é. 2º ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.
CARLSSON, Chris. Nowtopia: iniciativas que estão construindo o futuro de hoje. Porto Alegre: Tomo editorial, 2014.
LÖWY, Michael. O que é o ecossocialismo? 2º ed. – São Paulo: Cortez, 2014.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

TERRORISMO E PÂNICO SOCIAL NO OCIDENTE





Epitácio Rodrigues

Nos últimos anos uma sensação de pânico social está crescendo cada vez mais, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, graças aos acontecimentos envolvendo grupos radicais do Oriente Médio que se apresentam como seguidores do islamismo. Atentados à bomba, sequestros, execuções transmitidas pelos meios de comunicação e internet tornaram o termo terrorismo parte do nosso vocabulário cotidiano. Mas o que se deve entender por terrorismo? André Comte-Sponville, filósofo francês, no Dicionário Filosófico, o define como a utilização da violência para fins de natureza política contra um poder estabelecido que não se pode vencer nem por vias democráticas nem pela força militar. Os terroristas, segundo ele, são combatentes da sombra, na medida em que não estão presos às leis ou convenções da guerra, não hesitando, inclusive, em atacar civis ou inocentes, caso julguem necessário para atingir os seus objetivos.
Para Leonardo Boff, teólogo brasileiro, o terrorismo é uma violência espetacular praticada com o propósito de ocupar as mentes das pessoas de medo e pavor. Não se trata apenas da violência em si, mas do seu caráter espetacular, capaz de dominar as mentes de todos, ativando o imaginário social e internalizando o medo nas pessoas. Por isso, os atos terroristas, normalmente, possuem esse caráter espetacular, que evidencia a sagacidade de seus feitores e gera a estupefação social; são realizados por pessoas anônimas, promovendo assim uma desconfiança generalizada, um medo constante e uma distorção coletiva na percepção da realidade, que torna qualquer situação imprevista um ato de terror em potencial. Essas considerações nos ajudam a entender o clima de pânico reinante na Europa, n’alguns países do Oriente e na America do Norte.
De fato, o combate ao terrorismo tem desafiado as grandes potências europeias e americanas que, mesmo dispondo de sofisticado serviço de inteligência, não deixam de experimentar uma sensação de pânico e as razões, além das apresentadas por Boff, podem ser sintetizadas em três ou quatro desafios. O primeiro deles é que os integrantes desses movimentos não são mercenários, não fazem guerra ao inimigo por dinheiro, mas por ódio ao Ocidente e à ocidentalização do mundo. Seus membros são pessoas instruídas a desde muito cedo ver a civilização ocidental como inimiga de seus costumes e de sua divindade. Por isso, esse inimigo deve ser combatido. Os radicais, como a imprensa nos acostumou a chamá-los, não têm medo de morrer por essa causa. Fica a pergunta: como vencer um inimigo que não vacila frente à morte em nome de sua causa? O que fazer quando morrer em nome dessa causa é motivo de glória e estímulo aos demais?
Outra questão é que eles não possuem características que os diferenciem dos demais seguidores do islamismo. Podem passa-se por uma pessoa piedosamente seguidora dos preceitos de fé religiosa sem levantar maiores suspeitas. A resistência no tocante à política de imigração também tem muito de proteção contra esse inimigo sem fisionomia definida. Para deixar a situação ainda mais complexa, inúmeros jovens europeus e norte americanos estão aderindo a esses grupos radicais.
Porém, de todas as dificuldades, a mais desafiadora é que os grupos radicais funcionam, se comportam de maneira similar ao velho preceito da Hidra de Lerna: “corte uma cabeça e duas novas nascerão”.
Em suma, estamos presenciando uma “guerra” das grandes potências europeias e americanas contra o terror dos radicais islâmicos, marcada por medo, ódio e fanatismo. Nesse meio fica a sociedade civil em pânico por causa de um inimigo que é potencialmente imprevisível, na medida em que pode ser qualquer um e em qualquer esquina.

Referência bibliográfica:

BOFF, Leonardo. Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009;
COMTE-SPONVILLE, Andre. Dicionário Filosófico. 2ª ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

SERÁ QUE NÃO FALTOU BOM SENSO?


Epitácio Rodrigues

Foi na França que um grande filósofo escreveu: “O BOM SENSO é coisa do mundo melhor partilhada, pois cada qual pensar estar tão bem provido dele, mesmo os que são mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa não costuma desejar tê-lo mais do que o têm [...] não é suficiente ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem" (DESCARTES,1996, p. 65).
Os últimos acontecimentos envolvendo grupos radicais do Islamismo e o jornal francês Charlie Hebdo colocaram em evidência temas como fundamentalismo, terrorismo, tolerância religiosa e liberdade de imprensa. Mas o destaque dado a esses temas vem acompanhado de uma manipulação tendenciosa. Por que digo tendenciosa? Porque o principal meio de divulgação do que está acontecendo é a imprensa, que tem num dos lados do conflito uma das suas formas de existência, o jornal. Por isso, a situação pede que se faça algumas ponderações a respeito do assunto.
A primeira observação diz respeito ao fundamentalismo. O problema pode ser sintetizado no seguinte questionamento: será que existe, de fato, uma religião fundamentalista? Podemos dizer, como sugerem os meios de comunicação, que os seguidores do islã são fundamentalistas? Será que no interior do Cristianismo, religião dominante no Ocidente, não tem um histórico de práticas e posturas fundamentalistas? Noutras palavras, é preciso delinear uma compreensão de fundamentalismo religioso, visando dirimir a consolidação de atitudes preconceituosas em relação a certos grupos étnicos e culturais.
Como já acenamos acima, os meios de comunicação de massa frequentemente apresentam fatos que são caracterizados nos noticiários como fundamentalistas. Quando houve a destruição das torres gêmeas, os muçulmanos foram responsabilizados. Criou-se uma verdadeira aversão a praticamente uma comunidade inteira. Falar em fundamentalismo é frequentemente associado aos radicais muçulmanos. Será que existe uma religião que seja fundamentalista?
Para o sociólogo Anthony Gidenns, o fundamentalismo religioso é a “abordagem assumida por grupos religiosos que exigem a interpretação literal das escrituras ou dos textos fundamentais e acreditam que as doutrinas surgidas a partir dessas leituras devem ser aplicadas a todos os aspectos da vida social, econômica e política” (2005, p.447). Uma característica do fundamentalismo é a defesa da existência de apenas uma visão de mundo correta. Não há, portanto, lembra Gidenns, espaço para ambiguidades ou múltiplas interpretações.
No mesmo sentido o afirma Leonardo Boff, para o qual o fundamentalismo não é uma doutrina, mas uma forma de interpretar e viver a doutrina. A pessoa fundamentalista é aquela que assume de forma literal o texto de certas doutrinas e normas sem considerar o seu sentido e sua dimensão histórica e cultural, exigindo, portanto, uma constante interpretação e atualização, como condição de garantia de conservação da sua verdade original. Em suma, dirá o pensador, que o fundamentalista é aquele que confere um caráter absoluto ao seu ponto de vista.
Na compreensão dos dois pensadores, o fundamentalismo surge mais como uma questão de hermenêutica. Trata-se de uma forma de interpretar os textos tidos como sagrados. Essa interpretação é literal, no sentido de entender o que está escrito, tal qual a letra apresenta. Ademais é também dogmática, na medida em coloca o texto como verdade absoluta e inquestionável.
Para os autores, portanto, o fundamentalismo seria, no campo da interpretação um erro hermenêutico, uma interpretação literal de um dado texto considerado sagrado. Já no campo gnosiológica, um erro dogmático, por considerar como verdade absoluta e inquestionável um texto que tem sempre a tinta humana. Mais também um erro de conduta, visto que assim entendido gera comportamento e posturas que promovem ações radicais, intransigentes e inflexíveis.
O fundamentalismo religioso é sempre, parece-me, reacionário. No sentido que a modernidade e laicização da sociedade é vista como uma ameaça contra a Divindade.
Assim, fica evidente que o fundamentalismo não tem uma estrutura de religião, mas de postura frente aos ensinamentos de uma dada religião. Que sua motivação inicial está de algum modo relacionada, de forma reacionária, aos movimentos da chamada racionalidade moderna, fortemente marcada por uma postura secularizada. Ou seja, frente um movimento ou sociedade que postula a necessidade de explicações racionais e científicas para os fenômenos sociais e naturais, que afirma a historicidade do conhecimento da verdade, os fundamentalistas negam, de certa forma, a historicidade humana, na medida em que negam aos textos tidos como sacros a sua historicidade e sua dependência de contextos históricos e culturais.
O terrorismo, quando vinculado à questão religiosa, é um ódio destinado ao não participante daquela compreensão religiosa do mundo, da vida e da morte ou pós-morte. O terrorismo é uma ação violenta que tem na base uma compreensão violentada da religião.
A tolerância religiosa, uma valor defendido na Modernidade, se configura mais como um respeito ao credo diferente e do seu espaço, uma experiência de alteridade, na qual se reconhece no outro o direito de crer numa realidade transcendente ou imanente, e até mesmo de não professar crença em nenhuma realidade sobre-humana de caráter sagrado ou divino.
O grande problema é que frequentemente os grupos ou comunidades religiosas querem expandir seu jeito de entender a existência como o único autenticamente válido – uma espécie de ontologia fidei: uma compreensão segundo a qual só a sua religião verdadeira, as demaissão reduzidas ao não-ser.
Do outro lado, os meios de comunicação de massa usam, de modo ideológico, o discurso da liberdade de imprensa como um absoluto. A equação é mais ou menos a seguinte: ou a Imprensa goza de liberdade absoluta e irrestrita, ou o Estado é ditador. Ora, a Imprensa, a priori, é um veículo de comunicação cujo papel principal divulgar os fatos e acontecimentos, tendo como norma a verdade e como fim a informação. O problema é que nos esquecemos que aquilo que chamamos genericamente de imprensa é, na verdade, um conjunto de empresas que como todas as demais, objetivam gerar lucros. Assim, nos últimos anos têm-se percebido que esses meios de comunicação frequentemente recorrem ao sensacionalismo e à produção de polêmicas para estimular o consumo de seu produto. Não quero aqui corroborar a ação dos terroristas no que se refere ao ataque à sede do jornal. Pois o que eles fizeram não tem justificativa plausível: os radicais assassinaram algumas pessoas por satirizarem com o profeta Maomé. Por outro lado, os protagonistas dessa ação sabiam que para os seguidores do Islamismo retratar o profeta Maomé é algo proibido e considerado extremamente ofensivo. Por isso, aqueles que fizeram as caricaturas satirizando o profeta sabiam que uma reação violenta nesse nível era não só possível, mas muito provável. Foi um risco que, ainda que se diga ter sido realizado em nome da liberdade de imprensa, na verdade, tinha como motivação vender o jornal usando uma matéria polêmica.
Essa é a questão silenciada: vivemos numa verdadeira crise da Imprensa que é primeiramente gnosiológica, na medida em que ela não divulga fatos, mas interpretações, julgamentos, condenações ou aprovações de fatos. As palavras de Chaui a respeito do jornalismo ganham uma eloquência singular nesse sentido: “rápido, barato, inexato, partidarista, mescla de informações aleatoriamente obtidas e pouco confiáveis, não-investigativo, opinativo ou assertivo, detentor da credibilidade e da plausibilidade, o jornalismo se tornou protagonista da destruição da opinião pública”(2006, p.14). Mais adiante afirma: “no noticiário, o sujeito é o locutor (ou “âncora”) e o repórter, isto é, o sujeito é a TV, enquanto a notícia e seus protagonistas são objetos. Os protagonistas da notícia falam à câmera, dando assim veracidade à televisão como sujeito único do noticiário. Em contrapartida, o locutor (o “âncora”) e o repórter se dirigem a nós, explicando e interpretando o que o protagonista diz, uma vez que este é um objeto – portanto, nada sabe – e a TV, o sujeito – portanto, sabe tudo” (CHAUI, 2006, p. 53).
Uma consequência é que a Imprensa cria “uma verdade” que quando é mentirosa possui efeitos danosos e quase sempre irreparáveis. Uma matéria errada que torna material impresso ou televisivo torna-se material de pesquisa para gerações futuras e perpetua ou faz ficar verdadeira uma interpretação mentirosa, mesmo que de um fato. Penso que, no caso específico do ataque a sede do jornal, fica a indagação: desrespeitar o profeta Maomé, considerado o fundador do Islamismo, não seria um ato de intolerância e de falta de bom senso? E a outra questão que fica é a seguinte: é preciso discutir, ao lado da propalada liberdade de imprensa, a responsabilidade da imprensa.

Referência bibliográfica:
BOFF, Leonardo. Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz: desafios para o século XXI. Petrópolis: Editora Vozes, 2009.
CHAUI, Marilena. Simulacro e poder: uma análise da mídia. São Paulo: Perseu Abramo, 2006
DESCARTES, R. Discurso do método. São Paulo: Nova Cultural, 1996. ( Col Os Pensadores).
GIDDENS, Anthony. Sociologia. 4ª. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A ARTE DE CONSOLAR

Epitácio Rodrigues da Silva

“Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação”:
Raquel chora seus filhos e não quer consolação,
Porque eles já não existem” (Mt 2,18).

O sofrimento, enquanto dor na alma, é algo do qual o ser humano não consegue se furtar, uma vez que viver é também está sujeito às doenças, desilusões, crises existenciais, revoltas e uma infinidade de situações que podem ou não ter origem em uma dor física, mas que se manifestam como um abalo psíquico e emocional que, dependendo da intensidade, impossibilitam o individuo de fazer uma avaliação objetiva da situação e até mesmo de retomar as rédeas da sua vida cotidiana por um certo intervalo de tempo. Mas o sofrimento tende a ser transitório na sua duração e diminuído na sua intensidade, não sendo a última palavra no vocabulário existência de um ser humano: se é verdade que não podermos viver sem experimentar algum tipo de sofrimento, não é verdade também que viver e sofrer não se equivalem: ele tende a diminuir de intensidade e passar com o tempo.
Isso não significa que esperar seja a única opção. Pois, o ser humano carrega a crença otimista de que pode intervir, seja na intensidade, seja na abreviação do sofrimento das pessoas que padecem de algum tipo de dor na alma. A dor do outro frequentemente tem o poder de intimar o ser humano a sair da indiferença, despertando-lhe um sentimento de solidariedade, na maioria das vezes, revestida sob a forma de consolo: ação de ir ao encontro de quem sofre com palavras que se propõem auxiliar no alívio da sua dor.
A arte de consolar carrega uma pretensão humilde. Quem consola sabe que não irá extinguir a dor, mas apenas a atenuá-la. Essa consciência, ao que tudo indica, existe desde as sociedades mais antigas. Os gregos, por exemplo, para descrever a ação de consolar, usavam a palavra paramytheomai, que significa: “falar de modo positivo e benevolente para uma pessoa; aliviar, encorajar, exortar, dirigir palavras de ânimo”. Essa palavra foi criada juntando os termos para - perto de, junto de; e mytheomai (verbo derivado de mythos - conversa, diálogo, conselho...) que indica a ação de falar, conversar. Para eles, portanto, era claro o entendimento de que consolar é colocar-se junto de alguém que sofre e dirigir-lhes palavras de ânimo, encorajamento e de alívio da sua dor.
Mas a maior dificuldade das pessoas diante de alguém que sofre é justamente saber o que lhe dizer. Quais palavras que, uma vez pronunciadas, atenuarão a sua dor? Muita gente deixa de visitar uma pessoa querida quando ela está enferma ou perdeu um ente querido por acreditar não saber o que dizer diante do seu sofrimento. Realmente palavras vazias não realizarão a função do consolo. Lembro-me uma vez num velório numa comunidade pequena de zona rural que uma senhora havia perdido o filho num acidente trágico e chorava desoladamente. Um senhor aproximou-se dela e disse: “não chore não, morreu acabou!” ao ouvir essas palavras, ela esbravejou umas três vezes seguidas: “acabou não! A intenção daquele homem do campo era boa, mas a crença daquela piedosa senhora entrava em choque com aquelas palavras. Por isso, é fundamental saber quem é a pessoa, quais suas crenças, sua visão da vida e seus valores mais fundamentais. Porém, quando não se conhece a pessoa o suficiente, vale lembrar que o diálogo, plataforma do consolo, é um movimento de fala e escuta. Se não sabe o que dizer, não diga nada. Mas sempre escute o sofrimento do outro. Tenho visto situações em que as pessoas se ocupam tanto em falar coisas e não são capazes de ouvir o sofrimento do outro. Estar presente é uma forma de falar de sua solidariedade; um jeito de dizer que se importa com a pessoa. Pois, o maior problema diante do sofrimento de alguém não é o silêncio, mas a indiferença.
O consolo é um modo de solidariedade, no qual alguém, diante do sofrimento de outrem, se propõe restabelecer-lhe o chão da existência, mediante uma palavra encorajadora ou de alívio de uma dor. Mas o mais fundamental é que fazendo isso, ela mostra que se importa com a dor daquela pessoa e espera de encontrar alguma palavra que lhe ajude a se reanimar e encarar com mais serenidade o sofrimento que lhe é inevitável.


terça-feira, 29 de julho de 2014

SOBRE O FILÓSOFO DJACIR MENEZES


Epitácio Rodrigues

    Nos cursos de graduação e nas aulas ministradas no Ensino Médio pouco se fala a respeito dos filósofos brasileiros e de suas contribuições para a consolidação de uma produção filosófica entre-nós. Nesse sentido, este texto pretende ser uma apresentação, ainda que muito insipiente, do filósofo Djacir Menezes, um pensador brasileiro cuja produção intelectual trouxe significativos contributos à reflexão filosófica, sociológica, econômica e jurídica. Existem muitos filósofos que merecem ser conhecidos por nós, mas por razões bem pessoais resolvi começar por esse.
    O meu primeiro contato com um livro de Djacir Menezes se deu casualmente, quando li Nordeste de Gilberto Freyre. Ali o autor fazia referência a um outro texto sobre o mesmo tema, mas com outra abordagem. Era o livro O Outro Nordeste, de Djacir Menezes. Depois de muito esforço, consegui encontrar um exemplar do referido livro e a leitura da obra despertou em mim a curiosidade para saber mais respeito do autor e da sua bibliografia. Depois de alguns meses de pesquisa, resolvi apresentar essa breve apresentação biográfica que espero completá-la com algumas considerações a respeito da produção filosófica de Djacir Menezes num futuro próximo.

 1. Quem foi Djacir Menezes? 
    Djacir de Lima Menezes nasceu na cidade de Maranguape, no estado do Ceará, no dia 16 de novembro de 1907, filho de Paulo Elpídio de Menezes e Olga Freire de Lima Menezes. Seu pai, nascido na Pequena cidade do Crato, bacharelou-se em Direito e tornou-se depois jornalista, dirigindo três jornais. É autor do livro O Crato do meu Tempo. Seu filho seguiu caminho parecido – escrever e dirigir instituições -, mas com uma estrada mais longa e complexa.
      A formação escolar de Djacir Menezes teve início no Instituto Miguel Borges do professor Odorico Castelo Branco, onde cursou o primário, corresponde ao que chamamos hoje de Ensino Fundamental, e o Ensino Secundário (atual Ensino Médio) no Liceu do Ceará, mesmo lugar onde, anos antes havia estudado o também filósofo cearense Farias Brito.
      Em 1926 iniciou a graduação em Direito na Faculdade de Direito do Ceará. Porém, três anos depois, transferiu-se para a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, onde se diplomou em 1930. De volta ao Ceará, na faculdade onde havia iniciado sua graduação, concluiu o curso de Doutoramento em Direito, em 1932, com a tese: “Kant e a idéia de direito”. Essa tese abriu as portas para o seu ingresso como professor nessa instituição, ministrando a cadeira de Introdução à Ciência do Direito. Em 1938 fundou a Faculdade de Ciências Econômicas do Ceará, da qual foi o primeiro diretor, posteriormente incorporada à Universidade Federal do Ceará (UFC). Dois anos mais tarde, foi aprovado em dois concursos: um para a Faculdade de Filosofia e o outro para a de Economia, ambos da Universidade do Brasil (atualmente Universidade Federal do Rio de Janeiro). Com a aprovação no concurso, mudou-se em definitivo para a capital da Republica, Rio de Janeiro, em 1941, onde assumiu o cargo de professor catedrático da Faculdade de Economia, ministrando a disciplina Historia e Doutrinas Econômicas. Nessa Universidade, além de professor, foi também reitor nos anos de 1969 a 1973. Após o mandato, tornou-se professor emérito dessa mesma Instituição universitária. Foi diretor do Centro de Estudos Brasileiros em Buenos Aires, entre os anos de 1953 a 1954; e do Instituto Brasil-Bolívia, em La Paz, no ano de 1958. Também ministrou a cátedra de Literatura Brasileira na Universidade Autônoma do México, em 1959. Além de membro da Academia Brasileira de Ciências Econômicas e Administrativas, era sócio efetivo do Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará. 

2. Vinculações e principais obras
   Djacir Menezes faleceu em 1996, no Rio de Janeiro, deixando uma vasta produção intelectual. No que se refere à produção filosófica, os organizadores do livro As idéias filosóficas no Brasil (Crippa, 1978) apresentam Djacir Menezes como um filósofo do direito ao lado de Francisco Campos, Eusébio de Queirós Lima, Ponte de Miranda e Pinto Ferreira, dentre outros (Cf. SEVERINO, 2008, p.29). Luckesi e Passos na sua Introdução à Filosofia (Cortez, 1985), falam de uma vinculação de Djacir Menezes com o positivismo nos seguintes termos: “Euryalo Canabrava, em oposição a esse culturalismo em desenvolvimento, assume uma posição neopositivista, assim como Leônidas Hegenberg e Djacir Menezes” (2004, p. 266). Essa colocação é mais explicitamente esclarecida por Lima Vaz, no texto O pensamento filosófico no Brasil de hoje, escrito como apêndice acrescentado ao livro de Leonel Franca Noções de História da Filosofia. Lima Vaz afirma que a primeira fase do pensamento de Djacir Menezes e Euryalo Canabrava se configurou como uma reflexão sobre a ciência, vinculada à tradição positivista (cf.SEVERINO, 2008, p. 31).
      Para Severino, Djacir Menezes é um dos jusfilósofos brasileiros ligados ao culturalismo, cujas origens no país remontam ao filosofo Tobias Barreto e a Escola de Recife, só que no caso de Djacir com acento hegeliano. Comentando sobre o filósofo, afirma Severino: “A cultura é a via de acesso à realidade ontológica e, por ela, na opinião de Menezes (1977, p. 93), o homem, ser espiritualizado, está promovendo uma luta contra a própria naturalização (2008, p. 151).
      Como já mencionamos acima, Djacir Menezes deixou uma vasta obra sobre Literatura, Filosofia, Sociologia, Direito e Economia, dentre as quais: O problema da Realidade objetiva (1932); Diretrizes da Educação Nacional (1932); Teoria Científica do Direito (1934), Pedagogia (1935), Dicionário Psico-Pedagógico (1935), O Outro Nordeste (1937), Psicologia (1940), Princípios de Sociologia (1944), Curso de Economia Política (1947), Crítica Social de Eça de Queirós (1950), As Elites Agressivas (1953), A.B.C. da Economia (1953), Evolução do Pensamento Literário no Brasil (1954), Raízes Pré-socráticas do Pensamento Atual (1958), A querela Anti-hegel (1960), Temas de Política e Filosofia (1962), Evolucionismo e Positivismo na Crítica de Farias Brito (1962), Mondolfo e as interrogações de nosso tempo (1963), Introdução à Ciência do Direito (1964), Proudhon, Hegel e a Dialética (1966), Textos Dialéticos de Hegel (1969), José Ingenieiros e minha formação (1970), Ideias contra ideologias (1971), Teses quase hegelianas (1972), Motivos alemães (1976), Premissas do culturalismo dialético (1979), O Brasil no Pensamento Brasileiro (livro organizado por ele para o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, subordinado ao INEP). Além de livros, Djacir deixou uma gama de artigos Publicados em revistas especializadas, como a REB e também muitos artigos publicados em jornais.
     Djacir Menezes é reconhecido como um pensador ligado o culturalismo, como forte influência de Hegel, e que escreveu sobre a Filosofia, o Direito, a Sociologia e Economia. Seu pensamento, apesar de ser ainda pouco conhecido em muitos centros acadêmicos, existem trabalhos de analise e discussão de seu pensamento, dentre elas o livro de Paupério, A. M. Djacir Menezes e as perspectivas do pensamento contemporâneo

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
MENEZES, Eduardo Diatahy Bezerra de. O Pensamento Brasileiro de Clássicos Cearenses. Volume II. Fortaleza: Instituto Albanisa Sarasate, 2006.
LUCKESI, Cipriano Carlos & PASSOS, Elizete Silva. Introdução à Filosofia: aprendendo a pensar. 5ª Ed. São Paulo: Cortez, 2004. 
SEVERINO, Antonio Joaquim. A Filosofia contemporânea no Brasil: conhecimento, política e educação. 5ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.




domingo, 6 de julho de 2014

PENSANDO O RESPEITO ENQUANTO VALOR FUNDAMENTAL DO SER HUMANO


Epitácio Rodrigues

Desde o nosso nascimento, somos lançados em um mundo de coisas, seres, crenças, valores e costumes que interferem diretamente na construção do nosso entendimento da realidade, por isso não vivemos simplesmente, mas con-vivemos, na medida em somos impelidos a partilhar um complexo de vivências intersubjetivas. Cada um de nós é o resultado desses encontros e vivências e o significado que lhes atribuímos, pois ao partilharmos a existência com outras pessoas, somos afetados por essa teia de valores e entendimentos, mas não assimilados passivamente por nós, pois fazemos uma síntese muito pessoal, tornando o meu entendimento do mundo sempre diferente dos demais com os quais interajo.
O contato interpessoal põe em evidência as diferenças e, não raro, ocasiona conflitos de interesses, de desejos e de projetos de vida. Se não podemos viver sozinhos, fica a indagação de como devemos lidar com as diferenças? Se por um lado, não é possível vivermos na solidão, no máximo momentos de isolamento físico, já que o ser-com-os-outros é parte da nossa constituição fundamental, também não podemos obrigar os outros a se tornarem iguais a nós à Procusto. Resta-nos apenas aprender a con-viver com mais excelência. Isso significa que se a sociabilidade faz parte da nossa constituição, a socialização saudável é fruto de um aprendizado, é resultado de uma pedagogia da con-vivência. Mas, interagir de modo significativo com outras pessoas supõe a decisão de cultivar alguns valores indispensáveis, dente eles, o respeito. Estamos acostumados a pensar o respeito como sinônimo de temor em relação a alguém, mas conforme lembram Aranha e Pires, a palavra respeito deriva do latim respicere, cujo significado básico é “olhar para”. Assim, respeito indica, no sentido mais preciso, a capacidade de ver a pessoa como ela é, reconhecendo-a na sua individualidade singular (1993, p. 321). Respeito, portanto, é ver o outro como outro.
Ver uma pessoa na sua alteridade não é muito fácil, pois normalmente reduzimos as pessoas ao que pensamos ou imaginamos dela e não percebemos que uma coisa é o que pensamos dele e outra bem diferente o que ele é de fato. Para ver as pessoas como são a primeira exigência é nos darmos conta de que o outro, no sentido mais preciso, nos escapa. Mas então, como evitar ou ao menos minorar uma compreensão equivocada do outro pela nossa inteligência? A resposta é simples: “ver” e “ouvir” o outro. A orientação pode parecer simplória, mas às vezes, o fundamental é o mais óbvio, o que não significa que seja o mais fácil.  Ver e ouvir são exigências inerentes ao conceito de pessoa humana. De fato, a origem da palavra pessoa, na tradição latina deriva de persona, que por sua vez traduz a palavra grega prosopon (mascara/face). Prosopon “é originariamente formado de duas outras palavras: pros, 'em direção de' e ops, 'olho', e o seu sentido mais preciso é: 'aquilo que atrai o olhar'” (RODRIGUES, 2013, p. 45). A palavra tem, portanto, uma ligação intrínseca com a experiência do olhar. Eu reconheço o outro voltando o meu olhar atento para ele, com o propósito de vê-lo como ele é. Não podemos esquecer o aspecto dialético da experiência: revelação – indicado pelo rosto – e o velamento sugerido pela máscara. Outro é revelação e mistério. O respeito é ver o outro como pessoa: alguém que mostra que o ser é transfenomenal, ou seja, ultrapassa o que o meu olhar capta. Mas prosopon tem também uma relação com a comunicação. Algo que é mais bem elucidado pela tradução latina, persona (de per- para; sonare – soar): literalmente “para soar mais perfeitamente”. O prosopon ou persona era originariamente uma mascara teatral que servia para caracterizar o rosto e a identidade do ator, se trágico ou cômico, mas também para ampliar o som da sua voz, tornando-a audível e compreensível pelo auditório. Assim, ouvir o falar do outro, como uma forma de revelação de si. Diálogo (diá- entre; logos – palavra, ideia, conceito) significa o processo de interação no qual uma palavra/logos se coloca entre dois. É através do diálogo, no face-a-face, que o outro se revela a nós como outro. Assim, é pela escuta do outro como outro, no face-a-face da proximidade, que ele se mostra como fenômeno e transfenomenal.

Referência bibliográfica:
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda & PIRES, Maria Helena Martins. Filosofando. 2ª ed. rev. e atual. São Paulo: Moderna, 1993.
COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. São Paulo: wmfmartinsfontes, 2011.
DUSSEL, Enrique. Ética Comunitária. Petrópolis, RJ: Vozes, 1986.
RODRIGUES, Epitácio. Do Ninguém à Pessoa. In: RODRIGUES, Epitácio & CARVALHO, Elieldo Duarte. As Portas do Tempo nos Muros da Vida. Juazeiro do Norte-CE: 2013.


segunda-feira, 26 de maio de 2014

CONHECE-TE A TI MESMO

Epitácio Rodrigues

Que somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido da nossa existência? O que significa viver? Qual o valor da vida frente à eminência da morte? Essas são questões que acompanham o ser humano desde o momento em ele que tomou consciência do seu ser-no-mundo. Como as repostas nem sempre são simples, não raro tendemos a escolher o caminho mais curto e mais fácil a ser trilhado. Nesse sentido, tornou-se famoso, desde a antiguidade, o adágio:comamos e bebamos porque amanhã morreremos(Cf. Is. 22,13; ICor. 15,33 ). Essa apologia do prazer imediato e descomprometido com o futuro como um projeto de vida feliz tende a acarretar uma frustração pela própria natureza do prazer como algo fugaz e provisório, exigindo uma inventividade e superação constante. O prazer experimentado ontem deve ser mais intenso hoje ou então será mera rotina: a cada vez deve ser mais intenso, mais fantástico sob o risco de deixar de ser prazer. Para usar uma metáfora socrática, é uma espécie de tonel furado, quando mais se tenta enchê-lo mais vazio lhe parece.
Outra fuga da vida é a adoção de um projeto de felicidade entendido como um esforço para não passar privações, no qual cada dia é entendido como momento de preparar e garantir a subsistência e prazeres futuros. A felicidade passa a ser entendida sempre a partir de uma ótica negativa, equivalendo a um evitar sofrimento. Nesse projeto, nos casos mais radicais, qualquer manifestação de alegria é suprimida. Um exemplo disso pode ser ilustrado com a prática monástica, que sob o pretexto do ora et labora (ora e trabalha), condenavam o riso: “o riso é abundante na boca dos estultos.”
A sintomatologia do homem e mulher hodiernos, de modo especial os mais jovens, mostra uma dificuldade em sabem lidar com essas duas realidades humanas, cuja administração é condição sem a qual não para uma vida equilibrada, a saber: o sofrimento e o prazer. Isso Por que o homem ocidental, por uma série de razões, não foi adequadamente educado para lidar com o prazer e com o sofrimento. O filósofo Aristóteles já mostrava uma preocupação a esse respeito, quando lembrou que a excelência das nossas ações estava relacionada com o prazer e o sofrimento, e acrescentou: “É por causa do prazer que praticamos más ações, e por causa do sofrimento que deixamos de praticar ações nobres. Por isso, como diz Platão, deveríamos ser educados desde a infância de maneira a nos deleitarmos e sofremos com as coisas certas; assim, deve ser a educação correta” ( 2002: p. 43).
A ausência de uma educação ou de uma formação que contemple isso se torna evidente na falta de parâmetros racionais e consistentes para avaliar e valorar, seja as experiências de sofrimento, seja as de prazer. Somos, frequentemente, incapazes de extrair de ambas alguma aprendizado que nos torne um ser humano melhor e mais preparado para a própria vida. A consequência disso é que as nossas experiências de prazer e também as de sofrimento, não raro, nos conduzem ao mesmo ponto: a infelicidade.
O filósofo Sócrates dedicou parte de sua vida a exortar o ser humano ao autoconhecimento em busca de uma vida feliz. Ele acreditava que o ser humano é essencialmente a sua psique/alma, ou seja, a razão enquanto sede da atividade pensante e eticamente operante.[1] Por isso, esse filósofo assumiu como sua missão nas andanças que realizava convencer aos jovens e velhos de que o foco do cuidado humano devia estar voltado à alma e não tanto ao corpo e às riquezas e demais coisas exteriores. O corpo, segundo ele, era apenas um instrumento do qual se servia a psique/alma, então quando afirmava repetidas vezes: “conhece-te a ti mesmo”, ele estava exortando cada pessoa um mergulho na sua interioridade, pois, como deixa muito claro na Apologia “a vida sem exame não é digna de ser vivida”.
A expressão “conhece-te a ti mesmo” não é de autoria do filósofo, mas uma das máximas que se encontravam no frontispício do tempo de Apolo, em Delfos. O mesmo templo no qual seu amigo e discípulo Querofonte, indaga à sacerdotisa a respeito de quem era o homem mais sábio, ao qual ele responde: “Sócrates!” Convicto da necessidade do autoconhecimento, Sócrates apropria-se da máxima para deixar claro o seu projeto. Dainezi, comentando a frase, esclarece: “é a vida que dispõe do olhar para si, do exame das atitudes, das ações, do constante duvidar, da constante busca do bem” [2].
O velho Sócrates provocou uma verdadeira revolução axiológica, na medida em que defendeu ser os verdadeiros valores não aqueles ligados às coisas exteriores, como o poder, a fama, a riqueza e muito menos aqueles referentes ao corpo como a vida, a beleza, o vigor, a saúde física, mas sim os valores da psique/alma, que em última instância, reduzem-se ao conhecimento. Os valores atribuídos às coisas exteriores e ao corpo, quando dissociados do conhecimento, tornam-se grandes males. Nesse sentido, é compreensivo a ênfase dada à máxima: “conhece-te a ti mesmo”, pois a ausência desse conhecimento leva ao erro, ou seja, o erro é proveniente da ignorância, do desconhecimento. Percebe-se, portanto, que há identidade entre verdade e bondade, entre o ser, o conhecer e o agir. Pode-se questionar tal entendimento a partir da observação cotidiana, repleta de situações nas quais as pessoas, sabendo o que é certo a ser feito, fazem o que sabem ser errado. Mas não há aí uma interpretação superficial da questão? Conhece-te a ti mesmo não se reduz ao encontro racional com suas emoções e reações, mas um mergulho naquilo que é a constituição fundamental do ser humano: o verdadeiro ser humano é fundamentalmente bom, por isso a necessidade de um conhecimento verdadeiro de si mesmo.
No conhece-te a ti mesmo na há receita de felicidade, mas uma exortação a se por a caminho de si mesmo.

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Ética à Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2002,
REALE, Giovanni & ANTISERI, Dario. História da Filosofia, Vol. I 7ª ed.. São Paulo: Paulus, 2005;
DAINEZI, Gustavo. Conhece-te a ti mesmo. In: Filosofia: ciência e vida, ano VI, nº 71, junho; 2012, pp. 14-22.
PLATÃO Apologia de Sócrates. São Paulo: Nova Cultural, 1999.p. 52. Col. Os Pensadores.



[1] Cf. REALE & ANTISERI, p. 87
[2] DAINEZI, G. p. 18.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

LIBERDADE OU SEGURANÇA?


Apresentando Alexis de Tocqueville
Em que contexto recusar a liberdade torna-se uma alternativa? Para responder a essa pergunta convidamos o pensador francês Alexis de Tocqueville (1805-1859), filósofo, político, historiador e escritor francês que se tornou conhecido por suas análises da Revolução Francesa (1789), da democracia americana e do desenvolvimento das democracias ocidentais. Suas principais obras são: A democracia na America (1835), O Antigo Regime e a revolução (1854) e Lembranças de 1848 (1893 – publicação póstuma).

Quando a liberdade é ameaçada
Tocqueville acompanhou de perto os efeitos da Revolução Francesa, que em 1789 pôs fim ao regime monárquico e inaugurou a República na França. O documento mais importante desse movimento histórico foi a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, conhecido como o certificado de nascimento da democracia moderna. Seu primeiro artigo correu o mundo: “os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem basear-se no bem comum”.
O que mais impressionou Tocqueville em relação à Revolução francesa foi a violência com que ela se deu. Por que uma revolução que defendia a liberdade, a igualdade e a fraternidade levou ao Terror?[1] Lutar pelo ideal de igualdade pode levar à violência? O desejo de liberdade pode resultar no seu contrário? Em que condições a luta pela liberdade e a igualdade leva à violência ou à tirania? Por que é tão difícil garantir a liberdade? O que fazer para preservá-la? O que vale mais, a liberdade ou a igualdade? Combinar os ideais de igualdade e liberdade transformou-se na obsessão de Tocqueville, presente em todos os livros, e ficou conhecida como “dilema tocquevilliano”.

O Novo Mundo e o sonho da liberdade
Os temas da liberdade e da igualdade entre os homens e mulheres levaram Tocqueville a fazer uma Viagem aos Estados Unidos, que se tornara independente em 1776, treze anos antes da Revolução Francesa e tinham também como bandeira a democracia, liberdade e a igualdade. E mais: parecia que eles tinham encontrado a fórmula de associar igualdade de condições com liberdade de ação e expressão.
A decisão de Tocqueville de visitar os Estados Unidos objetivava conhecer as prisões, pois era famosa a experiência de democracia, direitos civis e liberdade.
Tocqueville registrou, em detalhes, os aspectos da vida no país: como os professavam suas crenças religiosas; escolhiam seus representantes; defendiam seus interesses em associações; organizavam a vida cotidiana; o gosto ou indiferença frente à arte; portavam-se diante da comida, como eram educados; em que eram rudes... A democracia dos Estados Unidos da América era única no mundo. Tocqueville buscava a fórmula daquele sucesso, a saber: como é possível organizar uma sociedade em que a maioria pode participar e decidir sobre seu destino?
Para Tocqueville, a sociedade americana nasceu sob o sinal da liberdade. Os colonos “puritanos” vindos da Inglaterra fugiam da repressão religiosa e desejavam governar a si próprios. Assim, a liberdade de crença sempre fez parte da história que eles queriam contar para si e para o mundo, afirmando o seu amor pela liberdade. Ademais, a sociedade americana, desejando governar a si própria, desenvolveu o individualismo como ideal e como prática de vida.
Tocqueville, porém, alerta: eleições livres não garantem bons governantes, pois é falsa a equivalência entre direito de voto e a real liberdade. A manutenção da liberdade exige atenção redobrada. Um dos mais importantes elementos democráticos é a imprensa livre, pois ela tem a função de impedir o avanço de atos condenáveis quando os divulga e chama atenção do público para eles.
Tão importante quanto obter a democracia é cuidar diariamente para que ela possa funcionar em benefício da sociedade. Por isso, Tocqueville valoriza o conhecimento dos hábitos e costumes de uma sociedade: aquele que se aprende a gostar, o que se ensina a observar, o que se proíbe, o que se toma como direção de vida. Se as democracias partem de pontos comuns – a liberdade de escolha dos representantes pelos representados, a liberdade de imprensa, opinião e crença – as diferenças entre as sociedades geram diferenças entre as formas que elas encontram de vivenciar o que entendem por democracia.

O Velho Mundo e suas contradições
A França revolucionária foi tema do livro O Antigo Regime e a revolução (1854), nele Tocqueville procurou mostrar o que existia na França pré-revolucionária para que a revolução tivesse o resultado que teve. Procurou os elementos que facilitaram a perda da liberdade e a centralização do governo até o clímax do Terror. Buscou nos costumes, hábitos, vícios e maneiras de ser dos franceses traços e características que o ajudassem a entender por que a tirania se instalou no período pós-revolucionário.
A ideia de democracia tinha vindo para ficar. Não era mais possível defender que os homens eram desiguais por nascimento e a sociedade assim deveria permanecer com alguns dotados de privilégios por toda a vida e outros condenados a nãoparticpar dos benefícios econômicos, sociais e políticos.
Os ideais de igualdade tinham vindo para sempre e era justo e desejável, mas cada sociedade os havia abrigado ou os abrigaria à sua maneira. Para Tocqueville, a França não havia adotado a melhor forma, por que, para garantir a igualdade, estava sacrificando a liberdade. (BOMENY, H. & FREIRE-MEDEIROS, B.(org.). Tempos modernos, tempos de sociologia. São Paulo: Editora do Brasil, 2010, pp. 72-76[texto adaptado e resumido para a sala de aula]).



[1] O Terror foi a etapa mais violenta da Revolução Francesa. Durou de 05 de setembro de 1793 a 27 de julho de 1794 e foi instituído pelos revolucionários jacobinos, liderados por Robespierre, e foi marcado por uma repressão sistemática e brutal contra aqueles que fossem considerados inimigos da Revolução. Muitos foram condenados à guilhotina pelo tribunal revolucionário. Estima-se que entre 16.500 e 40 mil pessoas tenham sido mortas.

Ensaio SOBRE A OPINIÃO

“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ide...