quinta-feira, 10 de abril de 2014

LIBERDADE OU SEGURANÇA?


Apresentando Alexis de Tocqueville
Em que contexto recusar a liberdade torna-se uma alternativa? Para responder a essa pergunta convidamos o pensador francês Alexis de Tocqueville (1805-1859), filósofo, político, historiador e escritor francês que se tornou conhecido por suas análises da Revolução Francesa (1789), da democracia americana e do desenvolvimento das democracias ocidentais. Suas principais obras são: A democracia na America (1835), O Antigo Regime e a revolução (1854) e Lembranças de 1848 (1893 – publicação póstuma).

Quando a liberdade é ameaçada
Tocqueville acompanhou de perto os efeitos da Revolução Francesa, que em 1789 pôs fim ao regime monárquico e inaugurou a República na França. O documento mais importante desse movimento histórico foi a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, conhecido como o certificado de nascimento da democracia moderna. Seu primeiro artigo correu o mundo: “os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem basear-se no bem comum”.
O que mais impressionou Tocqueville em relação à Revolução francesa foi a violência com que ela se deu. Por que uma revolução que defendia a liberdade, a igualdade e a fraternidade levou ao Terror?[1] Lutar pelo ideal de igualdade pode levar à violência? O desejo de liberdade pode resultar no seu contrário? Em que condições a luta pela liberdade e a igualdade leva à violência ou à tirania? Por que é tão difícil garantir a liberdade? O que fazer para preservá-la? O que vale mais, a liberdade ou a igualdade? Combinar os ideais de igualdade e liberdade transformou-se na obsessão de Tocqueville, presente em todos os livros, e ficou conhecida como “dilema tocquevilliano”.

O Novo Mundo e o sonho da liberdade
Os temas da liberdade e da igualdade entre os homens e mulheres levaram Tocqueville a fazer uma Viagem aos Estados Unidos, que se tornara independente em 1776, treze anos antes da Revolução Francesa e tinham também como bandeira a democracia, liberdade e a igualdade. E mais: parecia que eles tinham encontrado a fórmula de associar igualdade de condições com liberdade de ação e expressão.
A decisão de Tocqueville de visitar os Estados Unidos objetivava conhecer as prisões, pois era famosa a experiência de democracia, direitos civis e liberdade.
Tocqueville registrou, em detalhes, os aspectos da vida no país: como os professavam suas crenças religiosas; escolhiam seus representantes; defendiam seus interesses em associações; organizavam a vida cotidiana; o gosto ou indiferença frente à arte; portavam-se diante da comida, como eram educados; em que eram rudes... A democracia dos Estados Unidos da América era única no mundo. Tocqueville buscava a fórmula daquele sucesso, a saber: como é possível organizar uma sociedade em que a maioria pode participar e decidir sobre seu destino?
Para Tocqueville, a sociedade americana nasceu sob o sinal da liberdade. Os colonos “puritanos” vindos da Inglaterra fugiam da repressão religiosa e desejavam governar a si próprios. Assim, a liberdade de crença sempre fez parte da história que eles queriam contar para si e para o mundo, afirmando o seu amor pela liberdade. Ademais, a sociedade americana, desejando governar a si própria, desenvolveu o individualismo como ideal e como prática de vida.
Tocqueville, porém, alerta: eleições livres não garantem bons governantes, pois é falsa a equivalência entre direito de voto e a real liberdade. A manutenção da liberdade exige atenção redobrada. Um dos mais importantes elementos democráticos é a imprensa livre, pois ela tem a função de impedir o avanço de atos condenáveis quando os divulga e chama atenção do público para eles.
Tão importante quanto obter a democracia é cuidar diariamente para que ela possa funcionar em benefício da sociedade. Por isso, Tocqueville valoriza o conhecimento dos hábitos e costumes de uma sociedade: aquele que se aprende a gostar, o que se ensina a observar, o que se proíbe, o que se toma como direção de vida. Se as democracias partem de pontos comuns – a liberdade de escolha dos representantes pelos representados, a liberdade de imprensa, opinião e crença – as diferenças entre as sociedades geram diferenças entre as formas que elas encontram de vivenciar o que entendem por democracia.

O Velho Mundo e suas contradições
A França revolucionária foi tema do livro O Antigo Regime e a revolução (1854), nele Tocqueville procurou mostrar o que existia na França pré-revolucionária para que a revolução tivesse o resultado que teve. Procurou os elementos que facilitaram a perda da liberdade e a centralização do governo até o clímax do Terror. Buscou nos costumes, hábitos, vícios e maneiras de ser dos franceses traços e características que o ajudassem a entender por que a tirania se instalou no período pós-revolucionário.
A ideia de democracia tinha vindo para ficar. Não era mais possível defender que os homens eram desiguais por nascimento e a sociedade assim deveria permanecer com alguns dotados de privilégios por toda a vida e outros condenados a nãoparticpar dos benefícios econômicos, sociais e políticos.
Os ideais de igualdade tinham vindo para sempre e era justo e desejável, mas cada sociedade os havia abrigado ou os abrigaria à sua maneira. Para Tocqueville, a França não havia adotado a melhor forma, por que, para garantir a igualdade, estava sacrificando a liberdade. (BOMENY, H. & FREIRE-MEDEIROS, B.(org.). Tempos modernos, tempos de sociologia. São Paulo: Editora do Brasil, 2010, pp. 72-76[texto adaptado e resumido para a sala de aula]).



[1] O Terror foi a etapa mais violenta da Revolução Francesa. Durou de 05 de setembro de 1793 a 27 de julho de 1794 e foi instituído pelos revolucionários jacobinos, liderados por Robespierre, e foi marcado por uma repressão sistemática e brutal contra aqueles que fossem considerados inimigos da Revolução. Muitos foram condenados à guilhotina pelo tribunal revolucionário. Estima-se que entre 16.500 e 40 mil pessoas tenham sido mortas.

domingo, 23 de março de 2014

TERNURA, UM JEITO ELOQUENTE DE FALAR DE AMOR


Epitácio Rodrigues 

Cada um dos nossos sentimentos tem sua linguagem particular e ganha visibilidade através do nosso corpo: nas mãos que se acariciam, nos lábios que se tocam ou tocam a face da pessoa amada, no olhar que busca outro olhar. A respeito dos olhares, vale dizer que, se muito rapidamente aceitamos ser o essencial invisível, não devemos esquecer que nos olhos pode está também a inteligibilidade do essencial. Eles têm o dom de comunicar o nosso interior, “são a janela da alma”. A visão, sem dúvida, é um dos sentidos mais expressivos do nosso corpo, como atesta a nossa crença comum: “seus olhos não me enganam” ou “está escrito nos seus olhos”, ou ainda “longe dos olhos, longe do coração”, “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. Estar sob o olhar de alguém pode significar tanto um aprisionamento quanto uma forma de proteção.
Mas de todos os sentimentos, a ternura é o que mais se destaca pela sua comunicação ou visibilidade profundamente centrada no olhar. Podemos dizer que a ternura é um bem-querer que se manifesta num modo peculiar de se olhar. É claro que nem todo modo de olhar comunica a ternura. A agressividade também pode ser expressa na forma como olhamos para alguém ou vice-versa. Ambos são comunicações oftálmicas, porém, como já disse, o jeito do olhar revela o diferencial: um repele, o outro acolhe, um agride, o outro cura, um gera o medo, o outro a segurança.
A experiência da ternura é o lampejo de um olhar que revela um amor que ama por amar. Este amor benevolente é ricamente manifesto no gesto maternal ao acolher contemplativamente o filho(a) no colo. Se nos fosse possível observar o mundo sob uma empatia pueril; ver as pessoas como as crianças vêem, perceberíamos o quanto um adulto pode ser um gigante aterrador nas suas vidas. Porém, é o modo como elas são olhadas suscita o sentimento de segurança: “existe um colo que me aconchega e um olhar que me acolhe”.
Mas não são só as crianças que têm esse privilégio de experimentar a ternura, pois ela está muito presente entre os jovens e adultos. Trata-se de um jeito meigo, aliás, o termo meigo retrata bem a dinâmica da ternura (meigo em português, dizem os especialistas em etimologia, é uma abreviatura da palavra mágico). Assim, este modo de olhar é mágico na medida em que nos envolve numa relação de fascínio, encanto e sedução. É um diálogo silencioso e sereno estabelecido entre duas pessoas que se sentem imersas numa teia de linguagem não-verbal, seja paralela, seja pré-linguística, na qual nenhuma fala explicitamente e ambas se entendem.
Em resumo podemos dizer que a ternura é um jeito meigo ou mágico de olhar que manifesta uma profunda empatia, desencadeando um diálogo não-verbal numa relação de sedução, mistério e revelação: um modo de olhar que se expõe silenciosamente e interroga sobre a resposta do outro.



sábado, 8 de março de 2014

ELAS SÓ QUERIAM CIDADANIA NO SENTIDO PLENO

Epitácio Rodrigues[1]

Todos os anos, desde 1975, o mundo comemora o "Dia internacional da Mulher". A forma mais comum de celebração desse dia é a distribuição de flores, presentes e congêneres. Acredito que as mulheres, de fato e de direito, merecem receber homenagens, dada a sua importância e, sobretudo, à sua dignidade: a mulher é um ser humano e, por isso, nunca deve ser tratada como meio, mas como um ser que tem um fim em si mesmo. Algo, aliás, que já declarava o filósofo Kant a respeito de toda pessoa. Mas já que a pauta é a comemoração, acredito ser oportuno lembrar que com-memorar é "fazer uma memória coletiva", isto é, reportar-se a uma situação ou fato de forma coletiva ou social. Mas, a que nos reporta o Dia Internacional da Mulher? Para onde essa memória nos leva? Quais as mulheres que estão na origem dessa comemoração? Essas questões não podem cair no esquecimento, pois esquecer é não ter a memória de algo e sem isso não há comemoração.
No dia internacional da mulher, o que não pode ser esquecido? Penso que antes de ressaltarmos a dimensão estética (algo importante e que não deve ser negligenciado), devemos recordar que naquele dia, 08 de março de 1857, naquela fábrica de Nova Iorque, as mulheres que a ocuparam eram mulheres trabalhadoras, que numa jornada laboral de dezesseis horas diárias, não dispunham de tempo para viver outras dimensões fundamentais da existência humana. Mas, mesmo nessa situação desumana, foram capazes de perceber a sua condição de exploradas, ideologicamente justificada com base em questões de gênero: ganhar um terço do salário de um homem, simplesmente por ser mulher (um ser inferior?).
As mulheres que estão na origem dessa comemoração eram pessoas pobres, mas que possuíam um rico senso ético, pois ao lado de questões econômicas como equiparação salarial e redução de jornada diária de trabalho, também reivindicavam respeito, tratamento digno por parte dos colegas de trabalho e dos seus empregadores.
Penso que o Dia Internacional da Mulher deve ser a expressão da alegria e da esperança feminina em dias melhores, pois as mulheres merecem isso. Todavia, esse dia nunca pode promover o esquecimento dessa consciência feminina de cidadania, que está na sua origem e que ilustra o seu protagonismo em movimentos sociais, como greve, ocupação do espaço de trabalho com o intuito de provocar um diálogo e uma negociação necessária à vivência de uma experiência laboral mais condizente com a dignidade humana. Aquelas mulheres, cientes da sua luta de classes - patrão versus empregado - e dos conflitos de gênero, eram vozes proletárias femininas querendo promover o diálogo sobre seus direitos civis, políticos, sociais e éticos. A resposta dada ao movimento reinvidicatório provocado por aquelas mulheres foi a violência e a carbonização de aproximadamente 130 vozes. A situação fica pior quando percebemos que as organizações políticas mundiais levaram 118 anos (Um século e quase duas décadas), para reconhecer que elas estavam certas. Por isso, o dia 08 de março é a ocasião para celebrar - tornar célebre a dignidade da mulher, mas também para reafirmar o seu compromisso com a teimosia cívica, reivindicadora dos direitos civis, políticos e sociais que lhe são cotidianamente negados.





[1] Texto originariamente escrito para o blog avozdosprofessores.blogspot.com 

sábado, 18 de janeiro de 2014

AS PORTAS DO TEMPO NOS MUROS DA VIDA

SINOPSE

O livro As Portas do Tempo nos Muros da Vida escrito por Elieldo Carvalho e Epitácio Rodrigues reúne um conjunto de Crônicas e Poesias.
As crônicas assinadas por Epitácio Rodrigues, professor de Filosofia, estão recheadas de provocações filosóficas de influência existencialista e personalista. As poesias de autoria de Elieldo Carvalho Duarte, professor de Língua Portuguesa, deixam transparecer toda a sensibilidade e agudeza de percepção da realidade pelo autor.
A obra possui uma formação que lhe dá leveza e torna sua leitura agradável e convidativa. A temática abordada, apesar de se tratar de gêneros diferentes - crônica e poesia - e lentes diferentes – um olhar condicionado pela formação literária e outro pela formação filosófica - há uma grande convergência entre os temas, de tal forma que se pode dizer que se trata das mesmas questões existenciais cotidianas (o nosso ser no tempo, a liberdade, as escolhas, a solidão, as presenças, o amor...), porém, abordados sob óticas diferentes e ainda assim convergindo para uma unidade              
                                                                                                                                                                       Maria do Carmo Feitosa




Autores: Epitácio Rodrigues
         Elieldo Carvalho Duarte
Características: 
Formato: 15 x 21 cm
Edição: 1ª edição, 11/2013
Nº de paginas: 66p.;
ISBN: 788562718250
Editora: BSG - Juazeiro do Norte-CE


Para adquirir entrar em contato com os autores: 
http://elieldocarvalho.blogspot.com.br/ http://filosofiaprofrodrigues.blogspot.com.br/
ou pelo Facebook





























































domingo, 3 de novembro de 2013

A RELIGIÃO E A SECULARIZAÇÃO




Epitácio Rodrigues

Com o advento da modernidade houve também uma mudança no paradigma de explicação da realidade, tendo como referência a filosofia, a ciência e a tecnologia. Esse fenômeno ficou conhecido como secularização. O termo deriva do vocábulo latino saeculum, que denota “mundo, vida terrena” e ressalta o aspecto profano, laico e material em oposição ao aspecto religioso da realidade. A palavra secularização, originariamente utilizada no campo jurídico para designar a passagem de um religioso para a vida laica ou a alienação de um bem da Igreja para o Estado[1], foi incorporada ao discurso filosófico para designar o processo através do qual a religião, paulatinamente, perdeu o poder de influência sobre algumas esferas fundamentais da vida social.
Vale ressaltar que essa crescente autonomia humana em relação à religião não representa um desaparecimento da instituição religiosa ou da sua prática. O que se deu foi mais um fenômeno de subjetivação da experiência religiosa, relegando suas práticas ao âmbito mais subjetivo e privado.
Historicamente a secularização se configura como um fenômeno da modernidade que principia como uma consequência de uma gama de movimentos de ideias e correntes filosóficas, dentre as quais o racionalismo, que enfatiza a capacidade racional do ser humano de explicação da realidade; o empirismo, que coloca a experiência – contato com a realidade através dos sentidos – como a única fonte plausível do conhecimento; o iluminismo e a defesa da autonomia política, social e cultural em relação à religião; o niilismo e negação da crença em um absoluto como fundamento metafísico dos valores éticos estéticos e sociais; o positivismo, que postula a religião como um estágio primitivo da sociedade e a valorização do método empírico e experimental como fonte do conhecimento e outras tendências assumidas pela reflexão filosófica.
A presença da secularização na sociedade contemporânea pode ser percebida a partir das esferas do conhecimento, da política e da ética. No campo do conhecimento, houve o abandono do discurso teológico como base para explicação do mundo e da realidade humana; na esfera política, deu-se o crescimento do número de estados que nas suas constituições se autoproclamaram laicos e também o abandono da monarquia referendada em concepções teocráticas como forma de governo; no campo da ética, o fortalecimento do discurso dos direitos humanos contribuiu para a consolidação de uma ética civil fundada no consenso e no contrato social e não mais em postulados religiosos como a revelação divina e outras referências de ordem religiosa.
Portanto, falar em secularização é tematizar um fenômeno da modernidade que engloba um processo de redução da influência da instituição religiosa, na esfera pública, como fonte de explicação da realidade, como referência para o governo da sociedade, e, finalmente, como fundamento dos valores morais e éticos.
Hoje, apesar da secularização ser um fato inconteste, penso que, por dever de ofício crítico, faz-se oportuno indagar se ela representa um progresso ou um desvio de curso no processo de autoconstrução da sociedade humana. Antes, porém, de tentar resenhar uma direção para este questionamento, gostaria de mencionar o fato de que a secularização, parece-me, é mais presente no Ocidente e entre as sociedades cristãs. No tocante à questão, percebo um aspecto libertador no fenômeno da secularização, na medida em que ele pode suscitar um senso de desconfiança, uma exigência fundamental para que cada crente possa fazer uma análise mais objetiva da sua prática religiosa, diminuindo o risco de tendências acentuadamente dogmáticas que estão na base de posturas fundamentalistas, sectárias e outras formas de extremismos fiduciais. Além disso, esse senso de desconfiança pode auxiliar na formação de um correto senso de realidade capaz de possibilitar um entendimento de que as organizações ou instituições religiosas são lideradas por pessoas que não estão acima do bem e do mau e que, portanto, são suscetíveis de falhas. Porém, não é menos verdade que a secularização exacerbada possa obnubilar dimensões fundamentais do ser humano como a capacidade de transcendência e de teleologia, tornando-o muito voltado ao imanente e desencadeando, não raro, uma experiência de vazio existencial. A racionalidade filosófica e a racionalidade técnico-científica não dão conta de explicar, até o momento, toda a complexidade da existência humana. Na verdade, elas são tipologias de saberes historicamente construídos como a religião, arte, o mito e o senso comum etc. Então vale perguntar se a absolutização da racionalidade filosófica e técnico-científica e consequentemente da secularização não seria incorrer no mesmo erro daqueles que estavam à frente da instituição religiosa no passado?


[1] Cf. MORIN, Dominique. Para Falar de Deus. São Paulo: Loyola, 1993, p.27.

domingo, 18 de agosto de 2013

O SER HUMANO ENTRE A LIBERDADE E O CONFORMISMO

 Epitácio Rodrigues


Liberdade é uma palavra que faz parte do nosso uso diário. Mas o conceito expresso por ela, não raro, causa confusões quanto à sua natureza (O que é a liberdade?), quanto à sua extensão (é psicológica, social, moral, política), e quanto à sua possibilidade (é possível uma liberdade real ou ela é apenas um ideal a ser buscado?).

Neste texto, vamos apresentar uma compreensão mais ou menos consensual da liberdade no discurso filosófico, seguido de alguns conceitos que negam a liberdade humana e apresentar um ponto de vista pessoal sobre o assunto.

Quando nos discursos filosóficos, fala-se em liberdade, abstraindo-se de algumas posições mais particulares, pode-se entendê-la como a capacidade humana de poder decidir e agir isento de coações internas ou externas. Os escolásticos, lembra Mondin, falavam em immunitas a coactione. Como essa coação pode assumir uma configuração multifacetada, muito cedo se começou a fazer uma tábua tipológica da liberdade: a liberdade física, que consiste na ausência de coação física, a liberdade moral, que se configura como a ausência de pressões ligadas à moral como determinantes de nossa ação, sejam elas castigos, punições, prêmios etc. Liberdade política, como ausência de determinismos políticos, liberdade social, isenção de determinismos sociais[1].

Porém, não faltam aqueles que colocam em dúvida essa compreensão de liberdade ancorando-se ora na noção de necessidade, ora de fatalismo, ora de contingência. Por necessidade, entende-se um conjunto de leis causais que regem a totalidade do universo e, como o ser humano é parte desse universo regido por leis necessitarias superiores à vontade humana, não haveria espaço para decisões e ações humanas livres.

Os adeptos do fatalismo, cuja raiz etimológica aponta para fatalis, fatum, (destino), acreditam ser a vida humana regida por forças transcendentes e superiores e, portanto, totalmente independentes da nossa vontade.[2] Para Japiassú e Marcondes, o conceito de fatalismo implica a compreensão doutrinária, segundo a qual os acontecimentos do universo e humano estão sob um necessitarismo absoluto, conforme os desígnios do destino. Porém, lembram que a noção de destino não implica a ideia de causalidade. Ou seja, não é por uma relação de causa e efeito que as coisas acontecem na vida humana. O ponto central do conceito de fatalismo é a crença na existência de forças superiores às humanas que fazem pressão sobre sua vontade de modo irreversível.

Por outro lado, há também aqueles que negam a submissão do homem a certas leis da natureza, porque esta mesma natureza resulta do acaso e da contigência. A própria existência humana nada mais seria do que um feixe de relações construídas de modo aleatório e fugaz, sendo, portanto, impossível deliberar racionalmente nesse universo caótico.

Sobre a questão da liberdade, não posso ignorar o fato de que existem certas regularidades na natureza. Porém, que isso venha negar, no âmbito da cultura, a possibilidade de o ser humano decidir e agir com isenção de coações seria um exagero que a própria experiência cotidiana atesta contra. Noutras palavras, existem sim aspectos da nossa existência que a natureza tem grande poder de determinação. Não posso mudar, por exemplo, a minha composição genética e nem evitar o fenômeno da morte, já que a morte é um dado natural: todos os seres que nascem, morrem! Porém, posso antecipar essa experiência, posso criar condições para retardá-la. O ser humano é um ser cuja existência é uma construção. Seu mundo não é apenas natural, mas humano, ou seja, um feixe de convenções significados criados por ele e aceitos com tais. Vivemos num mundo da cultura, onde vários elementos da natureza são transformados para satisfazer às nossas aspirações. Noutras palavras, existe um espaço da existência no qual a possibilidade de decidir e agir são um fato. Assim, defendo que há uma liberdade. Situada, mas liberdade; limitada, mas liberdade.

Portanto, a questão a ser levantada não diz respeito à possibilidade, natureza ou extensão da liberdade, visto que os maiores adversários da liberdade humana, não são o determinismo ou o fatalismo, mas a crença fatalista e a crença determinista, ou seja, um jeito de pensar e crer a natureza que geram no indivíduo o conformismo. Não são poucos os indivíduos que aceitam ingênua ou covardemente o status quo sob o discurso de que é inútil reagir ou resistir. As coisas são assim mesmo, não há como mudar. Mas o fato é que o conformismo foi uma criação cultural que infestou o Ocidente, a partir da escola Estoica. Para os fundadores dessa escola, como já afirmamos noutra ocasião, o ser humano é apenas um órgão do imenso organismo chamado Universo. Um ser a mais dentre os seres da natureza. Sua alma é apenas uma centelha da manifestação da Razão Universal. Por isso, a liberdade humana consiste em compreender e conformar suas ações e vontade às leis dessa Razão universal. Ao ser humano cabe aceitar e seguir serenamente e com alegria interior a Razão Universal. “Segue a natureza que é teu guia” – diziam eles. Epitecto, filósofo estoico, afirma: “até hoje não houve coisa alguma que me trouxesse impedimento ou coação. Por quê? Porque sempre dispus minha vontade segundo a Vontade de Deus. Quer Deus que eu tenha febre? também eu quero”. Assim, o ideal de liberdade se resume em compreender as inexoráveis leis que regem o universo, segundo Razão Universal e colocar-se em harmonia com ela, numa atitude de profunda resignação da vontade.

Para os estoicos, a vida feliz consiste numa disposição da vontade para aceitar, com serenidade, as coisas como elas são. O homem sábio é aquele capaz de viver a apatheia - apatia, no sentido filosófico estoico -, isto é, a indiferença em relação às emoções e as paixões e, através dela, alcançar a ataraxia, ou seja, o ideal de serenidade ou imperturbabilidade da alma alcançada quando se domina ou elimina as paixões e emoções.

A filosofia estoica influenciou muito a razão ocidental, uma vez que seu discurso foi adotado por teólogos e filósofos cristãos, por causa da apologia estoica à resignação e ao sofrimento como caminhos para a perfeição. Afirmações tão comuns como: “é vontade de Deus”, “foi Deus que quis assim” ou “devemos aceitar, pois tudo é vontade de Deus” são construtos históricos que ecoam essa influência estoica. É claro que a verdadeira mensagem do cristianismo não sugere a resignação, mas paz ativa.

Em suma, penso que devemos sim advogar, com base racional, a existência de uma liberdade humana, enquanto poder de decidir e agir isento de coações. Sendo para isso necessário um conhecimento e um exame das possibilidades reais e concretas para a decisão e a ação. Penso também que essas teorias que negam a liberdade humana são, em última instância, formas veladas de con-formismo. Pessoas que, por medo de decidir movidas pela indignação, assumem a resignação: o “abstém e suporta” dos estoicos.



Bibliografia referida no texto:

Dicionário Básico de Filosofia. Hilton Japiassú e Danilo Marcondes, p.103.
MONDIN, Battista. O Homem, quem é ele? São Paulo, paulinas, 1980, pp. 108-109;
CHAUÍ, Marilena. Iniciação à Filosofia, Ática, 2011, p.288.
RODRIGUES, Epitácio. As Escolas Filosóficas no Período do Helenismo. In: filosofiaprofrodrigues.blogspot.com. postado em 15 de set/2010.



[1] Cf. Mondin, pp. 108-109.
[2] Cf. Chauí, p. 288.

Ensaio SOBRE A OPINIÃO

“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ide...