sábado, 28 de maio de 2016

MACHISMO NÃO SE COMBATE COM NOTA DE REPÚDIO


Epitácio Rodrigues da Silva


O machismo é uma ideologia que ganha visibilidade através de comportamentos, opiniões, atitudes, valores e ações e que tem como tese fundamental a afirmação da superioridade masculina em relação à feminina.

Essa ideologia está impregnada nas raízes culturais da sociedade e influencia no sistema econômico, religioso, na mídia, na política e na organização familiar. Em todas essas instituições, à mulher é relegado um papel de submissão e inferioridade, às vezes, com aspectos eufemistas como “sexo frágil”, “emotividade”, “ternura”. Ficando aos homens as representações simbólicas de força, racionalidade, firmeza.

Essa divisão hierárquica da sociedade não leva em conta as diferenças reais, mas hierarquicamente ideologizadas. E muitas das ações absurdas praticadas por homens, são imputadas à mulher a culpa. No caso do estupro, que é uma violência em todos os aspectos condenáveis, é possível achar quem defenda ideologicamente que ele decorre de um “ato feminino de provocação e sedução”, como já denunciou inúmeras vezes Marilena Chaui nos seus escritos.

Agora, quando a gente olha o fato ocorrido no Rio de Janeiro, na semana passada, e que ganha repercussão ainda hoje, vê-se que as falas de muitos protagonistas no atual cenário político não se coadunam às suas atitudes.
Na verdade, há uma contradição nessa postura, quando em situações que ganham repercussão manifesta-se nota de repúdio, mas, paradoxalmente, mediantes ações políticas deliberadas, minam as políticas públicas voltadas ao combate da violência contra a mulher nas suas mais multifacetas manifestações.

Tenho muita dificuldade em entender como setores dessa sociedade dizem abominar o estupro e o machismo, e, ao mesmo tempo, ovacionam um parlamentar que se sentiu à vontade para dizer, inclusive na Tribuna do Congresso, a uma parlamentar a seguinte fala, que foi reproduzida em vários jornais de grande circulação no país: "Há poucos dias, tu me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir" (09/12/2014). Numa sociedade que se diz indignada com a prática do estupro, como é possível um parlamentar fazer um discurso desse na Tribuna do Congresso e nada acontecer. Não quero minorar as reações de vários movimentos sociais, mas alguns setores que tinham poder pra fazer mais adotaram com reação mais comum apresentar uma nota de repúdio, aqui e ali.

Vamos lembrar também das repercussões negativas, sob forma de críticas e sarcasmos, contra o tema da redação do Enem de 2015, que trazia como proposta “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". Na mesma ocasião, podia se lê a seguinte manchete no Estadão: “Deputados acusam Enem de ‘Doutrinação’ por abordar feminismo” (26, 10.2015). Essa reação noticiada em vários jornais foi seguida por uma verdadeira “onda” (se quiserem podem fazer uma ligação como filme) de comentadores de plantão demonizando a discussão, acusando o MEC de doutrinação feminista.

E agora, frente ao fato amplamente noticiado, o compromisso do interino pode ser medido pela maneira como ele se manifesta: uma nota no seu twitter. O “ministro interino” da Justiça publica uma nota de repúdio no facebook. O mais estranho é que esse mesmo governo interino, e amplamente considerado golpista, ao montar seu ministério não se lembrou das mulheres. Não havia ministério onde elas pudessem continuar “belas, recatadas e do lar”. E não faltaram apologias nem no meio político, nem nas colunas de jornais, nem nos telejornais da meia-noite para respaldar a sua atitude. Seus defensores argumentavam, imponentes, que não se tratava de questão de gênero, mas de competência. Aqui também surgiram algumas notas de repúdio.

E por que não falar no projeto Escola Sem Partido, que diferentemente do que dizem seus arautos, na verdade objetiva apenas silenciar, entre as classes populares, a discussão a respeito das questões da manipulação política, defendendo não a neutralidade, mas ignorância acerca do papel da juventude nesse processo; além de ser uma tentativa desesperada de evitar que se fale do protagonismo a ser exercido pelas mulheres na política, no trabalho e na sociedade e também de combate às questões ligadas a orientação sexual.

Sobre os casos de estupro, a solução proposta pelo interino é criar um departamento na Policia Federal. Ainda não entendeu que o estupro não pode ser combatido apenas com ações pontuais e repressoras após os fatos. Basta vê que no Rio acontecem em média 12 casos por dia, como estão noticiando os jornais. O estupro, enquanto uma das configurações violentas dessa ideologia machista incrustada na nossa cultura, cobra um compromisso maior de um intenso trabalho de reeducação do modo de entender o mundo, de revisões de valores distorcidos e das relações de poder autoritárias e misóginas.

Do contrário, vamos continuar vendo essas práticas de violência contra a mulher ser combatida com nota de repúdio.

domingo, 15 de maio de 2016

MAQUIAVEL EM ALTA NA POLÍTICA BRASILEIRA

Epitácio Rodrigues da Silva


No Jornal Folha de São Paulo de hoje, 15/05/2016, numa matéria assinada por Julio Wiziack e David Friedlander, os autores, falando do Mercado, citam uma afirmação feita pelo empresário Carlo Bottarelli, presidente da empresa de infraestrutura Triunfo, que se tornou emblemática para o momento atual. O empresário teria dito: “Também saímos do bolivarianismo. Vai melhorar, mas agora é preciso fazer o mal na hora e o bem aos poucos” (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/05/1771350-empresarios-sugerem-que-temer-faca-mal-rapido-e-bem-aos-poucos.shtml)
Mas como o verdadeiro autor dessa frase morreu em 1527 (e na pobreza), não poderá reclamar direitos autorais. Por isso, vou apenas dar ciência aos leitores de que essa frase é, na verdade, de autoria do filósofo florentino Nicolau Maquiavel (1469-2527) que, no livro O Príncipe, afirma: “As injurias devem ser feitas todas de uma vez, a fim de que, tomando-se-lhes menos gosto, ofendam menos. E os benefícios devem ser realizados pouco a pouco, para que sejam mais bem saboreados" (MAQUIAVEL, 1996, p. 67 [Os Pensadores]). Dizendo de um jeito bem direto, deve-se fazer o mal de uma vez só, porque assim fica mais fácil de esquecer, já o bem, em suaves prestações, para manter viva na memória do beneficiado as ações. Porém, é preciso que se diga aqui que Maquiavel faz essa afirmação no Cap. VIII, que trata exatamente “dos que alcançaram o principado pelo crime”. Assim, a receita do filósofo é destinada ao chefe político que não tem o aval do povo no governo daquela sociedade, visto que chegou ao poder pela “maldade, por vias celeradas” (p. 63).
Mas, o perigo de parar nesse capítulo do livro é não ficar sabendo que o seguinte (Cap. IX), sobre o Principado Civil, o filósofo faz uma análise sobre a chegada ao poder pelo favor do povo ou com o favor dos nobres. Nesse capítulo, Maquiavel lembrar que tentar agradar aos nobres(a elite), será uma empresa fadada ao fracasso, pois sempre agradará a uns, mas desagradará a outros, porque o objetivo de toda eleite é “comandar e oprimir o povo”, já o objetivo do povo é bem mais honesto, uma vez que a única coisa que almeja é “não ser comandado nem oprimido” pelas elites. E depois de discorrer sobre a diferença entre os comportamentos dessas duas classes antagônicas, deixa claro ao Príncipe: “Quem se tornar príncipe com os favores dos grandes e contra o povo deve, antes de tudo, tentar conquistá-lo, o que é fácil, se o proteger.” Naturalmente, o sentido do termo proteção não é sinônimo de paternalismo, mas refere-se a uma tomada de posição a favor do povo, pois nesse antagonismo explicitado pelo autor logo no início do capítulo IX, optar pelos poderosos tem um preço: “O príncipe deve, então, manter-se em guarda e temê-los como se fossem inimigos descobertos, porque sempre, na adversidade, ajudarão a arruinar-te” (MAQUIAVEL, 1996, p. 68).
Não resta dúvidas que o governo em exercício, Michel Temer, já fez a sua escolha. Um governo voltado às elites, para o qual a frase do empresário não tem um alcance global, mas direciona-se a um dos lados, os pobres. Assim, seguindo a onda maquiaveliana em alta na política do atual governo, resta um último lembrete do filósofo florentino, pai da política moderna: “fracassará nas adversidades... sua estabilidade é precária e incerta” (MAQUIAVEL, 1996, p. 69).



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

POR UMA ESTÉTICA MAIS PLURIVERSAL





 Por Epitácio Rodrigues
Professor de Filosofia e escritor

Um dos pilares de sustentação do racismo é a estética. A crença na superioridade de um suposto grupo étnico sobre outro não está ancorada somente no discurso de maior capacidade racional ou melhor qualidade genética, mas também sobre os padrões de beleza assumidos pelo grupo. Como o racismo não tem uma base consistente que lhe dê sustentação, a estética acaba ganhando muito peso, na medida em que é algo que mais facilmente pode ser disseminado no senso comum. Noutras palavras, para justificar uma suposta superioridade racional e/ou genética faz-se necessário um discurso “maquiado de científico” complexamente elaborado e nem sempre acessível a todos. Já os parâmetros de beleza adotados são prontamente assimilados pelo senso comum e facilmente reforçados pelos meios de comunicação de massa.

Essa consideração é fundamental, sobretudo quando se leva em conta o fato de o negro brasileiro está numa configuração estética na qual ele não se sente contemplado. Não por nada os cabelos, o nariz, os lábios e a cor da pele são partes do corpo muito visadas por quem, velada ou abertamente, procura ofender ou humilhar uma pessoa simplesmente pelo fato de ser negra. Essa é uma das razões pelas quais, no Brasil, muitos negros não querem ser negros. É verdade que nos últimos anos muita gente tem se declarado oficialmente negro ou pardo. Mas ao que parece, a motivação está ligada aos possíveis benefícios advindos de políticas públicas de ações afirmativas voltadas a eles. Não sou contra as políticas de ações afirmativas destinadas à população negra, pelo contrário, acho que elas estão chegando muito atrasadas. O que quero chamar a atenção é para a confusão gerada entre declarar-se oficialmente “preto” ou “pardo” e pensar a si mesma como pessoa negra. São duas posturas nem sempre equivalentes. Quando perguntamos a alguém que se tenha declarado “preto”, o que significa ser negro hoje, ele nem sempre saberá como responder.

As razões para esse fenômeno decorrem de um complexo processo de diluição da identidade negra num leque cromático que gerou para o nosso léxico vários termos e conceitos, que mais confundem do que auxiliam na construção de uma identidade étnica. Termos como “cabra”, “homem de cor”, “mulato escuro”, “mulato claro”, “moreno escuro”, “moreno claro”, “pardo” e “afrodescendente”; todos são formas veladas e sutis de fuga de uma identidade negra, profundamente associada à questões fenotípicas e cromáticas. Essa fuga da negritude como identidade pessoal encontra sua razão de ser numa consciência, às vezes clara, às vezes obscura, de que ser negro não parece ser uma coisa boa. Assim, uso de produtos químicos para alisar os cabelos, cirurgias plásticas para afinar ou “corrigir” a espessura dos lábios ou o formato de nariz, para quem tem um certo poder aquisitivo, são procedimentos aos quais se costuma recorrer para conformar-se ao padrão estético estabelecido.

Frente a esse quadro, pode-se perguntar o que significa falar consciência negra nas escolas? A quem se destina? Qual o papel da educação no necessário processo de conscientização da sociedade para a aceitação e o convívio com outros padrões estéticos. Aqui acredito que a Filosofia (mas não só ela) pode oferecer um valioso contributo no processo de construção ou resgate de uma beleza numa perspectiva do negro africano, que, em última instância, não se destina somente nós, os negros brasileiros, mas a todos os indivíduos desta sociedade. A contribuição seria sobretudo no processo de ressignificação do nosso modo de pensar estético. Isso porque somos herdeiros de um padrão e de um conjunto de valores estéticos que se apresentam como hegemônicos e unívocos, frente aos quais o negro não só não se reconhece neles, como também não é reconhecido pelos não-negros. Quando falo em Estética refiro-me aos padrões e valores estéticos, mas também ao sentimento que eles suscitam nos indivíduos. Assim, se “o belo é o que agrada”, como afirmara Kant, o feio, em contrapartida, será o que causa repulsa e aversão. E numa sociedade onde as características físicas e fenotípicas de uma pessoa não se coadunam ao que se convencionou ser o belo, é praticamente impossível que ela não sinta em si mesma a “síndrome do patinho feio”.

A situação problema é a seguinte: como num país tão plural, ainda predomine uma imagem de beleza tão unívoca? É fato que a estética brasileira deve se esforçar para ser mais pluriversal, rompendo com esse monismo estético e partir em busca de uma compreensão da estética na qual outros padrões também sejam conhecidos, entendidos e considerados. Penso que as palavras do filósofo e pedagogo, Paulo Freire, ganham força de um imperativo, quando afirma que “a necessária promoção da ingenuidade à criticidade não pode ou não deve ser feita a distância de uma rigorosa formação ética sempre ao lado da estética” (Pedagogia da Autonomia, 1996, p. 32). Assim, temos que sair da ingênua compreensão de que a questão da beleza é algo meramente subjetivo e individual, depende de sujeito para sujeito; como também romper com a equivocada ideia de que a beleza é uma coisa natural. Na verdade, padrões de beleza são construções culturais e coletivas. Apresentam variações de grupo para grupo e linhas de semelhança no interior de cada um deles a ponto de se poder falar em padrões de beleza.

Portanto, penso que alguns passos ainda precisam ser percorridos. O primeiro deles é o conhecimento do que é a Estética Africana, algo que vamos aprender com aqueles dos quais herdamos características fenotípicas, mas que tiveram muitos elementos da sua cultura suplantada pela tradição cultural europeia. É preciso ir ao lugar epistemológico no qual encontramos as nossas origens. Outro passo, em parte consequência do primeiro, mas também de uma postura de reivindicação sócio-politica, é ampliar os nossos padrões e valores estéticos, saindo desse monismo rumo a uma compreensão e uma vivência mais pluriversal da estética.

terça-feira, 21 de abril de 2015

FILOSOFIA DA ARTE OU ESTÉTICA: O QUE É ISTO?


Epitácio Rodrigues

Você já parou para se perguntar, por exemplo: “o que torna um objeto uma obra de arte?” ou “qual a relação entre forma e conteúdo num a obra de arte?”; ou se “uma obra de arte nos põe em contato com a mente do artista?”; “por que atribuímos tanto valor à obra de arte?”; “O que explica o caráter especial da experiência estética?”; ou se “dizer que um objeto é belo relata um fato a respeito do objeto?”; “ou expressa um sentimento do sujeito?”; “O que é o belo?”[1]
Essas são algumas das inúmeras questões levantadas por um ramo específico da Filosofia chamado de Estética ou Filosofia da Arte, que se dedica ao estudo da Arte, da experiência estética e da relação da arte com a sociedade, com a política e com a ética etc. Trata-se de um ramo novo, desenvolvido a partir de meados do século XVIII. Isso não se significa que temáticas ligadas à arte não tenham sido abordadas por nenhum filósofo antes desse período, pois as questões referentes à arte são tão antigas quanto a própria origem da filosofia. Apenas se considera que a partir do referido século os problemas filosóficos relativos a esse tema passaram a ser analisados mais sistematicamente, dando início a uma disciplina nova no interior da tradição filosófica.
Nesta aula, a nossa intenção é apresentar o conceito de Estética e sumariar os primórdios dessa parte da filosofia. Seguiremos os seguintes passos: inicialmente apresentaremos a origem da palavra e o contexto no qual ela foi inserida na investigação filosófica; depois, colocaremos para o aluno dois conceitos de Estética extraídos de livros didáticos propostos para o Ensino Médio e explicitaremos os elementos que compõem essa definição.
Comecemos então pela palavra Estética. Sobre ela é necessário fazer duas observações. A primeira é que seu uso não é exclusivo da filosófica. Na arte e no dia-a-dia, usa-se esse termo para se referir à beleza. A segunda observação, que esclarece a primeira, é a seguinte: estética é uma forma aportuguesada do termo grego aísthesis, que significa “conhecimento sensorial ou efetivado pelos sentidos”, “experiência”, “sensibilidade”. Como explica Rufinoni, aísthesis, em grego, é uma palavra que remete aos sentidos, ao que conhecemos por meio dos sentidos, os cinco sentidos, ou seja, sensibilidade em uma acepção bastante restrita, referente àquilo que nos chega a partir do corpo, das sensações”.[2] Noutras palavras, inicialmente esse termo não teria nenhuma ligação com a Filosofia, já que esta lida com o conhecimento racional, enquanto a estética valoriza o conhecimento sensitivo.
Será graças ao filósofo alemão, Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762), que a palavra Estética passará a fazer parte do vocabulário filosófico, sobretudo a partir de 1750. De fato, na história da Filosofia costuma-se atribuir a ele a criação da Estética moderna[3], enriquecendo assim a filosofia como essa nova área do conhecimento, uma vez que foi o primeiro a ministrar um curso de estética numa abordagem filosófica, em 1742; mas, sobretudo por se dedicar ao estudo filosófico da formação do gosto e os fenômenos ligados à compreensão da experiência artística, na obra intitulada exatamente Aesthetica e publicada em 1750.[4] Hegel apresenta em poucas palavras, o processo de consolidação desse termo na literatura filosófica europeia:

Foi Baumgarten quem denominou de estética a ciência das sensações, está teoria do belo. Só aos alemães esta palavra é familiar. Os franceses dizem théorie des arts ou dês belles lettres. Os ingleses incluem-na na critic. Os principais críticos de Home gozaram de grande voga no tempo em que este autor publicou a sua obra. Na verdade, o termo estética não é o que mais propriamente convém. Já se propuseram outras denominações – “teoria das belas ciências”, “das belas-artes” – que não foram aceites e com razão. Empregou-se também o termo “calística”, mas do que se trata é, não do belo em geral, mas do belo como criação da arte. Conservemos, pois, o termo Estética, não porque o nome nos importe pouco, mas porque este termo adquiriu direito de cidadania na linguagem corrente, o que é já um argumento em favor da sua conservação (HEGEL, Estética, 1999, p 34).

Agora que já sabemos que existe uma parte da filosofia que se dedica ao estudo da arte, como você responderia se lhe perguntassem o que, filosoficamente falando, se deve entender minimamente por Estética? Para auxiliar nessa tarefa, vamos apresentar dois conceitos de estética e, em seguida, analisar os seus elementos constitutivos. O primeiro extraído do livro Filosofando, no qual as autoras afirmam: “sob o nome estética enquadramos um ramo da filosofia que estuda racionalmente os valores propostos pelas obras de arte e o sentimento que elas suscitam nos seres humanos”[5]. A outra, extraída do livro Um outro olhar, no qual Sonia Maria Ribeiro de Souza assim se posiciona:

A estética é a disciplina filosófica que se ocupa com a investigação racional do belo e com a análise dos sentimentos por ele provocados. À medida que a arte passou a ser entendida como canal de expressão da beleza e do belo, também passou a ser alvo das reflexões estéticas. Dessa maneira, o belo, a arte, as emoções estéticas, os sentimentos estéticos e os juízos estéticos são temas presentes nas discussões e especulações da área da filosofia denominada estética (SOUZA, 1995, p. 210).

Analisando as duas definições, podemos perceber que ambas estão de acordo sob alguns pontos: 1) a estética é uma disciplina ou ramo da filosofia; 2) que seu estudo ou análise é de caráter racional; 3) que o objeto de estudo é a arte, seus valores e os sentimentos que ela provoca nos sujeitos. Com relação ao conceito de Souza, ao afirmar explicitamente que a estética “se ocupa com a investigação racional do belo”, ainda que acrescente mais abaixo: “o belo, a arte, as emoções estéticas, os sentimentos estéticos e os juízos estéticos”, pode dar e entender que é o belo e não a arte o objeto de estudo dessa disciplina. Nesse caso, faz-se oportuno lembrar a advertência de Maria José Justino, segundo a qual, “o belo pode ser um dos atributos da arte, mas não é o único, tampouco o mais importante. O feio também pode ser arte”.[6] Mas isso é assunto será desenvolvido na próxima aula.
Por agora, podemos dizer, com base no caminho percorrido até aqui que, frente à questão Filosofia da arte ou estética: o que é isto?, o aluno estará em condições de dizer minimamente que se trata de um ramo da filosofia que estuda racionalmente o complexo universo da arte e os sentimentos e valores que ela provoca e evoca nos seres humanos que a produz e naqueles que a apreciam.

Referencia bibliográfica:
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. & MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando. 5ªed. São Paulo: Moderna, 2013.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Estética: a idéia e o ideial. In: Hegel. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova cultural, 1999.
GARDNER, Sebastian. Estética. In: Compêndio de Filosofia. (org. BUNNIN, Nicholas e JAMES, E.P. Tsui.).  São Paulo: Loyola, 2002.
JAPIASSÚ, Hilton & MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 4ª ed. São Paulo: Jorge Zahar editor, 2006.
JUSTINO, Maria José. A admirável complexidade da arte. In: Para Filosofar (Vários autores). São Paulo: Scipione, 2007, pp. 265-325.
RUFINONI, Priscila Rossinetti. Filosofia da arte e estética: um caminho e muitos desvios. In: FILOSOFIA: ENSINO MÉDIO. Coord. Gabrielle Cornelli, Marcelo Carvalho e Márcio Danelon. Brasília: MEC, Sec. Educ. Básica, 2010 (Col. Explorando o Ensino; vol. 14).
SOUZA, Sonia Maria Ribeiro. Um outro olhar. São Paulo: Editora FTD, 1995.




[1] Essas são algumas perguntas apresentadas por GARDNER, Sebastian. Cf. Estética: in: Compêndio de Filosofia, 2002, p.230
[2] RUFINONI, P.R. 2010, p. 118.
[3] JAPIASSÚ & MARCONDES, 2006, p. 27.
[4] Cf. SOUZA, 1995, p. 210.
[5] ARANHA & PIRES MARTINS, 2013, p. 336.
[6] JUSTINO, M. J. 2007, p. 271.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

POLÍTICA, POLITICAGEM, CIÊNCIA POLÍTICA E FILOSOFIA POLÍTICA



Epitácio Rodrigues

O que é política? Qual a diferença entre política, politicagem, Ciência Política e Filosofia Política? Nesta aula vamos abordar essas diferenças para deixar mais claro em que consiste a política e seus principais elementos, mas, sobretudo, para elucidar melhor a especificidade da reflexão filosófica sobre a política.
Quando pesquisamos nos dicionários de língua portuguesa, percebemos que a palavra política aparece como sinônimo de “arte ou ciência de governar” ou “aplicação desta arte nos negócios internos da nação (política interna) ou nos negócios externos (política externa)” e ainda como “prática ou profissão de conduzir negócios políticos.” A lexicografia sugere que se trata de um conjunto de atividades voltadas à administração dos negócios públicos, circunscrito num determinado espaço e as relações internas e externas dessas atividades e também seus atores mais imediatos. O filósofo francês, André Comte-Sponville inúmeras vezes define a política como uma gestão não guerreira de conflitos, alianças e relações de poder no âmbito coletivo, de toda uma sociedade.[1] São, portanto, elementos da definição de política: a noção de governo e gestão; o poder como elemento de exercício de gestão; e o caráter coletivo dessa atuação.
Numa sociedade democrática, como é o caso da nossa, chamamos de políticos, em sentido estrito, aqueles que se ocupam mais diretamente das atividades relacionadas à administração dos negócios públicos. Porém, em sentido mais amplo, todos nós somos considerados atores políticos, na medida em que compete também a nós eleger, acompanhar e exigir que os recursos públicos, os projetos de leis sejam voltados ao atendimento das necessidades de toda a coletividade.
Por isso, quando o poder de administrar os negócios públicos é utilizado para beneficiar apenas aquele que o detém ou seus pares, não se trata mais de política, mas de politicagem. A politicagem é a corrupção da finalidade política, na medida em que a administração dos negócios ou bens públicos não está mais voltada ao benefício da coletividade e sim à satisfação de interesses particulares e pessoais dos gestores.
Como ficou explicitado acima, a política é uma atividade ou conjuntos de ações. Isso significa que é da sua natureza ter um caráter acentuadamente concreto e prático. Porém, existem saberes especializados que se ocupam com o estudo da atividade política, dentre eles a Ciência Política e a Filosofia Política. A Ciência Política é uma das Ciências Sociais que tem como objeto de estudo o conjunto de ações que compõem o universo da política e seus atores. São alguns dos temas investigados por ela: a distribuição de poder na sociedade; a descrição e análise dos sistemas políticos; a observação do comportamento político e dos mecanismos eleitorais; as formas de governo.
Por sua vez, a Filosofia da política (ou Filosofia política) é um campo da Filosofia que analisa racionalmente o fenômeno político e suas características, as instituições sociais, as práticas políticas, os regimes políticos e as formas de governo, as teorias de estado e a origem e formação da sociedade.[2] Para Cotrim (2008), a Filosofia Política tem “como objetivo a analisar as diversas formas de poder, de relações entre o poder e os cidadãos, dos sistemas de governo.[3]segundo ele, “integram a temática básica da filosofia política as reflexões em torno do poder, do Estado, dos regimes políticos e formas de governo, da participação dos cidadãos na vida pública, entre outros temas.”[4] São algumas das questões abordadas pelas Filosofia Política, a saber: o que é política? O que é poder? Qual tipo de poder é próprio da política? Quem é o detentor do poder político? Como se relacionam os fenômenos do poder, da força, da violência e a atividade política. O que é o Estado? Qual sua origem e sua função? Qual a relação entre estado, governo e povo? Qual a melhor forma de organização política? Qual a relação entre política e ética?
Fica, portanto, claro que existe uma diferença entre política, politicagem, ciência política e Filosofia política.





[1] Cf. COMTE-SPONVILLE. 2002, p. 27-28.
[2] Cf. COTRIM, Gilberto, 2008, p. 86.
[3] DUROZOI & ROUSSEL, 1993, p.374.
[4] COTRIM, 2008, p 86.

Referencia bibliográfica:
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2001.
COMTE-SPONVILLE. Apresentação da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
COTRIM, Gilberto. Filosofia Temática. São Paulo: Saraiva, 2008;
DUROZOI, Gérard & ROUSSEL, André. Dicionário de Filosofia. 5ª ed. Campinas, SP: Papirus, 1993.


Ensaio SOBRE A OPINIÃO

“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ide...