domingo, 20 de fevereiro de 2011

Agostinho e a visão teo-teleo-filosófica da história



Prof.: Epitácio Rodrigues

O encontro do cristianismo com a filosofia grega representou uma ocasião para uma grande síntese cultural entre dois mundos ricos em expressões humanas. Foi também um período de choques, diferenças e diálogos, nem sempre fáceis, do qual a Patristica conserva para a humanidade um testemunho inconteste. Uma das muitas diferenças diz respeito ao modo de conceber o próprio tempo e a história. Enquanto os gregos viam o tempo e, conseqüentemente a história humana, de forma cíclica, os cristãos afirmavam, a partir de sua convicção de fé, que o tempo é linear e história humana repleta de eventos decisivos e irrepetíveis, pois a história possui uma origem no tempo e um sentido teleológico, ou seja, caminha para um fim. A compreensão da história na visão bíblico-cristã pode, grosso modo, ser resumida em três fases bem definidas, porém interligadas: da criação à queda; seguida da aliança ao tempo de espera do Messias; a vinda do Cristo ou Messias salvador até o juízo final.
Nesse encontro entre fé cristã e filosofia, coube a Agostinho, considerado um dos grandes gênios da humanidade e um dos mais brilhantes pensadores cristãos de todos os tempos, ser o porta-voz dessa visão bíblica da história no cenário filosófico.
Autor de vasta produção intelectual, uma das suas obras mais citadas no campo filosófico é A Cidade de Deus (De Civitate Dei), iniciada em 412, dois anos após o bárbaro Alarico invadir Roma, com a finalidade inicial de defender os cristãos contra a acusação dos romanos, segundo a qual a fé cristã era responsável pelo destino trágico de Roma. Ao cabo de catorze anos de intensa atividade pastoral e intelectual, Agostinho apresenta o trabalho dividido em 122 livros, a respeito do qual dirá o historiador Daniel Rops:

É impossível esgotar, nas poucas linhas de uma definição, um livro que é um dos monumentos do espírito humano. É uma filosofia da história, uma teoria do Estado e da vida social, um compêndio das relações entre o espiritual e o terreno; e é, ao mesmo tempo, uma espécie de arte de viver nas horas de amargura, um tesouro de consolação (1991: 47)

O conturbado período de invasão bárbara e decadência do império romano, suscitou as reações mais adversas. Enquanto muitos contemporâneos lamentavam o fim da civilização romana e do próprio mundo, Agostinho, na Cidade de Deus, unia fé e filosofia para apresentar, sob um prisma novo no cenário filosófico, uma nova compreensão para o sentido da história. Esse trabalho o consagrará, segundo o filósofo Jacques Maritain, como o primeiro filósofo a produzir um verdadeiro tratado de filosofia da história, opinião partilhada por Daniel Rops:

Como aconteceu muitas vezes com este lutador, a reação de santo Agostinho originou-se de uma polêmica. Para que pudesse deixar clara a sua doutrina da Graça, fora-lhe necessário Pelágio; para que empreendesse a sua grande obra e fundasse a filosofia da história, precisou da queda do império. (ROPS, 1991: 47).

Agostinho, na Cidade de Deus, partindo de categorias cristãs, desenvolve uma compreensão da história, dividida em três grandes períodos: o princípio, que se dá com a criação; um passado marcado por três fases intermediárias - o pecado original e as conseqüências dele decorrentes, a espera do Messias salvador, a encarnação e paixão do Cristo, e a constituição da Igreja; e um fim, que se dará no Dia do Senhor, com o juízo e ressurreição final. A história é interpretada a partir de categorias como amor a Deus, pecado, bem e mal, de tal forma que a história se identifica com a história da perdição ou salvação do homem por Deus. Nas palavras de Bernadette Abrão, “Agostinho propõe uma filosofia da história: a finalidade da história, que coincide com seu fim, é a vitória definitiva da cidade de Deus, com o retorno do Messias e o juízo final.” (ABRÃO, 2004:101).
Ainda que profundamente marcada pela mensagem e pela teologia cristãs, a interpretação agostiniana da história humana representa uma verdadeira revolução, na medida em que introduz um sentido teleológico para a história. A partir de então ela deixará de ser concebida como períodos circulares, repetindo-se cíclica e infinitamente, passando a ser vista como uma caminhada linear da humanidade, iniciada na criação e tendo o seu termo no fim último escatológico, num movimento ascendente da terra ao céu.
A teoria agostiniana da história teve grande influência na idade média e perdurou com grande aceitação até o período do Renascimento.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Filosofia e Cotidiano: do Ninguém à Pessoa.



(Uma crítica filosófico-personalista em forma de Crônica.)

Prof. Epitácio Rodrigues

A você sem rosto, nome e individualidade, dediquei parte do meu sono, da minha noite e do meu tempo para dizer-lhe da cotidiana experiência do ninguém construída pela indiferença do outro, pela massificação das estatísticas e pelo desprezo de quem somos simplesmente por aquilo que fazemos.
Para falar a verdade, eu nem estava como vontade de escrever. Peguei casualmente uma pequena coletânea de crônicas de Rubem Braga e li uma cujo enredo girava em torno de um padeiro que se apresentava como um ninguém porque “muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: ‘não é ninguém, não, senhora, é o padeiro” (Rubem Braga. História de um Homem Rouco. O Dia, p. 36).
Assim que terminei a leitura, decidi dar um pouco mais de atenção a esta grande aporia filosófica chamada “o nada”. Comecei analisando uma afirmação de Jean Paul Sartre, o filósofo autor de “O Ser e o Nada”. Segundo ele, “o uso que fazemos da noção de nada em sua forma familiar pressupõe sempre uma especificação prévia do ser. A esse respeito, é de notar-se que o idioma nos ofereça um nada de coisa (“nada”) e um nada de seres humanos(“ninguém”)” ( Ser e o Nada. Vozes, p. 57).
        O filósofo teve o mérito de colocar as coisas em termos humanos, pois não é preciso grandes elucubrações para se descobrir que o ser negado quotidianamente não é outro senão o próprio ser humano.
Desde o início do pensar filosófico, homens respeitados na arte de filosofar carregaram suas tintas sobre o problema do nada. Mas, o nada foi sempre abordado numa perspectiva metafísica, abstrata, neutra e impessoal, quando o que realmente nos inquieta não é uma coisa neutra e indeterminada, e sim o vazio humano, o seu próprio nadificar diário. O cotidiano é marcado por expressões nadificantes. Dia após dia vamos, paulatinamente, construindo um vocabulário que funciona como um complexo de idéias-força a partir do qual gerenciamos a nossa vida. Esta consciência é importante, porque, não raro, as idéias-força sobre nós mesmos são profundamente marcadas por experiências negativas e acabam comprometendo de modo negativo a compreensão que temos de nossa existencial pessoal. Palavras como eu não posso, eu não consigo e eu não mereço, revelam a prisão sem muros na qual estamos encarcerados e só muito raramente nos damos contas disso. Será por isso que os gramáticos dizem que o ninguém é um pronome indefinido? Para a filosofia da existência, mas de que uma palavra que antecede ou substitui o nome, ninguém é um projeto de vida.
A experiência do ninguém como realidade existencial é anterior a toda possibilidade de nome. Dizer ninguém é expressar o fenômeno do não humano, da não-pessoa. É uma experiência existencial.
A minha curiosidade levou-me aos dicionários etimológicos. Descobri que na língua latina, onde o termo encontra suas raízes mais imediatas, ninguém é nemo(nemo–inis). Não é um pronome, mas um substantivo. Dizer nemo, na sua eloqüência mais originariamente latina, é dizer ne-mo. Aqui o ne assume a sua condição primivera de advérbio de negação (ne=não) e hemo, substantivo masculino arcaico sinônimo de homo (homem), termo usado para designar o gênero humano, uma pessoa, um homem, um indivíduo. Enquanto termo, nemo surge de um processo filológico de aglutinação (ne + hemo = neemo ou nehmo = nemo) e traz, portanto, na sua carga significativa o sentido de negação do homem, negação da pessoa (ou da sua dignidade pessoal).
Como é que se nega uma pessoa? Como se alguém se torna ninguém? O dia-a-dia é um lugar repleto de construção do ninguém. Pois, ninguém não é só um termo, é uma prática de negação da alteridade. Quando o homem que faz pão desaparece, aos olhos da empregada, que também é só a empregada, e ela fala para sua senhora, que já não é só uma pessoa, mais um título de poder: “não é ninguém, não, senhora, é o padeiro”.
Nessa convivência efêmera, na qual as relações são econômicas, as pessoas se relacionam com rótulos de poder de compra e mercadoria à venda, não sobrando espaço para convivência com as pessoas: ou elas são porque compra ou são o que vendem. O padeiro se nadifica e só tem valor enquanto vende o serviço de fabricação de pães, a empregada, enquanto vende o serviço de limpeza etc.
Talvez seja oportuno, lembrar que a palavra pessoa é profundamente relacional. Segundo os lexicógrafos, o termo pessoa deriva de termo grego prosopon que significava comumente rosto, é originariamente formado de duas outras palavras: pros, “em direção de” e ops, “olho”, e o seu sentido mais preciso é: “aquilo que atrai o nosso olhar”. O filósofo argentino, Henrique Dussel, afirma que uma pessoa se torna pessoa diante de outra pessoa ou pessoas. Que quando estamos com o rosto diante de outro rosto na relação prática, isto é relação interpessoal, ele é alguém para mim e eu sou alguém para ele. Pois, o face-a-face de duas ou mais pessoas é ser pessoa. A experiência da proximidade entre pessoas como pessoas, lembra o filósofo, é que constitui o outro como ‘próximo (próximo, visinho, alguém, como outro; e não como coisa, instrumento, mediação (Ética comunitária, p.19).
Num mundo onde todos são alguém, talvez disséssemos: Quando seu Joaquim, ainda muito cedo, tocou a campainha, segurando uma sacola de pães fresquinhos que ele fizera em sua padaria, a dona Maria Alice perguntou a dona Helena, a senhora que estava trabalhava em sua casa:
- Quem tocou a campainha, Dona Helena?
- Foi seu Joaquim, trazendo os pães para o café da manhã. – respondeu ela. E assim começou uma nova forma de se olhar as pessoas.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

História da Filosofia : os Sofistas



Epitácio Rodrigues

A filosofia, como sabemos, inicia-se com a preocupação acerca da physis, o princípio originário da natureza e, depois de um período de investigação, discordância e esfriamento, surge uma nova etapa na história do pensamento filosófico ocidental. Não se trata de um salto sem nenhuma relação com a produção filosófica anterior, pois os protagonistas dessa nova fase estão teoricamente ligados a seus antecessores. Porém, a falta de consenso e as disparidades entre as teorias dos pré-socráticos suscitam uma desconfiança sobre a existência de uma verdade absoluta e eterna (como queria Parmênides). Por isso, alguns filósofos se esforçam para compreender a realidade e o próprio conhecimento de uma forma mais dinâmica, marcada pelo conflito dialético e provisório.
Além disso, as novas exigências do contexto sócio-político e cultural obrigaram um redimensionamento da investigação e discussão filosófica, no qual o foco de interesse e atenção dos filósofos volta-se para o homem e sua relação com a sociedade. Pode-se mesmo dizer que a ética, a política e, de certo modo, a questão da verdade, da linguagem estão entre as grandes questões.
As mudanças no cenário político da Grécia, sobretudo em Atenas, com a saída do regime da tirania e da oligárquia e entrada numa fase de democracia direta, as decisões importantes passam a ser tomadas em assembléias, nas quais se sobressaia quem fosse melhor nos confrontos de opiniões e na capacidade de argumentação. Os cidadãos de Atenas sentem a necessidade de aprender a arte de argumentar e de persuadir seus ouvintes e assim garantir que seus interesses pessoais e de sua classe prevaleçam sobre os demais.
Diante dessa demanda, surge uma nova classe de professores sábios itinerantes, especialistas na arte da retórica e na gramática, conhecidos como sofistas. O nome é muito sugestivo e mostra como eram vistos por todos. Na língua grega a palavra para designar sábio é sophos, da qual deriva o termo sofista. Portanto, esses professores tidos como sábios e conhecedores de uma gama variada de assuntos, se propunham ensinar as técnicas do discurso para influenciar e persuadir seus adversários no debate político. Assim, jogos de palavras, técnicas de raciocínios e certo relativismo filosófico eram estimulados nos procedimentos didáticos dos sofistas.

Os sofistas ensinavam técnicas de persuasão para os jovens, que aprendiam a defender a posição ou opinião A, depois a posição ou opinião contrária, não-A, de modo que, numa assembléia, soubessem ter fortes argumentos a favor ou contra uma opinião e ganhassem a discussão. (CHAUI, 2001: 37)

No que se refere à posição filosófica da sofistica, pode-se dizer que, apesar das diferenças entre eles, o relativismo é um elemento comum em todos os filósofos desse movimento. Eles defendiam não a existência de uma verdade única e absoluta, “tudo é relativo ao individuo, ao momento, a um conjunto de fatores e circunstâncias” (COTRIM, 2002: p. 91).
Por causa desse relativismo filosófico e da cobrança por seus ensinamentos, os sofistas foram duramente criticados por seus contemporâneos, os filósofos atenienses, Sócrates e Platão. Pesava sobre eles a acusação de mercenários, professores que estavam preocupados apenas em ganhar dinheiro, sem um compromisso com a verdade. Em poucas palavras, seus ensinamentos nada mais eram que uma produção intencional da falsidade e o uso da retórica como instrumento de manipulação.
Essas críticas influenciaram a visão que a posteridade filosófica teria dos sofistas até a modernidade, quando filósofos e especialistas em cultura grega descortinaram o caráter tendencioso das colocações de Platão a cerca da sofística.
Os principais sofistas foram: Licrofon, Pródicos, que teria sido mestre de Sócrates, Trasímaco, Hípias, Protágoras e Górgias. Como as informações sobre esses pensadores são muito fragmentadas, vamos apresentar sumariamente apenas os três últimos, que são considerados os mais notáveis dentre eles:
Hípias de Elis (séc. V a.C.) As informações sobre Hípias são escassas. Sabemos apenas que ele era um filósofo da primeira geração de sofistas, sendo citado nos diálogos Platônico Hipias e Protágoras. Era detentor de um saber enciclopédico e profundo conhecedor de todas as artes. A seu respeito dirá o filósofo Jacques Maritain:

Hípias, que brilhava igualmente na Astronomia, Geometria, Aritmética, Fonética, Rítmica, Música, Pintura, Etnologia, Mnemotécnica, epopéia, Tragédia, epigrama, Ditirambo e nas exortações morais, que foi embaixador de Elis e aprendeu todos os ofícios (tendo comparecido uma vez aos jogos olímpicos com uma roupa feita por suas próprias mãos), lembra um herói da renascença italiana (1963, p. 45).

Platão atribui a Hípias a distinção entre o que é bom por natureza, sendo eternamente válido, e o que é conforme a lei, sendo contingente e, por conseguinte, coagindo a natureza humana. (cf. JAPIASSÚ, 2006: p.131.)
Protágoras de Abdera (c. 490-421 a.C.) O filósofo Protágoras nasceu em Abdera, na Trácia, mas ainda muito jovem transferiu-se para Atenas. Nesta cidade tornou–se professor de uma multidão de alunos. É célebre a afirmação de Protágoras: “o homem é a medida de todas as coisas, das que são como são e das que não são como são”. Sintetizando assim o seu humanismo e seu relativismo filosófico, na medida em que coloca o homem no centro do conhecimento e condiciona a verdade do conhecimento à opinião da maioria, podendo variar de acordo com os lugares, as épocas e os interesses.
Górgias de Leontinos (c. 485-+380 a.C.): retórico e filósofo, nascido em Leontinos, região da Sicília, na Itália, por volta de 485, teria chefiado uma delegação a Atenas, em 427, para conseguir a interferência ateniense contra Siracusa, que ameaçava a independência das cidades vizinhas; obteve grande sucesso graças aos seus conhecimentos de oratória. Volta a Atenas, onde se torna um professor de oratória muito conhecido e respeitado.
No campo da filosofia, Górgias leva o relativismo de Protágoras ao ceticismo radical, como se pode observar no trecho da sua obra intitulada Sobre a natureza, ou seja, sobre o que não é. Ali o filósofo defende claramente: “Nada existe; se existisse alguma coisa, não poderíamos conhecê-la, se pudéssemos conhecê-la, não poderíamos comunicar nosso conhecimento aos outros”. (apud: MONDIN, 1981, p.42).
Qual a importância dos sofistas? Pode-se dizer que o movimento sofista deu uma grande contribuição para os estudos de etimologia, gramática e retórica. Além disso, suas reflexões já trazem germinalmente algumas das grandes questões da Teoria do Conhecimento e da Filosofia da Linguagem, ramos da filosofia que ocuparam lugar de destaque no período moderno e contemporâneo.


BIBLIOGRAFIA:

JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 4ª ed. atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, ed. 2006.
DUZOZOI, Gerard. e ROUSSEL, André. Dicionário de Filosofia. Campinas, São Paulo: Papirus, 1993.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: história e grandes temas. 15 ed. reform. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2002.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 12ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2001.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 12ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.
MARITAIN, Jacques. Elementos de Filosofia I: Introdução Geral à Filosofia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1963.
MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. Vol. I: os filósofos do ocidente. 7ª ed. São Paulo: Paulus, 1981 (col. Filosofia) pp. 42-43.

domingo, 2 de janeiro de 2011

A FILOSOFIA BRASILEIRA: FALTA DIVULGAÇÃO DE NOSSOS PENSADORES.


Epitácio Rodrigues
(Prof.: e Pesquisador na área de Filosofia)

Por que só estudamos esses filósofos gregos, ingleses, alemães, franceses, italianos, não existe nenhum filósofo que seja brasileiro?
Essas indagações trazem um indicativo claro de que as questões sobre uma Filosofia entre nós, se no ou do Brasil, ou seja, se o que temos aqui são apenas filosofantes, isto é, comentadores cuja produção não passa de um “pálido reflexo das idéias então surgidas na Europa, nem sempre aqui discutidas a partir de seus mais importantes representantes” como defendiam Romero e Franca na primeira fase da Filosofia no Brasil, leitura que ainda paira sobre a produção filosófica brasileira; ou se existe um modo de produção filosófica que seja genuinamente brasileiro. Esse dilema é uma questão do passado e até pouco relevante. A indagação levantada pelos jovens estudantes do ensino médio a cerca da Filosofia evidencia claramente o anseio de saber o que estamos fazendo em termos de produção filosófica e quem são seus protagonistas.
O desafio da filosofia brasileira atualmente é popularizar sua história, os sistema ou correntes de pensamentos e seus representantes. O que defendo enfaticamente é que o problema da filosofia no Brasil não é a ausência de filósofos e de uma produção filosófica de alto nível, mas a falta de uma pedagogia de divulgação de seus pensadores.
Se algumas produções histográficas das idéias, no passado, negaram ao Brasil a existência de uma prática filosófica somente porque os pensadores estão vinculados a uma ou outra escola de origem européia. A repetição desse preconceito hoje é uma postura ingênua e superficial da própria história da Filosofia, primeiro porque dentre os já consagrados filósofos europeus, não são poucos os que se vinculam a escolas ou sistemas de países diferentes do seu, e esse fato não os descredencia como filósofos. Com certeza não faltará quem argumente que existe certa homogeneidade cultural na Europa capaz de justificar essa prática. Já as diferenças entre eles e nós são continentais. Não ignoro que somos diferentes, em muitos aspectos, da cultura européia, ainda que herdeiros dela pela colonização, todavia, a utilização de certas categorias de análise kantiana, por exemplo, não significa que apenas reproduzimos aqui uma teoria advinda de Europa. Basta olhar as obras de Tobias Barreto, nas quais aparece claramente a utilização de certas categorias da filosofia francesa e alemã, para questionar vários aspectos sociedade brasileira da sua época. Quando faz isso, já dá à sua reflexão uma fisionomia brasileira. Esta filosofando sobre o Brasil, a partir de categorias que ele considerou mais adequada a uma análise profunda do contexto e capaz de viabilizar uma crítica mais consiste e racionalmente fundamentada. Isso não faz da sua filosofia uma não reflexão inferior pelo fato de ter se reportado ao positivismo ou kantismo alemão. Noutras palavras, se não temos a patente de inventores da Filosofia Ocidental, mas refletimos a partir da longa tradição grego-romana e europeia, isso não invalida o nosso pensar.
Outra consideração ingênua e hipócrita que vez por outra escuto professores de Filosofia vociferar é o discursos que afirma: ‘adotar a maneira europeia de pensar é adotar o pensar do opressor. Não vejo muita libertação nessa leitura visto que tal discurso se apóia numa leitura de luta de classe, cujo genitor foi um europeu alemão.
Portanto, não é a desvinculação coma tradição filosófica européia ou ocidental que vai nos garantir uma originalidade no pensar filosófico, mas na capacidade de dialogar com a tradição, questionando-a, naquilo que considerarmos débil e resignificando ou que nos parecer válido na forma e caduco no conteúdo. Enfim, como “do nada, nada se cria”, partir do que se tem para chagar sempre mais além na atualidade e na qualidade. E isso os pensadores brasileiros já fazem como muita autoridade intelectual.
Feitos esses esclarecimentos, resta-nos abordar o verdadeiro problema da produção filosófica brasileira, a saber: a ênfase dada aos filósofos antigos e europeus em detrimento de um silêncio quase absoluto sobre os pensadores brasileiros.
Queremos deixar claro que não condenamos, em absoluto, a prática pedagógica vigente no ensino da filosofia no Brasil, por enfatizar os pensadores europeus. Pois entendo que a razão para se falar tanto em pré-socráticos, Sofistas, Sócrates, Platão, Aristóteles os filósofos helenistas gregos e romanos, Agostinho, Tomás de Aquino, Maquiavel, Bacon, Descartes, John Locke e Thomas Hobbes, Kant, Hegel, Marx, Sartre, Heidegger, Levinas, Adorno, Horkheimer, Foucault, Deleuze - só para citar alguns - está no fato de que a Filosofia tem uma história que não fomos nós que a iniciamos. Para se compreender bem esse diálogo, para se concordar, discordar, resignificar ou desprezar é importante dialogar com essa tradição. Por isso, volto a dizer, condenar a leitura das obras desses autores sob o argumento de que é um meio de legitimarmos o eurocentrismo e nos alienarmos na reprodução do discurso do opressor, não é caminho mais coerente, pois essa fala nada mais é do que um resquício da leitura das obras e idéias de Karl Marx, cujo contributo para uma nova compreensão da sociedade é indiscutível. Estudamos tais pensadores porque precisamos conhecer a história das idéias filosófica no ocidente, da qual somos herdeiros e que precisamos é reclamar o nosso direito à fala nesse dia-logo.
Dia-logo do qual, atualmente, já não estamos por fora como mero espectadores e reprodutores. O problema não está na falta de um cultivo da filosofia no nosso país, mas na pouca divulgação, nos meios populares, dessa produção. Antonio Paim, uma das grandes referências no estudo da Filosofia no Brasil, nos apresenta uma história das idéias que se inicia com a presença dos portugueses e que rompe com essa produção e cria uma forma de filosofia que seja a nossa de dialogar com a tradição, de discordar ou alterar certos pontos de reflexão, conforme a nossa situação e nossos problemas. A lista dos nossos pensadores, desde o século XIX não é pequena. Nela podemos vislumbrar nome de pensadores como Tobias Barreto, Sylvio Romero, Farias Brito, Pontes de Miranda, Miguel Reale, Leonel Franca, Antonio Paim, Lima Vaz, Marilena Chauí, Paulo Freire, Evaldo Coutinho, Silvio Gallo, Paulo Ghiraldelli, Jr... só para citar alguns. Temos já uma gama de sistemas ou correntes que foram e são lugares epistemológicos de reflexão filosófica, dentre as quais podemos elencar o ecletismo, o positivismo, o culturalismo, o espiritualismo, a fenomenologia, o neotomismo.
Mas então, qual é o verdadeiro problema? O Brasil possui um preconceito em relação à Filosofia, fruto de um discurso historicamente construído para descredenciá-la. Temos entre nós décadas de silêncio quase absoluto sobre a filosofia entre os jovens (mais precisamente de 1970 a 2008) e isso representa uma lacuna que demanda tempo para ser superada. O retorno da Filosofia ao Ensino Médio, nunca é demais lembrar, trará à cultura brasileira um contato maior com essa forma de construção de conhecimento, mas para consolidar a nossa identidade como pais com uma tradição filosófica não será suficiente tornar a sua presença obrigatória, é preciso que aqueles que produzam filosofia no entre nós sejam conhecidos por nós mesmos e pelos outros. Para isso, várias instituições terão que trabalhar juntas. A primeira delas é a própria universidade, que deve promover e incentivar pesquisas sobre os pensadores brasileiros, e a cadeira de Filosofia Brasileira, na Graduação, precisa ser mais incisiva e consistente na caracterização de uma filosofia produzida entre nós. Essas duas medidas ocasionarão, assim, um diálogo conceitual com esses pensadores, além de divulgar o seu trabalho. Ao lado disso, o que seria conseqüência quase que inevitável, dado o modo como atua o mercado editorial, que as obras desses pensadores estejam à disposição dos consumidores/pesquisadores, simpatizantes, professores e alunos da educação básica e do ensino superior. Pois, como já sabemos, não há Filosofia sem dia-logo com os pensadores e esse diálogo se dá através do contato com os textos.
Um segundo procedimento didático é viabilizar, já no Ensino Médio, o contato dos alunos com esses pensadores e suas idéias. Nesse sentido, basta lembrar, por exemplo, que Orientações Curriculares Para o Ensino Médio (MEC, 2006) proposta pelo MEC apresentam trinta temas como conteúdos a ser trabalhados na filosofia e nenhuma deles se refere à Filosofia Brasileira. O mesmo acontece, por exemplo, no estado do Ceará onde as Matrizes Curriculares Para o Ensino Médio (Coleção Escola Aprendente, SEDUC, 2009), no tocante à Filosofia guarda o mesmo silêncio sepulcral, apesar de a terra natal de Farias Brito, cuja importância dentro do contexto da Filosofia Brasileira é inegável. No referido estado, o filósofo é praticamente um ilustre desconhecido.
Uma última proposta pedagógica diz respeito aos nossos historiadores da filosofia, que devem inserir o pensamento brasileiro dentro da história geral da filosofia (visto que cada filósofo ou está vinculado a uma corrente filosófica, ou então será um pensador com uma corrente ou sistema próprio) e não reduzi-lo a um adendo. Quando pegamos o tão citado livro Curso de Filosofia (Zahar, 1986) de Antonio Rezende (org.), encontramos no final do livro, como capítulo à parte, algumas linhas dedicadas à Filosofia no Brasil, o mesmo acontece com a Introdução à Filosofia: aprendendo a pensar (Cortez, 2004) de Luckesi e Elizete Silva. Esses livros têm o mérito de trazer algo sobre o assunto, mas ainda colocado como anexo de uma história da qual não fazem parte.
Já os Fundamentos da filosofia: história e grandes temas (16ª Saraiva, 2008) de Gilberto Cotrim, o Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein (12ªed. Zahar, 2008) de Danilo Marcondes e o Convite à Filosofia (Ática, 12ª Ed. 2001) de Marilena Chauí, textos de grande circulação no país não mencionam a produção filosófica brasileira.
Com certeza, haverá que julgue esse conjunto de propostas ideológicas, mas o que realmente se reivindica aqui é que nós sejamos os primeiros a valorizar, difundir e, sobretudo, acreditar no que existe entre nós de produção filosófica e comecemos a demarcar o nosso assento no parlatório da filosófica ocidental.

Ensaio SOBRE A OPINIÃO

“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ide...