terça-feira, 7 de junho de 2011

O PENSAMENTO DE SÓCRATES I


( TEXTO DE FILOSOFIA: 1º ANO DO ENSINO MÉDIO, 2º BIMESTRE)
3. Sócrates e seu método
Sócrates (c. 470-399 a.C) nada deixou escrito, e teve suas idéias divulgadas por dois de seus principais discípulos, Xenofonte e Platão. Evidentemente, devido ao brilho deles, é de se supor que nem sempre fossem realmente fiéis ao pensamento do mestre. Nos diálogos que Platão escreveu, Sócrates figura sempre como o principal interlocutor.
Mesmo tendo sido incluído muitas vezes entre os sofistas, Sócrates recusava tal classificação, e opunha-se a eles de forma crítica[...]. Sócrates se indispôs com os poderosos do seu tempo, sendo acusado de não crer nos deuses da cidade e corromper a mocidade. Por isso foi condenado e morto.
Costumava conversar com todos, fossem velhos ou moços, nobres ou escravos, preocupado com o método do conhecimento. Sócrates parte do pressuposto “só sei que nada sei”, que consiste justamente na sabedoria de reconhecer a própria ignorância, ponto de partida para a procura do saber.
Por isso seu método começa pela parte considerada “destrutiva”, chamada ironia (em grego, “perguntar”). Nas discussões afirma inicialmente nada saber, diante do oponente que se diz conhecedor de determinado assunto. Com hábeis perguntas, desmonta as certezas até o outro reconhecer a ignorância. Parte então para a segunda etapa do método, a maiêutica (em grego, ”parto”). Dá esse nome em homenagem a sua mãe, que era parteira, acrescentando que, se ela fazia parto de corpos, ele “dava à luz’ idéias novas.
Sócrates, por meio de perguntas, destrói o saber constituído para reconstruí-lo na procura da definição do conceito. Esse processo aparece bem ilustrado nos diálogos relatados por Platão, e é bom lembrar que, no final, nem sempre Sócrates tem a resposta: ele também se põe em busca do conceito e às vezes as discussões não chegam a conclusões definitivas.
As questões que Sócrates privilegia são as referentes à moral, daí perguntar em que consiste a coragem, a covardia, a piedade, a justiça e assim por diante. Diante de diversas manifestações de coragem, quer saber o que é a “coragem em si”, o universal que a representa. Ora, enquanto a filosofia ainda é nascente, precisa inventar palavras novas, ou usar as antigas dando-lhes sentido diferente. Por isso Sócrates utiliza o termo logos, que na linguagem comum significava “palavra”, “conversa”, e que no sentido filosófico passa a significar “a razão que se dá de algo”, ou mais propriamente, conceito.[...] quando Sócrates pede o logos  da justiça, que é a justiça, o que pede é o conceito da justiça, a definição da justiça.[1]

3. Sócrates e os sofistas
Sócrates foi contemporâneo dos sofistas e o mais enérgico adversário que eles tiveram. Seu método de ensino e sua doutrina são o oposto da doutrina e método dos sofistas. As divergências principais são as seguintes:
a) Os sofistas buscam o sucesso e ensinam como consegui-lo. Sócrates busca só a verdade e incita seus discípulos a descobri-la.
b) Segundo os sofistas, para ter sucesso é necessário fazer carreira. Segundo Sócrates, para se chegar à verdade, é necessário desapegar-se das riquezas, das honras, dos prazeres, e entrar no próprio espírito, analisar sinceramente a própria alma, conhecer a si mesmo, reconhecer a própria ignorância.
c) Os sofistas se gabam de saberem tudo e de ensinarem a todos. Sócrates tem a convicção de que ninguém pode ser mestre dos outros. Ele não é mestre, mas obstreta (maiêuta); não ensina a verdade, mas ajuda seus discípulos a descobri-la neles mesmos. Não leciona aos discípulos,mas conversa, discute, guia-os em suas discussões, orienta-os para a descoberta da verdade.
d) segundo os sofistas, aprender é coisa facílima. Afirmam por isso que por um preço módico podem garantir aos discípulos o conhecimento da retórica e da arte de governar. Segundo Sócrates, aprender não é coisa fácil. Muitos diálogos terminam sem conclusão, sem uma definição da verdade, da bondade, da beleza, da justiça, etc., sem um desenvolvimento completo do tema proposto. Para Sócrates, é somente lenta e progressivamente que se chega ao conhecimento da verdade, esclarecendo as próprias idéias e definindo as questões sempre com mais precisão.
e) Para os sofistas, o valor de qualquer conhecimento e de qualquer lei moral é relativo, subjetivo. Para Sócrates, existem conhecimentos e leis morais de valor absoluto, objetivo e, portanto, universal. (MONDM, Batista. Curso de Filosofia. 7ª ed. São Paulo, Paulus, 1981, pp. 48-49)


[1] ARANHA & MARTINS, Filosofando, p.95

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A CIGARRA E A FORMIGA E A QUESTÃO DA FELICIDADE

Prof. Epitácio Rodrigues
A fábula da Cigarra e da Formiga

Durante todo o verão, a cigarra consumia e a formiga investia.
- Você está agindo de modo muito irracional – advertiu a formiga -; quando o inverno chegar, você vai se arrepender.
- Serei bastante infeliz – replicou a cigarra -, mas estou agindo de maneira racional. Ser racional coincide com ser feliz e, no momento, o meu prazer supera o sofrimento futuro. Junte-se a mim e cante ao sol!
- Para mim – respondeu a formiga -, ser feliz consiste em maximizar a utilidade ao longo de toda a existência. A infelicidade e a felicidade têm um peso constante. Assim, para ser racional, preciso trabalhar e investir para o inverno.
Chegou o inverno e a cigarra estava faminta. Pediu ajuda à formiga.
-Gostaria de poder ajudá-la – disse a formiga -, mas, como sou racional, não posso preferir o seu bem-estar ao meu: você nada tem para me dar em troca. Não se sente culpada por ter cantado durante todo o verão?
- Muito culpada – respondeu a cigarra -, exatamente como havia previsto. Contudo, o agora é o agora; antes, eu estava agindo de modo racional. É você que está sendo irracional, proibindo-se de me ajudar.
A formiga pensou. Mas só tinha alimento suficiente para até o final do inverno.
- O agora, para mim, é a vida inteira – explicou -, mas posso ajudá-la de outra forma. Você está vendo as folhas da árvore de Epicuro? São deliciosas e nutritivas. Mas, depois de um certo tempo, você irá adoecer. Eu não posso comê-las, porque avalio a felicidade ao longo de toda a existência. Entretanto, para você, o êxtase do momento presente supera a infelicidade futura.
A cigarra comeu as folhas e acabou adoecendo.
- Vale a pena? – perguntou a formiga à cigarra já agonizante.
- Não vale agora, mas valia antes – respondeu a cigarra.
A formiga: - Devo dizer-lhe uma coisa, mas não sei se para você será uma boa notícia. Existe um antídoto!
- Rápido, rápido! – exclamou a cigarra.
- Acho que você não pode usá-lo – retrucou a formiga -, porque primeiro irá passar muito mal, e só depois é que irá melhorar.
- Péssima notícia – respondeu a cigarra -, já que eu não posso investir na felicidade futura. Adeus.
A cigarra morreu e a formiga continuou com sua vida cinzenta, evitando momentos de felicidade que poderiam transformar-se em futuras infelicidades. Já bastante idosa, disse a si mesma: “É triste não poder quase nunca fazer o que se deseja, mas conduzir uma existência feliz torna a vida muito dura”.[1]

A fábula é uma metáfora da condição humana, mas explicitamente do projeto fundamental de cada pessoa. A questão que ela levanta é saber quem foi mais feliz: quem viveu intensamente o momento presente ou quem sempre trabalhou na construção de uma felicidade futura? O que seria então a felicidade? Um turbilhão de prazer intenso e imediato ou seria ela um esforço para evitar o sofrimento, e a infelicidade?
Desde a antiguidade, é famoso o adágio: “comamos e bebamos porque amanhã morreremos[2]
A apologia do prazer imediato e descomprometido com o futuro, isto com suas conseqüências, como um projeto de vida feliz, normalmente, carreta uma frustração pela própria natureza do prazer como algo fugaz e provisório, exigindo uma inventividade e superação constante. O que dava prazer ontem deve ser mais intenso hoje ou então será mera rotina. A cada vez precisa ser mais intenso, mais fantástico ou não será mais prazer. Assim, um jovem que inicia sua experiência de ingestão de bebida, na próxima vez será estimulado a ingerir uma quantidade maior, depois o álcool já não suprirá sua busca por prazer intenso e, insatisfeito, parte para novas experiências com mais estimulantes, entrando num círculo vicioso.
Por outro lado, o projeto de felicidade como esforço para não passar privações, no qual cada dia é entendido como momento de preparar e garantir a subsistência futura é uma vida “cinzenta”, onde a felicidade é vista sempre de uma ótica negativa, equivalendo a um evitar sofrimento.
Nesse projeto, nos casos mais radicais, qualquer manifestação de alegria é suprimida. Um exemplo disso pode ser ilustrado com a prática monástica, que sob o pretexto do ora et labora (ora e trabalha), condenavam o riso: O riso é abundante na boca dos estultos.
A sintomatologia do homem e mulher hodiernos, de modo especial os mais jovens, não sabem lida com duas realidades humanas, cuja administração é condição sem a qual não para uma vida equilibrada, a saber: o sofrimento e o prazer.
O homem ocidental, por uma série de razões, não foi adequadamente educado para lidar com o prazer e com o sofrimento. O filósofo Aristóteles já mostrava uma preocupação a esse respeito, quando lembrou que a excelência das nossas ações estava relacionada com o prazer e o sofrimento, e acrescentou:

É por causa do prazer que praticamos más ações, e por causa do sofrimento que deixamos de praticar ações nobres. Por isso, como diz Platão, deveríamos ser educados desde a infância de maneira a nos deleitarmos e sofremos com as coisas certas; assim, deve ser a educação correta (2002: p. 43).

A ausência de uma educação ou de uma formação que contemple isso se torna evidente na falta de parâmetros racionais e consistentes para avaliar e valorar seja as experiências de sofrimento, seja as de prazer. Somos, frequentemente, incapazes de extrair de ambas alguma aprendizado que nos torne um ser humano melhor e mais preparado para a própria vida. A consequência disso é que as nossas experiências de prazer e também as de sofrimento, não raro, nos conduzem ao mesmo ponto: a infelicidade.


[1]LEGRENZI, Paolo. A Felicidade, pp. 8-9. O autor cita essa versão da fábula da formiga e da cigarra, encontrada no Livro A Astúcia da Razão de M. Hollis e E. Martin.
[2] O livro de Isaías, escrito por volta de já mencionava esse provérbio Cf. Is. 22,13, na Septuaginta e também em ICor. 15,33 (Ev. Grego). Uma variação Latina desse adágio afirma: comamos, bebamos e gozemos, pois depois da morte não há prazer”.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

NARCISISMO: A IMPOSSIBILIDADE DO AMOR


EGOÍSMO E NARCISISMO
O egoísmo caracteriza-se como ausência de auto-estima. Aparentemente, o indivíduo egoísta ama sobretudo a si mesmo e autovaloriza-se ao extremo. Parece ter uma boa dose de amor-próprio, mas, na verdade, ocorre exatamente o contrário: trata-se de uma pessoa carente que procura retirar dos outros aquilo que lhe falta.
Por ser uma personalidade exploradora que “quer” tudo para si, o egoísta não desenvolve a amizade. É incapaz de perceber a presença de outros com expectativas e projetos próprios, diferentes dos seus. Na relação a dois – amor erótico – transforma o parceiro em objeto.
O egoísta não sabe conviver de maneira sadia, pois transforma os outros em apêndices de seus desejos. O egoísmo é um traço sombrio do instinto de sobrevivência. É particularmente forte na infância e deve atenuar-se aos poucos, como desenvolvimento da personalidade.
Uma sociedade que reforça o individualismo cria condições para a manutenção indefinida do egocentrismo infantil, gerando, como isso, um comportamento patológico e doentio: o narcisismo.[1]
O mito grego de Narciso
Em tempos idos, na Grécia, o Rio Cefiso engravidou a ninfa[2] Liríope. Meses depois, Liríope, apesar de não desejar a gravidez, deu à luz uma criança de beleza extraordinária. A ninfa consultou o adivinho Tirésias sobre o futuro de seu filho, e ele vaticinou que Narciso viveria, desde que nunca visse a própria imagem.
Sob essa condição, ele cresceu e tornou-se um moço tão belo quanto o fora em criança. Não havia quem não se apaixonasse por ele. Narciso, entretanto, permanecia indiferente a todos que o admiravam.
Um dia, porém, sedento, Narciso aproximou-se das águas plácidas de um lago e, ao curvar-se para beber, viu sua imagem refletida no espelho das águas. Maravilhado com a própria figura, apaixonou-se por si mesmo. Passou a precisar desesperadamente do objeto de seu amor do objeto de seu amor e viu que não conseguiria mais viver sem aquele ser deslumbrante. Sua vida reduziu-se à contemplação daquele jovem tão belo: desejava-o, queria possuí-lo. Desvairado, inclinando-se cada vez mais ao encontro do ser amado, mergulhou nos braços frios da morte.
Às margens do lago, nasceu uma flor deslumbrante: o narciso. Ela relembra para sempre o destino trágico daquele que, aparentemente apaixonado por si mesmo, era, na verdade, incapaz de amar.

A psicologia distingue duas formas de narcisismo: o primário e o secundário. No narcisismo primário, a criança, nos primeiros meses de vida, não se distingue do mundo exterior. Forma uma unidade tão completa com a mãe que não percebe que as necessidades, as carências, estão dentro de si, enquanto a fonte de satisfação está fora, na mãe. Unida com a mãe, sente-se um ser completo e feliz. Aos poucos, começa a perceber que ela é uma pessoa e a mãe, outra. Toma consciência de que depende do mundo exterior para a satisfação de suas necessidades. Rompido o vínculo narcisista primário, a criança dará o primeiro passo para o desenvolvimento satisfatório de sua personalidade.
Quando esse rompimento é doloroso e insatisfatório, tem-se o narcisismo secundário. A criança, e mais tarde o adulto, criará um ego idealizado que se confundirá com seu próprio eu. Imaginar-se-á poderosa, sem necessidade dos outros, e ficará envaidecida com sua pseudoperfeição. Não poderá, então, interessar-se de verdade pelos outros; simplesmente os usará quando servirem para o enaltecimento de seu “poder” e de suas “qualidades”.

O AMOR E A SOCIEDADE NARCISISTA
O narcisismo revela a incapacidade de relação amorosa autêntica. O narcisista só se interessa por quem alimenta a imagem engrandecida e envaidecida que ele faz de si mesmo – o eu idealizado, narcísico. Como esse eu não corresponde a nenhuma pessoa real, as relações narcisistas são superficiais e insatisfatórias. Narcisista é contraditório: precisa do outro para manter sua auto-imagem, mas não consegue relacionar-se amorosamente com ele.
A sociedade contemporânea, individualista, sem espírito comunitário e dependente do consumo, desenvolve condições para que o narcisismo aflore. As propagandas investem nos indivíduos, alisando-lhes o ego e tratando-os como onipotentes e merecedores de ver todos os seus desejos satisfeitos.
A pessoa se sente engrandecida à medida que adquire e possui coisas. Não admite mais as frustrações da vida, reagindo a elas de maneira infantil e destrutiva. A insatisfação permanece, gerada pela impossibilidade de ter os desejos satisfeitos segundo as promessas do sistema, torna as pessoas agressivas e violentas. A violência é a outra forma da onipotência.
Na sociedade narcisista, quase não há mais lugar para valores como justiça, honestidade e integridade. Vigora a lei do mais esperto, que procura levar vantagem em tudo. Os membros dessa sociedade comportam-se como se estivessem diante das câmeras, representando, buscando o melhor ângulo, exibindo o melhor sorriso, caprichando na performance, porque outra característica da personalidade narcísica é a necessidade constante da admiração alheia. Os elogios dos outros funcionam como um espelho em que o narcisista vê a própria imagem refletida. Tudo nessa sociedade se transforma em espetáculo, incluindo a política.
O desejo permanente de fama, sucesso e beleza leva os indivíduos a temer e a rejeitar a velhice; por isso, a eterna juventude é glorificada e a velhice, execrada. Envelhecer é crime. Na sociedade narcísica, as pessoas são vazias, incapazes de relações profundas e verdadeiras. Daí a quase impossibilidade de amor entre elas. Não deixa de ser sintomático o surgimento da expressão “ficar com alguém”. Ficar ao contrário de amar, é o verbo da moda.
Superar o narcisismo é desenvolver a capacidade de encontro e de sensibilidade para com o outro, é ser capaz de responder a seu apelo.
(VOLPE, N. V. & LAPORTE, A. M. Amar, o verbo da vida. In: Para Filosofar. ed. reform. São Paulo, Scipione, 2007, pp.114-116)



[1] Narcisismo: manifestação patológica do psiquismo, na qual a libido se fixa no próprio eu; egolatria. Libido (em latim, “vontade, desejo”) é a energia sexual que, transformada em energia psíquica, desdobra a sexualidade, criando um envolvimento prazeroso nos diversos campos de atuação do homem no mundo.
[2] Ninfa: divindade que, conforme a mitologia grega, habita rios e bosques.

sábado, 23 de abril de 2011

Ser Professor: vocação ou profissão


Prof.: Epitácio Rodrigues

Existem professores quem realmente têm vocação, mas outros estão na profissão só por dinheiro!” Quem nunca ouviu esse discurso? Nós o conhecemos, aceitamos o seu conteúdo e o reproduzimos, dogmaticamente, sem qualquer preocupação de exame prévio. Por que presenciamos calados as apologias ao professor vocacionado ao magistério e a reprovação ao professor que reivindica melhores salários? Pois bem, essa compreensão precisa ser problematizada, analisada e discutida. Meu propósito, neste texto, é apresentar alguns riscos que essa visão reproduzida no imaginário social traz ao correto entendimento do ofício de professor.
O primeiro equívoco da associação do magistério à idéia de vocação é entender a docência como uma aptidão inata, um dom especial que uma pessoa (homem ou mulher) já nasce com ela. De fato, o conceito de vocação (do latim vocare – “chamar”), no imaginário social, está profundamente vinculado à religião cristã, sobretudo, ao catolicismo, que sugere a existência de pessoas nascidas com um pendor ou inclinação natural (ou sobrenatural), para realizar algum ofício público de caráter transcendental (Cf. Jr. 1,5-10; Mc. 3,13). Esse discurso é reforçado por uma concepção psicológica do desenvolvimento de base inatista, segundo a qual “o homem ‘já nasce pronto’, pode-se apenas aprimorar um pouco aquilo que é ou, inevitavelmente, virá a ser”.[1] A confluência desses discursos, teológico e psicológico, induzem a uma leitura errada do ofício de professor quando este entende o seu trabalho como um dom divino e uma missão especial de caráter soteriológico em relação aos seus alunos. Por isso, aqueles que assimilam tal discurso entendem que estão realizando não só um trabalho para o qual são remunerados, mas antes uma missão humanizadora dentro das categorias religiosas por ele adotada. Isso pode levá-lo a uma acomodação em relação à sua formação permanente, aos seus estudos: já que nasceu para isso, o estudo tinha apenas a função de lhe habilitar legalmente, pois ele já tinha jeito pra coisa.
A vinculação da vocação ao dinheiro foi uma contribuição da história da Filosofia e da Pedagogia. De fato, o reforço filosófico veio com a construção da imagem positiva de educador a partir da figura de Sócrates. Os seus discípulos, Platão e Xenofonte, criaram o protótipo socrático de mestre ideal em contraposição aos sofistas, professores itinerantes que cobravam em dinheiro pelas aulas ministradas aos jovens atenienses, acusando-os de mercenários: não eram professores ou mestres verdadeiros, mas “mercenários do saber”. A reprodução desse discurso, ao longo da história, parece ter reforçado a imagem de professor que luta por uma remuneração como um profissional ruim ou até mesmo “mercenário”.
A outra observação, que para mim, é a mais sutil e mais perigosa: a vocação como uma missão transcendental é uma experiência subjetiva e muito pessoal. Assim, de modo silencioso, ela desarticula toda a noção de categoria, de classe, de grupo. A vocação de professor é uma experiência muito particular, que se exerce sozinho (a) em sala de aula. Esse invólucro religioso e transcendental faz como que o profissional da educação não se sinta responsabilizado pela situação da categoria ou do grupo.
Mas, se não é uma vocação, o que é então o ofício de professor? Para esclarecer a pertinência da questão, refarei o caminho inverso na construção etimológico-semântica da palavra/idéia de professor. Ouvimos em bom português professor, mas até chegar aqui soou: professorem, antes professus, antes profiteor, uma aglutinação da preposição pro com o verbo latino fateor. Assim, quando voltamos à raiz da palavra nos deparamos com a preposição pro, cujo significado básico é: “diante de todos” e o verbo fateor, “falar”. Com base na sua etimologia, afirma João Paixão Neto, “Professor é, pois, aquele que fala (fateor) abertamente (pro= ‘diante de todos’) aquilo que pensa”.[2] O conceito de professor envolve, portanto, a “fala com propriedade sobre algo”. Por isso, a atividade docente é sempre genitiva, ou seja, todo professor é professor de Filosofia, de geografia, de Português... Outro elemento conceitual que se pode extrair daí é a dimensão pública dessa ação: a docência é sempre um ofício público, uma atividade direcionada a um grupo aprendente. É claro que essa palavra, na tradição latina, não dá conta de toda carga significativa dessa atividade. Pois, entre os clássicos da educação, sempre foi muito frequente o uso do termo magister (magis ter, tercius), para designar quem exerce a profissão de ensinar. O que é detentor do saber, cujo conhecimento é três vezes superior ao do aluno. Assim, seja professor ou mestre, o conceito é carregado de um peso conceitual que aponta para a noção de alguém que detêm certo conhecimento e que o transmite a um dado público aprendente.
Ainda sobre o assunto, vale ressaltar que professor e profissão possuem a mesma raiz etimológica: literalmente, falar ou fazer uma pro-fissão publicamente. Segundo João Paixão Netto, a idéia latina de professor equivale ao martyr grego, alguém que testemunha num processo diante do magistrado romano.
Na verdade, ser professor é exercer uma profissão. A pessoa que a exerce terá uma excelência na atividade, naquilo que depender dela, não graças a um dom, mas ao esforço pessoal, ao estudo e um investimento na sua capacitação técnica (conhecimento do assunto, e de recursos didáticos apropriados ao ensino), ética (compromisso com sua atividade profissional), e política (seu engajamento na luta pelos direitos da sua classe ou categoria profissional e na sua função de formador de opinião).
E quando os resultados da sua atividade profissão não atingir os resultados esperados, vale sempre lembrar que estes não dependem exclusivamente da sua competência técnica, ética e política, mas também de outros atores e fatores que interferem no universo da educação formal.


[1] DAVIS, C. e OLIVEIRA, Z. Psicologia na educação, Cortez, 1991, p.29.
[2] In: Crônica ao Educador, Paulus, 2001, p.19.

Ensaio SOBRE A OPINIÃO

“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ide...