segunda-feira, 6 de junho de 2011

A CIGARRA E A FORMIGA E A QUESTÃO DA FELICIDADE

Prof. Epitácio Rodrigues
A fábula da Cigarra e da Formiga

Durante todo o verão, a cigarra consumia e a formiga investia.
- Você está agindo de modo muito irracional – advertiu a formiga -; quando o inverno chegar, você vai se arrepender.
- Serei bastante infeliz – replicou a cigarra -, mas estou agindo de maneira racional. Ser racional coincide com ser feliz e, no momento, o meu prazer supera o sofrimento futuro. Junte-se a mim e cante ao sol!
- Para mim – respondeu a formiga -, ser feliz consiste em maximizar a utilidade ao longo de toda a existência. A infelicidade e a felicidade têm um peso constante. Assim, para ser racional, preciso trabalhar e investir para o inverno.
Chegou o inverno e a cigarra estava faminta. Pediu ajuda à formiga.
-Gostaria de poder ajudá-la – disse a formiga -, mas, como sou racional, não posso preferir o seu bem-estar ao meu: você nada tem para me dar em troca. Não se sente culpada por ter cantado durante todo o verão?
- Muito culpada – respondeu a cigarra -, exatamente como havia previsto. Contudo, o agora é o agora; antes, eu estava agindo de modo racional. É você que está sendo irracional, proibindo-se de me ajudar.
A formiga pensou. Mas só tinha alimento suficiente para até o final do inverno.
- O agora, para mim, é a vida inteira – explicou -, mas posso ajudá-la de outra forma. Você está vendo as folhas da árvore de Epicuro? São deliciosas e nutritivas. Mas, depois de um certo tempo, você irá adoecer. Eu não posso comê-las, porque avalio a felicidade ao longo de toda a existência. Entretanto, para você, o êxtase do momento presente supera a infelicidade futura.
A cigarra comeu as folhas e acabou adoecendo.
- Vale a pena? – perguntou a formiga à cigarra já agonizante.
- Não vale agora, mas valia antes – respondeu a cigarra.
A formiga: - Devo dizer-lhe uma coisa, mas não sei se para você será uma boa notícia. Existe um antídoto!
- Rápido, rápido! – exclamou a cigarra.
- Acho que você não pode usá-lo – retrucou a formiga -, porque primeiro irá passar muito mal, e só depois é que irá melhorar.
- Péssima notícia – respondeu a cigarra -, já que eu não posso investir na felicidade futura. Adeus.
A cigarra morreu e a formiga continuou com sua vida cinzenta, evitando momentos de felicidade que poderiam transformar-se em futuras infelicidades. Já bastante idosa, disse a si mesma: “É triste não poder quase nunca fazer o que se deseja, mas conduzir uma existência feliz torna a vida muito dura”.[1]

A fábula é uma metáfora da condição humana, mas explicitamente do projeto fundamental de cada pessoa. A questão que ela levanta é saber quem foi mais feliz: quem viveu intensamente o momento presente ou quem sempre trabalhou na construção de uma felicidade futura? O que seria então a felicidade? Um turbilhão de prazer intenso e imediato ou seria ela um esforço para evitar o sofrimento, e a infelicidade?
Desde a antiguidade, é famoso o adágio: “comamos e bebamos porque amanhã morreremos[2]
A apologia do prazer imediato e descomprometido com o futuro, isto com suas conseqüências, como um projeto de vida feliz, normalmente, carreta uma frustração pela própria natureza do prazer como algo fugaz e provisório, exigindo uma inventividade e superação constante. O que dava prazer ontem deve ser mais intenso hoje ou então será mera rotina. A cada vez precisa ser mais intenso, mais fantástico ou não será mais prazer. Assim, um jovem que inicia sua experiência de ingestão de bebida, na próxima vez será estimulado a ingerir uma quantidade maior, depois o álcool já não suprirá sua busca por prazer intenso e, insatisfeito, parte para novas experiências com mais estimulantes, entrando num círculo vicioso.
Por outro lado, o projeto de felicidade como esforço para não passar privações, no qual cada dia é entendido como momento de preparar e garantir a subsistência futura é uma vida “cinzenta”, onde a felicidade é vista sempre de uma ótica negativa, equivalendo a um evitar sofrimento.
Nesse projeto, nos casos mais radicais, qualquer manifestação de alegria é suprimida. Um exemplo disso pode ser ilustrado com a prática monástica, que sob o pretexto do ora et labora (ora e trabalha), condenavam o riso: O riso é abundante na boca dos estultos.
A sintomatologia do homem e mulher hodiernos, de modo especial os mais jovens, não sabem lida com duas realidades humanas, cuja administração é condição sem a qual não para uma vida equilibrada, a saber: o sofrimento e o prazer.
O homem ocidental, por uma série de razões, não foi adequadamente educado para lidar com o prazer e com o sofrimento. O filósofo Aristóteles já mostrava uma preocupação a esse respeito, quando lembrou que a excelência das nossas ações estava relacionada com o prazer e o sofrimento, e acrescentou:

É por causa do prazer que praticamos más ações, e por causa do sofrimento que deixamos de praticar ações nobres. Por isso, como diz Platão, deveríamos ser educados desde a infância de maneira a nos deleitarmos e sofremos com as coisas certas; assim, deve ser a educação correta (2002: p. 43).

A ausência de uma educação ou de uma formação que contemple isso se torna evidente na falta de parâmetros racionais e consistentes para avaliar e valorar seja as experiências de sofrimento, seja as de prazer. Somos, frequentemente, incapazes de extrair de ambas alguma aprendizado que nos torne um ser humano melhor e mais preparado para a própria vida. A consequência disso é que as nossas experiências de prazer e também as de sofrimento, não raro, nos conduzem ao mesmo ponto: a infelicidade.


[1]LEGRENZI, Paolo. A Felicidade, pp. 8-9. O autor cita essa versão da fábula da formiga e da cigarra, encontrada no Livro A Astúcia da Razão de M. Hollis e E. Martin.
[2] O livro de Isaías, escrito por volta de já mencionava esse provérbio Cf. Is. 22,13, na Septuaginta e também em ICor. 15,33 (Ev. Grego). Uma variação Latina desse adágio afirma: comamos, bebamos e gozemos, pois depois da morte não há prazer”.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

NARCISISMO: A IMPOSSIBILIDADE DO AMOR


EGOÍSMO E NARCISISMO
O egoísmo caracteriza-se como ausência de auto-estima. Aparentemente, o indivíduo egoísta ama sobretudo a si mesmo e autovaloriza-se ao extremo. Parece ter uma boa dose de amor-próprio, mas, na verdade, ocorre exatamente o contrário: trata-se de uma pessoa carente que procura retirar dos outros aquilo que lhe falta.
Por ser uma personalidade exploradora que “quer” tudo para si, o egoísta não desenvolve a amizade. É incapaz de perceber a presença de outros com expectativas e projetos próprios, diferentes dos seus. Na relação a dois – amor erótico – transforma o parceiro em objeto.
O egoísta não sabe conviver de maneira sadia, pois transforma os outros em apêndices de seus desejos. O egoísmo é um traço sombrio do instinto de sobrevivência. É particularmente forte na infância e deve atenuar-se aos poucos, como desenvolvimento da personalidade.
Uma sociedade que reforça o individualismo cria condições para a manutenção indefinida do egocentrismo infantil, gerando, como isso, um comportamento patológico e doentio: o narcisismo.[1]
O mito grego de Narciso
Em tempos idos, na Grécia, o Rio Cefiso engravidou a ninfa[2] Liríope. Meses depois, Liríope, apesar de não desejar a gravidez, deu à luz uma criança de beleza extraordinária. A ninfa consultou o adivinho Tirésias sobre o futuro de seu filho, e ele vaticinou que Narciso viveria, desde que nunca visse a própria imagem.
Sob essa condição, ele cresceu e tornou-se um moço tão belo quanto o fora em criança. Não havia quem não se apaixonasse por ele. Narciso, entretanto, permanecia indiferente a todos que o admiravam.
Um dia, porém, sedento, Narciso aproximou-se das águas plácidas de um lago e, ao curvar-se para beber, viu sua imagem refletida no espelho das águas. Maravilhado com a própria figura, apaixonou-se por si mesmo. Passou a precisar desesperadamente do objeto de seu amor do objeto de seu amor e viu que não conseguiria mais viver sem aquele ser deslumbrante. Sua vida reduziu-se à contemplação daquele jovem tão belo: desejava-o, queria possuí-lo. Desvairado, inclinando-se cada vez mais ao encontro do ser amado, mergulhou nos braços frios da morte.
Às margens do lago, nasceu uma flor deslumbrante: o narciso. Ela relembra para sempre o destino trágico daquele que, aparentemente apaixonado por si mesmo, era, na verdade, incapaz de amar.

A psicologia distingue duas formas de narcisismo: o primário e o secundário. No narcisismo primário, a criança, nos primeiros meses de vida, não se distingue do mundo exterior. Forma uma unidade tão completa com a mãe que não percebe que as necessidades, as carências, estão dentro de si, enquanto a fonte de satisfação está fora, na mãe. Unida com a mãe, sente-se um ser completo e feliz. Aos poucos, começa a perceber que ela é uma pessoa e a mãe, outra. Toma consciência de que depende do mundo exterior para a satisfação de suas necessidades. Rompido o vínculo narcisista primário, a criança dará o primeiro passo para o desenvolvimento satisfatório de sua personalidade.
Quando esse rompimento é doloroso e insatisfatório, tem-se o narcisismo secundário. A criança, e mais tarde o adulto, criará um ego idealizado que se confundirá com seu próprio eu. Imaginar-se-á poderosa, sem necessidade dos outros, e ficará envaidecida com sua pseudoperfeição. Não poderá, então, interessar-se de verdade pelos outros; simplesmente os usará quando servirem para o enaltecimento de seu “poder” e de suas “qualidades”.

O AMOR E A SOCIEDADE NARCISISTA
O narcisismo revela a incapacidade de relação amorosa autêntica. O narcisista só se interessa por quem alimenta a imagem engrandecida e envaidecida que ele faz de si mesmo – o eu idealizado, narcísico. Como esse eu não corresponde a nenhuma pessoa real, as relações narcisistas são superficiais e insatisfatórias. Narcisista é contraditório: precisa do outro para manter sua auto-imagem, mas não consegue relacionar-se amorosamente com ele.
A sociedade contemporânea, individualista, sem espírito comunitário e dependente do consumo, desenvolve condições para que o narcisismo aflore. As propagandas investem nos indivíduos, alisando-lhes o ego e tratando-os como onipotentes e merecedores de ver todos os seus desejos satisfeitos.
A pessoa se sente engrandecida à medida que adquire e possui coisas. Não admite mais as frustrações da vida, reagindo a elas de maneira infantil e destrutiva. A insatisfação permanece, gerada pela impossibilidade de ter os desejos satisfeitos segundo as promessas do sistema, torna as pessoas agressivas e violentas. A violência é a outra forma da onipotência.
Na sociedade narcisista, quase não há mais lugar para valores como justiça, honestidade e integridade. Vigora a lei do mais esperto, que procura levar vantagem em tudo. Os membros dessa sociedade comportam-se como se estivessem diante das câmeras, representando, buscando o melhor ângulo, exibindo o melhor sorriso, caprichando na performance, porque outra característica da personalidade narcísica é a necessidade constante da admiração alheia. Os elogios dos outros funcionam como um espelho em que o narcisista vê a própria imagem refletida. Tudo nessa sociedade se transforma em espetáculo, incluindo a política.
O desejo permanente de fama, sucesso e beleza leva os indivíduos a temer e a rejeitar a velhice; por isso, a eterna juventude é glorificada e a velhice, execrada. Envelhecer é crime. Na sociedade narcísica, as pessoas são vazias, incapazes de relações profundas e verdadeiras. Daí a quase impossibilidade de amor entre elas. Não deixa de ser sintomático o surgimento da expressão “ficar com alguém”. Ficar ao contrário de amar, é o verbo da moda.
Superar o narcisismo é desenvolver a capacidade de encontro e de sensibilidade para com o outro, é ser capaz de responder a seu apelo.
(VOLPE, N. V. & LAPORTE, A. M. Amar, o verbo da vida. In: Para Filosofar. ed. reform. São Paulo, Scipione, 2007, pp.114-116)



[1] Narcisismo: manifestação patológica do psiquismo, na qual a libido se fixa no próprio eu; egolatria. Libido (em latim, “vontade, desejo”) é a energia sexual que, transformada em energia psíquica, desdobra a sexualidade, criando um envolvimento prazeroso nos diversos campos de atuação do homem no mundo.
[2] Ninfa: divindade que, conforme a mitologia grega, habita rios e bosques.

sábado, 23 de abril de 2011

Ser Professor: vocação ou profissão


Prof.: Epitácio Rodrigues

Existem professores quem realmente têm vocação, mas outros estão na profissão só por dinheiro!” Quem nunca ouviu esse discurso? Nós o conhecemos, aceitamos o seu conteúdo e o reproduzimos, dogmaticamente, sem qualquer preocupação de exame prévio. Por que presenciamos calados as apologias ao professor vocacionado ao magistério e a reprovação ao professor que reivindica melhores salários? Pois bem, essa compreensão precisa ser problematizada, analisada e discutida. Meu propósito, neste texto, é apresentar alguns riscos que essa visão reproduzida no imaginário social traz ao correto entendimento do ofício de professor.
O primeiro equívoco da associação do magistério à idéia de vocação é entender a docência como uma aptidão inata, um dom especial que uma pessoa (homem ou mulher) já nasce com ela. De fato, o conceito de vocação (do latim vocare – “chamar”), no imaginário social, está profundamente vinculado à religião cristã, sobretudo, ao catolicismo, que sugere a existência de pessoas nascidas com um pendor ou inclinação natural (ou sobrenatural), para realizar algum ofício público de caráter transcendental (Cf. Jr. 1,5-10; Mc. 3,13). Esse discurso é reforçado por uma concepção psicológica do desenvolvimento de base inatista, segundo a qual “o homem ‘já nasce pronto’, pode-se apenas aprimorar um pouco aquilo que é ou, inevitavelmente, virá a ser”.[1] A confluência desses discursos, teológico e psicológico, induzem a uma leitura errada do ofício de professor quando este entende o seu trabalho como um dom divino e uma missão especial de caráter soteriológico em relação aos seus alunos. Por isso, aqueles que assimilam tal discurso entendem que estão realizando não só um trabalho para o qual são remunerados, mas antes uma missão humanizadora dentro das categorias religiosas por ele adotada. Isso pode levá-lo a uma acomodação em relação à sua formação permanente, aos seus estudos: já que nasceu para isso, o estudo tinha apenas a função de lhe habilitar legalmente, pois ele já tinha jeito pra coisa.
A vinculação da vocação ao dinheiro foi uma contribuição da história da Filosofia e da Pedagogia. De fato, o reforço filosófico veio com a construção da imagem positiva de educador a partir da figura de Sócrates. Os seus discípulos, Platão e Xenofonte, criaram o protótipo socrático de mestre ideal em contraposição aos sofistas, professores itinerantes que cobravam em dinheiro pelas aulas ministradas aos jovens atenienses, acusando-os de mercenários: não eram professores ou mestres verdadeiros, mas “mercenários do saber”. A reprodução desse discurso, ao longo da história, parece ter reforçado a imagem de professor que luta por uma remuneração como um profissional ruim ou até mesmo “mercenário”.
A outra observação, que para mim, é a mais sutil e mais perigosa: a vocação como uma missão transcendental é uma experiência subjetiva e muito pessoal. Assim, de modo silencioso, ela desarticula toda a noção de categoria, de classe, de grupo. A vocação de professor é uma experiência muito particular, que se exerce sozinho (a) em sala de aula. Esse invólucro religioso e transcendental faz como que o profissional da educação não se sinta responsabilizado pela situação da categoria ou do grupo.
Mas, se não é uma vocação, o que é então o ofício de professor? Para esclarecer a pertinência da questão, refarei o caminho inverso na construção etimológico-semântica da palavra/idéia de professor. Ouvimos em bom português professor, mas até chegar aqui soou: professorem, antes professus, antes profiteor, uma aglutinação da preposição pro com o verbo latino fateor. Assim, quando voltamos à raiz da palavra nos deparamos com a preposição pro, cujo significado básico é: “diante de todos” e o verbo fateor, “falar”. Com base na sua etimologia, afirma João Paixão Neto, “Professor é, pois, aquele que fala (fateor) abertamente (pro= ‘diante de todos’) aquilo que pensa”.[2] O conceito de professor envolve, portanto, a “fala com propriedade sobre algo”. Por isso, a atividade docente é sempre genitiva, ou seja, todo professor é professor de Filosofia, de geografia, de Português... Outro elemento conceitual que se pode extrair daí é a dimensão pública dessa ação: a docência é sempre um ofício público, uma atividade direcionada a um grupo aprendente. É claro que essa palavra, na tradição latina, não dá conta de toda carga significativa dessa atividade. Pois, entre os clássicos da educação, sempre foi muito frequente o uso do termo magister (magis ter, tercius), para designar quem exerce a profissão de ensinar. O que é detentor do saber, cujo conhecimento é três vezes superior ao do aluno. Assim, seja professor ou mestre, o conceito é carregado de um peso conceitual que aponta para a noção de alguém que detêm certo conhecimento e que o transmite a um dado público aprendente.
Ainda sobre o assunto, vale ressaltar que professor e profissão possuem a mesma raiz etimológica: literalmente, falar ou fazer uma pro-fissão publicamente. Segundo João Paixão Netto, a idéia latina de professor equivale ao martyr grego, alguém que testemunha num processo diante do magistrado romano.
Na verdade, ser professor é exercer uma profissão. A pessoa que a exerce terá uma excelência na atividade, naquilo que depender dela, não graças a um dom, mas ao esforço pessoal, ao estudo e um investimento na sua capacitação técnica (conhecimento do assunto, e de recursos didáticos apropriados ao ensino), ética (compromisso com sua atividade profissional), e política (seu engajamento na luta pelos direitos da sua classe ou categoria profissional e na sua função de formador de opinião).
E quando os resultados da sua atividade profissão não atingir os resultados esperados, vale sempre lembrar que estes não dependem exclusivamente da sua competência técnica, ética e política, mas também de outros atores e fatores que interferem no universo da educação formal.


[1] DAVIS, C. e OLIVEIRA, Z. Psicologia na educação, Cortez, 1991, p.29.
[2] In: Crônica ao Educador, Paulus, 2001, p.19.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O CONCEITO DE CULTURA NUMA PERSPECTIVA FILOSÓFICA


Prof. Epitácio Rodrigues

        Por que estudar a cultura sob a ótica da Filosofia? As indagações filosóficas sobre a cultura abrem um leque de questões que contribuem para uma compreensão mais aprofundada dessa realidade, dentre as quais podemos citar: a delimitação do conceito de cultura; a relação cultura e trabalho, enquanto ação humana sobre a natureza; a capacidade simbólica do ser humano que reveste de significação a natureza e tudo aquilo que ele cria através de sua ação, ou seja, a sua capacidade de atribuir significação às coisas que o tira do mundo natural e o lança no mundo humano; e, por fim, as implicações advindas dessa capacidade de criar e recriar o seu próprio mundo, na medida em que ele mesmo se vê mergulhado num universo de significações que o modelam e dizem como ele dever ser, agir e viver. Noutras palavras, a questão de saber até onde o ser humano é livre frente ao próprio universo cultural por ele criado e no qual está inserido.
Nossa preocupação será de apresentar uma compreensão de cultura. O que não será uma coisa simples, pois o nosso vocabulário diário está impregnado de expressões que se referem à cultura com sentidos, às vezes, totalmente diferentes. Fala-se em cultura de grão, cultura nordestina, ou ainda, em pessoa culta e sem cultura. Ora, se falamos em cultura brasileira supõe-se que todos os brasileiros participam dessa cultura, portanto a possuem de alguma forma, mas quando digo que um brasileiro concreto é uma pessoa inculta, isto é, sem cultura, estou dizendo que ele tem e não tem cultura. Isso incorre numa contradição ou, no mínimo, numa grande dificuldade para se compreender o que é realmente a cultura.
Uma das formas de esclarecer essas confusões a respeito do termo é buscar a sua origem, a sua etimologia. A palavra cultura é de origem latina, vem do verbo colere, que significa “cultivar”, “criar”; “honrar”; “tomar conta” e “cuidar”.
Quando surgiu, no final do século XI,[1] a noção inicial de cultura estava relacionada ao cultivo da natureza, dando origem à palavra agricultura; à devida honra prestada aos deuses pelos homens (culto às divindades) e também ao cuidado dos adultos com as crianças (puericultura).
No período do Renascimento, por volta do século XVI, os humanistas começaram a empregar a palavra cultura com o sentido figurado de cultivo do espírito. Cultura passou a ser o desenvolvimento da capacidade intelectual e o aprimoramento das qualidades naturais dos homens.
No século XVIII, os iluministas relacionaram a expressão cultura do espírito, com as artes, ciências e letras e a partir daí passou-se a utilizar o termo cultura para designar tanto o desenvolvimento da capacidade intelectual, quanto o resultado do trabalho intelectual dos homens. Nesse período aconteceu a associação do termo cultura com o termo progresso, enquanto aprimoramento da ação humana, da autonomia individual, de domínio do homem sobre a natureza. Nas palavras de Marilena Chauí,
cultura passa a significar os resultados daquela formação ou educação dos seres humanos, resultados expressos em obras, feitos, ações e instituições: as artes, as ciências, a Filosofia, os ofícios, a religião e o Estado. Torna-se sinônimo de civilização, pois os pensadores julgavam que os resultados da formação-educação aparecem com maior clareza e nitidez na vida social e política ou na vida civil (Convite à Filosofia, 2001, p. 292).
Com o avanço das Ciências da Natureza, no século XIX, o surgimento das Ciências Humanas e a Revolução Industrial, cresce de forma assombrosa a produção material do homem. As cidades passam por mudanças rápidas e profundas, colocando em evidência as transformações e as diferenças humanas. Daí a Filosofia e as Ciências Sociais recolocarem o tema da cultura.
A Antropologia, uma das Ciências Sociais, vai apresentar um novo conceito de cultura que pode ser sintetizado no modo de vida de um povo e o que resulta da sua criação.
Nesse sentido, o antropólogo inglês Edward. B Tylor (1832-1917) afirma que cultura é: “um todo complexo que abarca conhecimentos, crenças, artes, moral, leis, costumes e outras capacidades adquiridas pelo homem como integrante da sociedade” (Apud. VILA NOVA, Introdução à Sociologia,1992, p. 43)
Reinholdo Aloysio Ullmann, na sua obra Antropologia: o homem e a cultura, ao abordar o assunto, também numa perspectiva antropológica, defende que Cultura, em sentido estrito,
significa o modus vivendi global de que participa determinado povo. Está incluída aí a maneira de agir, o que implica uma concepção ética; a maneira de pensar, o modo de sentir. O sentir, pensar e agir manifestam-se na linguagem, no código de leis seguido, na religião praticada, na criação estética. É o que se chama, tradicionalmente, de cultura não-material. Ao mesmo tempo, porém, o modus vivendi se expressa nos instrumentos utilizados, bem como na maneira de obtê-los, nas vestimentas, nas habitações em que o homem busca abrigo. Cultura material é a designação que abrange esses itens. Há que dizer, para não deixar dúvidas, que todo comportamento humano-cultural não é herança genética, mas transmissão social (O Homem e a cultura, 1991, p. 84).
Como podemos perceber, a dificuldade para se entender claramente o conceito de cultura, deve-se ao longo processo de re-elaboração a que foi sujeito o termo desde o século XI até os nossos dias.
Todavia, alguns elementos estiveram sempre presentes, a saber: a cultura é sempre uma ação criativa do homem sobre a natureza. Essa ação criativa tanto pode ser de natureza imaterial ou simbólica, como valores econômicos, éticos e estéticos, crenças, leis, normas e costumes. Isso só é possível graças à capacidade cognitiva, que o permite conhecer a realidade e alterar o significado dos objetos adaptando-os à satisfação de suas necessidades. É também a capacidade cognitiva que possibilita transmissão dos conhecimentos e técnicas de produção a outras gerações, perpetuando o saber. A ação criativa do homem pode ser de natureza material. O homem age sobre a natureza e produz objetos de artes, alimentos, indumentária e artefatos de modo geral, graças a uma combinação da capacidade cognitiva com a capacidade de premer da mão humana, permitindo a manipulação da realidade e criação de instrumentos necessários à alteração da própria natureza em seu benefício.
Ou seja, a noção de cultura evoca um aspecto imaterial: modo de ser e de viver de um povo, expresso num corpo complexo de significações linguísticas criado, aceito e transmitido pelo grupo, a cultura imaterial; e também um aspecto material: produção de objetos e utensílios para a sobrevivência, conforto e organização do grupo social, a cultura material.


[1] Cf. SOUZA, Sonia Maria Ribeiro de. Um Outro Olhar: Filosofia. São Paulo: FTD, 1995, p.114)

Ensaio SOBRE A OPINIÃO

“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ide...