Prof. Epitácio Rodrigues
A fábula da Cigarra e da Formiga
Durante todo o verão, a cigarra consumia e a formiga investia.
- Você está agindo de modo muito irracional – advertiu a formiga -; quando o inverno chegar, você vai se arrepender.
- Serei bastante infeliz – replicou a cigarra -, mas estou agindo de maneira racional. Ser racional coincide com ser feliz e, no momento, o meu prazer supera o sofrimento futuro. Junte-se a mim e cante ao sol!
- Para mim – respondeu a formiga -, ser feliz consiste em maximizar a utilidade ao longo de toda a existência. A infelicidade e a felicidade têm um peso constante. Assim, para ser racional, preciso trabalhar e investir para o inverno.
Chegou o inverno e a cigarra estava faminta. Pediu ajuda à formiga.
-Gostaria de poder ajudá-la – disse a formiga -, mas, como sou racional, não posso preferir o seu bem-estar ao meu: você nada tem para me dar em troca. Não se sente culpada por ter cantado durante todo o verão?
- Muito culpada – respondeu a cigarra -, exatamente como havia previsto. Contudo, o agora é o agora; antes, eu estava agindo de modo racional. É você que está sendo irracional, proibindo-se de me ajudar.
A formiga pensou. Mas só tinha alimento suficiente para até o final do inverno.
- O agora, para mim, é a vida inteira – explicou -, mas posso ajudá-la de outra forma. Você está vendo as folhas da árvore de Epicuro? São deliciosas e nutritivas. Mas, depois de um certo tempo, você irá adoecer. Eu não posso comê-las, porque avalio a felicidade ao longo de toda a existência. Entretanto, para você, o êxtase do momento presente supera a infelicidade futura.
A cigarra comeu as folhas e acabou adoecendo.
- Vale a pena? – perguntou a formiga à cigarra já agonizante.
- Não vale agora, mas valia antes – respondeu a cigarra.
A formiga: - Devo dizer-lhe uma coisa, mas não sei se para você será uma boa notícia. Existe um antídoto!
- Rápido, rápido! – exclamou a cigarra.
- Acho que você não pode usá-lo – retrucou a formiga -, porque primeiro irá passar muito mal, e só depois é que irá melhorar.
- Péssima notícia – respondeu a cigarra -, já que eu não posso investir na felicidade futura. Adeus.
A cigarra morreu e a formiga continuou com sua vida cinzenta, evitando momentos de felicidade que poderiam transformar-se em futuras infelicidades. Já bastante idosa, disse a si mesma: “É triste não poder quase nunca fazer o que se deseja, mas conduzir uma existência feliz torna a vida muito dura”.[1]
A fábula é uma metáfora da condição humana, mas explicitamente do projeto fundamental de cada pessoa. A questão que ela levanta é saber quem foi mais feliz: quem viveu intensamente o momento presente ou quem sempre trabalhou na construção de uma felicidade futura? O que seria então a felicidade? Um turbilhão de prazer intenso e imediato ou seria ela um esforço para evitar o sofrimento, e a infelicidade?
Desde a antiguidade, é famoso o adágio: “comamos e bebamos porque amanhã morreremos”[2]
A apologia do prazer imediato e descomprometido com o futuro, isto com suas conseqüências, como um projeto de vida feliz, normalmente, carreta uma frustração pela própria natureza do prazer como algo fugaz e provisório, exigindo uma inventividade e superação constante. O que dava prazer ontem deve ser mais intenso hoje ou então será mera rotina. A cada vez precisa ser mais intenso, mais fantástico ou não será mais prazer. Assim, um jovem que inicia sua experiência de ingestão de bebida, na próxima vez será estimulado a ingerir uma quantidade maior, depois o álcool já não suprirá sua busca por prazer intenso e, insatisfeito, parte para novas experiências com mais estimulantes, entrando num círculo vicioso.
Por outro lado, o projeto de felicidade como esforço para não passar privações, no qual cada dia é entendido como momento de preparar e garantir a subsistência futura é uma vida “cinzenta”, onde a felicidade é vista sempre de uma ótica negativa, equivalendo a um evitar sofrimento.
Nesse projeto, nos casos mais radicais, qualquer manifestação de alegria é suprimida. Um exemplo disso pode ser ilustrado com a prática monástica, que sob o pretexto do ora et labora (ora e trabalha), condenavam o riso: O riso é abundante na boca dos estultos.
A sintomatologia do homem e mulher hodiernos, de modo especial os mais jovens, não sabem lida com duas realidades humanas, cuja administração é condição sem a qual não para uma vida equilibrada, a saber: o sofrimento e o prazer.
O homem ocidental, por uma série de razões, não foi adequadamente educado para lidar com o prazer e com o sofrimento. O filósofo Aristóteles já mostrava uma preocupação a esse respeito, quando lembrou que a excelência das nossas ações estava relacionada com o prazer e o sofrimento, e acrescentou:
É por causa do prazer que praticamos más ações, e por causa do sofrimento que deixamos de praticar ações nobres. Por isso, como diz Platão, deveríamos ser educados desde a infância de maneira a nos deleitarmos e sofremos com as coisas certas; assim, deve ser a educação correta (2002: p. 43).
A ausência de uma educação ou de uma formação que contemple isso se torna evidente na falta de parâmetros racionais e consistentes para avaliar e valorar seja as experiências de sofrimento, seja as de prazer. Somos, frequentemente, incapazes de extrair de ambas alguma aprendizado que nos torne um ser humano melhor e mais preparado para a própria vida. A consequência disso é que as nossas experiências de prazer e também as de sofrimento, não raro, nos conduzem ao mesmo ponto: a infelicidade.
[1]LEGRENZI, Paolo. A Felicidade, pp. 8-9. O autor cita essa versão da fábula da formiga e da cigarra, encontrada no Livro A Astúcia da Razão de M. Hollis e E. Martin.
[2] O livro de Isaías, escrito por volta de já mencionava esse provérbio Cf. Is. 22,13, na Septuaginta e também em ICor. 15,33 (Ev. Grego). Uma variação Latina desse adágio afirma: comamos, bebamos e gozemos, pois depois da morte não há prazer”.