terça-feira, 15 de março de 2011

Introdução à Filosofia


 (1º ano de Filosofia do Ensino Médio - seleta de textos Marilena Chauí)
A palavra filosofia é grega. É composta de duas outras: philo e sophia. Philo quer dizer “aquele ou aquela que tem um sentimento amigável”, pois deriva de philia, que significa “amizade e amor fraterno”. Sophia quer dizer “sabedoria” e dela vem a palavra sophós, “sábio”.
Filosofia significa, portanto, “amizade pela sabedoria” ou “amor e respeito pelo saber”, e filósofo, “o que ama ser sábio” ou “tem amizade pelo saber”.
Atribui-se ao filósofo Pitágoras de Samos a invenção da palavra filosofia. Pitágoras teria afirmado que a sabedoria plena e completa pertence aos deuses, mas que os homens podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos.
... A Filosofia surgiu quando alguns gregos, admirados e espantados com a realidade, insatisfeitos com as explicações que a tradição lhes dera,começaram a fazer perguntas e buscar respostas para elas, demonstrando que o mundo e os seres humanos, os acontecimentos naturais e as coisas da natureza podem ser conhecidos pela razão humana, e que a própria razão é capaz de conhecer-se a si mesma.
Em suma, a Filosofia surgiu quando alguns pensadores gregos se deram conta  de que a verdade do mundo e dos humanos não era algo secreto e misterioso, que precisasse ser revelado por divindades a alguns escolhidos, mas que, ao contrário, podia ser conhecida por todos através das operações mentais de raciocínio; e quando esses pensadores compreenderam que o conhecimento depende apenas do uso correto do pensamento, que permite que a verdade possa ser conhecida por todos.
Esses pensadores descobriram também que a linguagem respeita as exigências do pensamento e que, por esse mesmo motivo, os conhecimentos verdadeiros podem ser transmitidos e ensinados a todos.
1. A consciência mítica: dimensão criativa e instigadora do imaginário
Os historiadores da Filosofia indagam se ela nasceu realizando uma transformação gradual sobre os mitos gregos ou produzindo uma ruptura radical com os mitos.
O que é um mito?
Mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da Terra, dos homens, da plantas, dos animais, do fogo, da água, dos ventos, do bem e do mal, da morte, etc.)
Quem narra o mito? O poeta-rapsodo. Quem é ele? Por que tem autoridade? Acredita-se que o poeta é um escolhido dos deuses, que lhe mostram os acontecimentos passados e permitem que ele veja a origem de todos os seres e de todas as coisas para que possa transmiti-la aos ouvintes. Sua palavra – o mito- é sagrada porque vem de uma revelação divina. O mito é, pois, incontestável e inquestionável.
Como o mito narra a origem do mundo e de tudo o que nele existe?
De três maneiras principais:
1. Encontrando o pai e a mãe das coisas e dos seres, isto é, tudo o que existe decorre de relações sexuais entre forças divinas pessoais. Essas relações geram os demais deuses: os titãs (seres semi-humanos e semidivinos), os heróis (filhos de um deus com uma mulher humana ou de uma deusa com um humano), os humanos, os metais, as plantas, os animais, as qualidades (como quente e frio, seco e úmido, claro e escuro, bom e mal, justo e injusto, belo e feio, certo e errado, etc.).
A narração da origem é assim, uma genealogia, isto é, uma narrativa da geração dos seres, das coisas, das qualidades por outros seres, que são pais ou antepassados.

2. Encontrando uma rivalidade ou uma aliança entre os deuses que faz surgir alguma coisa no mundo. Nesse caso, o mito narra ou uma guerra entre as forças divinas, ou uma aliança entre elas para provocar alguma coisa no mundo dos homens.
É assim, por exemplo, que o poeta Homero, na Ilíada, que narra a guerra de Tróia, explica por que, em certas batalhas, os troianos eram vitoriosos e, em outras, a vitória cabia aos gregos. Os deuses estavam divididos. A cada vez, o rei dos deuses, Zeus, ficava com um dos partidos, aliava-se comum grupo de fazia um dos lados vencer uma batalha.
A causa da guerra, aliás, foi uma rivalidade entre as deusas. Elas apareceram em sonho para o príncipe troiano Paris, oferecendo a ele seus dons, e ele escolheu a deusa do amor, Afrodite. As outras deusas, enciumadas, o fizeram raptar a grega helena, mulher do general grego Menelau. Isso deu início à guerra entre os humanos.

3. Encontrando as recompensas ou castigos que os deuses dão a quem os desobedece ou a quem os obedece. Como o mito narra, por exemplo, o uso do fogo pelos homens? Para os homens, o fogo é essencial, pois com ele se diferenciam dos animais, porque tanto passa a cozinhar os alimentos, a iluminar caminhos na noite, a se aquecer no inverno quanto podem fabricar instrumentos de metal para o trabalho e para a guerra. O mito conta que um titã, Prometeu, mais amigo dos homens do que dos deuses, roubou uma centelha de fogo e a trouxe de presente para os humanos. Prometeu foi castigado (amarrado num rochedo para que as aves de rapina, eternamente, devorassem seu fígado) e os homens também.
Qual foi o castigo dos homens? Os deuses criaram uma mulher encantadora, Pandora, a quem foi entregue uma caixa que conteria coisas maravilhosas, mas que nunca deveria ser aberta. Pandora foi enviada aos humanos e, cheia de curiosidade e querendo dar a eles as maravilhas, abriu a caixa. Dela saíram todas as desgraças, doenças, pestes, guerras e, sobretudo, a morte. Explica-se, assim, a origem dos males no mundo.

2. Cosmogonias e Teogonia
Vemos, portanto, que o mito narra a origem das coisas por meio de lutas, alianças e relações sexuais entre forças sobrenaturais que governam o mundo e o destino dos homens. Como os mitos sobre a origem do mundo são genealogias, diz-se que são cosmogonias e teogonias.
A palavra gonia vem de duas palavras gregas: do verbo gennao (engendrar, gerar, fazer nascer e crescer) e do substantivo genos (nascimento, gênese, descendência, gênero, espécie). Gonia, portanto, quer dizer “geração, nascimento a partir da concepção sexual e do parto”. Cosmos, como já vimos, que dizer “mundo ordenado e organizado”. Assim, a cosmogonia é a narrativa sobre o nascimento e a organização do mundo a partir de forças geradoras (pai e mãe) divinas.
Teogonia é uma palavra composta de gonia e theos, que, em grego, significa “as coisas divinas, os seres divinos, os deuses”. A teogonia é, portanto, a narrativa da origem dos deuses a partir de seus pais antepassados.
Qual é a pergunta dos estudiosos? É a seguinte: ao surgir, a Filosofia não é uma cosmogonia, e sim uma cosmologia, uma explicação racional sobre a origem do mundo e sobre as causas das transformações e repetições das coisas; mas a cosmologia nasce de uma transformação gradual dos mitos ou de uma ruptura radical com os mitos? A filosofia continua ou rompe com a cosmogonia e a teogonia?
Os estudiosos chagaram à conclusão de que as contradições e limitações dos mitos para explicar a realidade natural e humana levaram a Filosofia a retomá-los, porém reformulando e racionalizando as narrativas míticas, transformando-as numa explicação inteiramente nova e diferente.
Quais são as diferenças entre Filosofia e mito? Podemos apontar três como as mais importantes:

1. O mito pretendia narrar como as coisas eram ou tinham sido no passado imemorial, longínquo e fabuloso, voltando-se para o que era antes que tudo existisse tal como existe no presente; a Filosofia, ao contrário, se preocupa em explicar como e por que, no passado, no presente e no futuro, as coisas são como são.

2. O mito narrava a origem por meio de genealogias e rivalidades ou alianças entre forças divinas sobrenaturais e personalizadas; a Filosofia, ao contrário, explica a produção das coisas por elementos naturais primordiais (água ou úmido, fogo ou quente, ar ou frio, terra ou seco), por meio de causas naturais e impessoais (ações e movimentos de combinação, composição e separação ente os quatro elementos primordiais).
Assim, por exemplo, o mito falava nos deuses Urano, Ponto e Gaia; a Filosofia fala em céu, mar e terra. O mito narrava a origem dos seres celestes, terrestres e marinhos pelos casamentos de Gaia (a terra) com Urano (o céu) e Ponto (o mar).
A Filosofia explica o surgimento do céu, do mar e da terra e dos seres que neles vivem pelos movimentos e ações de composição, combinação e separação dos quatro elementos – úmido, seco, quente e frio.

3. O mito não se importava com contradições, com o fabuloso e o incompreensível, não só porque esses eram traços próprios da narrativa mítica, como também porque a confiança e a crença no mito vinham da autoridade religiosa do narrador.
A Filosofia, ao contrário, não admite contradições, fabulação e coisas incompreensíveis, mas exige que a explicação seja coerente, lógica e racional; além disso, a autoridade da explicação não vem da pessoa do filósofo, mas da razão, que é a mesma em todos os seres humanos.

3. Condições históricas para o surgimento da Filosofia

Podemos apontar como principais condições históricas para o surgimento da Filosofia na Grécia:
· As viagens marítimas, que permitiram aos gregos descobrir que os locais que os mitos diziam habitados por deuses e titãs eram, na verdade, habitados por outros seres humanos, e que as regiões dos mares que os mitos diziam habitados por monstros e seres fabulosos não possuíam nem monstros nem seres fabulosos. As viagens produziram o desencantamento ou a desmistificação do mundo, que passou, assim, a exigir uma explicação sobre a sua origem –explicação que o mito já não podia oferecer;
·  a invenção do calendário, que é uma forma de calcular o tempo segundo as estações do ano, as horas do dia, os fatos importantes quês e repetem, revelando, com isso, uma capacidade de abstração nova, ou uma percepção do tempo como algo natural, e não como uma força divina incompreensível;
· a invenção da moeda, que permitiu uma forma de troca que não se realiza como escambo ou em espécie (isto é, coisas trocadas por outras coisas), e sim uma troca abstrata, uma troca feita pelo cálculo do valor semelhante das coisas diferentes, revelando,portanto, uma nova capacidade de abstração e de generalização;
· o surgimento da vida urbana, com predomínio do comércio e do artesanato, desenvolvendo técnicas de fabricação e de troca e diminuindo o prestígio das famílias da aristocracia proprietária de terras, por quem e para quem os mitos foram criados; além disso, o surgimento de uma classe de comerciantes ricos, que precisava encontrar pontos de poder e prestígio para suplantar o velho poderio da aristocracia de terras e de sangue, fez com que se procurasse o prestígio pelo patrocínio e estimulo às artes, ás técnicas e aos conhecimentos, favorecendo um ambiente onde a Filosofia poderia surgir;
·  a invenção da escrita alfabética, que, como a do calendário e a da moeda, revela a crescimento da capacidade de abstração e de generalização, uma vez que a escrita alfabética ou fonética, diferentemente de outras escritas – como, por exemplo, os hieróglifos dos egípcios ou os ideogramas dos chineses -, supõe que não se represente uma imagem da coisa que está sendo dita, mas que se ofereça um sinal ou signo abstrato (uma palavra) dela.
Além disso, enquanto nas outras escritas, a cada sinal corresponde uma coisa ou idéia, na escrita alfabética ou fonética as letras são independentes e podem ser combinadas de formas variadas em palavras, e estas podem ser distribuídas de formas variadas para exprimir idéias. Ou seja, nas outras escritas,o signo representa a coisa assinalada; na escrita alfabética, a palavra designa uma coisa e exprime uma idéia.
Nas outras escritas, há a tendência de sacralizar os sinais ou os signos ou de lhes dar um caráter mágico (acredita-se que eles são as coisas assinaladas e que neles forças divinas e demoníacas encarnam, de maneira que quem sabe escrever ou usar sinais tem poder sobre as coisas e sobre os outros), enquanto a escrita alfabética é inteiramente leiga, abstrata, racional e usada por todos;
· a invenção da política, que introduz três aspectos novos e decisivos para o nascimento da Filosofia:
1. A idéia da lei como expressão da vontade de uma coletividade humana que decide por si mesma o que é melhor para si e como ela definirá suas relações internas. O aspecto legislado e regulado da cidade – da pólis – servirá de modelo para a Filosofia propor o aspecto legislado, regulado e ordenado do mundo como um mundo racional.

2. O surgimento de um espaço público, que faz aparecer um novo tipo de palavra ou de discurso, diferente daquele que era proferido pelo mito.
Neste, um poeta-vidente, que recebia das deusas ligadas à memória (a deusa Mnemosyne, mãe das Musas, que guiavam o poeta) uma iluminação misteriosa ou uma revelação sobrenatural, dizia aos homens quais eram as decisões dos deuses que eles deveriam obedecer.
Agora, com a polis, isto é, a cidade política, surge a palavra como direito de cada cidadão de emitir em público sua opinião, discuti-la com os outros, persuadi-los a tomar uma decisão proposta por ele, de tal modo que surge o discurso político como humana compartilhada, como diálogo, discussão e deliberação humana, isto é, como decisão racional e exposição dos motivos ou das razões para fazer ou não fazer alguma coisa.
A política, valorizando o humano, o pensamento, a discussão, a persuasão e a decisão racional, valorizou a pensamento racional e criou condições para que surgisse o discurso ou a palavra filosófica.

3. A idéia de discussão pública das opiniões e idéias, pois a política estimula um pensamento e um discurso que não procuram ser formulados por seitas secretas dos iniciados em mistérios sagrados, mas que procuram, ao contrário, ser públicos, ensinados, transmitidos, comunicados e discutidos.

A idéia de um pensamento que todos podem compreender e discutir, que todos podem comunicar e transmitir, é fundamental para a Filosofia.
(Características da Filosofia Grega)
... Quando se diz que a Filosofia é grega,o que se quer dizer é que ela possui certas características, apresenta certas formas de pensar e de exprimir os pensamentos, estabelece certas concepções sobre o que sejam a realidade, a razão, a linguagem, a ação, as técnicas, completamente diferentes das de outros povos e outras culturas.
Quando nos acercamos da Filosofia nascente, podemos perceber os principais traços que definem a atividade filosófica na época de seu nascimento:
· tendência à racionalidade, pois os gregos foram os primeiros a definir o ser humano como um animal racional, a considerar que o pensamento e a linguagem definem a razão, que o homem é ser dotado de razão e que a racionalidade é seu traço distintivo em relação a todos os outros seres. Mesmo que a razão humana não possa conhecer tudo, tudo o que ela pode conhecer, conhece plena e verdadeiramente.
A tendência à racionalidade significa que a razão humana ou o pensamento é a condição de todo conhecimento verdadeiro e, por isso mesmo, a própria razão ou o próprio pensamento deve conhecer as leis, regras, princípios e normas de suas operações e de seu exercício correto;
· tendência à argumentação e ao debate para oferecer respostas conclusivas às questões, dificuldades e problemas, de modo que nenhuma solução seja aceita se não houver sido demonstrada, isto é, provada racionalmente em conformidade com os princípios e as regras do pensamento verdadeiro;
· capacidade de generalização, isto é, de mostrar que uma explicação tem validade para muitas coisas diferentes ou para muitos fatos diversos, porque, sob a aparência da diversidade e da variação percebidas pelos órgãos dos sentidos, o pensamento descobre semelhanças e identidades. Essa capacidade racional é a síntese (palavra grega que significa “reunião ou fusão de várias coisas numa união íntima para formar um todo”).
Por exemplo, para meus olhos, meu tato e meu olfato, o gelo é diferente da neblina, que é diferente do vapor de uma chaleira, que é diferente da chuva, que é diferente da correnteza de um rio. No entanto, o pensamento mostra que se trata sempre de um mesmo elemento (a água), que passa por diferentes estados e formas (líquido, sólido, gasoso) em decorrência de causas naturais diferentes (condensação, liquefação, evaporação).
Reunindo semelhanças, o pensamento conclui que se trata de uma mesma coisa que aparece para nossos sentidos de maneiras diferentes e como se fossem, coisas diferentes. O pensamento generaliza, isto é, encontra sob as diferenças a identidade ou a semelhança e reúne os traços semelhantes, realizando uma síntese;
· capacidade de diferenciação, isto é, mostrar que fatos ou coisas que aparecem como iguais ou semelhantes são, na verdade, diferentes, quando examinados pelo pensamento ou pela razão. Essa capacidade racional para compreender diferenças onde parece haver identidade ou semelhança é a análise (palavra grega que significa “ação de desligar e separar, resolução de um todo em suas partes”).

AS INSTITUIÇÕES SOCIAIS


(Texto para o 3º ano de Sociologia do Ensino Médio) 

Cada um de nós, desde o nascimento, é exposto a um conjunto de regras e procedimentos que devem ser seguidos por nós como membros de uma sociedade. Esta mesma sociedade desenvolve uma gama de mecanismos de pressão que garantam o cumprimento dessas regras e procedimentos por cada um de nós.
O texto desta aula tem por objetivo, primeiramente, expor de modo sumário o que é uma Instituição Social – seu objetivo e importância - e sua diferença em relação ao grupo social; depois, mostrar quais as principais instituições sociais e, finalmente, apresentar algumas informações preliminares sobre a instituição familiar.
1. Instituições sociais e grupos sociais.
Todo grupo social estável e duradouro possui regras e procedimentos padronizados, cujo objetivo é:
1) É manter a coesão interna do grupo social;
2) Satisfazer certas necessidades desse mesmo grupo social.
Mas, na linguagem da Sociologia, o que são realmente Instituições Sociais? Segundo Vila Nova, “Instituições sociais são conjuntos de valores, crenças, normas, posições e papéis referentes a campos específicos de atividade e de necessidades humanas”(1992, p.144). Na mesma linha raciocínio, dirá Pérsio Santos: “as estruturas sociais estáveis (ou formas de organização) baseadas em regras e procedimentos padronizados, socialmente reconhecidos, aceitos, sancionados e seguidos pela sociedade são denominados instituições sociais”(p.158). Para este autor, uma instituição social é toda forma ou estrutura social instituída, construída, sedimentada na sociedade, de tal forma que, ao nascer, cada pessoa já encontra esses modos de pensar, de sentir e de agir socialmente estabelecidos e os assimilam na convivência social.
É importante não confundir Grupo como Instituição Social.
Grupo social: reuniões de indivíduos com objetivos comuns, envolvidos num processo de interação mais ou menos contínuo. Numa linguagem mais direta, “trata-se de um conjunto de indivíduos que interagem uns com os outros durante um certo tempo.”(Piletti, p.10). Portanto, um grupo se caracteriza por três elementos básicos: indivíduos, interação e tempo. Os grupos sociais podem ser primários, quando a interação entre os indivíduos é mais pessoal, global e envolve toda a sua personalidade. Por ex: família, colegas de infância, amigo de sala de aula. Podem ser também secundários, quando a interação é de caráter mais impessoal, formal, parcial e profissional. Por exemplo: moradores do mesmo prédio, colegas de uma empresa, patrão e funcionários.
Instituição social: consiste num conjunto de regras e procedimentos que se aplicam a diversos grupos.
Assim, por exemplo, podemos falar em família nuclear (pai, mãe e filhos) como grupo social primário. E o conjunto de regras e procedimentos que regulamentam a relação social desse grupo é o que denominamos de instituição familiar. A instituição familiar seria, portanto, o conjunto de regras e procedimentos que regulam todas as famílias da sociedade.
É importante lembrar que “uma instituição não existe isolada das outras. Há entre elas uma relação de interdependência, de tal forma que qualquer alteração em determinada instituição pode acarretar mudanças maiores ou menores nas outras”(Pérsio Santos, 159).

2. Principais tipos de Instituições Sociais
Na Sociologia, costuma-se apresentar basicamente cinco tipos de instituições sociais que são consideradas universais ou axiais. Vila Nova, esclarece por que tais instituições são consideradas universais:
Algumas instituições são universais, isto é, existem, segundo as evidências etnográficas disponíveis, em todas as sociedades, desde as tribais até as complexas sociedades urbano-industriais. Outras são especificas de determinadas sociedades. As instituições universais são o eixo de certos conjuntos de atividades relativas à satisfação de necessidades humanas específicas, e, por isso, são também denominadas instituições axiais. As instituições próprias de cada sociedade são, em geral, complementares em relação às instituições axiais” (p.145)
Estas instituições consideradas axiais são: Família, Estado, Instituições Educacionais, Religião e Economia.[1]
2.1. A Família: primeiro corpo social no qual os indivíduos convivem. Esta instituição sofreu algumas variações ao longo de sua existência no tempo e no espaço, no que se refere ao número de casamentos, as formas de casamento e os tipos de famílias.
2.1.1. O número de casamentos. Quanto ao número de casamentos, uma família pode ser monogâmica:
a) Família Monogâmica: cada marido e cada mulher tem apenas um cônjuge (indissolúvel ou divorcial).
b) Família Poligâmica: cada esposo pode ter dois ou mais cônjuges. Quando se trata do casamento de uma mulher com dois ou mais homens, chama-se poliandria. Quando de um casamento de um homem com várias mulheres, chama-se poliginia.
2.1.2. As formas de casamentos. No que se refere às formas de casamentos podemos ter:
a) Endogamia: casamento permitido apenas dentro do mesmo grupo social ou tribo.
b) Exogamia: casamento permitido com alguém de fora do grupo social, religião, raça ou classe social diferente.
2.1.3. Os tipos de famílias. Fala-se basicamente em dois tipos de famílias: a família conjugal ou nuclear, ou seja, aquela formada por um esposo, uma mulher e os filhos; a família consanguinea ou extensa, que engloba, além do casal e seus filhos, outros parentes como avós, netos, genros, noras, sogros, primos e sobrinho...
2.1.4. As principais funções da família
Não raro, um rapaz e uma moça decidem constituir família, movidos apenas pelo sentimento de nutrem um pelo outro, mas sem ter a devida clareza de quais as responsabilidades implicadas nesta decisão. Por isso, é sempre oportuno lembrar quais as principais funções da família nuclear ou conjugal.
a) Função sexual ou reprodutiva: garante a satisfação dos impulsos sexuais dos cônjuges e perpetua a espécie humana com o nascimento dos filhos;

b) Função econômica: deve assegurar os meios de subsistência e bem–estar de seus membros;
c) Função educacional: a família é responsável pela transmissão à criança dos valores e padrões comportamentais e culturais da sociedade.


[1] Vila Nova acrescenta também a recreação como uma instituição social axial.

OS AGRUPAMENTOS SOCIAIS


  (Texto adaptado de Pérsio Santos, 2º ano de Sociologia)


1. Grupo social. Para a sociologia, grupo social é toda reunião mais ou menos estável de duas ou mais pessoas associadas pela interação. Devido à interação social, os grupos têm de manter alguma forma de organização, no sentido de realizar ações conjuntas de interesse comum a todos os seus membros.
Os grupos sociais apresentam normas, hábitos e costumes próprios, divisão de funções e posições sociais definidas.
1.1. Principais grupos sociais: ao longo da vida, as pessoas participam geralmente de vários grupos sociais. Eis alguns deles: grupo familiar – representado pela família; grupo vicinal – formado pelos vizinhos; grupo educativo – desenvolvido na escola; grupo religioso – representado pelas instituições religiosas; grupo de lazer – formado por clubes, associações esportivas, grupo de teatro etc; grupo profissional – constituído por profissionais que trabalham em empresas, escritórios, lojas etc; grupo político – formado pelos militantes de um partido político, por integrante de organismos do Estado etc.
1.2. Principais características dos grupos sociais:
a) Pluralidade de indivíduos: grupo dá a idéia de grupo coletivo;
b) Interação social: é preciso que os indivíduos interajam uns com os outros;
c) Organização: todo grupo precisa de uma certa ordem interna;
d) Objetividade e exterioridade: os grupos são superiores e exteriores ao indivíduo e podem existir mesmo que ela saia do grupo;
e) Conteúdo intencional ou objetivo comum: os membros unem-se em torno de certos princípios e valores para atingir objetivos que são comuns;
f) Consciência grupal ou sentimento de “nós”: maneiras de pensar, sentir e agir próprias do grupo. Também a presença de sentimento forte de pertença;
g) Continuidade: interações passageiras não formam e nem consolidam uma união grupal.
1.3. Tipos de grupos sociais. Os grupos sociais podem ser classificados em: a) grupos primários: aqueles em que predominam os contatos primários, pessoais, diretos: ex: família, vizinhos, amigos... b) grupos secundários: aqueles mais complexos nos quais predominam os contatos mais formais sem intimidade e espontaneidade. Ex: igrejas, partidos políticos. c) grupos intermediários: aqueles nos quais se alternam e se complementam as formas de contatos primários e secundários: ex: a escola.
2. Agregados sociais. É a reunião de pessoas com faço sentimento grupo e frouxamente aglomeradas. Mesmo assim, conseguem manter entre si um mínimo de comunicação e de relações sociais. São características de um agregado social: falta de organização; ausência de hierarquia de posições e funções; anonimatos (as pessoas não se conhecem); O contato é limitado e de pequena duração.
2.1. Tipos de agregados sociais: os principais tipos de agregados sociais são: a) Multidão: a multidão tem como característica a falta de organização, pois apesar de contar, eventualmente, com um líder, a multidão não conta com um conjunto próprio de normas; seus membros não ocupam posições definidas no agregado; anonimato (nome, profissão e posição social desconhecida); objetivos comuns (interesses, emoções e atos são coletivos); indiferenciação (não espaço para a manifestação de diferenças individuais significativas); proximidade física (exige proximidade física e contato direto, porém temporário).
A multidão pode ser pacífica ou violenta (turba).
b) Público: é um agrupamento de pessoas que seguem os mesmos estímulos. É espontâneo, amorfo, não se baseia no contato físico, mas na comunicação recebida através de diversos meios de comunicação. Todos os indivíduos que compõem o público recebem o mesmo estímulo. Não se trata de uma multidão porque a integração dos indivíduos que formam o público é geralmente intencional. Na multidão é ocasional. Os modos de pensar, agir e sentir do público compõe a opinião pública. O público é um tipo intermediário entre a multidão e os grupos sociais, porque no público há um tipo primário de organização: as pessoas seguem certos regulamentos.
c) Massa: é formada por indivíduos que recebem, de maneira mais ou menos passiva, opiniões formadas, que são veiculadas pelos meios de comunicação de massa. A massa consiste num agrupamento relativamente grande de pessoas separadas e desconhecidas umas das outras. Como não obedece a normas, o processo de formação da massa é espontâneo.
Existe uma certa semelhança entre público e massa, pois também os componentes do público estão unidos por um estímulo. Mas há uma diferença importante: ao contrário da massa, o público não tem uma atitude passiva diante da mensagem que recebe: ele opina, por meio de palmas, crítica e discussões. Isso geralmente não acontece com a massa.
3. Mecanismo de sustentação dos grupos sociais.
As principais forças que mantêm o grupo coeso são: liderança, normas e sanções sociais, símbolos, e valores sociais.
3.1. Liderança: capacidade de alguém ou de algumas pessoas, de chefiar, comandar ou orientar um grupo de indivíduos em qualquer tipo de ação. O líder é aquele que dirige o grupo, transmitindo idéias e valores aos outros membros. Há dois tios de liderança: a) liderança institucional – deriva da autoridade que uma pessoa tem em virtude de sua posição social ou do cargo que ocupa; b) liderança pessoal – é aquela que se origina das qualidades pessoais do líder (inteligência, prestígio social e moral, poder de comunicação, atitudes, encanto pessoal etc.).
Entre os chefes que exercem a liderança pessoal podem surgir líderes carismáticos, pessoas dotadas de um encanto pessoal tão forte que os torna, aos olhos de seu público, iluminados, proféticos, ou mesmo sobrenaturais.
Como peça importante de sustentação do grupo, o líder desempenha um papel integrador entre seus membros, transmitindo-lhes idéias, normas e valores sociais, ao mesmo tempo em que representa os interesses e os valores do grupo.
3.2. Normas e sanções sociais: toda sociedade e todo grupo social conta com uma série de regras de conduta que lhe dão coesão, orientam e controlam o comportamento das pessoas. Essas regras de ação são chamadas sociais. Elas indicam o que é permitido e o que é proibido. A toda norma social corresponde uma sanção social. A sanção social é uma recompensa ou uma punição que o grupo ou a sociedade atribuem ao individuo diante de seu comportamento social. As sanções podem-se: a) Aprovativas – quando são aplicadas sob a forma de aceitação. É o reconhecimento do grupo quando o individuo cumpre o que se esperava dele; b) Reprovativas – uma punição imposta ao individuo, pelo grupo, por ele ter desobedecido ou violado alguma norma social.
3.3. Símbolos: algo que representa ou substitui outra coisa, geralmente mais complexa e abstrata. É algo cujo valor ou significado é atribuído pelas pessoas que o utilizam. Os símbolos são convenções criadas pelo grupo social. A linguagem é a mais importante forma de expressão simbólica. Sem a linguagem não haveria organização social humana, em nenhuma de suas manifestações: política, econômica, religiosa, cultural etc.
3.4. Valores sociais. A sociedade estipula o que é desejável e o que é proibido, o que é bonito e o que é feio, o que é certo, o que é errado. Na vida em sociedade, as idéias, as opiniões, os fatos, os objetos não são avaliados isoladamente, mas dentro de um contexto social que lhes atribui um significado, um valor e uma qualidade determinados. Quanto maior a variedade de opiniões, de princípios, de valores sociais, muitas vezes conflitantes.
4. Sociologia da Juventude
O conceito de juventude refere-se a uma faixa etária que vai de 14 aos 19 anos. Período em que o jovem completa o seu desenvolvimento físico e passa por mudanças biológicas, psicológicas e sociais.
Há, atualmente, no país, uma oferta insuficiente de postos de trabalho e uma enorme competição pelas poucas vagas existentes. Os dois fenômenos somados – escassez de emprego e aumento no número de jovens – criam uma situação socialmente explosiva.
A intensificação da economia globalizada na última década reduziu drasticamente as oportunidades de trabalho para os jovens. Os jovens e idosos poderão ser os primeiros excluídos das novas sociedades societárias que ainda estão se formando. De acordo com alguns economistas, uma parcela da juventude poderá passar até a vida inteira sem obter trabalho. Agora, os jovens se revoltam contra outros grupos sociais e até contra toda a sociedade, contra um sistema que os marginaliza.
Não se trata, desta vez, da utopia dos jovens rebeldes dos anos 1960, que queriam construir um novo mundo, reformar a sociedade, mas de jovens que desejam participar dela, serem nela incluídos. Tudo isso gera respostas agressivas. Os mais pobres sentem-se cada vez mais atraídos pela marginalidade, ingressando no crime organizado ou em gangues extremamente violentas. Os jovens de classe média, cujo padrão de vida esteja se reduzindo, tenderão a adotar atitudes ostensivas de contestação, podendo participar tanto de grupos neofascistas e racistas como de movimentos anarquistas, que desejam destruir a sociedade, acabar, simplesmente com qualquer forma de vida organizada. Outra parte desses jovens não deseja contestar, mas criar formas de comunicação que sejam exclusivamente de seu grupo.
É nesse contexto que a juventude surge como tema da Sociologia. Não se trata mais de um jovem que está em permanente conflito de gerações, mas de um jovem que tem dificuldade de se integrar à sociedade globalizada, que está se tornando mais violento por se sentir socialmente excluído e que participa de grupos tribais, como os punks, para não se sentir solitário.
5. Sistema de status e papeis sociais.
Todo indivíduo ocupa na sociedade em que vive posições sociais que lhe dão maior ou menor valor, prestígio social e poder.
5.1. Status social: é a posição ocupada pelo individuo no grupo social ou na sociedade.
O status social implica direitos, deveres, manifestações de prestígio e até privilégios, conforme o valor social conferido a cada posição. Numa sociedade, o indivíduo ocupa tantos status quanto são os grupos sociais a que ele pertence.
Dependendo da maneira pela qual o individuo obtém seu status, este pode ser classificado em: a) status atribuído – não é escolhido voluntariamente pelo individuo e não depende de suas ações ou qualidades. Os principais fatores atribuidores de status são: idade, sexo, raça, laços de parentesco, classe social etc.; b) status adquirido – obtido em função das qualidades pessoais do individuo, de sua capacidade e habilidade. O status que uma pessoa obtém ao longo da vida como resultado de competição e trabalho é exemplo de status adquirido, pois depende de suas habilidades e capacidades.
5.2. Papeis sociais: são os comportamentos que o grupo social espera de qualquer pessoa que ocupa determinado status social. Corresponde mais precisamente às tarefas, às obrigações inerentes ao status. Caso não aja assim, não estará cumprindo o papel que seu status determina e será, portanto, questionado pela sociedade.
Status e papel social são coisas inseparáveis e só os distinguimos para fins de estudo. Não há status que não corresponda a um papel social e vice-versa. Todas as pessoas sabem o que esperar ou exigir do individuo, de acordo com o status que ele ocupa no grupo social ou na sociedade. E a sociedade sempre encontra meios para punir os indivíduos que não cumprem seu papel.
6. Estrutura e organização social
Estrutura social é o conjunto ordenado de partes encadeadas que formam um todo. Dito de outro modo, a estrutura social é a totalidade dos status existentes num determinado grupo social ou numa sociedade. Cada participante de uma estrutura desempenha o papel correspondente à posição social que ocupa (status). O conjunto de todas as ações realizadas quando os membros de um grupo desempenham seus papeis sociais compõe a organização social. Assim, enquanto a estrutura social dá a idéia de algo estático, que simplesmente existe, a organização social dá idéia de algo dinâmico, em permanente movimento.
A estrutura social se refere a uma totalidade composta de partes, enquanto a organização social se refere às relações que se estabelece entre essas partes. Quando mais complexa a sociedade, maiores e mais complexas sua estrutura e sua organização.

Ensaio SOBRE A OPINIÃO

“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ide...