terça-feira, 15 de março de 2011

AS INSTITUIÇÕES SOCIAIS


(Texto para o 3º ano de Sociologia do Ensino Médio) 

Cada um de nós, desde o nascimento, é exposto a um conjunto de regras e procedimentos que devem ser seguidos por nós como membros de uma sociedade. Esta mesma sociedade desenvolve uma gama de mecanismos de pressão que garantam o cumprimento dessas regras e procedimentos por cada um de nós.
O texto desta aula tem por objetivo, primeiramente, expor de modo sumário o que é uma Instituição Social – seu objetivo e importância - e sua diferença em relação ao grupo social; depois, mostrar quais as principais instituições sociais e, finalmente, apresentar algumas informações preliminares sobre a instituição familiar.
1. Instituições sociais e grupos sociais.
Todo grupo social estável e duradouro possui regras e procedimentos padronizados, cujo objetivo é:
1) É manter a coesão interna do grupo social;
2) Satisfazer certas necessidades desse mesmo grupo social.
Mas, na linguagem da Sociologia, o que são realmente Instituições Sociais? Segundo Vila Nova, “Instituições sociais são conjuntos de valores, crenças, normas, posições e papéis referentes a campos específicos de atividade e de necessidades humanas”(1992, p.144). Na mesma linha raciocínio, dirá Pérsio Santos: “as estruturas sociais estáveis (ou formas de organização) baseadas em regras e procedimentos padronizados, socialmente reconhecidos, aceitos, sancionados e seguidos pela sociedade são denominados instituições sociais”(p.158). Para este autor, uma instituição social é toda forma ou estrutura social instituída, construída, sedimentada na sociedade, de tal forma que, ao nascer, cada pessoa já encontra esses modos de pensar, de sentir e de agir socialmente estabelecidos e os assimilam na convivência social.
É importante não confundir Grupo como Instituição Social.
Grupo social: reuniões de indivíduos com objetivos comuns, envolvidos num processo de interação mais ou menos contínuo. Numa linguagem mais direta, “trata-se de um conjunto de indivíduos que interagem uns com os outros durante um certo tempo.”(Piletti, p.10). Portanto, um grupo se caracteriza por três elementos básicos: indivíduos, interação e tempo. Os grupos sociais podem ser primários, quando a interação entre os indivíduos é mais pessoal, global e envolve toda a sua personalidade. Por ex: família, colegas de infância, amigo de sala de aula. Podem ser também secundários, quando a interação é de caráter mais impessoal, formal, parcial e profissional. Por exemplo: moradores do mesmo prédio, colegas de uma empresa, patrão e funcionários.
Instituição social: consiste num conjunto de regras e procedimentos que se aplicam a diversos grupos.
Assim, por exemplo, podemos falar em família nuclear (pai, mãe e filhos) como grupo social primário. E o conjunto de regras e procedimentos que regulamentam a relação social desse grupo é o que denominamos de instituição familiar. A instituição familiar seria, portanto, o conjunto de regras e procedimentos que regulam todas as famílias da sociedade.
É importante lembrar que “uma instituição não existe isolada das outras. Há entre elas uma relação de interdependência, de tal forma que qualquer alteração em determinada instituição pode acarretar mudanças maiores ou menores nas outras”(Pérsio Santos, 159).

2. Principais tipos de Instituições Sociais
Na Sociologia, costuma-se apresentar basicamente cinco tipos de instituições sociais que são consideradas universais ou axiais. Vila Nova, esclarece por que tais instituições são consideradas universais:
Algumas instituições são universais, isto é, existem, segundo as evidências etnográficas disponíveis, em todas as sociedades, desde as tribais até as complexas sociedades urbano-industriais. Outras são especificas de determinadas sociedades. As instituições universais são o eixo de certos conjuntos de atividades relativas à satisfação de necessidades humanas específicas, e, por isso, são também denominadas instituições axiais. As instituições próprias de cada sociedade são, em geral, complementares em relação às instituições axiais” (p.145)
Estas instituições consideradas axiais são: Família, Estado, Instituições Educacionais, Religião e Economia.[1]
2.1. A Família: primeiro corpo social no qual os indivíduos convivem. Esta instituição sofreu algumas variações ao longo de sua existência no tempo e no espaço, no que se refere ao número de casamentos, as formas de casamento e os tipos de famílias.
2.1.1. O número de casamentos. Quanto ao número de casamentos, uma família pode ser monogâmica:
a) Família Monogâmica: cada marido e cada mulher tem apenas um cônjuge (indissolúvel ou divorcial).
b) Família Poligâmica: cada esposo pode ter dois ou mais cônjuges. Quando se trata do casamento de uma mulher com dois ou mais homens, chama-se poliandria. Quando de um casamento de um homem com várias mulheres, chama-se poliginia.
2.1.2. As formas de casamentos. No que se refere às formas de casamentos podemos ter:
a) Endogamia: casamento permitido apenas dentro do mesmo grupo social ou tribo.
b) Exogamia: casamento permitido com alguém de fora do grupo social, religião, raça ou classe social diferente.
2.1.3. Os tipos de famílias. Fala-se basicamente em dois tipos de famílias: a família conjugal ou nuclear, ou seja, aquela formada por um esposo, uma mulher e os filhos; a família consanguinea ou extensa, que engloba, além do casal e seus filhos, outros parentes como avós, netos, genros, noras, sogros, primos e sobrinho...
2.1.4. As principais funções da família
Não raro, um rapaz e uma moça decidem constituir família, movidos apenas pelo sentimento de nutrem um pelo outro, mas sem ter a devida clareza de quais as responsabilidades implicadas nesta decisão. Por isso, é sempre oportuno lembrar quais as principais funções da família nuclear ou conjugal.
a) Função sexual ou reprodutiva: garante a satisfação dos impulsos sexuais dos cônjuges e perpetua a espécie humana com o nascimento dos filhos;

b) Função econômica: deve assegurar os meios de subsistência e bem–estar de seus membros;
c) Função educacional: a família é responsável pela transmissão à criança dos valores e padrões comportamentais e culturais da sociedade.


[1] Vila Nova acrescenta também a recreação como uma instituição social axial.

OS AGRUPAMENTOS SOCIAIS


  (Texto adaptado de Pérsio Santos, 2º ano de Sociologia)


1. Grupo social. Para a sociologia, grupo social é toda reunião mais ou menos estável de duas ou mais pessoas associadas pela interação. Devido à interação social, os grupos têm de manter alguma forma de organização, no sentido de realizar ações conjuntas de interesse comum a todos os seus membros.
Os grupos sociais apresentam normas, hábitos e costumes próprios, divisão de funções e posições sociais definidas.
1.1. Principais grupos sociais: ao longo da vida, as pessoas participam geralmente de vários grupos sociais. Eis alguns deles: grupo familiar – representado pela família; grupo vicinal – formado pelos vizinhos; grupo educativo – desenvolvido na escola; grupo religioso – representado pelas instituições religiosas; grupo de lazer – formado por clubes, associações esportivas, grupo de teatro etc; grupo profissional – constituído por profissionais que trabalham em empresas, escritórios, lojas etc; grupo político – formado pelos militantes de um partido político, por integrante de organismos do Estado etc.
1.2. Principais características dos grupos sociais:
a) Pluralidade de indivíduos: grupo dá a idéia de grupo coletivo;
b) Interação social: é preciso que os indivíduos interajam uns com os outros;
c) Organização: todo grupo precisa de uma certa ordem interna;
d) Objetividade e exterioridade: os grupos são superiores e exteriores ao indivíduo e podem existir mesmo que ela saia do grupo;
e) Conteúdo intencional ou objetivo comum: os membros unem-se em torno de certos princípios e valores para atingir objetivos que são comuns;
f) Consciência grupal ou sentimento de “nós”: maneiras de pensar, sentir e agir próprias do grupo. Também a presença de sentimento forte de pertença;
g) Continuidade: interações passageiras não formam e nem consolidam uma união grupal.
1.3. Tipos de grupos sociais. Os grupos sociais podem ser classificados em: a) grupos primários: aqueles em que predominam os contatos primários, pessoais, diretos: ex: família, vizinhos, amigos... b) grupos secundários: aqueles mais complexos nos quais predominam os contatos mais formais sem intimidade e espontaneidade. Ex: igrejas, partidos políticos. c) grupos intermediários: aqueles nos quais se alternam e se complementam as formas de contatos primários e secundários: ex: a escola.
2. Agregados sociais. É a reunião de pessoas com faço sentimento grupo e frouxamente aglomeradas. Mesmo assim, conseguem manter entre si um mínimo de comunicação e de relações sociais. São características de um agregado social: falta de organização; ausência de hierarquia de posições e funções; anonimatos (as pessoas não se conhecem); O contato é limitado e de pequena duração.
2.1. Tipos de agregados sociais: os principais tipos de agregados sociais são: a) Multidão: a multidão tem como característica a falta de organização, pois apesar de contar, eventualmente, com um líder, a multidão não conta com um conjunto próprio de normas; seus membros não ocupam posições definidas no agregado; anonimato (nome, profissão e posição social desconhecida); objetivos comuns (interesses, emoções e atos são coletivos); indiferenciação (não espaço para a manifestação de diferenças individuais significativas); proximidade física (exige proximidade física e contato direto, porém temporário).
A multidão pode ser pacífica ou violenta (turba).
b) Público: é um agrupamento de pessoas que seguem os mesmos estímulos. É espontâneo, amorfo, não se baseia no contato físico, mas na comunicação recebida através de diversos meios de comunicação. Todos os indivíduos que compõem o público recebem o mesmo estímulo. Não se trata de uma multidão porque a integração dos indivíduos que formam o público é geralmente intencional. Na multidão é ocasional. Os modos de pensar, agir e sentir do público compõe a opinião pública. O público é um tipo intermediário entre a multidão e os grupos sociais, porque no público há um tipo primário de organização: as pessoas seguem certos regulamentos.
c) Massa: é formada por indivíduos que recebem, de maneira mais ou menos passiva, opiniões formadas, que são veiculadas pelos meios de comunicação de massa. A massa consiste num agrupamento relativamente grande de pessoas separadas e desconhecidas umas das outras. Como não obedece a normas, o processo de formação da massa é espontâneo.
Existe uma certa semelhança entre público e massa, pois também os componentes do público estão unidos por um estímulo. Mas há uma diferença importante: ao contrário da massa, o público não tem uma atitude passiva diante da mensagem que recebe: ele opina, por meio de palmas, crítica e discussões. Isso geralmente não acontece com a massa.
3. Mecanismo de sustentação dos grupos sociais.
As principais forças que mantêm o grupo coeso são: liderança, normas e sanções sociais, símbolos, e valores sociais.
3.1. Liderança: capacidade de alguém ou de algumas pessoas, de chefiar, comandar ou orientar um grupo de indivíduos em qualquer tipo de ação. O líder é aquele que dirige o grupo, transmitindo idéias e valores aos outros membros. Há dois tios de liderança: a) liderança institucional – deriva da autoridade que uma pessoa tem em virtude de sua posição social ou do cargo que ocupa; b) liderança pessoal – é aquela que se origina das qualidades pessoais do líder (inteligência, prestígio social e moral, poder de comunicação, atitudes, encanto pessoal etc.).
Entre os chefes que exercem a liderança pessoal podem surgir líderes carismáticos, pessoas dotadas de um encanto pessoal tão forte que os torna, aos olhos de seu público, iluminados, proféticos, ou mesmo sobrenaturais.
Como peça importante de sustentação do grupo, o líder desempenha um papel integrador entre seus membros, transmitindo-lhes idéias, normas e valores sociais, ao mesmo tempo em que representa os interesses e os valores do grupo.
3.2. Normas e sanções sociais: toda sociedade e todo grupo social conta com uma série de regras de conduta que lhe dão coesão, orientam e controlam o comportamento das pessoas. Essas regras de ação são chamadas sociais. Elas indicam o que é permitido e o que é proibido. A toda norma social corresponde uma sanção social. A sanção social é uma recompensa ou uma punição que o grupo ou a sociedade atribuem ao individuo diante de seu comportamento social. As sanções podem-se: a) Aprovativas – quando são aplicadas sob a forma de aceitação. É o reconhecimento do grupo quando o individuo cumpre o que se esperava dele; b) Reprovativas – uma punição imposta ao individuo, pelo grupo, por ele ter desobedecido ou violado alguma norma social.
3.3. Símbolos: algo que representa ou substitui outra coisa, geralmente mais complexa e abstrata. É algo cujo valor ou significado é atribuído pelas pessoas que o utilizam. Os símbolos são convenções criadas pelo grupo social. A linguagem é a mais importante forma de expressão simbólica. Sem a linguagem não haveria organização social humana, em nenhuma de suas manifestações: política, econômica, religiosa, cultural etc.
3.4. Valores sociais. A sociedade estipula o que é desejável e o que é proibido, o que é bonito e o que é feio, o que é certo, o que é errado. Na vida em sociedade, as idéias, as opiniões, os fatos, os objetos não são avaliados isoladamente, mas dentro de um contexto social que lhes atribui um significado, um valor e uma qualidade determinados. Quanto maior a variedade de opiniões, de princípios, de valores sociais, muitas vezes conflitantes.
4. Sociologia da Juventude
O conceito de juventude refere-se a uma faixa etária que vai de 14 aos 19 anos. Período em que o jovem completa o seu desenvolvimento físico e passa por mudanças biológicas, psicológicas e sociais.
Há, atualmente, no país, uma oferta insuficiente de postos de trabalho e uma enorme competição pelas poucas vagas existentes. Os dois fenômenos somados – escassez de emprego e aumento no número de jovens – criam uma situação socialmente explosiva.
A intensificação da economia globalizada na última década reduziu drasticamente as oportunidades de trabalho para os jovens. Os jovens e idosos poderão ser os primeiros excluídos das novas sociedades societárias que ainda estão se formando. De acordo com alguns economistas, uma parcela da juventude poderá passar até a vida inteira sem obter trabalho. Agora, os jovens se revoltam contra outros grupos sociais e até contra toda a sociedade, contra um sistema que os marginaliza.
Não se trata, desta vez, da utopia dos jovens rebeldes dos anos 1960, que queriam construir um novo mundo, reformar a sociedade, mas de jovens que desejam participar dela, serem nela incluídos. Tudo isso gera respostas agressivas. Os mais pobres sentem-se cada vez mais atraídos pela marginalidade, ingressando no crime organizado ou em gangues extremamente violentas. Os jovens de classe média, cujo padrão de vida esteja se reduzindo, tenderão a adotar atitudes ostensivas de contestação, podendo participar tanto de grupos neofascistas e racistas como de movimentos anarquistas, que desejam destruir a sociedade, acabar, simplesmente com qualquer forma de vida organizada. Outra parte desses jovens não deseja contestar, mas criar formas de comunicação que sejam exclusivamente de seu grupo.
É nesse contexto que a juventude surge como tema da Sociologia. Não se trata mais de um jovem que está em permanente conflito de gerações, mas de um jovem que tem dificuldade de se integrar à sociedade globalizada, que está se tornando mais violento por se sentir socialmente excluído e que participa de grupos tribais, como os punks, para não se sentir solitário.
5. Sistema de status e papeis sociais.
Todo indivíduo ocupa na sociedade em que vive posições sociais que lhe dão maior ou menor valor, prestígio social e poder.
5.1. Status social: é a posição ocupada pelo individuo no grupo social ou na sociedade.
O status social implica direitos, deveres, manifestações de prestígio e até privilégios, conforme o valor social conferido a cada posição. Numa sociedade, o indivíduo ocupa tantos status quanto são os grupos sociais a que ele pertence.
Dependendo da maneira pela qual o individuo obtém seu status, este pode ser classificado em: a) status atribuído – não é escolhido voluntariamente pelo individuo e não depende de suas ações ou qualidades. Os principais fatores atribuidores de status são: idade, sexo, raça, laços de parentesco, classe social etc.; b) status adquirido – obtido em função das qualidades pessoais do individuo, de sua capacidade e habilidade. O status que uma pessoa obtém ao longo da vida como resultado de competição e trabalho é exemplo de status adquirido, pois depende de suas habilidades e capacidades.
5.2. Papeis sociais: são os comportamentos que o grupo social espera de qualquer pessoa que ocupa determinado status social. Corresponde mais precisamente às tarefas, às obrigações inerentes ao status. Caso não aja assim, não estará cumprindo o papel que seu status determina e será, portanto, questionado pela sociedade.
Status e papel social são coisas inseparáveis e só os distinguimos para fins de estudo. Não há status que não corresponda a um papel social e vice-versa. Todas as pessoas sabem o que esperar ou exigir do individuo, de acordo com o status que ele ocupa no grupo social ou na sociedade. E a sociedade sempre encontra meios para punir os indivíduos que não cumprem seu papel.
6. Estrutura e organização social
Estrutura social é o conjunto ordenado de partes encadeadas que formam um todo. Dito de outro modo, a estrutura social é a totalidade dos status existentes num determinado grupo social ou numa sociedade. Cada participante de uma estrutura desempenha o papel correspondente à posição social que ocupa (status). O conjunto de todas as ações realizadas quando os membros de um grupo desempenham seus papeis sociais compõe a organização social. Assim, enquanto a estrutura social dá a idéia de algo estático, que simplesmente existe, a organização social dá idéia de algo dinâmico, em permanente movimento.
A estrutura social se refere a uma totalidade composta de partes, enquanto a organização social se refere às relações que se estabelece entre essas partes. Quando mais complexa a sociedade, maiores e mais complexas sua estrutura e sua organização.

Sociologia: evolução do pensamento social e as Ciências Sociais


(texto adaptado de Pérsio Santos -  1º ano de Sociologia do Ensino Médio)
CONTEXTUALIZAÇÕES DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
A reflexão sistemática sobre a vida em sociedade e sobre os grupos que a compõem começou na Grécia Antiga, há milhares de anos. Vejamos a seguir alguns momentos nesse processo de conhecimento.
Deuses e heróis
As primeiras tentativas de compreender como as forças sociais funcionam baseavam-se na imaginação, na fantasia, na especulação. Assim, certos fenômenos sociais eram explicados a partir da ação de seres mitológicos, como deuses e heróis.
Na mitologia greco-romana, por exemplo, havia um deus para a guerra (Ares para os gregos, Marte para os romanos), outro para o comércio (Hermes ou Mercúrio, entre os romanos), uma deusa para as relações amorosas (Afrodite ou Vênus, para os romanos), e assim por diante. O deus supremo era Zeus. Sua mulher, Hera, protegia o casamento e tutelava a vida familiar.
Entre a filosofia e a religião
Até o início da idade moderna, no século XV, as tentativas de explicar a sociedade foram muito influenciadas pela filosofia e pela religião, que propunham normas para a sociedade, procurando modificá-la de acordo com seus princípios.
Na Grécia Antiga, como vimos, surgiram explicações mitológicas para alguns fenômenos sociais. Insatisfeitos com essas explicações, os filósofos gregos foram os primeiros a empreender o estudo sistemático da sociedade humana. Entre eles, destacam-se Platão (427-347 a.C), autor de A República, e Aristóteles (384-322 a.C), que escreveu Política. É de Aristóteles a afirmação segundo a qual “o homem nasce para viver em sociedade”.
Na Idade Média, a reflexão teórica sobre a sociedade se deu entre pensadores ligados à Igreja Católica. Santo Agostinho (354-430), por exemplo, em seu livro A Cidade de Deus, propunha normas para evitar o pecado na sociedade. Obras como essa descreviam a sociedade humana em uma perspectiva religiosa muito acentuada.
Os pensadores renascentistas
Com o Renascimento, surgiram pensadores que abordavam os fenômenos sociais de maneira mais realista. Escreveram sobre a sociedade de sua época: Maquiavel, autor de O Príncipe, Tomás Morus (Utopia), Tomaso Campanella (Cidade do Sol), Francis Bacon (Nova Atlântida), Erasmo de Roterdã (Elogio da Loucura).
No século XVII, outros pensadores deram sua contribuição ao desenvolvimento das Ciências Sociais. Um dos mais notáveis foi o inglês Thomas Hobbes, autor de Leviatã.
Vico e A nova ciência
Particularmente importante nesse processo de reflexão não-religiosa sobre a sociedade foi, no século XVIII, a obra de Giambattista Vico, A nova Ciência. Segundo Vico, a sociedade se subordina a leis definidas, que podem ser descobertas pelo estudo e pela observação objetiva. Sua formulação – “O mundo social é, com toda certeza, obra do homem” – foi um conceito revolucionário para a época.
Alguns anos depois, Jean –Jacques Rousseau reconheceu a influência decisiva da sociedade sobre o indivíduo. Em seu livro O Contrato social, Rousseau afirma que “O homem nasce puro, a sociedade é que corrompe”. Hoje, sabe-se que o indivíduo também influencia e modifica o meio em que vive ao agir sobre ele.
Entretanto, foi só no século XIX – com Augusto Comte, Herbert Spencer, Gabriel Tarde e, principalmente, Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx – que a investigação dos fenômenos sociais ganhou um caráter verdadeiramente científico.

Os primeiros sociólogos
Augusto Comte (1798-1857) é tradicionalmente considerado o pai da Sociologia. Foi ele quem pela primeira vez usou essa palavra, em 1839, em seu Curso de Filosofia positiva. Mas foi com Émile Durkheim (1858-1917) que a Sociologia passou a ser considerada uma ciência.
Durkheim formulou os primeiros conceitos da sociologia e demonstrou que os fatos sociais têm características próprias, devendo por isso ser estudados por meio de métodos diferentes dos empregados pelas outras ciências.
Os fatos sociais
Para Durkheim, a Sociologia é estudo dos fatos sociais. Um exemplo simples nos ajuda a entender esse conceito formulado por Durkheim. Se um aluno chegasse à escola vestido com roupa de praia, certamente ficaria numa situação desconfortável: os colegas ririam dele, o professor lhe daria uma bronca e provavelmente o diretor o mandaria de volta para casa para pôr uma roupa adequada.
Existe um modo de se vestir que é comum, que todos seguem (nesse caso, todos os alunos da escola). Isso não é estabelecido pelo indivíduo. Quando ele entrou no grupo, já existia tal norma e, quando ele sair, a norma provavelmente permanecerá. Quer a pessoa goste ou não, ver-se-á obrigada a seguir o costume geral. Se não o seguir, sofrerá uma punição (que pode ir, conforme o caso, da ridicularização e do isolamento até uma sanção penal). O modo de se vestir é um fato social. São fatos sociais também a língua, o sistema monetário, a religião, as leis e uma infinidade de outros fenômenos do mesmo tipo.
De acordo com Durkheim, os fatos sociais são o modo de pensar, sentir e agir de um grupo social. Embora eles sejam exteriores às pessoas, são introjetados pelo indivíduo e exercem sobre ele um poder coercitivo (procure o termo introjeção no Dicionário básico de Sociologia no final do livro).
Resumindo, podemos dizer que os fatos sociais têm as seguintes características:
·                     Generalidade – o fato social é comum a todos os membros de um grupo ou à sua grande maioria;
·                     Exterioridade – o fato social é externo ao indivíduo, existe independente de sua vontade;
·                     Coercitividade – os indivíduos se sentem pressionados a seguir o comportamento estabelecido.
Em virtude dessas características, para Durkheim os fatos sociais podem ser estudados objetivamente como “coisas” da mesma maneira que a Biologia e a Física estudam os fatos da natureza, a Sociologia faz o mesmo com os fatos sociais.

A Sociologia na sociedade contemporânea
As obras de Durkheim foram importantíssimas para definir os métodos de trabalho do sociólogo e estabelecer os principais conceitos da nova ciência. Entre essas obras, destacamos A divisão do trabalho social, As regras para o método sociológico e O suicídio.
A partir da segunda metade do século XX, com o desenvolvimento da sociedade industrial, que se tornou cada vez mais complexa, a sociologia ganhou novo impulso, passando a estudar e a explicar problemas com os quais até então não havia se defrontado.
Assim, problemas como exclusão social, desagregação familiar, drogas, cidadania, minorias, violência urbana representam desafios para os quais a Sociologia tem procurado respostas. Essas exigem uma análise científica de todos os aspectos da vida em sociedade, que permita entender o presente e projetar o futuro.
Dessa forma, a Sociologia moderna procura debruçar-se sobre os agentes sociais capazes de provocar mudanças importantes na sociedade. Hoje, um dos principais objetivos do conhecimento sociológico é criar instrumentos teóricos que levem à reflexão sobre os problemas da sociedade contemporânea. Tais instrumentos devem contribuir também para que os indivíduos estabeleçam relações entre sua prática social e a sociedade mais ampla, capacitando-os a atuar como agentes ativos da sociedade em que vivem.
Atualmente, os conhecimentos da Sociologia já não estão restritos aos sociólogos. De certo modo, muitas pessoas passaram a utilizá-los, embora nem sempre de forma consciente e rigorosa. Isso acontece porque alguns procedimentos e técnicas de pesquisa social passaram a ser de domínio público.
Pesquisas de opinião (ou de mercado) são utilizadas, por exemplo, no lançamento de um produto novo ou de um prédio de apartamento, na definição da plataforma política de um candidato a cargo público e assim por diante. É por meio da pesquisa que o empresário, ao lançar um produto, pode ficar sabendo quais e quantos serão seus compradores; o político, por sua vez, irá defender pontos de vista que antecipadamente sabe que interessam aos eleitores.
Entretanto, o sociólogo não pode perder de vista a noção de relatividade dos fenômenos sociais e as formas pelas quais esses fenômenos ocorrem. A relatividade do fenômeno social pode ser percebida em diversas situações. Consideremos, por exemplo, o desemprego. Ele pode aumentar, caso sejam introduzidas novidades tecnológicas que afetem o mercado de trabalho, como novas máquinas. Mas pode diminuir, mesmo com a nova tecnologia, se a economia do país estiver em expansão.
(SANTOS, Pérsios. Fundamentos Sociológicos.São Paulo, Ática, pp.93-96)

AS CIÊNCIAS SOCIAIS: SOCIOLOGIA, ANTROPOLOGIA, CIÊNCIA POLÍTICA E ECONOMIA..

O conhecimento humano, ao longo do tempo, foi assumindo várias formas e acentuações, o que nos permitiu o acumulo de uma gama de informações cada vez mais complexa acerca do homem, da natureza e do cosmo. Porém, à medida que o nosso entendimento da realidade crescia, surgia também uma necessidade de sistematizar e até setorizar os saberes, delimitando o campo de abrangência de cada ramo do conhecimento elaborado, a partir do objeto e da metodologia de abordagem. Neste texto, apresentaremos uma introdução rápida às Ciências Sociais, salientando seu objeto de estudo e sua metodologia de investigação.

2.1. Caracterização das Ciências Sociais e das disciplinas que as compõem
Pérsio Santo, numa obra de introdução à sociologia, caracteriza as Ciências Sociais como um ramo do saber que se ocupa da pesquisa e do estudo do comportamento social humano e suas multiformes manifestações. As Ciências Sociais objetivam, grosso modo, “ampliar o conhecimento sobre os ser humano em suas interações sociais e estudar ação social em suas diversas dimensões, contribuindo para um melhor entendimento da sociedade em que vivemos, fornecendo instrumentos que podem ajudar a transformá-la.”
Ainda segundo o autor, “o avanço do conhecimento da sociedade ocasionou a divisão das ciências sociais em diversas áreas, abrangendo atualmente as seguintes disciplinas:
2.1.1. Sociologia: estuda as relações sociais e as formas de associação, considerando as interações que ocorrem na vida em sociedade. A Sociologia envolve, portanto, o estudo dos grupos e dos fatos sociais, da divisão da sociedade em classes e camadas, da mobilidade social, dos processos de cooperação, competição e conflito na sociedade etc.
2.1.2. Economia: tem por objeto as atividades humanas ligadas à produção, circulação, distribuição e consumo de bens e serviços. Portanto, são fenômenos estudados pela economia a distribuição da renda num país, a política salarial, a produtividade de uma empresa etc.
2.1.3. Antropologia Cultural: estuda e pesquisa as semelhanças e diferenças culturais entre os vários agrupamentos humanos, assim como a origem e a evolução das culturas. Além de estudar a cultura dos povos pré-letrados, a Antropologia ocupa-se também da diversidade cultural existente nas sociedades industriais. São objetos de estudo da Antropologia cultural os tipos de organização familiar, as religiões, a magia, os ritos de iniciação dos jovens, o casamento etc.
2.1.4. Ciência Política: Ocupa-se da distribuição de poder na sociedade, assim como da formação e do desenvolvimento das diversas formas de governo. É a Ciência Política que estuda, por exemplo, os partidos políticos, os mecanismos eleitorais etc.
“Não existe uma divisão nítida entre essas disciplinas. Embora cada uma das Ciências Sociais esteja voltada principalmente para um aspecto da realidade social, elas são complementares entre si e atuam freqüentemente juntas para explicar os complexos fenômenos da vida em sociedade”.
(Cf. SANTOS, Pérsios. Fundamentos Sociológicos.São Paulo, Ática, pp.93)

Ensaio SOBRE A OPINIÃO

“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ide...