terça-feira, 15 de março de 2011

Sociologia: evolução do pensamento social e as Ciências Sociais


(texto adaptado de Pérsio Santos -  1º ano de Sociologia do Ensino Médio)
CONTEXTUALIZAÇÕES DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
A reflexão sistemática sobre a vida em sociedade e sobre os grupos que a compõem começou na Grécia Antiga, há milhares de anos. Vejamos a seguir alguns momentos nesse processo de conhecimento.
Deuses e heróis
As primeiras tentativas de compreender como as forças sociais funcionam baseavam-se na imaginação, na fantasia, na especulação. Assim, certos fenômenos sociais eram explicados a partir da ação de seres mitológicos, como deuses e heróis.
Na mitologia greco-romana, por exemplo, havia um deus para a guerra (Ares para os gregos, Marte para os romanos), outro para o comércio (Hermes ou Mercúrio, entre os romanos), uma deusa para as relações amorosas (Afrodite ou Vênus, para os romanos), e assim por diante. O deus supremo era Zeus. Sua mulher, Hera, protegia o casamento e tutelava a vida familiar.
Entre a filosofia e a religião
Até o início da idade moderna, no século XV, as tentativas de explicar a sociedade foram muito influenciadas pela filosofia e pela religião, que propunham normas para a sociedade, procurando modificá-la de acordo com seus princípios.
Na Grécia Antiga, como vimos, surgiram explicações mitológicas para alguns fenômenos sociais. Insatisfeitos com essas explicações, os filósofos gregos foram os primeiros a empreender o estudo sistemático da sociedade humana. Entre eles, destacam-se Platão (427-347 a.C), autor de A República, e Aristóteles (384-322 a.C), que escreveu Política. É de Aristóteles a afirmação segundo a qual “o homem nasce para viver em sociedade”.
Na Idade Média, a reflexão teórica sobre a sociedade se deu entre pensadores ligados à Igreja Católica. Santo Agostinho (354-430), por exemplo, em seu livro A Cidade de Deus, propunha normas para evitar o pecado na sociedade. Obras como essa descreviam a sociedade humana em uma perspectiva religiosa muito acentuada.
Os pensadores renascentistas
Com o Renascimento, surgiram pensadores que abordavam os fenômenos sociais de maneira mais realista. Escreveram sobre a sociedade de sua época: Maquiavel, autor de O Príncipe, Tomás Morus (Utopia), Tomaso Campanella (Cidade do Sol), Francis Bacon (Nova Atlântida), Erasmo de Roterdã (Elogio da Loucura).
No século XVII, outros pensadores deram sua contribuição ao desenvolvimento das Ciências Sociais. Um dos mais notáveis foi o inglês Thomas Hobbes, autor de Leviatã.
Vico e A nova ciência
Particularmente importante nesse processo de reflexão não-religiosa sobre a sociedade foi, no século XVIII, a obra de Giambattista Vico, A nova Ciência. Segundo Vico, a sociedade se subordina a leis definidas, que podem ser descobertas pelo estudo e pela observação objetiva. Sua formulação – “O mundo social é, com toda certeza, obra do homem” – foi um conceito revolucionário para a época.
Alguns anos depois, Jean –Jacques Rousseau reconheceu a influência decisiva da sociedade sobre o indivíduo. Em seu livro O Contrato social, Rousseau afirma que “O homem nasce puro, a sociedade é que corrompe”. Hoje, sabe-se que o indivíduo também influencia e modifica o meio em que vive ao agir sobre ele.
Entretanto, foi só no século XIX – com Augusto Comte, Herbert Spencer, Gabriel Tarde e, principalmente, Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx – que a investigação dos fenômenos sociais ganhou um caráter verdadeiramente científico.

Os primeiros sociólogos
Augusto Comte (1798-1857) é tradicionalmente considerado o pai da Sociologia. Foi ele quem pela primeira vez usou essa palavra, em 1839, em seu Curso de Filosofia positiva. Mas foi com Émile Durkheim (1858-1917) que a Sociologia passou a ser considerada uma ciência.
Durkheim formulou os primeiros conceitos da sociologia e demonstrou que os fatos sociais têm características próprias, devendo por isso ser estudados por meio de métodos diferentes dos empregados pelas outras ciências.
Os fatos sociais
Para Durkheim, a Sociologia é estudo dos fatos sociais. Um exemplo simples nos ajuda a entender esse conceito formulado por Durkheim. Se um aluno chegasse à escola vestido com roupa de praia, certamente ficaria numa situação desconfortável: os colegas ririam dele, o professor lhe daria uma bronca e provavelmente o diretor o mandaria de volta para casa para pôr uma roupa adequada.
Existe um modo de se vestir que é comum, que todos seguem (nesse caso, todos os alunos da escola). Isso não é estabelecido pelo indivíduo. Quando ele entrou no grupo, já existia tal norma e, quando ele sair, a norma provavelmente permanecerá. Quer a pessoa goste ou não, ver-se-á obrigada a seguir o costume geral. Se não o seguir, sofrerá uma punição (que pode ir, conforme o caso, da ridicularização e do isolamento até uma sanção penal). O modo de se vestir é um fato social. São fatos sociais também a língua, o sistema monetário, a religião, as leis e uma infinidade de outros fenômenos do mesmo tipo.
De acordo com Durkheim, os fatos sociais são o modo de pensar, sentir e agir de um grupo social. Embora eles sejam exteriores às pessoas, são introjetados pelo indivíduo e exercem sobre ele um poder coercitivo (procure o termo introjeção no Dicionário básico de Sociologia no final do livro).
Resumindo, podemos dizer que os fatos sociais têm as seguintes características:
·                     Generalidade – o fato social é comum a todos os membros de um grupo ou à sua grande maioria;
·                     Exterioridade – o fato social é externo ao indivíduo, existe independente de sua vontade;
·                     Coercitividade – os indivíduos se sentem pressionados a seguir o comportamento estabelecido.
Em virtude dessas características, para Durkheim os fatos sociais podem ser estudados objetivamente como “coisas” da mesma maneira que a Biologia e a Física estudam os fatos da natureza, a Sociologia faz o mesmo com os fatos sociais.

A Sociologia na sociedade contemporânea
As obras de Durkheim foram importantíssimas para definir os métodos de trabalho do sociólogo e estabelecer os principais conceitos da nova ciência. Entre essas obras, destacamos A divisão do trabalho social, As regras para o método sociológico e O suicídio.
A partir da segunda metade do século XX, com o desenvolvimento da sociedade industrial, que se tornou cada vez mais complexa, a sociologia ganhou novo impulso, passando a estudar e a explicar problemas com os quais até então não havia se defrontado.
Assim, problemas como exclusão social, desagregação familiar, drogas, cidadania, minorias, violência urbana representam desafios para os quais a Sociologia tem procurado respostas. Essas exigem uma análise científica de todos os aspectos da vida em sociedade, que permita entender o presente e projetar o futuro.
Dessa forma, a Sociologia moderna procura debruçar-se sobre os agentes sociais capazes de provocar mudanças importantes na sociedade. Hoje, um dos principais objetivos do conhecimento sociológico é criar instrumentos teóricos que levem à reflexão sobre os problemas da sociedade contemporânea. Tais instrumentos devem contribuir também para que os indivíduos estabeleçam relações entre sua prática social e a sociedade mais ampla, capacitando-os a atuar como agentes ativos da sociedade em que vivem.
Atualmente, os conhecimentos da Sociologia já não estão restritos aos sociólogos. De certo modo, muitas pessoas passaram a utilizá-los, embora nem sempre de forma consciente e rigorosa. Isso acontece porque alguns procedimentos e técnicas de pesquisa social passaram a ser de domínio público.
Pesquisas de opinião (ou de mercado) são utilizadas, por exemplo, no lançamento de um produto novo ou de um prédio de apartamento, na definição da plataforma política de um candidato a cargo público e assim por diante. É por meio da pesquisa que o empresário, ao lançar um produto, pode ficar sabendo quais e quantos serão seus compradores; o político, por sua vez, irá defender pontos de vista que antecipadamente sabe que interessam aos eleitores.
Entretanto, o sociólogo não pode perder de vista a noção de relatividade dos fenômenos sociais e as formas pelas quais esses fenômenos ocorrem. A relatividade do fenômeno social pode ser percebida em diversas situações. Consideremos, por exemplo, o desemprego. Ele pode aumentar, caso sejam introduzidas novidades tecnológicas que afetem o mercado de trabalho, como novas máquinas. Mas pode diminuir, mesmo com a nova tecnologia, se a economia do país estiver em expansão.
(SANTOS, Pérsios. Fundamentos Sociológicos.São Paulo, Ática, pp.93-96)

AS CIÊNCIAS SOCIAIS: SOCIOLOGIA, ANTROPOLOGIA, CIÊNCIA POLÍTICA E ECONOMIA..

O conhecimento humano, ao longo do tempo, foi assumindo várias formas e acentuações, o que nos permitiu o acumulo de uma gama de informações cada vez mais complexa acerca do homem, da natureza e do cosmo. Porém, à medida que o nosso entendimento da realidade crescia, surgia também uma necessidade de sistematizar e até setorizar os saberes, delimitando o campo de abrangência de cada ramo do conhecimento elaborado, a partir do objeto e da metodologia de abordagem. Neste texto, apresentaremos uma introdução rápida às Ciências Sociais, salientando seu objeto de estudo e sua metodologia de investigação.

2.1. Caracterização das Ciências Sociais e das disciplinas que as compõem
Pérsio Santo, numa obra de introdução à sociologia, caracteriza as Ciências Sociais como um ramo do saber que se ocupa da pesquisa e do estudo do comportamento social humano e suas multiformes manifestações. As Ciências Sociais objetivam, grosso modo, “ampliar o conhecimento sobre os ser humano em suas interações sociais e estudar ação social em suas diversas dimensões, contribuindo para um melhor entendimento da sociedade em que vivemos, fornecendo instrumentos que podem ajudar a transformá-la.”
Ainda segundo o autor, “o avanço do conhecimento da sociedade ocasionou a divisão das ciências sociais em diversas áreas, abrangendo atualmente as seguintes disciplinas:
2.1.1. Sociologia: estuda as relações sociais e as formas de associação, considerando as interações que ocorrem na vida em sociedade. A Sociologia envolve, portanto, o estudo dos grupos e dos fatos sociais, da divisão da sociedade em classes e camadas, da mobilidade social, dos processos de cooperação, competição e conflito na sociedade etc.
2.1.2. Economia: tem por objeto as atividades humanas ligadas à produção, circulação, distribuição e consumo de bens e serviços. Portanto, são fenômenos estudados pela economia a distribuição da renda num país, a política salarial, a produtividade de uma empresa etc.
2.1.3. Antropologia Cultural: estuda e pesquisa as semelhanças e diferenças culturais entre os vários agrupamentos humanos, assim como a origem e a evolução das culturas. Além de estudar a cultura dos povos pré-letrados, a Antropologia ocupa-se também da diversidade cultural existente nas sociedades industriais. São objetos de estudo da Antropologia cultural os tipos de organização familiar, as religiões, a magia, os ritos de iniciação dos jovens, o casamento etc.
2.1.4. Ciência Política: Ocupa-se da distribuição de poder na sociedade, assim como da formação e do desenvolvimento das diversas formas de governo. É a Ciência Política que estuda, por exemplo, os partidos políticos, os mecanismos eleitorais etc.
“Não existe uma divisão nítida entre essas disciplinas. Embora cada uma das Ciências Sociais esteja voltada principalmente para um aspecto da realidade social, elas são complementares entre si e atuam freqüentemente juntas para explicar os complexos fenômenos da vida em sociedade”.
(Cf. SANTOS, Pérsios. Fundamentos Sociológicos.São Paulo, Ática, pp.93)

quinta-feira, 10 de março de 2011

A presença da Arte nas comemorações Artísticas




Prof.: Epitácio Rodrigues

Dificilmente paramos para observar os aspectos artísticos que estão presentes nas comemorações da nossa cultura. As festas juninas, o carnaval, o dia das mães, o dia do trabalho, do meio ambiente, o dia internacional da mulher, do folclore são só algumas das ocasiões nas quais as comemorações se revestem de manifestações artísticas.
O que se entende por comemorar? A palavra dá a idéia de fazer uma memória, uma recordação em grupo de algo acontecido – aniversário, um acontecimento religioso, cívico, cultural ou folclórico. Nesse sentido, comemorar é sempre fazer uma recordação festiva, de forma coletiva, de um fato ou acontecimento conservado pela tradição de um determinado grupo social. Às vezes, as razões que deram origem às comemorações se perdem no tempo e seu significado originário acaba sofrendo profundas modificações. A festa junina, por exemplo, é um mistura de elementos da religiosidade popular com uma celebração matrimonial camponesa. Segundo uma antiga crença da religiosidade popular cristã católica, no dia do nascimento de João Batista seus familiares teriam acendido uma fogueira para festejar. Por isso, a festa junina é sempre comemorada na data da festa de são João Batista. Todavia, os elementos de ornamentação e a própria forma ritual da comemoração indicam uma celebração de um casamento caipira, com as vestes e comidas típicas do homem do campo.
Já o carnaval é uma festa que teve início, segundo se acredita, nas portas das Igrejas. De fato, nos três dias que antecediam o início da quaresma, um período de quarenta dias, nos quais os cristãos eram proibidos de comer carne, os cristãos começaram a festejar a despedida da carne. A palavra carnaval, deriva do italiano carnevale e significa literalmente carne vai.
Em todas essas comemorações festivas da nossa cultura a expressão artística está presente desde a decoração do ambiente, as músicas, as danças e as vestimentas.
Porém, as comemorações podem tornar-se temas da produção artística. Noutras palavras, além de ser um momento de expressão da cultura artística de um grupo social, a própria comemoração pode ser retratada ou representada de modo artístico. O pintor, o músico, o poeta, o artesão que transformam em arte os momentos, os sons, os movimentos de uma festa junina, por exemplo, estão interpretando de modo artístico estas manifestações da cultura de um povo.
Em resumo, podemos concluir que em todas essas formas de comemoração, a linguagem específica da arte, com suas cores, formas, sons, movimentos, gestos, além da preocupação com a perfeição e com a beleza estética, estão presentes, basta que saibamos reconhecê-la.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ética Empresarial na Relação com o Cliente


 

Epitácio Rodrigues 

Professor de Filosofia

O tema da ética empresarial (também chamada ou ética nas organizações ou ética nos negócios) é aplicação da reflexão ética à conduta das organizações ou empresas, levando em conta basicamente a sua relação com diversos setores e campos com os quais ela se relaciona: funcionários, acionistas, fornecedores, concorrência, com a comunidade, com a política e com o meio ambiente. Nesse contexto multifacetado de relações, a conduta de todos que compõem a empresa ou organização, os valores e as convicções que norteiam suas práticas contribuem enormemente para a construção da identidade ética da empresa. Não se discute mais se uma empresa deve ter uma conduta ética, pois ela lida com a atividade humana, que sempre imprime valores e avalia volarativamente tudo o que realiza. E sendo a ética a reflexão sobre a conduta moral dos homens em sociedade, os atos de cada indivíduo que integra uma empresa não estão isentos de tal reflexão. Aqui vamos refletir sumariamente sobre a relação da empresa com seus clientes
Com o mercado cada vez mais competitivo e os consumidores cada vez exigentes na hora de comprar, as organizações investem na construção de um diferencial em relação às demais, que comercializam o mesmo produto ou serviço, tendo sempre em vista a satisfação e fidelização do cliente. Nessa disputa, é oportuno considerar que as motivações que fazem um cliente optar por uma dentre tantas empresas que vendem o mesmo produto ou serviço está para além de uma relação meramente comercial. Trata-se, na verdade, de uma interação entre empresa e consumidor na qual interagem valores como respeito, honestidade, justiça, eficiência, responsabilidade e confiança, dentre outros.
Numa empresa, a interação do funcionário com o cliente vai além de uma troca da mercadoria por dinheiro: pressupõe como fundamento uma relação ética, sem a qual o consumidor não se sentirá propenso a tornar-se um cliente. Por isso, uma empresa deve, em relação ao consumidor em geral, ser capaz de inspirar a realização de certas exigências éticas, que se manifestam de modo mais evidentes nos seguintes aspectos: competência no atendimento às necessidades, postura verdadeira, justa e responsável.
Competência no atendimento às necessidades: o cliente busca um bem ou serviço – o produto - e uma empresa se propõe satisfazer suas necessidades oferecendo-lhe o produto que deseja. A qualidade do produto ofertado não é medida pela marca ou conceito, mas pela capacidade de atender, satisfatoriamente, às necessidades do consumidor. Os clientes estão cada vez mais céticos em relação a propaganda e cada vez mais esclarecidos a cerca dos seus direitos como consumidores. Por isso, a venda de um bem ou serviço cuja qualidade deixa a desejar, ainda que sob o pretexto de ser mais barato, pode resultar em prejuízo para o cliente e conseqüentemente para a empresa. O melhor produto para um consumidor é sempre aquele que satisfaz as suas necessidades. Para isso, uma segunda exigência ética se impõe naturalmente. A boa-fé ou veracidade na hora de apresentar um produto ao cliente.
Verdade na apresentação do produto: algumas empresas estimulam os funcionários a vender seus produtos, premiando-os com brindes, comissões e outras formas de incentivos e, não raro, o vendedor é orientado a omitir certas deficiências do produto e usar de má-fé com o cliente. A empresa que procede assim pode sofrer dois problemas éticos sérios: primeiro, estimula no funcionário uma conduta que, se usada contra a própria empresa, pode trazer sérios prejuízos; segundo, deixa claro que a gerencia da organização não é referência ética, portanto, não é pessoa muito confiável; e, por fim, o cliente que se sente enganado é um ótimo veiculo de propaganda contra a empresa.
Por isso, o vendedor, ao ser indagado por um cliente sobre o produto, deve proceder de forma honesta e transparente, pois o uso da má-fé, motivado pela preocupação de vender a qualquer custo, pode ter sérios danos à empresa e o vendedor. Uma empresa não vende só um produto, mas a sua própria imagem. E quanto mais honesta for sua relação com o cliente mais sairá ganhando. A experiência tem mostrado que o vendedor ganha a confiança do cliente quando é honesto na hora de elucidar as razões pelas quais dois produtos que têm a mesma finalidade possuem preços diferentes; quando menciona as vantagens e desvantagens do produto. O cliente não se sente enganado por uma propaganda enganosa e estabelece uma relação de confiança com a empresa.
 Justiça no estabelecimento do preço: A conduta ética na hora de estabelecer o preço de um produto é fundamental. As pessoas pechincham, comparam, fazem listagem de preço e só então decidem comprar. É mais inteligente e ético colocar um preço justo por um produto para ganhar sempre, do que, querendo ganhar logo, perder sempre. São inúmeros os exemplos de prestadoras de serviço que cobram um preço abusivo e que não têm critérios claros de fixação de preços para os serviços oferecidos. Uma empresa que vende produto ou serviço, mas que seus preços são considerados abusivos, normalmente é vista como uma empresa desonesta, porque explora os consumidores.
Responsabilidade nos compromissos assumidos: faz parte de uma conduta ética da empresa cumprir prazos e compromissos assumidos com o cliente. Disso resulta a expressão da sua responsabilidade, enquanto empresa, e de seu respeito pelo cliente. A empresa, de modo geral, desconhece quais as motivações do consumidor ao comparar aquele bem ou serviço: um presente para uma data especial, uma necessidade urgente, etc... Independente disso, o cumprimento do prazo estabelecido para entrega do produto é fundamental para uma imagem de empresa ética. Quando, por qualquer imprevisto, não for possível cumprir os compromissos ou prazos assumidos com o cliente, é muito importante que se tenha o cuidado de avisá-lo dessa impossibilidade e, se for viável, apresentar as razões do atraso, denotando um grande respeito pelo cliente. Pois é tolerável que não se respeite um prazo, mas nunca que se desrespeite um cliente.

Rogério Miranda de Almeida: um filósofo cratense


Prof.: Epitácio Rodrigues


Poucas pessoas do Crato conhecem o fato, mas essa cidade tem um nome que a representa com muita competência e profundidade intelectual na seleta comunidade filosófica internacional. De fato, o professor Rogério Miranda de Almeida, com atuação e reconhecimento fora do Brasil como filósofo e teólogo é, na verdade, um autêntico cidadão cratense, desde o seu nascimento, no dia 9 de abril de 1953.
Foi na Cidade do Crato que fez os seus primeiros estudos, inicialmente no Colégio Estadual Wilson Gonçalves, depois no Colégio Diocesano do Crato. Posteriormente, cursou Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), em São Paulo.
Doutorou-se em teologia pela Universidade de Estrasburgo, na França e em Filosofia pela Universidade de Mertz, também na França. Ministrou aulas de filosofia e teologia no Saint Vicent College, em Latrobe, na Pensivalvania, Estados Unidos, por oito anos, no período de 1995 a 2003.
Em Roma, na Itália, foi professor de Filosofia na Universidade Santo Anselmo, de 1997 a 2007, e de Teologia na Universidade Gregoriana, de 1999 a 2007.
Com a fundação do curso de pós-graduação (mestrado) em Filosofia, na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, em Curitiba, Rogério Miranda foi convidado a retornar ao Brasil, e integrar o corpo docente dessa Universidade, onde, atualmente, ministra aulas nos cursos de mestrado em Filosofia e Teologia.
Como Filósofo, o foco das suas filosóficas engloba, na filosofia antiga, desde os filósofos pré-socráticos, passando por Platão e Santo Agostinho. Já no que se refere à filosofia contemporânea, seus trabalhos estão mais centrados no pensamento de Nietzsche, Artur Schopenhauer, Sigmund Freud (fundador da Psicanálise), Lacan. Seus temas mais abordados no estudo destes pensadores são questão do desejo e da linguagem.
A sua produção engloba, além de uma extensa lista de artigos publicados em revistas brasileiras e internacionais, sobre Teologia e Filosofia, alguns deles disponíveis na internet. No que diz respeito ao campo estritamente filosófico, Rogério Miranda escreveu e publicou os seguintes livros:
Nietzsche et le paradoxe, (escrito em francês), posteriormente traduzido para o inglês e para o português (Nietzsche e o paradoxo, Loyola, 2005;
Nietzsche e Freud: Eterno Retorno e compulsão à repetição, Loyola, 2005,
Eros e Tânatos: A Vida, a morte, o desejo (Loyola, 2007).
Graças a sua perspicácia e profundidade intelectual, os textos de Rogério Miranda têm despertado interesse também nos especialistas brasileiros: suas obras são lidas, resenhadas, citadas, comentadas e tematizadas nas pesquisas de cursos de pós-graduação.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Agostinho e a visão teo-teleo-filosófica da história



Prof.: Epitácio Rodrigues

O encontro do cristianismo com a filosofia grega representou uma ocasião para uma grande síntese cultural entre dois mundos ricos em expressões humanas. Foi também um período de choques, diferenças e diálogos, nem sempre fáceis, do qual a Patristica conserva para a humanidade um testemunho inconteste. Uma das muitas diferenças diz respeito ao modo de conceber o próprio tempo e a história. Enquanto os gregos viam o tempo e, conseqüentemente a história humana, de forma cíclica, os cristãos afirmavam, a partir de sua convicção de fé, que o tempo é linear e história humana repleta de eventos decisivos e irrepetíveis, pois a história possui uma origem no tempo e um sentido teleológico, ou seja, caminha para um fim. A compreensão da história na visão bíblico-cristã pode, grosso modo, ser resumida em três fases bem definidas, porém interligadas: da criação à queda; seguida da aliança ao tempo de espera do Messias; a vinda do Cristo ou Messias salvador até o juízo final.
Nesse encontro entre fé cristã e filosofia, coube a Agostinho, considerado um dos grandes gênios da humanidade e um dos mais brilhantes pensadores cristãos de todos os tempos, ser o porta-voz dessa visão bíblica da história no cenário filosófico.
Autor de vasta produção intelectual, uma das suas obras mais citadas no campo filosófico é A Cidade de Deus (De Civitate Dei), iniciada em 412, dois anos após o bárbaro Alarico invadir Roma, com a finalidade inicial de defender os cristãos contra a acusação dos romanos, segundo a qual a fé cristã era responsável pelo destino trágico de Roma. Ao cabo de catorze anos de intensa atividade pastoral e intelectual, Agostinho apresenta o trabalho dividido em 122 livros, a respeito do qual dirá o historiador Daniel Rops:

É impossível esgotar, nas poucas linhas de uma definição, um livro que é um dos monumentos do espírito humano. É uma filosofia da história, uma teoria do Estado e da vida social, um compêndio das relações entre o espiritual e o terreno; e é, ao mesmo tempo, uma espécie de arte de viver nas horas de amargura, um tesouro de consolação (1991: 47)

O conturbado período de invasão bárbara e decadência do império romano, suscitou as reações mais adversas. Enquanto muitos contemporâneos lamentavam o fim da civilização romana e do próprio mundo, Agostinho, na Cidade de Deus, unia fé e filosofia para apresentar, sob um prisma novo no cenário filosófico, uma nova compreensão para o sentido da história. Esse trabalho o consagrará, segundo o filósofo Jacques Maritain, como o primeiro filósofo a produzir um verdadeiro tratado de filosofia da história, opinião partilhada por Daniel Rops:

Como aconteceu muitas vezes com este lutador, a reação de santo Agostinho originou-se de uma polêmica. Para que pudesse deixar clara a sua doutrina da Graça, fora-lhe necessário Pelágio; para que empreendesse a sua grande obra e fundasse a filosofia da história, precisou da queda do império. (ROPS, 1991: 47).

Agostinho, na Cidade de Deus, partindo de categorias cristãs, desenvolve uma compreensão da história, dividida em três grandes períodos: o princípio, que se dá com a criação; um passado marcado por três fases intermediárias - o pecado original e as conseqüências dele decorrentes, a espera do Messias salvador, a encarnação e paixão do Cristo, e a constituição da Igreja; e um fim, que se dará no Dia do Senhor, com o juízo e ressurreição final. A história é interpretada a partir de categorias como amor a Deus, pecado, bem e mal, de tal forma que a história se identifica com a história da perdição ou salvação do homem por Deus. Nas palavras de Bernadette Abrão, “Agostinho propõe uma filosofia da história: a finalidade da história, que coincide com seu fim, é a vitória definitiva da cidade de Deus, com o retorno do Messias e o juízo final.” (ABRÃO, 2004:101).
Ainda que profundamente marcada pela mensagem e pela teologia cristãs, a interpretação agostiniana da história humana representa uma verdadeira revolução, na medida em que introduz um sentido teleológico para a história. A partir de então ela deixará de ser concebida como períodos circulares, repetindo-se cíclica e infinitamente, passando a ser vista como uma caminhada linear da humanidade, iniciada na criação e tendo o seu termo no fim último escatológico, num movimento ascendente da terra ao céu.
A teoria agostiniana da história teve grande influência na idade média e perdurou com grande aceitação até o período do Renascimento.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Filosofia e Cotidiano: do Ninguém à Pessoa.



(Uma crítica filosófico-personalista em forma de Crônica.)

Prof. Epitácio Rodrigues

A você sem rosto, nome e individualidade, dediquei parte do meu sono, da minha noite e do meu tempo para dizer-lhe da cotidiana experiência do ninguém construída pela indiferença do outro, pela massificação das estatísticas e pelo desprezo de quem somos simplesmente por aquilo que fazemos.
Para falar a verdade, eu nem estava como vontade de escrever. Peguei casualmente uma pequena coletânea de crônicas de Rubem Braga e li uma cujo enredo girava em torno de um padeiro que se apresentava como um ninguém porque “muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: ‘não é ninguém, não, senhora, é o padeiro” (Rubem Braga. História de um Homem Rouco. O Dia, p. 36).
Assim que terminei a leitura, decidi dar um pouco mais de atenção a esta grande aporia filosófica chamada “o nada”. Comecei analisando uma afirmação de Jean Paul Sartre, o filósofo autor de “O Ser e o Nada”. Segundo ele, “o uso que fazemos da noção de nada em sua forma familiar pressupõe sempre uma especificação prévia do ser. A esse respeito, é de notar-se que o idioma nos ofereça um nada de coisa (“nada”) e um nada de seres humanos(“ninguém”)” ( Ser e o Nada. Vozes, p. 57).
        O filósofo teve o mérito de colocar as coisas em termos humanos, pois não é preciso grandes elucubrações para se descobrir que o ser negado quotidianamente não é outro senão o próprio ser humano.
Desde o início do pensar filosófico, homens respeitados na arte de filosofar carregaram suas tintas sobre o problema do nada. Mas, o nada foi sempre abordado numa perspectiva metafísica, abstrata, neutra e impessoal, quando o que realmente nos inquieta não é uma coisa neutra e indeterminada, e sim o vazio humano, o seu próprio nadificar diário. O cotidiano é marcado por expressões nadificantes. Dia após dia vamos, paulatinamente, construindo um vocabulário que funciona como um complexo de idéias-força a partir do qual gerenciamos a nossa vida. Esta consciência é importante, porque, não raro, as idéias-força sobre nós mesmos são profundamente marcadas por experiências negativas e acabam comprometendo de modo negativo a compreensão que temos de nossa existencial pessoal. Palavras como eu não posso, eu não consigo e eu não mereço, revelam a prisão sem muros na qual estamos encarcerados e só muito raramente nos damos contas disso. Será por isso que os gramáticos dizem que o ninguém é um pronome indefinido? Para a filosofia da existência, mas de que uma palavra que antecede ou substitui o nome, ninguém é um projeto de vida.
A experiência do ninguém como realidade existencial é anterior a toda possibilidade de nome. Dizer ninguém é expressar o fenômeno do não humano, da não-pessoa. É uma experiência existencial.
A minha curiosidade levou-me aos dicionários etimológicos. Descobri que na língua latina, onde o termo encontra suas raízes mais imediatas, ninguém é nemo(nemo–inis). Não é um pronome, mas um substantivo. Dizer nemo, na sua eloqüência mais originariamente latina, é dizer ne-mo. Aqui o ne assume a sua condição primivera de advérbio de negação (ne=não) e hemo, substantivo masculino arcaico sinônimo de homo (homem), termo usado para designar o gênero humano, uma pessoa, um homem, um indivíduo. Enquanto termo, nemo surge de um processo filológico de aglutinação (ne + hemo = neemo ou nehmo = nemo) e traz, portanto, na sua carga significativa o sentido de negação do homem, negação da pessoa (ou da sua dignidade pessoal).
Como é que se nega uma pessoa? Como se alguém se torna ninguém? O dia-a-dia é um lugar repleto de construção do ninguém. Pois, ninguém não é só um termo, é uma prática de negação da alteridade. Quando o homem que faz pão desaparece, aos olhos da empregada, que também é só a empregada, e ela fala para sua senhora, que já não é só uma pessoa, mais um título de poder: “não é ninguém, não, senhora, é o padeiro”.
Nessa convivência efêmera, na qual as relações são econômicas, as pessoas se relacionam com rótulos de poder de compra e mercadoria à venda, não sobrando espaço para convivência com as pessoas: ou elas são porque compra ou são o que vendem. O padeiro se nadifica e só tem valor enquanto vende o serviço de fabricação de pães, a empregada, enquanto vende o serviço de limpeza etc.
Talvez seja oportuno, lembrar que a palavra pessoa é profundamente relacional. Segundo os lexicógrafos, o termo pessoa deriva de termo grego prosopon que significava comumente rosto, é originariamente formado de duas outras palavras: pros, “em direção de” e ops, “olho”, e o seu sentido mais preciso é: “aquilo que atrai o nosso olhar”. O filósofo argentino, Henrique Dussel, afirma que uma pessoa se torna pessoa diante de outra pessoa ou pessoas. Que quando estamos com o rosto diante de outro rosto na relação prática, isto é relação interpessoal, ele é alguém para mim e eu sou alguém para ele. Pois, o face-a-face de duas ou mais pessoas é ser pessoa. A experiência da proximidade entre pessoas como pessoas, lembra o filósofo, é que constitui o outro como ‘próximo (próximo, visinho, alguém, como outro; e não como coisa, instrumento, mediação (Ética comunitária, p.19).
Num mundo onde todos são alguém, talvez disséssemos: Quando seu Joaquim, ainda muito cedo, tocou a campainha, segurando uma sacola de pães fresquinhos que ele fizera em sua padaria, a dona Maria Alice perguntou a dona Helena, a senhora que estava trabalhava em sua casa:
- Quem tocou a campainha, Dona Helena?
- Foi seu Joaquim, trazendo os pães para o café da manhã. – respondeu ela. E assim começou uma nova forma de se olhar as pessoas.

Ensaio SOBRE A OPINIÃO

“Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ide...